«Estar-se informado» é uma das expressões mais repetidas nos dias de hoje, mas é simultaneamente uma das afirmações mais vagas e vazias que o uso social e cultural da linguagem têm produzido. Em primeiro lugar poderíamos começar por questionar em que consiste «a informação» ? Em segundo lugar colocaríamos a questão de saber em que consiste «estar-se informado» ?
Desde já, apresento aqui a minha tese sobre esta matéria, que é a seguinte: «ninguém está de facto informado». O uso e o raciocínio que levam a este tipo de asserções do estilo «estou informado», «estar-se informado» são quase sempre vagas e falaciosas.
O condutor que memorizou o código da estrada e passou no exame parece estar informado sobre as leis que regem a sua conduta enquanto circula com o seu veículo ou a pé pelas vias apropriadas. Será ? Memorizar é possuir informação ? Sinceramente, questiono. Não basta a memória, é preciso algo mais, compreender o significado do que nos é transmitido e saber aplicá-lo a certos usos, como neste caso específico. Memória sem significado é algo completamente despropositado.
Podemos ter acesso a todo o tipo de informação disponível. Tal situação não nos torna sequer nem mais nem menos informados. O acesso não define o que constitui informação. estar de posse de dados ou seja de fragmentos ou elementos básicos comunicacionais não constitui sequer informação. A posse também não define «informação». Até aqui, todo este discurso parece óbvio, trivial e maçador. Todos diríamos que tudo isto é claro e distinto. Lamentavelmente, a urgência de concluir, como se de um silogismo se tratasse, trai-nos muitas vezes, precipita-nos...
Se alguém está informado, está informado sobre o quê ? Mesmo aquele que domina muitos significados não se encontra de posse de todas as possibilidades que a eles dizem respeito (os significados). É sempre um portador da sua própria interpretação, um veículo das suas limitações. Aliás, quando significa intencionalmente ou reinsere significados na sua estrutura de sentido, já está a elaborar (tratar informação) de acordo com a sua autobiografia que não se reduz ao seu subjectivismo, mas que nele se prolonga e encontra ressonância. Por outro lado, os significados emergem muitas vezes de novas circunstâncias contextuais, não se encontrando disponíveis por isso no imediato, ao alcance de qualquer vontade do sujeito. Mesmo quando tratamos qualquer informação já estamos a utilizar o nosso próprio contexto que se insere num contexto mais amplo de significações. O objectivismo é igualmente um subjectivismo histórico e autobiográfico. Seguem-se, normas, quadros, modelos, regras valores e o sentido da própria pesquisa ou tenta-se reintegrar as descobertas, os acasos, as circunstâncias, os acidentes nesse contexto que alguns dizem que constituem «o entendimento» - juízo, história, sentido. Se a interpretação não é unânime o que significará «estar-se informado», «esclarecido» ? Fala-se de conhecimento, mas essa é outra vertente que não iremos aqui aprofundar. Possuir informação parece ser um estado em que possuindo dados subjectivo/objectivos, o sujeito lhes confere um sentido próprio ou próprio tendente ao universal a que aspira, inserindo-os num quadro que define esses domínios.
Deste modo se compreendem sempre as limitações subjacentes ao que significa «estar-se informado». Ou se está informado de modo particular - e o particular também não se configura como totalidade perfeitamente diferenciada do universal - ou se tende para algo que tende para a objectividade universal - também ela fruto de certas formas de expressão cultural entendidas como «visões do mundo» colectivas. O estabelecido, não é necessariamente toda a informação nem sequer a posse de todos os dados. O carácter infinito da «informação» não depende apenas dos «dados» as unidades básicas num sistema informacional, mas também das leituras e interpretações literais, criativas e derivantes ao nível individual e colectivo, que os estabelecem e relacionam acrescentando novos sentidos ou reafirmando os prévios, como tautologias históricas.
(texto a continuar...)
