quarta-feira, 5 de outubro de 2022

A vida é polifonia

Courtesy of www.Jackson-Pollock.org

 A vida cria-nos e é criada. Ela não é absurda como Camus defendia. Ela, pura e simplesmente não tem um só sentido e, no entanto, contém-los a todos. Ela, não é gerada como um artefacto acabado mas, antes como algo que se enlaça e desenlaça, fia e desfia. Não é um novelo, nem uma linha mas, antes uma profusão de novelos que se entrecruzam numa tecitura, assíncrona-síncrona, diacrónica, policrómica. Profusão de tempos e espaços que se interceptam, coexistem, interferem se equilibram ou se anulam. Movimento e pausa em simbiótica polifonia.





segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Devaneio

Imagem de kjpargeter

De súbito, como qualquer gesto habitual, os olhos fecharam-se no silêncio da noite, libertos da omnipresença das imagens entregando-se ainda à penumbra das memórias revivescentes. Uma breve e pausada respiração, num movimento de sístole e diástole anunciou uma cesura entre mundos. De um lado o barro e o pó do outro o ser e o crer teimosamente resistindo ao sincopado esbatimento. De um lado, só de um lado, vazio integrado. De um lado, sem nenhum lado, a contração do imaginado, tudo diluído e baralhado, diminuído ao aumentado, numa espécie de prelúdio epílogal.
 

 

Uma história de encantar

Queen Guinevere from "Merlin" (2008 Tv Series)

 
Uma das situações mais perversas da actualidade, que não é nova e tem antecedentes consiste no facto de se acoplar à História toda a espécie de fantasias e, numa espécie de analogia, pretensamente mais "moderna", adicionar-lhe de tal forma, efeitos especiais que, com o pretexto de em primeiro lugar a espectacularizar e como último recurso, talvez, a divulgar democraticamente como saber, acabando por a subverter, tornando anódina e transformando-a numa novela rocambolesca e igualmente grotesca, certamente, não linear, como hoje em dia está na moda, de modo a captar audiências, para converter testemunhas em factualidades. Em suma, tornar a História na factualidade do que sonhamos ou imaginamos que tenha sido, numa forma de conveniência, muito marqueteira que jamais deve contrariar os nossos desejos, ímpetos e sonhos. A História tornou-se numa historieta (já existem Guinevere's africanas, super heróis gays, etc.) de adormecer consciências e pior, de criar multidões hipnotizadas pela fantasia a tal ponto que estarão um dia dispostos a matar para que ela não aniquile os sonhos da turba que os devora e alimenta, mas que, para eles se tornou na verdade.
 

 
 
 

A religião matou o outro

Judeus, muçulmanos, cristãos, hindús e outros colocaram sempre o(s) seu(s) deus(es) à frente do Homem. Daí que os seus actos para com o outro sejam de fé e não de amor à humanidade. Pelo contrário, a caridade, a compaixão, a tolerância não são virtudes mas sim, mantos diáfanos de disfarce de um Amor que não existe pelo outro, a menos que este outro, seja Deus. É fantástico como a mentira se tornou verdade, continuando a ser uma mentira mas, para tanta cegueira, não há olhos. Estes crentes não te vêem a ti, como humano que és, mas como um meio de eles  alcançarem a Deus, o que na realidade, significa que tu não existes ou és simplesmente invisível, de facto, para eles. Agora, vejo isso tudo com perfeita claridade. Há milénios que o verdadeiro outro foi assassinado. Terá tal servido para evitar a inveja de um verdadeiro Amor pelo Outro  propondo-nos  desse modo uma salvação?
Mais relevante: se deus existe e não está no teu irmão, então, o teu irmão só existe como meio para deus; se deus existe no teu irmão, então, o teu irmão desvanece-se. Em ambas casos o outro cessa de existir. Daí a ideia em título. Poderão argumentar mas, a realidade não se altera só por isso.
 

 

A teoria do chinelo



Não há uma fórmula. O caminho mais fácil parece ser o da ordem, da sequência, de um padrão qualquer que pareça coincidir com alguma indução. Mas, poderia ser também uma dedução. Vejamos o caso de uns chinelos de quarto alinhados numa certa disposição. Por que razão esse alinhamento faz tanto sentido? Imaginemos um abalo sísmico. Se um chinelo estivesse afastado do outro ou alinhado no sentido inverso do outro, seria mais difícil calçá-lo com prontidão. Mas não há um abalo sísmico todos os dias. Então para quê tanta preocupação com o alinhamento dos chinelos? A razão é que mesmo sem abalo ou outra qualquer emergência a disposição paralela dos dois chinelos orientados no sentido do acto de os calçar, continua a ter mais sentido, tornando mais fácil essa simples tarefa de calçar uns chinelos para ir ao quarto de banho ou outros lugares ao levantar de uma cama. Claro, poderíamos então, perguntar para quê usar chinelos e não caminhar descalço? Na verdade, não é isso que estamos a discutir mas, sim, qual o caminho da facilidade que, ao que realmente parece, remete para uma ordem precisa entre muitas possíveis e que, não remete em nada para um acaso ou para qualquer aleatoriedade. Uma certa disposição pode conduzir a um certo sentido lógico apreendido na realidade como facilidade e, ainda assim mostrar-se sólido e consistente.






Invento

Déborah Maradan

Se eu fosse lontra, morreria de tédio. Nem sei como é ser lontra, daí o mistério!
Se eu fosse leão morreria com coragem. Nem sei como é ser leão, isso virá do coração!
E, como o papagaio é engraçado, fazendo-se valer pela repetição, nem sei o que é ser uma ave mas, sei muito bem o que é fruto da imaginação!




Para quê ?

Para quê ?


Para que serve a beleza do teu rosto quando partires ? Para que serve  o teu corpo quando te fores ? Para que serve a tua alma quando te finares ? Há dois estados do ser metafísico: em queda ou temporariamente  suspenso. A vida é a queda, geralmente, em estado de aflição.  A felicidade são esses instantâneos em que, momentaneamente nos conseguimos segurar a algo ou simplesmente o cremos, parecendo-nos suspender a queda.