sábado, 5 de setembro de 2026

CICLO NÃO VIRTUOSO

Os normais criaram modelos ideais que raramente conseguem cumprir ou realizar. Os loucos prometem à humanidade alcançar essas metas e, as gens ocupadas, desiludidas e debilitadas, entregam-se a essas falsas novas esperanças por falta no que crer.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Objectividade sem objectivos ?

Que objetivo há em viver sem objetivos ? - Treino.  - Treino ? - Sim, treina-se sem objectivos para aprender a lidar com momentos de desorientação. - Ah, compreendi. Talvez possas ter alguma razão. - Não me ocupa, nem preocupa ter razão. Ocupa-me saber, viver bem. - Queres dizer, ser feliz ? Não, viver bem não é o mesmo que ser feliz. Prefiro o primeiro ao segundo. - Preferes ? Sim, saber viver bem é algo que na realidade aprende-se mais facilmente do que, simplesmente,  perseguir um ideal imaginário que, a maioria das vezes, nem é concretizável. - Talvez possas ter alguma razão. - Mais uma vez, não me ocupa ou preocupa ter razão. O que ocupa-me é adquirir uma arte e aperfeiçoar essa arte para viver melhor e mais sabiamente. - Então, não há objetividade sem objetivos, pois haverá sempre um caminho com vista a um fim ? - Quanto a essa questão, não te sei responder de uma forma geral. Pode haver quem nunca se oriente ou faça da falta de objetivos uma forma de aperfeiçoamento. Só posso inferir por mim.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

2 minutos apenas

Dão-me 2 minutos de atenção ?

Porque não ?

E se eu exceder o meu tempo

Como iremos fazer ?

Se surgir algum contratempo ?

Iremos ver...

A dizer, eu, não tenho nada, então.

Ótimo, menos uma obrigação.

Brinquemos com o tempo,

E a paródia avança.

Evoluir é um processo lento,

Que nem toda a gente alcança.

Mais 2 minutos, menos 2 minutos,

Qual a diferença ?

Não se trata de gastar minutos

Mas, de os ocupar com indiferença.

Estás aqui, estás acolá ?

Onde páras tu ?

Não dizes bom dia, nem olá,

Nem tens tempo para limpar o cú.

Sobram-te, apenas 2 minutos!

domingo, 9 de agosto de 2026

Sem deus nem roque!

Quantos deuses precisa o mundo para ficar ordenado segundo os seus desígnios ? Quem criou um ser para se divertir com as suas fragilidades ? Um ser ocioso ? Um ser perfeito ? Se assim não é, então, como explicar o pecado ? Pecamos e sofremos por pecar. Quem nos criou assim, frágeis e propensos a pecar ? Porque haveria deus ou os deuses de criar seres imperfeitos ou, também, seres para sofrer ? Algum deus sádico ? Não criaram seres perfeitos para não competirem com eles, os deuses, ou deus ? Tiveram medo da competição ? Deuses medrosos ? Deuses incompetentes ? Não será toda esta história dos deuses ou do deus uma fantasia humana levada por vezes aos cúmulos da loucura ? Somos livres, por isso pecamos. Então, porque fomos criados para ser deste modo, livres de pecar ou não, quando poderíamos ter sido criados livres de não cometer nenhum pecado, existindo em perfeição ? Terão os deuses ou deus falhado ou enganado-se na obra ? Parece-me que não há desígnio algum, mas sim, uma eterna e constante efabulação, alimentada por uma inconsistência própria, que alguns elevam a um falso altar da fé.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

A virtude

A virtude está no meio ? Será uma sentença Salomónica, um clichê ? Quem disse, onde estava o meio, o equilíbrio ? Aristóteles, que me lembre foi dos primeiros a falar de virtude. Mas em que consiste a virtude ? Num trabalho de aperfeiçoamento com vista a um fim ? Esta seria a ideia teleológica de Aristóteles, muito antes de Aquino. Aliás, a ideia teleológica de Aquino, vai ao encontro de Averróis, o Comentador, e significa o fim do livre arbítrio, algo que todos os idiotas confundem com liberdade, recorrendo à falácia da composição. Ora bem... Um praticante de violino, pratica resilientemente, pratica obstinadamente, pratica até 'julgar' ou não, atingir a excelência. Os comuns, sacrificados nos fornos que mantêm acesas as chamas da esperança do dia-a-dia ficam arredados desses palcos, dessas montras, dessas competências, dessas excelências. Pois é, Ayrton Sena na fórmula 1, Messi ou Ronaldo no futebol mas, em quê mais são eles mestres ? Ronaldo compõe como Beethoven? Messi conduz como Karajan ? Ayrton chega primeiro que Pimenta em mundiais de canoagem ? Um violinista excelente, dir-se-ia exímio, será um ótimo agente imobiliário, um magnífico diplomata, um extraordinário pedagogo ? Muito provavelmente, não! Então, o facto de se possuir uma virtude não significa que se seja apto a possuir todas as outras virtudes, correcto ? Se não o é, promover uma virtude, será o expoente, o zénite, o último grito da virtuosidade de alguém, a quem,  já não serão notados quaisquer vícios e incapacidades ? O problema da virtude, é o problema do Santo, daquele que nunca divino se pretende equiparar a um modelo que possui todas as virtudes. Não será esta pretensão a própria manifestação de uma vaidade ? Ou a verdadeira manifestação da impossibilidade, da incapacidade e a real assumpção da fragilidade e da humildade ? Virtude então fica no meio. Qual meio ? Um violinista é eximio, excepcional, quase perfeito a tocar o instrumento musical mas, essa performance alcança-se com o equilíbrio ou com um excesso ? Afinal, onde pára a virtude ? Não será mais um conceito bizarro ? Já pensaram também que, se todos somos orientados para um fim, que afinal, não somos livres, mas antes predestinados ? Afinal, são livres ou não ? Se o são como podem ser predestinados ? Como podem ser marionetas de um desígnio tão passivamente ? A virtude salva-vos ? Não se poderá olhar uma virtude como uma vaidade, pelo menos, mais frequentemente ? Onde está o equilíbrio, nesta filosofia de Aristóteles, que defende o exímio (o extremo, o aristocrático, o elitista, etc.) ? Em vez de 'Houston we have a problem' poderíamos substituir por 'Virtue we have a problem'!

terça-feira, 16 de junho de 2026

Embebedemos-nos



Alguém virá acusar-nos de faltar à moral por termos escolhido este título. Vem sem encontro marcado. Não precisa estar preparado. Embebedar-se fará o resto. Que resto ? Fará sentido. Sim, fará sentido. Enamorar-se é de certa forma, perder-se e reencontrar-se de outro modo. Sem enamoramento o tempo parece esvaziar-se sem sentido. Enamorados, cada minuto ganha sabor, côr, contexto, expressão, sentimento, vida. Enamorar-se é ganhar dimensão não para se tornar grande mas, por ganhar alento, sopro, coragem, sentido. O amar, amoroso, é sem amarras. Enamorar-se é estar-se vivo, presente, ausente e a chegar de braços abertos a qualquer lugar, sem possessão, sem avidez, sem delírio. Quem nunca se enamorou jamais poderá compreender a poesia. Enamorar-se não é um destino, uma fé, um acoplar-se a algo mas, é ser-se transiente ou transeunte. Em movimento consciente. Ser-se, sem amarras, nem palas, nem pingentes, nem desígnios. Ser-se, pura e simplesmente. Sem adjetivos, sem objetivos, sem subjetivos, sem relativos mas, também, sem absolutos. Enamorar-se é embebedar-se, permanecer sobriamente turvo, maravilhar-se!

A Filosofia deixou de ser séria

A Filosofia deixou de ser séria e, também, deixou de filosofar. O que temos hoje, são apenas debates ideológicos para tentar provar quem tem mais razão. Proferimos comentários e argumentamos sobre crenças, sem examiná-las. A pressa, exige respostas, rápidas e, no meio disto tudo, onde está o distanciamento, onde está a reflexão, onde está o diálogo e o debate em prol da verdade, diferente daquele de quem somente pretende ter mais razão ? Pois é, a Filosofia deixou de ser séria. Quere-se tudo solúvel, instantâneo, sumariado e não há tempo para mais. Aprofundar é para doidos. Coloquem-nos no hospício. O mundo é para normais, normalizados, todos distintos e todos caricaturados. O fácil tornou-se o dogma. O imediato a métrica. O rebanho, a ilusão da diversidade. A democracia, a celebração da aporia do individualismo. A Filosofia, a proclamação do que se pretende e não se procura nem entende. Hanna Harendt falava na banalização do mal mas, não se trata do mal, mas sim, da banalização/vulgarização da ignorância, como afirmação da opinião suprema da felicidade dos povos. Direitos, capacidades, quereres, potências. Há uma terraplanagem cultural de superfície. Tudo é epidérmico. Hiper sensível, hiper ativo, hiper mercado, hiper. A selfie é uma espécie de hiper retrato do suicídio de que se quer deixar vestígios. Não olhes para mim,  olha para o meu retrato para me veres, pois esse é o cúmulo do desejo a atingir, o orgasmo da comunicação. Narrativas, são lenga-lengas por todos os lugares disseminadas, esconderijos de opinião. A Filosofia não morreu mas, não deixou herdeiros. Os repetidores tornam qualquer mensagem um cânone. Hoje, o cânone dura dois minutos. A eternidade parece pois longínqua, um tempo chato para causar interesse. O sólido mudou para liquido. A máscara virou o ser e este tornou-se autista.

Pensar tornou-se inútil com tantos emplastros tecnológicos. Qualquer dia, a máquina fala por ti, nem precisas de te esforçar. Ela já escreve por ti. Já pensastes no que estás aqui a fazer? Quem és tu e para que serves tu ? Quando é que abandonas o teu berço ? Quando é que te tornas Homem ?

domingo, 3 de maio de 2026

⚖️ A arquitetura dos absolutos imperfeitos

 

Se a perfeição for a ausência de imperfeição, então todas as imperfeições são o modelo da perfeição que se nos escapa. Digo modelo por que é a partir dessas imperfeições que nós trabalhamos a ideia de uma perfeição. Mas a questão que se coloca é se esta perspectiva da perfeição não é ela também imperfeita ? Outra questão que surge é saber se duas imperfeições opostas resultam numa só ideia singular de perfeição ou se, se anulam de algum modo ? Ainda outra questão, bastante rebuscada é a de saber se a perfeição inclui a imperfeição ? Se não inclui, trata-se de um conceito fechado. Se inclui, então, a perfeição pode ser considerado um conceito aberto. Se a imperfeição pode ser um mal, então uma perfeição que a inclua, deverá necessariamente incluir o mal como elemento da perfeição. Se, pelo contrário a imperfeição não é um mal, pode perfeitamente ser incluído num conceito aberto de perfeição. Em suma, fechado designa concluído, completo, totalmente concretizado. Aberto, algo que é construível, edificável, realizável mas, e aqui podemos subdividir, para alguns, alcançável para outros inalcançável. Podemos aprofundar ainda mais o conceito de perfeição mas, ainda nem sequer definimos o que designamos por imperfeição. Será que haverá uma ? Voltamos à petição de princípio afirmando que a imperfeição é a ausência de perfeição. Aqui, mais uma vez escorregamos. Podemos ou não construir quase na perfeição toda uma casa e falhar na edificação do telhado ? Poderemos dizer que toda a construção é imperfeita ou que só parcialmente o é ? A partir de que ponto algo passa a ser imperfeito ? Relembra o paradoxo do calvo. Mas, o mesmo pode ser dito sobre as partes de uma casa. A partir de que critério se considera algo feito como perfeito ? Uma peça mecânica assenta noutra como uma luva. Dir-se-á perfeita na sua criação. Depois a peça, com o uso deteriora-se. Se fosse perfeita deteriorar-se-ia com o tempo e o uso ? Então, talvez sejamos forçados a reequacionar este conceito de perfeição. Mas, se então nada é perfeito, como estabelecemos o que é imperfeito ? E, se tudo é imperfeito, este não será um absoluto imperfeito ? Como sabemos que é imperfeito um vulcão explodir ou uma estrela desintegrar-se ? Como sabemos que é perfeito o nosso amor ou as nossas crenças se levarem-nos a matar ?

Parecem estranhas e longínquas estas questões e associações e suposições, contudo, podem ser plausíveis. Comparando a perfeição com a composição do ar que respiramos. Alguns gases são tóxicos como o oxigénio. Outros, só por si, não nos permitiriam viver. Se juntarmos poeiras, polens e cinzas, poderemos continuar a respirar até certo ponto diferente do ponto de adoecer ou de até morrer. No ar que respiramos faltam um sem número de outros gases, diremos então que o ar que respiramos é imperfeito, incompleto, impermanente ? Sendo por certo ajustado a nós, mataria por certo a maioria dos peixes. Afinal, o que se decide sobre a perfeição do ar ? Ou teremos que entrar na equação com a água do mar ? Os ciclos das coisas que se completam e de que ignoramos todos os elos da cadeia diz-vos alguma coisa sobre a perfeição ou imperfeição das coisas do mundo ? O que pode ser perfeito para um ser que não faz a menor ideia do que isso seja ? E se a perfeição for algo de natureza dinâmica e adaptativa, sem uma única resposta e sem um único princípio diretor ? Outro conceito que poderemos trazer a jogo é o de equilíbrio. Não é pelo grau que se define. O fiel da balança está em equilíbrio no vinho e no vinagre, na água da chuva e na água do mar, na trajetória dos planetas e das galáxias. Tudo se acomoda e desacomoda e tudo permanece em permanente mudança. Nenhum relógio é infalível ou perfeito e, no entanto, todos seguimos os dígitos ou os ponteiros por eles indicados.

03/05/2026

Sumário: Este texto apresenta uma reflexão filosófica profunda sobre a natureza da perfeição e a sua relação intrínseca com a imperfeição. O autor questiona se estes conceitos são absolutos ou relativos, sugerindo que a nossa ideia do que é perfeito nasce frequentemente da observação das falhas e lacunas do real. Através de exemplos práticos como a construção de casas, peças mecânicas ou a composição do ar, explora-se a hipótese de a perfeição ser um sistema dinâmico e adaptativo em vez de um estado estático. A narrativa propõe que o equilíbrio e a mudança permanente podem ser mais fundamentais do que uma pureza inalcançável. Por fim, o conteúdo desafia o leitor a considerar se a perfeição poderá ser um conceito aberto, capaz de integrar o erro e a impermanência como partes de um todo harmonioso.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Confissão

Nunca fui santo nem mártir. Sei que não sou nenhum exemplo, quer positivo, quer negativo. O que sou, não perturba o que possa pensar sobre mim ou sobre o mundo. Pode-se-lhe chamar esquizofrenia ou algo parecido, é-me indiferente! Sofro quando vejo as consequências de de pensar e agir mal, não porque, não se reflita mas, por se refletir tão apressada e precipitadamente, ou ainda, por se refletir tão interessadamente, cuidando apenas daquilo que consideramos egótica e enviesadamente como benéfico, ao invés de refletir de forma desapaixonada,  não imediatista e apressada. O mundo choca-nos e tinge-nos de horror. Somos homens e não nos parecemos com Homens mas sim, mais com bichos ou pior ainda. Animais, sem forma. Animais que já não são bichos e homens que nem chegam a ser Homens. Alguma forma intermédia que mais parece uma anomalia da natureza. Parece e, é. Os indeterminados. Os indistintos. Porém, sobressaem porque têm um Deus, o dinheiro, que os faz rojarem-se como répteis ou trepar como chimpanzés para alcançarem o seu modelo. Vivem, correm, matam-se, esfolam-se e renegam-se nesse delírio de perseguição à imaginada pobreza e nessa obsessão compulsiva de atingir os píncaros da fortuna dourada. Tudo o resto, até mesmo futuros danos causados a eles próprios figuram fora das suas equações. Indistintos e autodestrutivos. Poderiam ser zombies, meios mortos, meios vivos mas, não. Estão de pé como faróis, cegos pela luz que perseguem como barcos à deriva quer haja tormenta ou calmaria. Para eles, tudo, todos os dias se agita e, a tarefa nunca termina, são ávidos e da avidez se saciam. O mundo enche-se de horror e de dor e nem nessas horas eles se estancam.Os indistintos querem ter nome, ser eleitos, reconhecidos, idolatrados, forçadamente amados, em suma, senhores do mundo e de todos. Sem o que lhes escapa, parecem ouriços, espicaçam tudo  e todos os que os rodeiam e que com eles habitam. No fim de tudo, a morte. Não, não choram, nem se arrependem pois, nunca se souberam amar, dominar, controlar, abrir, repartir, dar a comungar. Era o seu projeto perseguirem o inalcançável como se fosse um troféu de caça. Era o seu mote conquistar o que lhes revelaria o universo que sempre lhes faltaria para conquistar. Morrem fiéis a esse mundo e é tudo quanto levam com eles, sem que deixem muitas memórias pois, logo outros indistintos lhes tomam o lugar e mais uma vez, até na morte, mais rapidamente se desvanecem.