quinta-feira, 27 de junho de 2024

Considerar os intervalos

Contas-me as peripécias da tua história com um enorme entusiasmo e eu, cansado do teu monótono tagarelar digo-te que não estou interessado em ouvir. Pode ser o cúmulo da falta de empatia, ou até, talvez, inveja, por não ter tantas peripécias ou uma autobiografia interessante para te relatar. Contudo, incomoda-me ouvir-te. Peço-te o silêncio. Tu insistes. E eu, começo a ficar irritado, desconfortável. Se era para me conduzires a este estado, com a tua necessidade de interagir e de te relacionares comigo, então, tornou-se contraproducente.  Relacionar-me contigo não significa que seja permanente, contínuo, sem pausas. Há momentos em que as nossas disposições divergem. Não dá para viver num eterno abraço. Não dá para prolongar um beijo até ao infinito. Temos que considerar os intervalos.

Viver

A vida é o acto mais solitário que existe.

Um soldado caído, exclama, alvejaste-me, não pares, mata-me!

A vida é o próprio existir solitário em acto, acrescenta quem alvejou, é por isso que não te mato.

Prazer e sofrer são os únicos sentires do que é estar-se vivo.

A dor acorda e desperta para a maldita hora que se consome para a meta.

O gôzo emola e ruma ao consolo da bastança, efémera celebração asceta.

Talvez, um frequente oscilar temporário seja o único estado do ser-se vivo.

Mas, de que tudo isto interessa, após ter-se morrido ?

Interrogar é o coração de todo este ruído, imersão total nos sons que nos transportam ao destino.

Valeu a pena ter vivido ? À pena valeu, também, ela, termos fingido!

Não sei se reconheço

Não sei se me reconheço? Não sei se reconheço estes rostos, todos, na enfermidade... Gente comum, vulgar, cada um com seu percurso, sem nunca nos termos cruzado. Generalidades, inutilidades. Sofremos e nem há como evitar. Se a maldade da doença nos afectar, só resta Não sei se reconheço. Este equilíbrio entre as nossas aspirações, possibilidades, inevitabilidades perfaz o triângulo da nossa existência.  Com nada viemos e nada levamos. 

Inocência Perdida

Uma naja aspira as ínfimas particulas do teu odor, serpenteando a sua língua bifida, fitando-te, olhos nos olhos, antes de te dar a última mordidela, enquanto tu, jazes, inválido, de pernas partidas, debaixo de uma enorme laje de betão. É a tua última cena enquanto alma viva. É o terror! A tua consciência não te deixa sair de cena. Estás preso às tuas percepções, ao vício de um real construído, do qual não consegues escapar. Ah, malditos sentidos. Ah, incontrolávell cérebro. O terror, não é a morte, é antes, a última cena, ceia dos nefastos sentidos, cerebralmente reconstruídos, sem que, voluntariamente, consigas escapar à cena animada e colorida e, à escuridão do medo. Para que te serve uma consciência, um cérebro, os sentidos quando morres ? De que te serviram os alertas ? Inocência perdida,  consciência terrífica. É o preço da vida. Não controlamos o nosso cérebro.

A chuva cai

Chove, finalmente, e bem! Sem cântaros como diriam os antigos. Preocupamo-nos. É como escutar a chuva que cai ruidosa, chamando-nos a atenção. Atentos, defendemo-nos e pretendemos controlar o mundo que percepcionamos. No final, não levaremos nada connosco. Tanta noite mal dormida, tanto atropelo, tanta angústia para, afinal, nada. De que valeu termos sido este bichinho ? De que valeu, tudo em que acreditámos, ciência, conhecimento, deus, etc ? Como não conseguimos parar este monstro chamada consciência que nos põe a pensar como se a vida fosse apenas isso ? Que querem os meus átomos saber dos meus troféus ? O que eles acrescentam aos meus átomos ? Por que se têm de mover ? Por que não conseguimos deter o pensamento ?

Há caminho

Quem manda nesse lugar que desconheço, chamado céu, não sei. Sei que os que partem da vida, com ou sem barqueiro, nunca mais regressam. Se valeu ou não valeu, cabe aos vivos reflectir. Os que partiram, já nada reflectem. Na verdade, pouco importa, até mesmo, as nossas crenças. Vivêmos acordados ? Adormecidos? Anestesiados ? Não saberemos nunca dar a resposta. E fomos livres ? Quem sabe o que isso é ? E se não o fomos, o que isso alterou ? Caímos de uma relação sexual, aos trambolhões, fomos incubados num útero de quem nem sabíamos quem era, acabámos lançados num mundo semi-preparado, dizer feito, seria o maior disparate, onde, como pequenas sementes nos desenvolvemos ou atrofiámos. A vida, é esta embrulhada total, sem controle algum, ou, talvez, numa ínfima parte, a que nos permitirá sempre dizer, que foi o nosso percurso, a nossa presença, a nossa estadia, a nossa e apenas nossa vida. O que ganhámos por ela ser nossa ? A vida não é um negócio. É erro ver nessa perspectiva. Não viémos para ganhar ou perder, viémos para ter ambos. Felizmente, o humano consegue emular-se acima da mera fera, do mero interesse, da mera circunstância. Estar-se vivo é muito mais do que alguma razão possa descrever ou definir, uma fé possa apostar e, sobretudo, permanecer, temporariamente, num jogo do qual, nem nós fomos os criadores das regras, nem os totais fabricantes das jogadas, previstas, segundo os cálculos para esse jogo. Portanto, também, não fomos teleguiados e, muitos acidentes, nos revelaram, a nossa verdadeira essencialidade! Não digo, que esse, seja o caminho. Há caminho e, não há caminho! Não, não é um paradoxo! Há caminho por fazer, não caminho já feito. Simples, não é ? Riso, raso, delirante, profícuo. Há, caminho e é bastante!

Sem um quê do quê

Não tolero, tolerar. E daí ? Respeito é necessário. Respeito, parece implicar um conhecimento daquilo ou de quem se respeita ou se dá ao respeito. Tolerar, parece ser, simplesmente, assentir em algo de que não se tem conhecimento suficiente. De qualquer modo, cabe questionar, se alguma vez teremos conhecimento suficiente ? Sem nos radicarmos na ignorância, diremos que, tolerar é vaidade. Não se tolera, aceita-se ou não. Tolerar, parece até, sugerir uma qualquer forma de aceitação contrariada, a custo, com dificuldade, sem vontade ou disposição favoráveis, mas, no entanto, aceitar, cheio de reservas mentais. A realidade não é a preto e branco. Tolerar o intolerável ? Não! Alinhar com carrascos ou vítimas, sem conhecer os contornos da sua legitimidade, parece obtuso, abstruso. Conviver, coexistir, cohabitar, sem perder a face, ou será antes o ego ? Eco e reflexo, identitários. Ser idêntico, compacto, inquebrável...Assim, se celebra o vácuo! Um infinito labirinto sem forma. A poesia é que nos doma, a poesia é que nos transforma.

A narrativa é o narrador

Não se amam os mortos mas, sim, simulacros, fantasmas, conceptos que entram em loop, voltados sobre si próprios, moldados pelo vazio, essa espécie de buraco negro que leva a uma dobragem circular. Amar é sentimento, apenas, dos vivos. Para aquele que sabe que a razão não é tudo, não conhece tudo, não domina tudo e, ainda assim, permanece-lhe fiel,  nada há, para além dela, apesar da sua exíguidade. Outros, haverão, para quem há muito mais do que a razão. Foi a esperança que esgravatou o ouro. Mas haverá algum tesouro escondido na morte, para além de um mero conto de fadas ? Por tanto se luta, na vida, para obter e manter e, afinal, nada se leva para a morte. A amputação moral dos que partem faz parte da vida. Os mortos foram inteirinhos ou às partes para o outro mundo, aquele do ponto final. Crer ou não crer nunca será a questão. Cada qual escolhe o percurso da sua alienação. Ninguém tem amor, fé ou razão, mas, enquanto vivos, experimentamos algo e construimos histórias sobre isso. A narrativa somos nós, desde o prelúdio até ao terminus.Nem os loucos perdem a sua identidade única. Todos vivemos a nossa própria biografia. Dir-se-ia, que a habitamos e forjamos linguagems para a expressar. Em suma, seja crença ou razão ou, ainda, até, ambas, haverá sempre um relato, um linguarejar sobre os actos, sejam eles cônscios ou não. Cada instante é toldado pelo que chamamos consciente e inconsciente em viagem pelo mundo. O mundo é uma miragem do discurso e,  ao mesmo tempo, uma passagem para o fim do mundo.

O Amor diz-se vivo!

Às vezes

O amor não se vê

Não se sente

Não está próximo

Nem presente

Mas, está vivo, simplesmente,

Recolhido,

Consistente,

Disponível,

Existente,

Em espera

Para se manifestar

Se consumir

De se realizar

Junto, perto, livre

Chegando

Não estando

Estando

Aguardando

Proliferando

Distante, escondido

Sem qualquer aparato

Qualquer exibicionismo

Simples

Comedido

Discreto

Honrado

Doado!

A Análise, o que é? Um detalhe. Seguido da capacidade de falsificar!

Analisar, não é compreender. A compreensão engloba muitas possíveis análises e, é um processo dinâmico em transformação, tal como as análises mas, distinta delas. A compreensão muda com as análises e outros fatores. Às anàlises que se mantêm juntam-se outras novas ou regeneradas, que alteram toda a compreensão ao alterarem significativamente toda a disposição (de dispositivo ou modo) mental. Temos análises, restritas, difusas, abrangentes, exaustivas, figurativas, instantâneas, comparativas,etc. Todas elas, são detalhes, por muito que detalhadas. Como se diz reestrita ? Análise de 3 ou 4 fatores, como exemplo. É curto, precário, demasiado compacto, ínfimo, acrescentaria. Análise difusa, pode ser extensa ou intensa mas, desordenada no seu constructo ou na incoerência dos seus resultados que, podendo ser verdadeiros, apresentarão um aspecto inconclusivo por não se interrelacionarem ou articularem  coerentemente entre si. Análise abrangente ? Qual é a amostra à partida ? Já se conhece a cardinalidade do tópico a estudar ? É um, o tópico mas, podem ser múltiplas as abordagens. Abrangente, pretende ser geral,  maioritário, quase completo, quase exaustivo. Quais são então as capacidades empregues e as limitações ? Qual o critério que define o máximo e o mínimo de factores de análise ? O que indica a exaustão ? Exauriram-se todas as possibilidades, perspectivas, vertentes ou, exauriu-se ou exauriram-se a ou as capacidade(s) do(s) analista(s) ? Em todos os casos, qualquer análise, não passa de um detalhe! Toda a relevância depende da importância desse detalhe, numa compreensão mais vasta de todos os detalhes. Análise comparativa ? A pertinência ou congruência e até mesmo, a incongruência,do que se vai comparar é fundamental. Existem, mais uma vez múltiplas possibilidades. Comparando, quer pela positiva como pela negativa, nunca há lugar a um esgotamento das relações possíveis ou impossíveis de estabelecer. Lembrei, a análise combinatória, que em matemática está demonstrada mas, que, na sua aplicação prática, compromete toda a completude de uma análise da realidade. Podem haver combinações ocultas ou desconhecidas ? Sim. Podemos nem sequer estar a referir-nos às disposições, não enunciáveis mas, a disposições completamente desconhecidas. Óbvio, a suspeita de tais disposições não as torna automaticamente verdadeiras ou sequer existentes, apesar de, equacionáveis. Análises instantâneas ou se prendem com o instante ou, com a superficialidade da análise (se é que é atribuível, alguma superfície a uma análise que não seja geométrica?). Instantânea é fracionária, logarítmica. Em suma, analisar é um instrumento altamente complexo, uma ferramenta com múltiplos algoritmos que, só por si não determinam a dimensão do objecto-problema, a sua disposição, a adequação da conclusão mas, tornam parametrizável a ação e o esforço conduzido,  praticado, executado para extraír informacão pertinente à compreensão humana dedicada ao entendimento de um circunstancial ou determinado objecto. Mais, lembrei, da análise argumentativa.  Argumentos e contra argumentos, disputa e conclusão. Sic et non. Todos sabemos o que é um argumento, uma tese e as premissas, as outras teses que sustentam a tese conclusão. Há argumentos válidos, fortes, sólidos, cogentes. Não irei explicar. A razão, capacidade inteligente humana conhece-os. Cria-se uma teia deles, encadeada, coerente. Pretende-se dar uma explicação com base numa demonstrationem argumenti. O auto explicável e o auto compreensível são assim tão evidentes ?O  que pode constituir de facto e de juris uma análise ?