quinta-feira, 18 de junho de 2026

A virtude

A virtude está no meio ? Será uma sentença Salomónica, um clichê ? Quem disse, onde estava o meio, o equilíbrio ? Aristóteles, que me lembre foi dos primeiros a falar de virtude. Mas em que consiste a virtude ? Num trabalho de aperfeiçoamento com vista a um fim ? Esta seria a ideia teleológica de Aristóteles, muito antes de Aquino. Aliás, a ideia teleológica de Aquino, vai ao encontro de Averróis, o Comentador, e significa o fim do livre arbítrio, algo que todos os idiotas confundem com liberdade, recorrendo à falácia da composição. Ora bem... Um praticante de violino, pratica resilientemente, pratica obstinadamente, pratica até 'julgar' ou não, atingir a excelência. Os comuns, sacrificados nos fornos que mantêm acesas as chamas da esperança do dia-a-dia ficam arredados desses palcos, dessas montras, dessas competências, dessas excelências. Pois é, Ayrton Sena na fórmula 1, Messi ou Ronaldo no futebol mas, em quê mais são eles mestres ? Ronaldo compõe como Beethoven? Messi conduz como Karajan ? Ayrton chega primeiro que Pimenta em mundiais de canoagem ? Um violinista excelente, dir-se-ia exímio, será um ótimo agente imobiliário, um magnífico diplomata, um extraordinário pedagogo ? Muito provavelmente, não! Então, o facto de se possuir uma virtude não significa que se seja apto a possuir todas as outras virtudes, correcto ? Se não o é, promover uma virtude, será o expoente, o zénite, o último grito da virtuosidade de alguém, a quem,  já não serão notados quaisquer vícios e incapacidades ? O problema da virtude, é o problema do Santo, daquele que nunca divino se pretende equiparar a um modelo que possui todas as virtudes. Não será esta pretensão a própria manifestação de uma vaidade ? Ou a verdadeira manifestação da impossibilidade, da incapacidade e a real assumpção da fragilidade e da humildade ? Virtude então fica no meio. Qual meio ? Um violinista é eximio, excepcional, quase perfeito a tocar o instrumento musical mas, essa performance alcança-se com o equilíbrio ou com um excesso ? Afinal, onde pára a virtude ? Não será mais um conceito bizarro ? Já pensaram também que, se todos somos orientados para um fim, que afinal, não somos livres, mas antes predestinados ? Afinal, são livres ou não ? Se o são como podem ser predestinados ? Como podem ser marionetas de um desígnio tão passivamente ? A virtude salva-vos ? Não se poderá olhar uma virtude como uma vaidade, pelo menos, mais frequentemente ? Onde está o equilíbrio, nesta filosofia de Aristóteles, que defende o exímio (o extremo, o aristocrático, o elitista, etc.) ? Em vez de 'Houston we have a problem' poderíamos substituir por 'Virtue we have a problem'!

terça-feira, 16 de junho de 2026

Embebedemos-nos



Alguém virá acusar-nos de faltar à moral por termos escolhido este título. Vem sem encontro marcado. Não precisa estar preparado. Embebedar-se fará o resto. Que resto ? Fará sentido. Sim, fará sentido. Enamorar-se é de certa forma, perder-se e reencontrar-se de outro modo. Sem enamoramento o tempo parece esvaziar-se sem sentido. Enamorados, cada minuto ganha sabor, côr, contexto, expressão, sentimento, vida. Enamorar-se é ganhar dimensão não para se tornar grande mas, por ganhar alento, sopro, coragem, sentido. O amar, amoroso, é sem amarras. Enamorar-se é estar-se vivo, presente, ausente e a chegar de braços abertos a qualquer lugar, sem possessão, sem avidez, sem delírio. Quem nunca se enamorou jamais poderá compreender a poesia. Enamorar-se não é um destino, uma fé, um acoplar-se a algo mas, é ser-se transiente ou transeunte. Em movimento consciente. Ser-se, sem amarras, nem palas, nem pingentes, nem desígnios. Ser-se, pura e simplesmente. Sem adjetivos, sem objetivos, sem subjetivos, sem relativos mas, também, sem absolutos. Enamorar-se é embebedar-se, permanecer sobriamente turvo, maravilhar-se!

A Filosofia deixou de ser séria

A Filosofia deixou de ser séria e, também, deixou de filosofar. O que temos hoje, são apenas debates ideológicos para tentar provar quem tem mais razão. Proferimos comentários e argumentamos sobre crenças, sem examiná-las. A pressa, exige respostas, rápidas e, no meio disto tudo, onde está o distanciamento, onde está a reflexão, onde está o diálogo e o debate em prol da verdade, diferente daquele de quem somente pretende ter mais razão ? Pois é, a Filosofia deixou de ser séria. Quere-se tudo solúvel, instantâneo, sumariado e não há tempo para mais. Aprofundar é para doidos. Coloquem-nos no hospício. O mundo é para normais, normalizados, todos distintos e todos caricaturados. O fácil tornou-se o dogma. O imediato a métrica. O rebanho, a ilusão da diversidade. A democracia, a celebração da aporia do individualismo. A Filosofia, a proclamação do que se pretende e não se procura nem entende. Hanna Harendt falava na banalização do mal mas, não se trata do mal, mas sim, da banalização/vulgarização da ignorância, como afirmação da opinião suprema da felicidade dos povos. Direitos, capacidades, quereres, potências. Há uma terraplanagem cultural de superfície. Tudo é epidérmico. Hiper sensível, hiper ativo, hiper mercado, hiper. A selfie é uma espécie de hiper retrato do suicídio de que se quer deixar vestígios. Não olhes para mim,  olha para o meu retrato para me veres, pois esse é o cúmulo do desejo a atingir, o orgasmo da comunicação. Narrativas, são lenga-lengas por todos os lugares disseminadas, esconderijos de opinião. A Filosofia não morreu mas, não deixou herdeiros. Os repetidores tornam qualquer mensagem um cânone. Hoje, o cânone dura dois minutos. A eternidade parece pois longínqua, um tempo chato para causar interesse. O sólido mudou para liquido. A máscara virou o ser e este tornou-se autista.

Pensar tornou-se inútil com tantos emplastros tecnológicos. Qualquer dia, a máquina fala por ti, nem precisas de te esforçar. Ela já escreve por ti. Já pensastes no que estás aqui a fazer? Quem és tu e para que serves tu ? Quando é que abandonas o teu berço ? Quando é que te tornas Homem ?

domingo, 3 de maio de 2026

⚖️ A arquitetura dos absolutos imperfeitos

 

Se a perfeição for a ausência de imperfeição, então todas as imperfeições são o modelo da perfeição que se nos escapa. Digo modelo por que é a partir dessas imperfeições que nós trabalhamos a ideia de uma perfeição. Mas a questão que se coloca é se esta perspectiva da perfeição não é ela também imperfeita ? Outra questão que surge é saber se duas imperfeições opostas resultam numa só ideia singular de perfeição ou se, se anulam de algum modo ? Ainda outra questão, bastante rebuscada é a de saber se a perfeição inclui a imperfeição ? Se não inclui, trata-se de um conceito fechado. Se inclui, então, a perfeição pode ser considerado um conceito aberto. Se a imperfeição pode ser um mal, então uma perfeição que a inclua, deverá necessariamente incluir o mal como elemento da perfeição. Se, pelo contrário a imperfeição não é um mal, pode perfeitamente ser incluído num conceito aberto de perfeição. Em suma, fechado designa concluído, completo, totalmente concretizado. Aberto, algo que é construível, edificável, realizável mas, e aqui podemos subdividir, para alguns, alcançável para outros inalcançável. Podemos aprofundar ainda mais o conceito de perfeição mas, ainda nem sequer definimos o que designamos por imperfeição. Será que haverá uma ? Voltamos à petição de princípio afirmando que a imperfeição é a ausência de perfeição. Aqui, mais uma vez escorregamos. Podemos ou não construir quase na perfeição toda uma casa e falhar na edificação do telhado ? Poderemos dizer que toda a construção é imperfeita ou que só parcialmente o é ? A partir de que ponto algo passa a ser imperfeito ? Relembra o paradoxo do calvo. Mas, o mesmo pode ser dito sobre as partes de uma casa. A partir de que critério se considera algo feito como perfeito ? Uma peça mecânica assenta noutra como uma luva. Dir-se-á perfeita na sua criação. Depois a peça, com o uso deteriora-se. Se fosse perfeita deteriorar-se-ia com o tempo e o uso ? Então, talvez sejamos forçados a reequacionar este conceito de perfeição. Mas, se então nada é perfeito, como estabelecemos o que é imperfeito ? E, se tudo é imperfeito, este não será um absoluto imperfeito ? Como sabemos que é imperfeito um vulcão explodir ou uma estrela desintegrar-se ? Como sabemos que é perfeito o nosso amor ou as nossas crenças se levarem-nos a matar ?

Parecem estranhas e longínquas estas questões e associações e suposições, contudo, podem ser plausíveis. Comparando a perfeição com a composição do ar que respiramos. Alguns gases são tóxicos como o oxigénio. Outros, só por si, não nos permitiriam viver. Se juntarmos poeiras, polens e cinzas, poderemos continuar a respirar até certo ponto diferente do ponto de adoecer ou de até morrer. No ar que respiramos faltam um sem número de outros gases, diremos então que o ar que respiramos é imperfeito, incompleto, impermanente ? Sendo por certo ajustado a nós, mataria por certo a maioria dos peixes. Afinal, o que se decide sobre a perfeição do ar ? Ou teremos que entrar na equação com a água do mar ? Os ciclos das coisas que se completam e de que ignoramos todos os elos da cadeia diz-vos alguma coisa sobre a perfeição ou imperfeição das coisas do mundo ? O que pode ser perfeito para um ser que não faz a menor ideia do que isso seja ? E se a perfeição for algo de natureza dinâmica e adaptativa, sem uma única resposta e sem um único princípio diretor ? Outro conceito que poderemos trazer a jogo é o de equilíbrio. Não é pelo grau que se define. O fiel da balança está em equilíbrio no vinho e no vinagre, na água da chuva e na água do mar, na trajetória dos planetas e das galáxias. Tudo se acomoda e desacomoda e tudo permanece em permanente mudança. Nenhum relógio é infalível ou perfeito e, no entanto, todos seguimos os dígitos ou os ponteiros por eles indicados.

03/05/2026

Sumário: Este texto apresenta uma reflexão filosófica profunda sobre a natureza da perfeição e a sua relação intrínseca com a imperfeição. O autor questiona se estes conceitos são absolutos ou relativos, sugerindo que a nossa ideia do que é perfeito nasce frequentemente da observação das falhas e lacunas do real. Através de exemplos práticos como a construção de casas, peças mecânicas ou a composição do ar, explora-se a hipótese de a perfeição ser um sistema dinâmico e adaptativo em vez de um estado estático. A narrativa propõe que o equilíbrio e a mudança permanente podem ser mais fundamentais do que uma pureza inalcançável. Por fim, o conteúdo desafia o leitor a considerar se a perfeição poderá ser um conceito aberto, capaz de integrar o erro e a impermanência como partes de um todo harmonioso.


quinta-feira, 2 de abril de 2026

2 minutos apenas

Dão-me 2 minutos de atenção ?

Porque não ?

E se eu exceder o meu tempo

Como iremos fazer ?

Se surgir algum contratempo ?

Iremos ver...

A dizer, eu, não tenho nada, então.

Ótimo, menos uma obrigação.

Brinquemos com o tempo,

E a paródia avança.

Evoluir é um processo lento,

Que nem toda a gente alcança.

Mais 2 minutos, menos 2 minutos,

Qual a diferença ?

Não se trata de gastar minutos

Mas, de os ocupar com indiferença.

Estás aqui, estás acolá ?

Onde páras tu ?

Não dizes bom dia, nem olá,

Nem tens tempo para limpar o cú.

Sobram-te, apenas 2 minutos!

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Confissão

Nunca fui santo nem mártir. Sei que não sou nenhum exemplo, quer positivo, quer negativo. O que sou, não perturba o que possa pensar sobre mim ou sobre o mundo. Pode-se-lhe chamar esquizofrenia ou algo parecido, é-me indiferente! Sofro quando vejo as consequências de de pensar e agir mal, não porque, não se reflita mas, por se refletir tão apressada e precipitadamente, ou ainda, por se refletir tão interessadamente, cuidando apenas daquilo que consideramos egótica e enviesadamente como benéfico, ao invés de refletir de forma desapaixonada,  não imediatista e apressada. O mundo choca-nos e tinge-nos de horror. Somos homens e não nos parecemos com Homens mas sim, mais com bichos ou pior ainda. Animais, sem forma. Animais que já não são bichos e homens que nem chegam a ser Homens. Alguma forma intermédia que mais parece uma anomalia da natureza. Parece e, é. Os indeterminados. Os indistintos. Porém, sobressaem porque têm um Deus, o dinheiro, que os faz rojarem-se como répteis ou trepar como chimpanzés para alcançarem o seu modelo. Vivem, correm, matam-se, esfolam-se e renegam-se nesse delírio de perseguição à imaginada pobreza e nessa obsessão compulsiva de atingir os píncaros da fortuna dourada. Tudo o resto, até mesmo futuros danos causados a eles próprios figuram fora das suas equações. Indistintos e autodestrutivos. Poderiam ser zombies, meios mortos, meios vivos mas, não. Estão de pé como faróis, cegos pela luz que perseguem como barcos à deriva quer haja tormenta ou calmaria. Para eles, tudo, todos os dias se agita e, a tarefa nunca termina, são ávidos e da avidez se saciam. O mundo enche-se de horror e de dor e nem nessas horas eles se estancam.Os indistintos querem ter nome, ser eleitos, reconhecidos, idolatrados, forçadamente amados, em suma, senhores do mundo e de todos. Sem o que lhes escapa, parecem ouriços, espicaçam tudo  e todos os que os rodeiam e que com eles habitam. No fim de tudo, a morte. Não, não choram, nem se arrependem pois, nunca se souberam amar, dominar, controlar, abrir, repartir, dar a comungar. Era o seu projeto perseguirem o inalcançável como se fosse um troféu de caça. Era o seu mote conquistar o que lhes revelaria o universo que sempre lhes faltaria para conquistar. Morrem fiéis a esse mundo e é tudo quanto levam com eles, sem que deixem muitas memórias pois, logo outros indistintos lhes tomam o lugar e mais uma vez, até na morte, mais rapidamente se desvanecem.