segunda-feira, 24 de abril de 2023

The undoubtable

Ericeira

 

I have a set of beliefs on which my rationality is founded and on which it runs without any prediction, except the hope of reaching the truth, however, it is always on a biographical-cultural basis that our beliefs and hypothetical truths are founded, leaving space for time and society modify them according to the possible and natural course of adaptation.



Ícone Validada pela comunidade

domingo, 16 de abril de 2023

Bem haja!



Bem haja pela Terra, pela Lua, pelo Sol. Bem haja pelos Oceanos, pelas plantas, pelos animais, pela litosfera. Bem haja, pela música, pela literatura e por todas outras artes, de ofício ou não, sem as quais o quotidiano seria insuportável. Bem haja pela filosofia, pela ciência e até pela religião e pela política. Bem haja pelos homens e mulheres de bem, pelos que lutam corajosamente e honestamente para que nada falte nas suas e nossas vidas. Bem haja pela vida e pela morte, pela saúde e pela doença. Em suma, bem haja! 

Porquê, bem haja?  Por que esquecemos, banimos, eclipsámos  ou enterrámos, o agraciar, o agradecer, o bem dizer, o apreciar, o rejubilar, o abençoar !?

O Homem aflito não tem tempo, alimentado que é pela voracidade do imediato, do tudo pronto, do tudo resolvido, do tudo feito, ou seja, furtando-se ao verdadeiro fruir do aprender ao fazer, atormentado pela totalidade do tudo ou nada. O  Homem aflito é também aquele cuja mesura é a desmesura, o incontido, o desenraízado, o perdido e que procurando ou não uma salvação que não existe, esbraceja, ri ou chora des-alma-da-mente, o Homem que se joga na abertura imensa do que não é sua natureza, numa fúria desenfreada de transgredir os seus inultrapassáveis limites. O Homem aflito é também o Homem que se esqueceu de si. Num mundo completamente espelhado onde a sua imagem se multiplica ao infinito, perde-se na perspectiva dos seus reflexos e desencontra-se de si mesmo.

Bem haja é não só dar graças mas bem agir! No acto de gratidão  reconhecemos e encontramos o Outro, sejam os seres, sejam as coisas, ou seja, abri-mo-nos para o que está e é além de nós, quebramos a solidão, a cadeia narcísica do nosso ente, transcende-mo-nos, emula-mo-nos.

Bem haja, que haja vida e o seu ciclo natural a morte, a doença e a saúde, para que tudo se regenere.




sexta-feira, 14 de abril de 2023

O quê?

Barca de S. Vicente (Palácio dos Coruchéus)

Sim, o quê? Quando julgamos estar nas últimas, sermos quase os protagonistas dos reis da tragédia eis que, a realidade nos ultrapassa vários furos (termo usado nos primórdios da computação moderna quando se usavam cartões perfurados) acima.

Pior, se houvesse um Deus, ou algum ser que realmente zelasse pela nossa humilde precaridade heróica, talvez se evitassem estas terríveis tragédias. 

Claro que a necessidade aguça o engenho e que de uma forma ou outra este bichinho pestilento tem de se virar/adaptar. Não há outro caminho. Ou em frente, ou nada! Contudo, é preciso ponderar o "em frente". Não se trata de justificar todo o tipo de atropelamentos, atrocidades e iniquidades só por que só se pode caminhar encarando as circunstâncias. Pelo contrário, sabendo que o caminho é finito é preciso ponderar muito bem cada passo, cada palavra, cada acto.

De pouco interessam as memórias dos que nos sobrevivem. A urgência, raramente existe. A pressa é inimiga da perfeição. E, nada é irresolúvel excepto a morte. O que interessa é a ponderação e a organização disciplinada das directrizes que tomamos para a nossa vida, independentemente de termos tempo e oportunidade para o concluir até ao equilibrium. E pode haver diversos equilíbrios, muitas paragens, muitas encruzilhadas, muitos pontos de fuga, etc. No fim, só a nós caberá sopesar se houver essa oportunidade e tudo parecerá quase insignificante e auto-resolúvel mesmo que as soluções em nada dependam de nós.

Gostei muito de vos conhecer e de ter desfrutado a vida na vossa companhia e de algumas pequenas realizações minhas e é tudo!

A morte é soberana na sua garantia de que a ela ninguém escapa. Portanto, seja o que for, suceda o que tiver de suceder. Fomos ou somos livres ? Sim, fomos e somos, até mesmo ao último e derradeiro segundo! Dirão, mas o que podes escolher ? Por exemplo, sorrir ou chorar, bendizer ou maldizer, etc. Somos livres sim e mais, muito mais fortes e corajosos do que supomos.

Um abraço, uma vénia e o nosso respeito!



terça-feira, 11 de abril de 2023

Imbecis com 7 cabeças

Hércules lutando com a hidra de Lerne

Duas questões essenciais:o que podemos ou não experimentar ?  O que podemos ou não aprender?

Nao podemos experimentar o zero absoluto, por exemplo. (-273,15°C). Mesmo executando a experiência são as máquinas e os aparelhos que experienciam, não nós humanos, que apenas consultamos o resultado nos aparelhos. Se experienciássemos isto morreríamos.

Mas podemos experimentar o amor com pessoas, animais e coisas diferentes (este último nunca retribuído). Isso não significa que amemos tudo do mesmo modo, com a mesma intensidade. Podemos amar avó, mãe, irmã,  prima, cunhada mas, certamente serão amores diferentes e de graus e intensidades diferentes e onde o sexo não deverá estar presente. Se estiver, então um psiquiatra será recomendável. O mesmo se passa como avô, pai, irmão, primo, cunhado.

Poderia aqui discutir atração pelo mesmo sexo ou até a bissexualidade. Acredito, que se possa amar uma pessoa do mesmo sexo e até mais do que uma pessoa, do mesmo ou de diferentes sexos contendo atração sexual. Contudo, essas relações com mais de um parceiro nunca serão muito pacíficas e, muito menos, simples e totalmente satisfatórias. Se formos a ver, nem sequer as relações heterossexuais são sempre simples e satisfatórias. Porém é diferente gerir conflitos entre dois do que em maior número, em geral. A racionalidade o aponta.

No entanto, há medida que os relacionamentos se destipificam diversificando e embora não esteja em causa a liberdade sexual da pessoa, pode estar em causa a saude mental dessas pessoas. E convém nao reduzir sexo a amor e vice-versa. Muita atitude hoje em dia aceite, não passa de perturbação.

Há casos em que se nascendo de um sexo se sente pertencer a outro. É inegável. Não são a norma! Mas, também não são uma aberração. Há que lidar com estas situações com delicadeza, compreensão e muito apoio quer de amor, quer técnico-cientifico e simplesmente aceitar sem preconceito algum. Porém, não podemos nem adoptar uma atitude de aceitar tudo isto com a ligeireza e os modismos culturais que muitos nos tentam impor, sem uma reflexão séria nem numa atitude laxista de que tudo é aceitável, permissível e normal. 

Normal vem de norma que significa o que é lei, mais universal  e não podemos tratar por ignorância, por desleixo ou por modismos culturais, o que não é o normal tomando-o como tal, sob o risco de nos tornarmos imbecis!

Podemos sim, sentir amor por outros animais (cavalos, cobras, ratos, vacas, cabras, porcos, tarântulas, cães, gatos, iguanas, erc.). Embora alguns idiotas defendam que os animais também os amam, não nos podemos deixar enganar. Pode haver troca de afectos entre animais e humanos mas nunca será uma relação equitativa sobretudo do lado do animal não humano. Isto, mesmo que o animal salve o dono. Aliás usei esta expressão por que era a mesma que se usava com os escravos mas, não é por isso que um outro animal pode amar qualquer ser humano de forma igual. A razão é simples: algum bichinho sem ser humano ora a Deus? Pinta por iniciativa própria? Cria naves espaciais para ir ao espaço? Cria instrumentos para salvar a vida de outros ? Não! Claro que os bichinhos podem sentir afectos pelos humanos (dentro de uma ordem social e segundo um grau) mas sempre dentro de um grau super limitado e nada mais. Chamar a isso Amor é uma imbecilidade ou, pelo menos um comportamento a roçar o delírio que talvez merecesse tratamento.

Portanto, há sempre que saber caso a caso, cada situação, avaliar a sua complexidade e só depois haver pronunciamento. Até lá devemos aprender a conviver com as diferenças o que não significa aceitá-las sequer (imagine-se se aceitaria alguém que o quisesse matar) e evitar quer generalizações pseudo-modernistas de que vale tudo ou enraizadas numa tradição em que nada de novo vale alguma coisa.



segunda-feira, 10 de abril de 2023

Párias de um país das maravilhas.

Só gente incompetente!

Sem vergonha é um país governado por políticos para quem as estatísticas valem mais do que os seus compatriotas.

Ao governo apesar dos escândalos por que as estatísticas apontam para que um certo partido conotado  com a direita seja o segundo mais votado e o maior partido da oposição não tenha maioria, dirigido por um mavioso corrupto e que tem tanto de inteligência como falta de sorrisos cínicos e imbecis.

Para mim isto é uma vergonha, uma falta de coragem e uma conivência com um status quo de mediocridade que cada vez mais impera nas nossas estruturas de poder.

Mediocridade e falta de vergonha! Marcelo é tão mediocre como o governo que sustenta ao nada fazer para terminar com "as faltas, falcatruas, incompetências" e pelo contrário, depois de ter gritado "ó da guarda" se remeter ao silêncio, dizendo "não foi nada".

Marcelo trata os portugueses como imbecis, arvorando-se uma maturidade democrática e uma sapiência política incomum de que não é proprietário.




sábado, 8 de abril de 2023

Respeito é muito trabalho


Chartres Labyrinth

Se pretende respeito, principie por se respeitar a si mesmo, não há outro caminho.

Mas respeito o que é ? 

Tratar-se adequadamente de modo a que nada de básico e fundamental lhe falte. Mas falta-nos tanta coisa? Pois sim, mas, trata-se apenas de tomar como fiel da balança o evitar excessos e carências. Dominar-se e controlar-se a não querer ou desejar mais do que for o estritamente necessário para uma vida saudável, activa e satisfatória e auto disciplinar-se exercitando-se nesse controlo. 

Alguns dirão mas, a satisfação de cada um é tão diferente de pessoa para pessoa? Sim, é!

Mas, todos deveriam saber estabelecer pelo menos o mínimo básico do que os satisfaria, sem querer o céu e a terra, sem exageros e, relativamente a coisas que, como dizia Epicuro, dependam essencialmente de cada um de nós e nada de outros. 

Ora, como vivemos com outros, nem sempre as vontades e realizações humanas, convergem, coexistem, cooperam e antes pelo contrário se atropelam e colidem numa competição desenfreada. É natural e normal.

Solução? Aprender a viver com as diferenças, escolher aliados convergentes para o não essencial (para consigo próprio) e ignorar tudo o resto.

A nossa vida está cheia de limites mas, não é por isso que, não somos livres de julgar/escolher/decidir. Se perdemos a liberdade é por que nos afastámos de nós e nos acabámos por perder, algures no caminho.

Também não é preciso derramar lágrimas ou lamentar. Quem nunca se perdeu, certamente nunca se encontrou. Por que perder-mo-nos faz parte do que somos. Nem. Sempre temos a bússola afinada, há campos magnéticos e mil outras interferências. 

Pratiquem este exercício, marquem os vossos trilhos todos interiormente. Sempre que se perderem voltem ao marco anterior. Assim saberão que nunca andarão perdidos, embora, nem todos consigam caminhar até ao fim do Labirinto onde habita a flôr e, certamente muitos avanços e recuos qualquer percurso terá.



sexta-feira, 7 de abril de 2023

Ecce Homo

Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci


Não sou quem sou por ter nascido do nada. Sou quem sou por que nasci de alguém e me esforcei por alcançar quem sou, lutei por isso. Qualquer um pode fazer o mesmo mas, a questão é, por que razão muitos, não o fazem? Então, parece que, não é para todos. E de facto não o é. Chegar-se ao fim da vida bem consigo próprio, não é para todos. E muitos só muito tarde se põem a lamentar como se fossem vítimas, como se ninguém nunca os tivesse ajudado ou até mesmo tivessem que o fazer. Vítimas deles próprios, amantes deles próprios! Não sinto nem pena nem compaixão. Que sofram mais do que na carne, na mente de vermes com que viveram e que esses vermes os corroam por dentro até à morte. Merecem esse final! E é tudo. De resto, não há heróis. Viver bem não é ter fartura é saber saborear tudo o que a vida nos dá e aceitar tudo aquilo que nos tira. Dirão imediatamente os idiotas e então nem se dá luta? Resposta aos idiotas, respondam vocês a isso e, no final, cantem se conseguirem?!




O Pomo da Discórdia

Peter Paul Rubens: O julgamento de Páris; 1638; Museo Nacional del Prado.
Súmula:

O grande banquete, na imensa corte do Olimpo, estava no fim. Os deuses, no aspecto físico, são diferentes dos mortais somente pela estatura, a força, a beleza e o dom de uma eterna mocidade, mas dos homens, possuem todas as paixões: o amor e o ódio, a ira e a inveja; são, por vezes, cruéis e, por vezes, generosos. Eles transcorrem os dias alegremente, mas todos estão sujeitos a um poder superior: as Moiras, o Destino, filhas da Noite, às quais nem mesmo Zeus pode opôr-se.

Subitamente, no amplo salão, baixou o silêncio. Todos os olhares convergiram para uma estranha figura, que surgira no limiar da porta: Eris, a única deusa não convidada. É briguenta - disseram os anfitriões - e seria capaz de estragar a festa, com suas maledicências. E agora, ei- la ali, no silêncio embaraçoso dos convivas. Chegara junto ao triclínio, onde estavam sentados os deuses maiores, a maléfica criatura tirou da túnica uma maçã de ouro e lançou-a sobre uma das mesas, exclamando:

- Eis o meu presente! É para a mais bela das deusas!

Dito isto, a deusa da discórdia desapareceu.

Depois de alguns segundos de espanto, cada uma das três deusas que estavam à mesa, Atena, Hera e Afrodite, estendeu a mão para o reluzente pomo, mas logo se contiveram, surpresas, e entreolharam-se. Zeus, o senhor dos deuses, que observava a cena em silêncio, sorriu e interveio:

- O único meio para saber-se qual de vós é a mais bela e estabelecer, portanto, a quem pertence o Pomo da Discórdia, é recorrer a uma arbitragem. Escolhei, entre os mortais, um árbitro de vosso agrado e acatai sua decisão.

Como sempre, Zeus sentenciara sabiamente. Após ponderada reflexão, as três rivais concordaram em confiar sua sorte ao mais belo entre os mortais, ao jovem príncipe Páris de Alexandre. Este moço vivia, desde seu nascimento, ignaro de sua real ascendência, entre os pastores do monte Ida. Um oráculo predissera que ele seria a ruína da cidade de Tróia, e sua mãe, desobedecendo às ordens do marido, que depois da profecia resolvera matá-lo, ocultara-o na montanha.

Assim, uma bela manhã, o belíssimo rapaz viu aparecerem diante de si, enquanto vigiava seu rebanho, em uma concha relvosa e solitária, três maravilhosas raparigas. Deram-lhe o pomo, explicaram-lhe o que desejavam dele, e cada uma delas, em seu íntimo, fez-lhe uma promessa. Atena prometeu- lhe sabedoria. Hera, o poder; Afrodite, a pequena deusa nascida da espuma do mar, prometeu-lhe a mais linda mulher do mundo. A seguir, as três beldades perfilaram-se diante de Páris. Este hesitou um átimo, depois entregou o pomo a Afrodite, que o agarrou feliz, enquanto as outras duas se afastavam, fulas de raiva.

Instruído por Afrodite, Páris rumou para os vales, pela encosta do monte Ida, até Esparta. Reinava em Esparta, pequena cidade da Grécia, o jovem príncipe Menelau e sua esposa Helena, a mais bela mulher do mundo. 

Comentário:

Este texto é apresentado incompleto pois, o leitor conhecerá  ou já terá ouvido falar na Guerra de Tróia (no rapto de Helena e na artimanha do cavalo de Tróia que precipitou a queda da cidade). Esta parte mítica da história apresenta-se aparentemente de modo muito simples e entendível. No entanto, se Helena foi o alvo da disputa (de amor/posse) que causou a queda de Tróia, neste caso, temos uma deusa que causa a discórdia entre as outras três deusas femininas. O pretexto é uma maçâ de ouro (o pomo) que provoca o narcisismo imediato e próprio daquelas três deusas preocupadas em serem as mais belas. Certamente que o leitor já se relembrou da história de Walt Disney - Branca de Neve e os 7 anões - e da  célebre madrasta que também utilizou uma maçã envenenada e reluzente para tentar matar a Branca de Neve. Uma forma muito comum na antiguidade de se eliminar a concorrência ou quem fosse inconveniente. Na actualidade encontramos formas muito similares de práticas persecutórias de oponentes ou dissidentes, em certos países bem conhecidos. Neste ponto, a analogia entre estas duas histórias é quase flagrante mas, o que é relevante não é essa similitude.  Todos nós, na vida, nos deixamos atrair pelo que nos seduz. Por vezes, como as deusas contemo-nos mas, preparamo-nos para disputar com os nossos(as) irmãos(âs) os alvos do nosso desejo. Esta parte, não faz parte de nenhuma humilia cristâ mas poderia perfeitamente sê-lo, bastaria, para tal, folhear alguns capítulos bíblicos. Trata-se de considerar a(s) forma(s) como nos deixamos conduzir pelas nossas paixões, apetites e desejos e que, muitas vezes, conduz-nos à fraternal e persistente discórdia nas relações humanas (para além da própria infelicidade).
Vozes populares, bem mais avisadas e sábias, poderiam ripostar com o velho «Nem tudo o que reluz é ouro», isto é, as aparências (tal como o reluzir da maçâ) iludem, a beleza não é duradoura nem eterna, etc. De facto, se nos deixarmos conduzir pelas aparências, chegará um ponto, em que nem nós próprios saberemos no que acreditar de autêntico nela, iludindo problemas que posteriormente retornarão porque nunca foram resolvidos, concluídos e, terminaremos ainda mais envolvidos em trabalhos redobrados, disputas vãs (muita vezes para manter as nossas mentiras ou garantir que nós é que temos razão e de que estamos certos) causando-nos cada vez mais sacrifício, sofrimento e tristeza.
Um detalhe interessantíssimo refere-se à escolha do príncipe Páris. Entre a «sabedoria», «o poder» e uma «mulher linda», ele, escolheu esta última opção. Poderíamos invocar aqui Platão para justificar a má opção feita pelo príncipe. Afinal, somos humanos e, a «mulher linda» personifica a Beleza, seja ela qual for para cada um. Porém, também poderíamos invocar Epicuro e contestar também esta escolha, pois não se pode possuir a Beleza, pode-se amá-la, mas nem sequer conservá-la, pois é algo que não nos pertence. No entanto, a Beleza também é útil para alegrar o nosso quotidiano. Na boa tradição do deus Janus, tudo depende para que lado da moeda se olha, Janus tinha duas faces. 
Podemos pois, aqui, descortinar uma certa crítica velada  a um certo tipo de materialismo e consumismo até no campo das artes, pautado pela posse, pelo (TER) e pelo parecer e a-parecer ( Exibir, falsear,  simular, iludir, deturpar  em quase tudo o que se mostra) e  não tanto pelo (SER). Parece que nos esquecemos de um dos maiores bens da humanidade e que nos trouxe até aqui, a «sabedoria». Nunca existiria a World Wide Web ou quaisquer redes sociais inventadas por energúmenos ou gente imbecis. 
A sabedoria é a pedra de toque imaterial sobre a qual assenta o SER do Homem. O seu cultivo e muita gente, hoje em dia, esqueceu completamente o que isso significa, (confunde-se por exemplo amputar e deturpar com criatividade e imaginação) conduz à prudência, ao equilíbrio, à justiça (não entendida pela maioria dos idiotas como algo que apenas tem a ver com a Lei, mas antes ao que é justo ou se adequa), virtudes que parecem cada vez mais começar a escassear nas ditas sociedades democráticas. Tudo é fugaz e tudo é efémero, portanto vive-se ao segundo e tudo tem de viajar e ser realizado a velocidades hipersónicas. Que pressa, que pressa...Quo Vadis ?
Atente-se também por isso ao uso cada vez mais frequente, por parte dos "nossos" políticos de, discursos profundamente polidos (reluzentes) e prometedores ao estilo «maçã de ouro» cujas larvas gulosas e atrevidas muitas vezes já assomam através da fina casca encerada das mesmas.
Outras leituras ficam por conta ao leitor. É para isso que serve ler e reflectir. Como diria Platão, «uma vida não examinada não merece a pena ser vivida».

Citação da semana:
«Não defendo este partido, nem o outro; se ambos diferem à superfície e podem arrastar opiniões, aprofundemos nós um pouco mais e olhemos o substracto sobre que repousa a variedade [...] O que vejo de comum? O rebanho dos homens, ignorantes e lentos no pensar, que se deixam arrastar pelas palavras e com elas se embriagam.» Agostinho da Silva, 'Diário de Alcestes', 1945.

O Mito de Sísifo

 

O mito de Sísifo

Súmula:

Sísifo, filho do rei Éolo, da Tessália, e Enarete, era considerado o mais astuto de todos os mortais. Passava a vida a desafiar os Deuses. Foi o fundador e primeiro rei da cidade de Corinto (antiga Éfira). Casou-se com Mérope, filha de Atlas, sendo pai de Glauco, Ornito e Sínon. Era vizinho de Autólico (mestre da magia e do disfarce, filho de Hermes) e que todas as noites lhe roubava o gado, metamorfoseando-se em animal.1 Como resultado, o seu rebanho diminuía e o de Autólico ia aumentando. Suspeitando de Autólico e sem possuir provas, arquitectou um plano e resolveu marcar os cascos dos seus animais com o símbolo SS ()2. Este método resultou pois, os animais deixaram um rasto que seguia até ao estábulo do seu vizinho. Convocando uma multidão de testemunhas levou-os consigo até à presença de Autólico e, deixando esta a ajustar contas com o larápio afastou-se da confusão para ir seduzir Anticleia (filha de Autólico) que veio a gerar Odisseu (filho bastardo de Sísifo).

Tendo Júpiter raptado a filha de Asopo (deus rio), Egina, este dirigiu-se a Corinto à sua procura. Sísifo sabia perfeitamente o que lhe havia sucedido, mas só com a condição de Asopo fornecer a fonte de Pirene a Corinto se prontificou a revelar-lhe o sucedido, revelando um segredo dos deuses. Pela veleidade foi condenado e, como punição, foi conduzido por Hades (o deus do mundo subterrâneo - inferior - e dos mortos, irmão de Zeus) ao Tártaro (Inferno) onde, colocando as algemas nas mãos de Hades lhe pediu que explicasse como funcionavam. Quando este o fez, rapidamente Sísifo as fechou. Hades foi assim ludibriado por Sísifo que se evadiu do Tártaro e aprisionando Hades na sua casa. Isto tornou impossível que os homens, mesmo que lhes cortassem a cabeça pudessem morrer – semelhança com os zombies – o que enfureceu Plutão que ordenou a Ares o Deus da Guerra para libertar Hades e remetendo Sísifo de novo para o Tártaro. Porém, o astuto Sísifo, antes de descer, deu instruções à mulher para que não o enterrasse e quando lá chegou invocou diante de Perséfone (rainha do mundo dos mortos e filha de Zeus e Deméter – deusa da agricultura) que era uma pessoa insepulta e portanto que não poderia ali permanecer. Prometendo-lhe que voltaria dentro de três dias para resolver o problema, esta acedeu a libertá-lo. Sísifo nunca pensou cumprir e não voltou. Hermes foi chamado a forçar Sísifo a regressar tendo Sísifo sofrido um castigo exemplar. Os juízes dos infernos apresentaram-lhe um enorme bloco de pedra3 e ordenaram-lhe que a fizesse rolar até ao cume de uma montanha e a deixasse cair para o outro lado. Porém, Sísifo nunca conseguiu sequer chegar ao cume, movido pelo cansaço, acabava por deixar a pedra rolar montanha abaixo, tendo no entanto, que voltar a agarrá-la e recomeçar tudo de novo, castigo que lhe foi aplicado enquanto vivesse.

 Comentário:

Contrariamente às leituras correntes deste mito, que colocam ênfase no «absurdo da condição humana» vazia de sentido, porque ligada, inexoravelmente às tarefas repetitivas de sobrevivência diante da morte, ou, como diz Camus, em que «todo o ser se ocupa em não completar nada», apresentamos uma outra leitura, esta, positiva. A repetição é útil, pois sem ela nada aprenderíamos ou sequer teríamos a oportunidade de evoluir no conhecimento corrigindo os erros. Ela é necessária também para a simples manutenção das necessidades básicas da existência. É fundamental para que exista um passado próprio ou comum, reconhecíveis. Não é possível igualmente sobreviver e evoluir fisicamente (veja-se por exemplo o caso dos atletas olímpicos) e intelectualmente (o caso dos nossos estudantes, artistas, cientistas e investigadores) sem esforço (pónos) persistente, sem resiliência, algo que parece arredado um pouco das «vontades humanas» no nosso mundo atual. É-lhe reconhecida a utilidade pela comunhão e partilha que gera no universo humano, uma vez que, ninguém sendo autossuficiente na íntegra depende do trabalho consistente e persistente de outros para sobreviver e evoluir. Por isso, é tão fundamental e valioso, o trabalho de um pescador como o de um cientista, de um canalizador como o de um filósofo, de um estudante como de um professor. O que o mito de Sísifo parece omitir é o trabalho intelectual, pois, foca-se essencialmente no esforço e trabalho físico do herói em empurrar uma pedra apenas por uma vontade cega ou contrariada. Esta visão da condição humana parece-nos obliterada (redutora), conduzindo a essas famosas interpretações de «absurdo» por ausência de sentido na existência. Não partilhamos esta visão pelas razões apontadas. O Homem nasce livre do simples domínio instintivo e possui mais que outros animais, uma outra dimensão, a intelectual. Viver é um processo inacabado por certo, mas que se constrói e desenvolve em parte através das nossas escolhas. Ora isto é liberdade e não ausência de sentido e constitui a maior oportunidade para o Homem, enquanto criador de cultura, ter a possibilidade de vir a ser mestre do seu próprio ser e condutor e produtor do seu próprio mundo. O Homem só se conhece e evolui enquanto se constrói e o mesmo deveria pautar os nossos sistemas políticos, em particular a nossa tão debilitada Democracia.


1 Este episódio de furto lembra a história de Jacob e Labão (Génesis XXIX e XXX)

2 Sinal que representa a Lua-Cheia

3 Crê-se que a pedra representasse um disco solar

Bibliografia:

GRAVES, ROBERT,(2005), Os Mitos Gregos,Trad. Fernanda Branco,Lisboa: D. Quixote

CAMUS,A., (2002),O mito de Sísifo – ensaio sobre o absurdo, Trad. Urbano Tavares Rodrigues, Lisboa: Editora Livros do Brasil

Citação da Semana:

«As necessidades do corpo são a justa medida do que cada um de nós deve possuir. Exemplo: o pé só exige um sapato à sua medida. Se assim considerares as coisas, respeitarás em tudo quanto faças as devidas proporções. Se ultrapassares estas proporções, serás, por tal maneira de agir, necessariamente desregrado como se um precipício te seduzisse. O sapato é exemplo ainda deste estado de coisas: se fores para além do que o teu pé necessita, não tardará muito que anseies por um sapato dourado, por um sapato de púrpura depois, finalmente por um sapato bordado. Uma vez que se menospreze a justa medida, deixa de haver qualquer limite que justos torne os nossos propósitos.»4

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


4 EPITECTO, Manual de Epitecto Máximas, diatribes e aforismos, Trad. Pedro Alvim, Edições Veja, 1992, XXXIX, p. 105

O Mito de Prometeu

 

Prometeu agrilhoado

O mito agora apresentado em resumo refere-se decisivamente à cisão que há que reconhecer como esforço dos pensadores gregos para separar as questões divinas (da fé) das humanas (da razão). Prometeu, é considerado o herói fundador da humanidade.

 

Súmula:

Prometeu (o previdente), era primo de Zeus, filho do Titã1 Jápeto e da Ninfa2 Clímene e tinha por irmãos Atlas, Menécio e Epimeteu. Num combate que os humanos fizeram contra Crono3, Prometeu aliou-se a Zeus, obtendo a sua simpatia. Atena (deusa da guerra, da civilização, da sabedoria, da arte, da justiça e da habilidade) saída da cabeça de Zeus e de que Prometeu presenciou o nascimento, veio a ensinar-lhe, arquitectura, astronomia, matemática, navegação, medicina, metalurgia e outras artes e ofícios que Prometeu comunicou à humanidade. Zeus não gostou muito que os poderes e habilidades de Prometeu evoluíssem de forma tão ameaçadora. Um dia, tendo estalado um conflito em Sícion4 quanto ao sacrifício de um boi a ser ofertado a Zeus, Prometeu foi chamado a arbitrar a querela. Prometeu, agarrou num boi, dividiu-o em duas partes. Com a pele fez dois sacos com uma abertura. Num meteu toda a carne mas dissimulou-a debaixo das vísceras para parecer menos aprazível. No outro, colocou todos os ossos cobertos de gordura. Zeus, atraído pelo saco que continha a banha, escolheu-o. Quando se apercebe da fraude, explode de raiva, e rancor, e a cólera subiu-lhe à cabeça. Resolve então castigar os homens, negando-lhes a força do fogo (o fogo representa simbolicamente a inteligência do homem). «Que comam a carne deles crua!», terá gritado. No entanto, Prometeu recorreu rapidamente a Atena para que esta o deixasse entrar secretamente no Olimpo (morada dos deuses, uma espécie de céu cristão, a que se contrapõe o Hades semelhante ao inferno). E assim sucedeu. Prometeu acendeu o seu archote no carro de fogo do Sol e dele separou uma brasa incandescente que enfiou no caule oco de um funcho gigante. Depois, extinguiu o seu archote, e restituiu o fogo Olímpico aos homens. Como castigo, Zeus montou-lhe uma armadilha: ordenou ao deus coxo e ferreiro Hefesto (deus do fogo, dos metais e da metalurgia), que criasse uma mulher ideal, fascinante, ao qual os deuses presentearam com alguns atributos de forma a torná-la irresistível. Esta mulher, a primeira mulher, foi baptizada por Hermes como Pandora (a que tudo dá, a que possui tudo). Pandora foi enviada como presente a Epimeteu (o imprevidente), que não lhe resistiu, apesar das advertências do irmão, Prometeu. A vingança planeada por Zeus estava contida numa jarra, que foi levada como presente de núpcias para Epimeteu e Pandora. Quando esta, por curiosidade, abriu a jarra e rapidamente a fechou, escaparam-se todas as desgraças e calamidades da humanidade. Apenas a enganadora esperança restou na jarra o que evitou que toda a humanidade se suicidasse. Prometeu, por sua vez foi castigado ao ser preso nu a uma coluna por correntes inquebráveis que Hefesto fabricou. Enviada por Zeus um abutre castigava-o debicando-lhe o fígado durante o dia. De noite, o fígado voltava a regenerar-se. Tudo teria permanecido assim se, Herácles (Hércules) não tivesse obtido autorização de seu pai, Zeus, para abater o animal.


Comentário:

À parte das peripécias e dos jogos de desonestidade que tanto Deuses e Homens revelam e, é preciso não esquecer que os Deuses gregos tinham características muito humanas, revelando inteligência, sentimentos e emoções, quatro elementos parecem essencialmente ressaltar deste mito: a criação, a inteligência, o sofrimento e a esperança.

Relativamente à criação apercebemo-nos de que a mesma tem origem divina, segundo o mito. Senão refira-se o ensino que Atena ministra a Prometeu e que este transmite à raça humana, dando origem a todo o tipo de profissões e de ofícios que o Homem necessita para ser senhor do seu destino e do qual se tornará criador pela Cultura. Refira-se também aqui, a criação da primeira mulher, Pandora, com atributos de bela, sedutora, má, preguiçosa, uma espécie de Eva que seduz Adão com a maçã. Os grupos feministas certamente que já estarão ao corrente desta visão pouco favorável e que parece transversal a muitas culturas anciãs e contemporâneas, de Norte a Sul e de Oriente a Ocidente.

Relativamente à inteligência, se é certo que é Atena a inteligência saída da cabeça de Zeus (ou o Verbo, na tradição judaico-cristã, futuro Lógos da filosofia grega), que providencia por mediação de Prometeu aos homens a capacidade de se emanciparem por via do espírito e da arte de pensar e produzir - da mera «carne crua» dos instintos e da corporalidade - também é certo, que é a disputa entre Zeus e Prometeu pelo fogo, que parece constituir a acendalha potenciadora do despertar de todas essas capacidades humanas, através das suas múltiplas manifestações e criações culturais.

Não menos relevante, é a questão que emerge da fuga de todos os males da jarra (e não caixa) de Pandora e que inevitavelmente causam toda a espécie de sofrimento à humanidade. E o significado do sofrimento de Prometeu, enfraquecido pelas vísceras, as tais que ele próprio adulterou no sacrifício oferecido a Zeus, mas de que foi por fim liberto. Há portanto que batalhar, resistir ao sofrimento, criar, produzir, usar a inteligência e ter esperança, porque a Humanidade não está concluída, nem é desprovida de capacidades ou da esperança de poder evoluir e melhorar.

 1 - Titãs classe de divindades muito antigas incluídas na mitologia grega e que quase sempre entraram em combate com Zeus .

 2 - Ninfas - deriva do grego nimphe, que significa "noiva", "velado", "botão de rosa", tendo muitos outros significados. As ninfas são espíritos, habitantes dos lagos e riachos, bosques, florestas, prados e montanhas.

3 - Crono O mais jovem dos titãs, nascido de Úrano, o Céu e de Gaia ou Geia, a Terra. [distinguir de Cronos (Khronos) deus doTempo]

4 - Sicion ou Sicião - cidade grega situada no Peloponeso

Bibliografia:

GRAVES, ROBERT,(2005), Os Mitos Gregos,Trad. Fernanda Branco,Lisboa: D. Quixote

HESÍODO,(2005), Teogonia – Trabalhos e Dias, Trad. Ana Elias Pinheiro e José Ribeiro Ferreira,Lisboa:INCM, 14-105, pp. 93-96 Referências retiradas da “Encyclopedia Mythica “ na world wide web em 18/11/2011: [http://www.pantheon.org/]

18/11/2011

 Comentário da semana:

«Se se arranca um cabelo a um homem que tem muitos, não é por isso que ele é calvo; tão- pouco se lhe arranca um segundo e um terceiro, etc. No entanto, chegará um momento em que aparecerá calvo, mas a partir de que número de cabelos arrancados poderemos dizer que nos encontramos perante um calvo?»5


Nota: Este paradoxo filosófico exige também que se reflicta sobre a forma como se adjectivam as pessoas, quando se observam determinadas formas de actuação (Ex.: estúpido, mentiroso, ladrão, invejoso, ambicioso, etc.).

O Mito de Posídon

 

Poseidon


Súmula:

As origens do nome do deus Posídon ou Poseidão são pouco claras. Há quem o associe com Deméter a mãe da Terra, partindo do [grego πόσις (posis), senhor ou esposo + δᾶ (da), terra]. Outros interpretam Poseidão a partir do grego como Posei-dawōn ou senhor das águas. Existem no entanto outras interpretações.

Posídon ou Neptuno, como na mitologia Romana era conhecido, era filho de Cronos (deus do tempo) e de Reia (deusa mãe). Tinha três irmãs, Deméter, Héstia e Hera e dois irmãos, Zeus e Hades com os quais destronou o seu pai. Deste modo, Posídon ficou com o mar, Zeus com os céus e Hades com o reino das trevas.

A sua vida solitária no reino das profundezas era enorme, pelo que começou a cortejar Tétis (deusa do mar). No entanto, como uma profecia afirmava que qualquer filho de Tétis tornar- se-ia mais importante que o pai, rapidamente desistiu da ideia. Tentou também seduzir Anfitrite (o mar). De início sem sucesso. Enviou-lhe então diversos mensageiros. Um deles, cujo nome era Delfino, conseguiu-a persuadir a casar-se com ele. Como agradecimento, Posídon colocou entre as estrelas a imagem de Delfino, em forma de constelação, com o nome Delfim. Dessa união resultaram três filhos chamados Tritão (ser meio humano e meio peixe que simboliza a lua nova), Rodes (a lua cheia das colheitas) e Bentésicime (a perigosa lua minguante ou velha) e muitas outras ninfas marinhas. Posídon tinha imensas aventuras amorosas com deusas, ninfas e até mortais, o que enchia de ciúmes Anfitrite. A relação de Posídon com Cila («a que rasga» ou «cachorra») enfureceu-a de tal modo, que Anfitrite resolveu deitar-lhe ervas mágicas no tanque onde esta habitualmente se banhava. Deste modo, transformou-a num monstro de seis cabeças e doze patas que passava o tempo a uivar. Posídon tinha um desejo ávido por reinos terrestres e, um dia, declarou-se rei da Ática, espetando o seu tridente na Acrópole sob os protestos da deusa Atena, que considerava a cidade sua. Os deuses fizeram uma reunião no Olimpo e decretaram então que a cidade seria daquele que oferecesse o presente mais útil aos mortais. Posídon criou então com o seu tridente, a partir de uma pedra, o cavalo. Atena, apresentou a oliveira. Avaliando as ofertas, os deuses concederem a Atena a cidade. Irritado, Posídon fez soltarem-se enormes vagas que inundaram toda a planície onde ficava a cidade. Para apaziguar a ira de Posídon as mulheres de Atenas foram privadas do direito de voto e aos homens foi-lhes interdito usarem o nome das mães. Sequioso de mais terras passava a vida em conflito com os outros Deuses que acabaram por o proibir de causar mais inundações. Tendo perdido uma disputa com Hera sobre a posse da Argólida e sem poder recorrer a inundações, resolveu secar todos os cursos de água dos que haviam sido seus juízes. Porém, por amor a Amimone, uma das Danaides, fez com que o rio de Lerna, na Argólida, voltasse a correr permanentemente. Posídon envolveu-se ainda com a sua irmã, Deméter. Esta, para fugir ao seu assédio transformou-se em égua. Mas, Posídon metamorfoseou-se em garanhão e cobriu-a. Deméter enfureceu-se de tal modo que passou a ser conhecida como a «Deméter em Fúria». Dessa ultrajante relação nasceu a ninfa Despoína e o cavalo selvagem Aríon.


Comentário:

Os mitos têm um carácter polissémico, i.e., possuem diversos sentidos. Falam de Deuses e Deusas, com poderes especiais, mas também, com sentimentos e comportamentos verdadeiramente humanos. Este, em particular, começa por relatar a traição dos filhos em relação ao próprio pai, Cronos, tudo por causa da herança do universo, neste caso, tripartido em três regiões, o mundo da luz, o céu, sendo Zeus o deus do raio (tal como na mitologia nórdica, Thor era o deus do trovão), o mundo das trevas do obscuro e infernal e o mar que com a sua energia, fluidez e agitação se assemelha muito à vida. O que Posídon fez ao ajudar a destronar seu pai, não o quis para si, desistindo da sua atração por Tétis. Freud, conhecido como o pai da psicanálise, irá mais tarde, falar no complexo de Édipo deste desejo de matar simbolicamente o pai, de o destronar. Pode-se eventualmente aqui vislumbrar uma certa

forma de iniciação da juventude com a passagem à fase adulta e o assumir de todas as responsabilidades inerentes. Mas, também se pode entender como uma nova forma de repartição do poder e de passagem de uma autocracia (poder por si próprio, de um só) para uma oligarquia (governo de poucos). Inevitavelmente, os mitos, enraízam-se também na realidade. Alguns, como este, estão intimamente ligados à vida dos homens, às lutas relativas à estruturação da organização social (passagem do matriarcado ao patriarcado) e a formas de organização do tempo, de carácter astrológico e religioso (passagem dos cultos lunares para os cultos solares). O episódio em que as mulheres de Atenas cedem o seu direito de voto e os homens deixam de usar o nome da mãe, apenas para apaziguar a ira de Posídon, é disso um exemplo que faz-nos também refletir sobre a luta imensa travada pelas mulheres para recuperar de novo o direito a voto (início do século XIX até meados do século XX - em Portugal só a partir de 1931 - ). Igualmente faz-nos repensar nas evoluções e retrocessos que a humanidade ao longo da sua existência atravessou. Posídon era um deus, sequioso de terras. Nesse desejo de obter posses materiais não se diferencia muito dos humanos, basta lembrar como se constituíram Impérios ou como ainda se vive numa sociedade materialista e consumista, numa civilização sempre mais virada para o «Ter», do que para o «Ser». Posídon encarna, tal como quase todos os «doze deuses» do Olimpo (morada dos deuses) , uma espécie de Don Juanismo (libertinagem sexual) ainda tão presente nos comportamentos humanos. Falei nos doze deuses Olímpicos porque de facto os números estão inevitavelmente ligados, desde a antiguidade, a qualquer forma de expressão e organização humana. O tridente de Neptuno é apenas um exemplo. O mesmo número é passível de se encontrar no trisquel celta (símbolo com três espirais, em que duas entram e saem de um círculo - representando os dois movimentos que compõem a dualidade das forças em permanente interação da natureza - e uma terceira que representa o equilíbrio entre as outras duas), bem como, em tantos outros símbolos da antiguidade e da modernidade. Se pensarmos, por exemplo, na figura geométrica que constitui o triângulo, na tríade divina - pai, filho e espírito santo -, no ciclo da vida - nascimento, vida e morte - , na divisão - corpo, mente e espírito- , nas primevas estações do ano - primavera, verão e inverno -, etc., compreenderemos melhor até que ponto os números nos influenciaram e influenciam o pensamento.

Embora houvesse muito mais a considerar, termino, com uma referência à relação incestuosa existente entre Posídon e Deméter. Não se podem interpretar os mitos à letra, mas, também, não é possível fugir completamente à sua letra. É uma realidade que Posídon está intimamente conotado com o mar e com a criação e as corridas de cavalos. Sabe-se bem a importância e utilidade que os cavalos tiveram em toda a História da Antiguidade e, que, se estendeu até meados do século XX. Porém, muita da documentação antiga que nos chegou é prolífica em relatos de situações incestuosas. Não há que esconder, que, ao longo da história da Antiguidade, Idade Média, Renascimento e Modernidade, se praticaram inúmeros casamentos incestuosos, entre membros das mesmas famílias, com o intuito de preservar no seu seio as suas possessões e de aumentar o valor do seu poder. Só com o advento da medicina e da genética se começou a entender melhor os perigos da consanguinidade. Este tema do incesto é aliás comum em muita da literatura universal e nacional. Desta última, e em boa parte da sua obra, é disso, exemplo, o nosso ilustríssimo escritor Eça de Queirós.

 

Bibliografia:

GRAVES, ROBERT,(2005), Os Mitos Gregos,Trad. Fernanda Branco,Lisboa: D. Quixote

Poseidon. Encyclopedia  Mythica. Acedido  em  13/01/2012  da  Encyclopedia Mythica Online,

http://www.pantheon.org/articles/p/poseidon.html

Greek Mythology : Gods & Goddesses: Sea Gods. Acedido em 13/01/2012 da Theoy Greek Mythology.,http://www.theoi.com/

 

Citação da Semana:

«Sábio é todo aquele que se deixa ensinar. Maravilha é todo aquele que, quando ensinado, o reconhece.»1