Eu sinto que perco matéria, que as minhas resistências físicas decaem e que me dissolvo na harmonia e na ascensão de melodias interiores. Uma sensação difusa, um sentimento inefável reduzem-me a uma soma indeterminada de vibrações, de ressonâncias íntimas e de sonoridades cativantes. Tudo o que acreditei singular em mim, isolado na solidão material, fixada numa consistência física e determinada por uma estrutura rígida, parece ter-se resolvido num ritmo de sedutora fascinação e de uma esquiva fluidez. Como posso eu descrever com palavras o modo como as melodias se implantam nesse que é o meu corpo a vibrar integrado na vibração universal, evoluindo em sinuosidades fascinantes cuja irrealidade aérea me transporta? Nos momentos de musicalidade interior, perco o gosto pelos materiais pesados, perco a minha substância mineral, essa petrificação que me liga a uma fatalidade cósmica, e corro para o espaço, repleto de miragens, esquecido da sua ilusão, e de sonhos, indiferente à sua irrealidade. Ninguém compreenderá o sortilégio irresistível das melodias interiores, ninguém sentirá a exaltação e beatitude se não está satisfeito com esta irrealidade e não amar mais o sonho que a evidência. O estado musical não é uma ilusão porque nenhuma ilusão pode dar uma garantia de tal magnitude, nenhuma sensação orgânica absoluta de vida incomparável significativa por si mesma e expressiva na sua essência. Nestes momentos, quando nós ressoamos no espaço e em que o espaço ressoa em nós, nestes momentos de torrente sonora, de possessão integral do mundo, não posso deixar de me perguntar porque não sou o universo. Ninguém terá provado com uma louca e incomparável intensidade o sentimento musical da existência, se não for tomado pelo desejo desta exclusividade absoluta, se não fizer prova de um imperialismo metafísico irremediável desejando abolir as fronteiras que separam o mundo do eu. O estado musical associa no indivíduo o egoísmo absoluto com a absoluta generosidade. Apenas se quer ser a si, não por orgulho mesquinho mas por vontade suprema de unidade, por um desejo de romper as barreiras da individualidade; não para fazer desaparecer o indivíduo mas as condições exigentes impostas pela existência do mundo. Quem já não sentiu o desaparecimento do mundo, como realidade limitativa, objectiva e distinta, quem já não teve a sensação de absorver o mundo nos seus impulsos musicais, nas suas trepidações e nas suas vibrações, esse jamais compreenderá a significação desta experiência onde tudo se reduz a uma universalidade sonora, continua, ascensional, tendendo para as alturas num caos aprazível. E o que é o estado musical senão um doce caos onde as vertigens são beatitudes e as ondulações êxtases ?
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
A Morte (Homenagem a Edgar Morin)
Hoje a Morte falou com sonâmbula loucura
Desse êco em que gravou nosso ser sem figura.
Olhou-se num espelho nefasto e embebedou-se num delírio de crente
Fitou esse olhar anónimo de um feto moribundo gerado em águas do seu próprio mundo...
E silenciou-se no escuro tumular, no elo simbiótico de uma esposa infiel com medo nevrótico do extâse lunar...Esse anjo imortal tornou-se tabú, um sonho amoral, um Eu e um Tu.
O mito perdura na dor que vincula o devir inseguro à inscrição tumular!
Desse êco em que gravou nosso ser sem figura.
Olhou-se num espelho nefasto e embebedou-se num delírio de crente
Fitou esse olhar anónimo de um feto moribundo gerado em águas do seu próprio mundo...
E silenciou-se no escuro tumular, no elo simbiótico de uma esposa infiel com medo nevrótico do extâse lunar...Esse anjo imortal tornou-se tabú, um sonho amoral, um Eu e um Tu.
O mito perdura na dor que vincula o devir inseguro à inscrição tumular!
Ao Passar por ti
Vi-te passar
Como uma estátua de ébano
E o teu espectro
Prendeu-me a alma
Depois...
Cativo, do teu ingénuo encanto
Fui-te seguindo,
Até que o vulto meu precedente,
Desapareceu no céu deserto...
O futuro é a gravidez dum sonho por nascer.
O presente, um presépio de adulação ao mito da realidade
O passado repousa em descanso num cemitério de liberdade.
Como uma estátua de ébano
E o teu espectro
Prendeu-me a alma
Depois...
Cativo, do teu ingénuo encanto
Fui-te seguindo,
Até que o vulto meu precedente,
Desapareceu no céu deserto...
O futuro é a gravidez dum sonho por nascer.
O presente, um presépio de adulação ao mito da realidade
O passado repousa em descanso num cemitério de liberdade.
O Sal da Vida
Gosto de me perder no tempo, de me ver imaginar por dentro. De descobrir um ritual violento. Gosto de amargar a vida, de saudá-la com rasgada ira, de deitar muito sal sobre essa ferida. Faço o tempo para habitar o espaço, sonho mãos para vergarem aço e caminho, por onde já passo. Faço o sono com que adormeço pois, cada noite tem o seu preço, e espero a luz que foi começo...
A Gente
A gente cresce saudável e contente
Procura enfim, ser consciente
Abrir os braços, olhar em volta
Ser alguém no meio da gente...
A gente quere-se amar
Enfim procura-se encontrar
E nesse rumo que segue em frente
A gente segue a caminhar
Em busca de algo que alimente
Esse motor que nos faz andar.
A gente cresce a confiar
A gente julga vir a saber pensar
A gente sonha poder amar
Mas, afinal de tudo
Mal a gente desfaz o engano
Torna-se de novo a enganar.
Não há razão para ser assim
Tudo é impossível de alcançar
Por isso, não pode ser assim, tão ruim
Que não tenhamos podido adivinhar.
Procura enfim, ser consciente
Abrir os braços, olhar em volta
Ser alguém no meio da gente...
A gente quere-se amar
Enfim procura-se encontrar
E nesse rumo que segue em frente
A gente segue a caminhar
Em busca de algo que alimente
Esse motor que nos faz andar.
A gente cresce a confiar
A gente julga vir a saber pensar
A gente sonha poder amar
Mas, afinal de tudo
Mal a gente desfaz o engano
Torna-se de novo a enganar.
Não há razão para ser assim
Tudo é impossível de alcançar
Por isso, não pode ser assim, tão ruim
Que não tenhamos podido adivinhar.
O Grito
Grito.
Completando as palavras
que já nada dizem
da parte inacessível de mim.
Grito.
Fala assim
A minha parte concluída
E toda a outra
Que se sente incompleta.
Grito.
Não é revolta nem desespero
Mas a solidão da voz
Que irrompe através da interior fala.
Se grito
É porque as palavras já não se articulam
Para expressar o sentido que escapa à língua
Interioridade comunicativa que explode como fogo vulcânico
Grito.
Já não é resistência
Mas sim, invalidez,
Precariedade,
Incapacidade,
Debilidade...
Amostra desta sensibilidade
Que se vai petrificando
No silêncio ficando calada.
A capacidade que se sente esgotada
Inalterável, inampliada
Excepto pelo Grito, pelo Grunhido
Que é a minha fala no Mundo!
Completando as palavras
que já nada dizem
da parte inacessível de mim.
Grito.
Fala assim
A minha parte concluída
E toda a outra
Que se sente incompleta.
Grito.
Não é revolta nem desespero
Mas a solidão da voz
Que irrompe através da interior fala.
Se grito
É porque as palavras já não se articulam
Para expressar o sentido que escapa à língua
Interioridade comunicativa que explode como fogo vulcânico
Grito.
Já não é resistência
Mas sim, invalidez,
Precariedade,
Incapacidade,
Debilidade...
Amostra desta sensibilidade
Que se vai petrificando
No silêncio ficando calada.
A capacidade que se sente esgotada
Inalterável, inampliada
Excepto pelo Grito, pelo Grunhido
Que é a minha fala no Mundo!
Hoje, Ser
Sejamos nós os Surdos.
Sejamos nós os Loucos.
Sejamos nós os Suicidas.
Sejamos nós os Humanos.
Sejamos nós apenas
Aquilo em que Acreditamos!
Sejamos nós, cada um de Nós, esse Maravilhoso Acto
Da Criação que é Ser!
Autênticos!
Plenos!
Serenos!
Sejamos nós os Loucos.
Sejamos nós os Suicidas.
Sejamos nós os Humanos.
Sejamos nós apenas
Aquilo em que Acreditamos!
Sejamos nós, cada um de Nós, esse Maravilhoso Acto
Da Criação que é Ser!
Autênticos!
Plenos!
Serenos!
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