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| Ericeira |
segunda-feira, 24 de abril de 2023
The undoubtable
domingo, 16 de abril de 2023
Bem haja!
Bem haja pela Terra, pela Lua, pelo Sol. Bem haja pelos Oceanos, pelas plantas, pelos animais, pela litosfera. Bem haja, pela música, pela literatura e por todas outras artes, de ofício ou não, sem as quais o quotidiano seria insuportável. Bem haja pela filosofia, pela ciência e até pela religião e pela política. Bem haja pelos homens e mulheres de bem, pelos que lutam corajosamente e honestamente para que nada falte nas suas e nossas vidas. Bem haja pela vida e pela morte, pela saúde e pela doença. Em suma, bem haja!
Porquê, bem haja? Por que esquecemos, banimos, eclipsámos ou enterrámos, o agraciar, o agradecer, o bem dizer, o apreciar, o rejubilar, o abençoar !?
O Homem aflito não tem tempo, alimentado que é pela voracidade do imediato, do tudo pronto, do tudo resolvido, do tudo feito, ou seja, furtando-se ao verdadeiro fruir do aprender ao fazer, atormentado pela totalidade do tudo ou nada. O Homem aflito é também aquele cuja mesura é a desmesura, o incontido, o desenraízado, o perdido e que procurando ou não uma salvação que não existe, esbraceja, ri ou chora des-alma-da-mente, o Homem que se joga na abertura imensa do que não é sua natureza, numa fúria desenfreada de transgredir os seus inultrapassáveis limites. O Homem aflito é também o Homem que se esqueceu de si. Num mundo completamente espelhado onde a sua imagem se multiplica ao infinito, perde-se na perspectiva dos seus reflexos e desencontra-se de si mesmo.
Bem haja é não só dar graças mas bem agir! No acto de gratidão reconhecemos e encontramos o Outro, sejam os seres, sejam as coisas, ou seja, abri-mo-nos para o que está e é além de nós, quebramos a solidão, a cadeia narcísica do nosso ente, transcende-mo-nos, emula-mo-nos.
Bem haja, que haja vida e o seu ciclo natural a morte, a doença e a saúde, para que tudo se regenere.
sexta-feira, 14 de abril de 2023
O quê?
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| Barca de S. Vicente (Palácio dos Coruchéus) |
Sim, o quê? Quando julgamos estar nas últimas, sermos quase os protagonistas dos reis da tragédia eis que, a realidade nos ultrapassa vários furos (termo usado nos primórdios da computação moderna quando se usavam cartões perfurados) acima.
Pior, se houvesse um Deus, ou algum ser que realmente zelasse pela nossa humilde precaridade heróica, talvez se evitassem estas terríveis tragédias.
Claro que a necessidade aguça o engenho e que de uma forma ou outra este bichinho pestilento tem de se virar/adaptar. Não há outro caminho. Ou em frente, ou nada! Contudo, é preciso ponderar o "em frente". Não se trata de justificar todo o tipo de atropelamentos, atrocidades e iniquidades só por que só se pode caminhar encarando as circunstâncias. Pelo contrário, sabendo que o caminho é finito é preciso ponderar muito bem cada passo, cada palavra, cada acto.
De pouco interessam as memórias dos que nos sobrevivem. A urgência, raramente existe. A pressa é inimiga da perfeição. E, nada é irresolúvel excepto a morte. O que interessa é a ponderação e a organização disciplinada das directrizes que tomamos para a nossa vida, independentemente de termos tempo e oportunidade para o concluir até ao equilibrium. E pode haver diversos equilíbrios, muitas paragens, muitas encruzilhadas, muitos pontos de fuga, etc. No fim, só a nós caberá sopesar se houver essa oportunidade e tudo parecerá quase insignificante e auto-resolúvel mesmo que as soluções em nada dependam de nós.
Gostei muito de vos conhecer e de ter desfrutado a vida na vossa companhia e de algumas pequenas realizações minhas e é tudo!
A morte é soberana na sua garantia de que a ela ninguém escapa. Portanto, seja o que for, suceda o que tiver de suceder. Fomos ou somos livres ? Sim, fomos e somos, até mesmo ao último e derradeiro segundo! Dirão, mas o que podes escolher ? Por exemplo, sorrir ou chorar, bendizer ou maldizer, etc. Somos livres sim e mais, muito mais fortes e corajosos do que supomos.
Um abraço, uma vénia e o nosso respeito!
terça-feira, 11 de abril de 2023
Imbecis com 7 cabeças
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| Hércules lutando com a hidra de Lerne |
Duas questões essenciais:o que podemos ou não experimentar ? O que podemos ou não aprender?
Nao podemos experimentar o zero absoluto, por exemplo. (-273,15°C). Mesmo executando a experiência são as máquinas e os aparelhos que experienciam, não nós humanos, que apenas consultamos o resultado nos aparelhos. Se experienciássemos isto morreríamos.
Mas podemos experimentar o amor com pessoas, animais e coisas diferentes (este último nunca retribuído). Isso não significa que amemos tudo do mesmo modo, com a mesma intensidade. Podemos amar avó, mãe, irmã, prima, cunhada mas, certamente serão amores diferentes e de graus e intensidades diferentes e onde o sexo não deverá estar presente. Se estiver, então um psiquiatra será recomendável. O mesmo se passa como avô, pai, irmão, primo, cunhado.
Poderia aqui discutir atração pelo mesmo sexo ou até a bissexualidade. Acredito, que se possa amar uma pessoa do mesmo sexo e até mais do que uma pessoa, do mesmo ou de diferentes sexos contendo atração sexual. Contudo, essas relações com mais de um parceiro nunca serão muito pacíficas e, muito menos, simples e totalmente satisfatórias. Se formos a ver, nem sequer as relações heterossexuais são sempre simples e satisfatórias. Porém é diferente gerir conflitos entre dois do que em maior número, em geral. A racionalidade o aponta.
No entanto, há medida que os relacionamentos se destipificam diversificando e embora não esteja em causa a liberdade sexual da pessoa, pode estar em causa a saude mental dessas pessoas. E convém nao reduzir sexo a amor e vice-versa. Muita atitude hoje em dia aceite, não passa de perturbação.
Há casos em que se nascendo de um sexo se sente pertencer a outro. É inegável. Não são a norma! Mas, também não são uma aberração. Há que lidar com estas situações com delicadeza, compreensão e muito apoio quer de amor, quer técnico-cientifico e simplesmente aceitar sem preconceito algum. Porém, não podemos nem adoptar uma atitude de aceitar tudo isto com a ligeireza e os modismos culturais que muitos nos tentam impor, sem uma reflexão séria nem numa atitude laxista de que tudo é aceitável, permissível e normal.
Normal vem de norma que significa o que é lei, mais universal e não podemos tratar por ignorância, por desleixo ou por modismos culturais, o que não é o normal tomando-o como tal, sob o risco de nos tornarmos imbecis!
Podemos sim, sentir amor por outros animais (cavalos, cobras, ratos, vacas, cabras, porcos, tarântulas, cães, gatos, iguanas, erc.). Embora alguns idiotas defendam que os animais também os amam, não nos podemos deixar enganar. Pode haver troca de afectos entre animais e humanos mas nunca será uma relação equitativa sobretudo do lado do animal não humano. Isto, mesmo que o animal salve o dono. Aliás usei esta expressão por que era a mesma que se usava com os escravos mas, não é por isso que um outro animal pode amar qualquer ser humano de forma igual. A razão é simples: algum bichinho sem ser humano ora a Deus? Pinta por iniciativa própria? Cria naves espaciais para ir ao espaço? Cria instrumentos para salvar a vida de outros ? Não! Claro que os bichinhos podem sentir afectos pelos humanos (dentro de uma ordem social e segundo um grau) mas sempre dentro de um grau super limitado e nada mais. Chamar a isso Amor é uma imbecilidade ou, pelo menos um comportamento a roçar o delírio que talvez merecesse tratamento.
Portanto, há sempre que saber caso a caso, cada situação, avaliar a sua complexidade e só depois haver pronunciamento. Até lá devemos aprender a conviver com as diferenças o que não significa aceitá-las sequer (imagine-se se aceitaria alguém que o quisesse matar) e evitar quer generalizações pseudo-modernistas de que vale tudo ou enraizadas numa tradição em que nada de novo vale alguma coisa.
segunda-feira, 10 de abril de 2023
Párias de um país das maravilhas.
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| Só gente incompetente! |
Sem vergonha é um país governado por políticos para quem as estatísticas valem mais do que os seus compatriotas.
Ao governo apesar dos escândalos por que as estatísticas apontam para que um certo partido conotado com a direita seja o segundo mais votado e o maior partido da oposição não tenha maioria, dirigido por um mavioso corrupto e que tem tanto de inteligência como falta de sorrisos cínicos e imbecis.
Para mim isto é uma vergonha, uma falta de coragem e uma conivência com um status quo de mediocridade que cada vez mais impera nas nossas estruturas de poder.
Mediocridade e falta de vergonha! Marcelo é tão mediocre como o governo que sustenta ao nada fazer para terminar com "as faltas, falcatruas, incompetências" e pelo contrário, depois de ter gritado "ó da guarda" se remeter ao silêncio, dizendo "não foi nada".
Marcelo trata os portugueses como imbecis, arvorando-se uma maturidade democrática e uma sapiência política incomum de que não é proprietário.
sábado, 8 de abril de 2023
Respeito é muito trabalho
Se pretende respeito, principie por se respeitar a si mesmo, não há outro caminho.
Mas respeito o que é ?
Tratar-se adequadamente de modo a que nada de básico e fundamental lhe falte. Mas falta-nos tanta coisa? Pois sim, mas, trata-se apenas de tomar como fiel da balança o evitar excessos e carências. Dominar-se e controlar-se a não querer ou desejar mais do que for o estritamente necessário para uma vida saudável, activa e satisfatória e auto disciplinar-se exercitando-se nesse controlo.
Alguns dirão mas, a satisfação de cada um é tão diferente de pessoa para pessoa? Sim, é!
Mas, todos deveriam saber estabelecer pelo menos o mínimo básico do que os satisfaria, sem querer o céu e a terra, sem exageros e, relativamente a coisas que, como dizia Epicuro, dependam essencialmente de cada um de nós e nada de outros.
Ora, como vivemos com outros, nem sempre as vontades e realizações humanas, convergem, coexistem, cooperam e antes pelo contrário se atropelam e colidem numa competição desenfreada. É natural e normal.
Solução? Aprender a viver com as diferenças, escolher aliados convergentes para o não essencial (para consigo próprio) e ignorar tudo o resto.
A nossa vida está cheia de limites mas, não é por isso que, não somos livres de julgar/escolher/decidir. Se perdemos a liberdade é por que nos afastámos de nós e nos acabámos por perder, algures no caminho.
Também não é preciso derramar lágrimas ou lamentar. Quem nunca se perdeu, certamente nunca se encontrou. Por que perder-mo-nos faz parte do que somos. Nem. Sempre temos a bússola afinada, há campos magnéticos e mil outras interferências.
Pratiquem este exercício, marquem os vossos trilhos todos interiormente. Sempre que se perderem voltem ao marco anterior. Assim saberão que nunca andarão perdidos, embora, nem todos consigam caminhar até ao fim do Labirinto onde habita a flôr e, certamente muitos avanços e recuos qualquer percurso terá.
sexta-feira, 7 de abril de 2023
Ecce Homo
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| Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci |
O Pomo da Discórdia
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| Peter Paul Rubens: O julgamento de Páris; 1638; Museo Nacional del Prado. |
O grande banquete, na imensa corte do Olimpo, estava no fim. Os deuses, no aspecto físico, são diferentes dos mortais somente pela estatura, a força, a beleza e o dom de uma eterna mocidade, mas dos homens, possuem todas as paixões: o amor e o ódio, a ira e a inveja; são, por vezes, cruéis e, por vezes, generosos. Eles transcorrem os dias alegremente, mas todos estão sujeitos a um poder superior: as Moiras, o Destino, filhas da Noite, às quais nem mesmo Zeus pode opôr-se.
Subitamente, no amplo salão, baixou o silêncio. Todos os olhares convergiram para uma estranha figura, que surgira no limiar da porta: Eris, a única deusa não convidada. É briguenta - disseram os anfitriões - e seria capaz de estragar a festa, com suas maledicências. E agora, ei- la ali, no silêncio embaraçoso dos convivas. Chegara junto ao triclínio, onde estavam sentados os deuses maiores, a maléfica criatura tirou da túnica uma maçã de ouro e lançou-a sobre uma das mesas, exclamando:
- Eis o meu presente! É para a mais bela das deusas!
Dito isto, a deusa da discórdia desapareceu.
Depois de alguns segundos de espanto, cada uma das três deusas que estavam
à mesa, Atena, Hera e Afrodite, estendeu a mão para o reluzente pomo, mas logo
se contiveram, surpresas, e entreolharam-se. Zeus, o senhor dos deuses, que
observava a cena em silêncio, sorriu e interveio:
- O único meio para saber-se qual de vós é a mais bela e estabelecer,
portanto, a quem pertence o Pomo da Discórdia, é recorrer a uma arbitragem.
Escolhei, entre os mortais, um árbitro de vosso agrado e acatai sua decisão.
Como sempre, Zeus sentenciara sabiamente. Após ponderada reflexão, as três
rivais concordaram em confiar sua sorte ao mais belo entre os mortais, ao jovem
príncipe Páris de Alexandre. Este moço vivia, desde seu nascimento, ignaro de
sua real ascendência, entre os pastores do monte Ida. Um oráculo predissera que
ele seria a ruína da cidade de Tróia, e sua mãe, desobedecendo às ordens do
marido, que depois da profecia resolvera matá-lo, ocultara-o na montanha.
Assim, uma bela manhã, o belíssimo rapaz viu aparecerem diante de si,
enquanto vigiava seu rebanho, em uma concha relvosa e solitária, três
maravilhosas raparigas. Deram-lhe o pomo, explicaram-lhe o que desejavam dele,
e cada uma delas, em seu íntimo, fez-lhe uma promessa. Atena prometeu- lhe
sabedoria. Hera, o poder; Afrodite, a pequena deusa nascida da espuma do mar,
prometeu-lhe a mais linda mulher do mundo. A seguir, as três beldades
perfilaram-se diante de Páris. Este hesitou um átimo, depois entregou o pomo a
Afrodite, que o agarrou feliz, enquanto as outras duas se afastavam, fulas de
raiva.
Instruído por Afrodite, Páris rumou para os vales, pela encosta do monte Ida, até Esparta. Reinava em Esparta, pequena cidade da Grécia, o jovem príncipe Menelau e sua esposa Helena, a mais bela mulher do mundo.
Comentário:
O Mito de Sísifo
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| O mito de Sísifo |
Súmula:
Sísifo,
filho do rei Éolo,
da Tessália, e Enarete, era considerado o
mais astuto de todos os mortais. Passava a vida a desafiar os Deuses. Foi o
fundador e primeiro rei da cidade de Corinto
(antiga Éfira). Casou-se com Mérope,
filha de Atlas, sendo pai de Glauco, Ornito e Sínon. Era vizinho de Autólico (mestre da magia
e do disfarce, filho de Hermes) e que todas as noites lhe roubava o gado,
metamorfoseando-se em animal.1 Como
resultado, o seu rebanho diminuía e o de Autólico ia aumentando. Suspeitando de
Autólico e sem possuir provas, arquitectou um plano e resolveu marcar os cascos
dos seus animais com o símbolo SS (ᴄᴐ)2. Este método resultou pois, os animais
deixaram um rasto que seguia até ao estábulo do seu vizinho. Convocando uma
multidão de testemunhas levou-os consigo até à presença de Autólico e, deixando
esta a ajustar contas com o larápio
afastou-se da confusão para ir seduzir Anticleia (filha de Autólico) que veio a
gerar Odisseu (filho bastardo de Sísifo).
Tendo Júpiter
raptado a filha de Asopo
(deus rio), Egina, este dirigiu-se a Corinto à sua procura. Sísifo sabia perfeitamente o que
lhe havia sucedido, mas só com a condição de Asopo fornecer a fonte de Pirene a
Corinto se prontificou a revelar-lhe o sucedido, revelando um segredo dos
deuses. Pela veleidade foi condenado e, como punição, foi conduzido por Hades
(o deus do mundo subterrâneo - inferior - e dos mortos, irmão de Zeus) ao
Tártaro (Inferno) onde, colocando as algemas nas mãos de Hades lhe pediu que
explicasse como funcionavam. Quando
este o fez, rapidamente Sísifo as fechou. Hades foi assim ludibriado por Sísifo
que se evadiu do Tártaro e aprisionando Hades na sua casa. Isto tornou
impossível que os homens, mesmo que lhes cortassem a cabeça pudessem morrer –
semelhança com os zombies – o que enfureceu Plutão que ordenou a Ares o Deus da
Guerra para libertar Hades e remetendo Sísifo de novo para o Tártaro. Porém, o
astuto Sísifo, antes de descer, deu instruções à mulher para que não o
enterrasse e quando lá chegou invocou diante de Perséfone (rainha do mundo dos mortos e filha de Zeus e Deméter – deusa da
agricultura) que era uma pessoa insepulta e portanto que não poderia ali
permanecer. Prometendo-lhe que voltaria dentro de três dias para resolver o
problema, esta acedeu a libertá-lo. Sísifo nunca pensou cumprir e não voltou.
Hermes foi chamado a forçar Sísifo a regressar tendo Sísifo sofrido um castigo
exemplar. Os juízes dos infernos apresentaram-lhe um enorme bloco de pedra3
e ordenaram-lhe que a fizesse rolar até ao cume de uma montanha e a deixasse
cair para o outro lado. Porém, Sísifo nunca conseguiu sequer chegar ao cume,
movido pelo cansaço, acabava por deixar a pedra rolar montanha abaixo, tendo no
entanto, que voltar a agarrá-la e recomeçar tudo de novo, castigo que lhe foi
aplicado enquanto vivesse.
Contrariamente
às leituras correntes deste mito, que colocam ênfase no «absurdo
da condição humana» vazia de sentido, porque ligada, inexoravelmente às
tarefas repetitivas de sobrevivência diante da morte, ou, como diz Camus, em
que «todo o ser se
ocupa em não completar nada», apresentamos uma outra
leitura, esta, positiva. A repetição
é útil, pois sem ela nada
aprenderíamos ou sequer teríamos a oportunidade de evoluir no conhecimento
corrigindo os erros. Ela é necessária também para a simples manutenção das
necessidades básicas da existência. É fundamental para que exista um passado
próprio ou comum, reconhecíveis. Não é possível igualmente sobreviver e evoluir
fisicamente (veja-se por exemplo o
caso dos atletas olímpicos) e intelectualmente (o caso dos nossos estudantes,
artistas, cientistas e investigadores) sem esforço (pónos) persistente, sem
resiliência, algo que
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1 Este episódio de furto lembra a história de Jacob e Labão (Génesis XXIX e XXX)
2 Sinal que representa a Lua-Cheia
3 Crê-se que a pedra representasse um disco solar
Bibliografia:
GRAVES, ROBERT,(2005), Os Mitos Gregos,Trad. Fernanda
Branco,Lisboa: D. Quixote
CAMUS,A., (2002),O mito de
Sísifo – ensaio sobre o absurdo, Trad. Urbano Tavares Rodrigues, Lisboa: Editora Livros do Brasil
Citação da Semana:
«As necessidades do corpo são a justa medida do que cada um de nós deve possuir. Exemplo: o pé só exige um sapato à sua medida. Se
assim considerares as coisas, respeitarás em tudo quanto faças as devidas
proporções. Se ultrapassares estas proporções, serás, por tal maneira de agir,
necessariamente desregrado como se um precipício te seduzisse. O sapato é
exemplo ainda deste estado de coisas: se fores para além do que o teu pé
necessita, não tardará muito que anseies por um sapato dourado, por um sapato
de púrpura depois, finalmente por um sapato bordado. Uma vez que se menospreze
a justa medida, deixa de haver qualquer limite que justos torne os nossos
propósitos.»4
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4 EPITECTO, Manual de Epitecto
– Máximas, diatribes e aforismos, Trad.
Pedro Alvim, Edições
Veja, 1992, XXXIX,
p. 105
O Mito de Prometeu

Prometeu agrilhoado
O
mito agora apresentado em resumo refere-se decisivamente à cisão que há que
reconhecer como esforço dos pensadores gregos para separar as questões divinas (da fé) das humanas (da
razão). Prometeu, é considerado o herói fundador da humanidade.
Súmula:
Prometeu
(o previdente), era primo de Zeus,
filho do Titã1 Jápeto e da
Ninfa2 Clímene e tinha por irmãos Atlas, Menécio e Epimeteu. Num
combate que os humanos fizeram contra Crono3, Prometeu aliou-se a
Zeus, obtendo a sua simpatia. Atena (deusa
da guerra, da civilização, da sabedoria, da arte, da justiça e da habilidade)
saída da cabeça de Zeus e de que Prometeu presenciou o nascimento, veio a
ensinar-lhe, arquitectura,
astronomia, matemática, navegação, medicina, metalurgia e outras artes e
ofícios que Prometeu comunicou à humanidade. Zeus não gostou muito que os
poderes e habilidades de Prometeu evoluíssem de forma tão
ameaçadora. Um dia, tendo estalado um conflito em Sícion4 quanto ao sacrifício de um boi a ser
ofertado a Zeus, Prometeu foi chamado a arbitrar a querela. Prometeu, agarrou
num boi, dividiu-o em duas partes. Com a pele fez dois sacos com uma abertura.
Num meteu toda a carne mas dissimulou-a debaixo das vísceras para parecer menos
aprazível. No outro, colocou todos os ossos cobertos de gordura. Zeus, atraído
pelo saco que continha a banha,
escolheu-o. Quando se apercebe da fraude, explode de raiva, e rancor, e a
cólera subiu-lhe à cabeça. Resolve então castigar os homens, negando-lhes a
força do fogo (o fogo representa
simbolicamente a inteligência do homem). «Que comam a carne deles crua!»,
terá gritado. No entanto, Prometeu recorreu rapidamente a Atena para que esta o
deixasse entrar secretamente no Olimpo (morada
dos deuses, uma espécie de céu cristão, a que se contrapõe o Hades semelhante ao inferno). E
assim sucedeu. Prometeu acendeu o seu archote no carro de fogo do Sol e dele separou
uma brasa incandescente que enfiou no
caule oco de um funcho gigante. Depois, extinguiu o seu archote, e restituiu o
fogo Olímpico aos homens. Como castigo,
Zeus montou-lhe uma armadilha: ordenou ao deus coxo e ferreiro Hefesto (deus do fogo, dos metais e da metalurgia),
que criasse uma mulher ideal, fascinante, ao qual os deuses presentearam com
alguns atributos de forma a torná-la irresistível. Esta mulher, a primeira
mulher, foi baptizada por Hermes como Pandora (a que tudo dá, a que possui tudo). Pandora foi enviada como
presente a Epimeteu (o imprevidente),
que não lhe resistiu, apesar das advertências do irmão, Prometeu. A vingança
planeada por Zeus estava contida numa jarra, que foi levada como presente de
núpcias para Epimeteu e Pandora. Quando esta, por curiosidade, abriu a jarra e
rapidamente a fechou, escaparam-se todas as desgraças e calamidades da humanidade. Apenas a enganadora
esperança restou na jarra o que evitou
que toda a humanidade se suicidasse. Prometeu,
por sua vez foi castigado ao ser
preso nu a uma coluna por correntes inquebráveis que Hefesto fabricou. Enviada
por Zeus um abutre castigava-o
debicando-lhe o fígado durante o dia. De noite, o fígado voltava a
regenerar-se. Tudo teria permanecido assim se, Herácles (Hércules) não tivesse obtido autorização de seu pai, Zeus, para
abater o animal.
Comentário:
À parte das
peripécias e dos jogos de desonestidade que tanto Deuses e Homens revelam e, é
preciso não esquecer que os Deuses gregos tinham características muito humanas, revelando
Relativamente à criação apercebemo-nos de que a mesma tem origem divina, segundo o mito. Senão refira-se o ensino que Atena ministra a Prometeu e que este transmite à raça humana, dando origem a todo o tipo de profissões e de ofícios que o Homem necessita para ser senhor do seu destino e do qual se tornará criador pela Cultura. Refira-se também aqui, a criação da primeira mulher, Pandora, com atributos de bela, sedutora, má, preguiçosa, uma espécie de Eva que seduz Adão com a maçã. Os grupos feministas certamente que já estarão ao corrente desta visão pouco favorável e que parece transversal a muitas culturas anciãs e contemporâneas, de Norte a Sul e de Oriente a Ocidente.
Relativamente à inteligência, se é certo que é Atena a inteligência saída da cabeça de Zeus (ou o Verbo, na tradição judaico-cristã, futuro Lógos da filosofia grega), que providencia por mediação de Prometeu aos homens a capacidade de se emanciparem por via do espírito e da arte de pensar e produzir - da mera «carne crua» dos instintos e da corporalidade - também é certo, que é a disputa entre Zeus e Prometeu pelo fogo, que parece constituir a acendalha potenciadora do despertar de todas essas capacidades humanas, através das suas múltiplas manifestações e criações culturais.
Não menos relevante, é a questão que emerge da fuga de todos os males da jarra (e não caixa) de Pandora e que inevitavelmente causam toda a espécie de sofrimento à humanidade. E o significado do sofrimento de Prometeu, enfraquecido pelas vísceras, as tais que ele próprio adulterou no sacrifício oferecido a Zeus, mas de que foi por fim liberto. Há portanto que batalhar, resistir ao sofrimento, criar, produzir, usar a inteligência e ter esperança, porque a Humanidade não está concluída, nem é desprovida de capacidades ou da esperança de poder evoluir e melhorar.
2 - Ninfas - deriva do grego nimphe, que significa "noiva", "velado", "botão de rosa", tendo muitos outros significados. As ninfas são espíritos, habitantes dos lagos e riachos, bosques, florestas, prados e montanhas.
3 - Crono – O mais jovem dos titãs, nascido de Úrano, o Céu e de Gaia ou Geia, a Terra. [distinguir de Cronos (Khronos) – deus doTempo]
4 - Sicion ou Sicião - cidade grega situada no Peloponeso
Bibliografia:
GRAVES, ROBERT,(2005), Os Mitos Gregos,Trad. Fernanda
Branco,Lisboa: D. Quixote
HESÍODO,(2005), Teogonia
– Trabalhos e Dias, Trad. Ana Elias Pinheiro e José Ribeiro
Ferreira,Lisboa:INCM, 14-105, pp. 93-96 Referências retiradas da “Encyclopedia
Mythica “ na world wide web em 18/11/2011: [http://www.pantheon.org/]
18/11/2011
«Se se arranca um cabelo a um homem que tem
muitos, não é por isso que ele é calvo; tão- pouco se lhe arranca um segundo e um terceiro, etc. No entanto, chegará
um momento em que aparecerá calvo,
mas a partir de que número de cabelos arrancados poderemos dizer que nos
encontramos perante um calvo?»5
Nota: Este paradoxo filosófico exige também que
se reflicta sobre a forma como se adjectivam as pessoas, quando se observam
determinadas formas de actuação (Ex.: estúpido, mentiroso, ladrão, invejoso,
ambicioso, etc.).
O Mito de Posídon
Súmula:
As
origens do nome do deus Posídon ou Poseidão são pouco claras. Há quem o associe
com Deméter a mãe da Terra, partindo do [grego πόσις (posis), senhor ou esposo + δᾶ (da),
terra]. Outros interpretam Poseidão a partir do grego como Posei-dawōn ou senhor das águas. Existem no entanto outras
interpretações.
Posídon
ou Neptuno, como na mitologia Romana era conhecido, era filho de Cronos (deus do tempo) e de Reia (deusa mãe). Tinha três irmãs, Deméter,
Héstia e Hera e dois irmãos, Zeus e Hades com os quais destronou o seu pai.
Deste modo, Posídon ficou com o mar, Zeus com os céus e Hades com o reino das
trevas.
A sua vida
solitária no reino das profundezas era enorme, pelo que começou a cortejar Tétis (deusa do mar). No entanto, como uma
profecia afirmava que qualquer filho de Tétis tornar- se-ia mais importante que o pai, rapidamente desistiu
da ideia. Tentou também seduzir Anfitrite (o mar). De início
sem sucesso. Enviou-lhe então diversos mensageiros. Um deles, cujo nome era Delfino,
conseguiu-a persuadir a casar-se com ele. Como agradecimento,
Posídon colocou entre as estrelas a imagem
de Delfino, em forma de constelação, com o
nome Delfim. Dessa união resultaram três filhos chamados Tritão (ser
meio humano e meio peixe que simboliza a lua nova), Rodes (a lua cheia das colheitas) e Bentésicime (a perigosa
lua minguante ou velha) e muitas outras ninfas marinhas.
Posídon tinha imensas
aventuras amorosas com deusas, ninfas
e até mortais, o que enchia de ciúmes Anfitrite. A relação de Posídon com Cila («a que rasga» ou «cachorra») enfureceu-a de tal modo, que Anfitrite resolveu deitar-lhe ervas mágicas
no tanque onde esta habitualmente se banhava. Deste modo, transformou-a num monstro de seis cabeças e doze patas que
passava o tempo a uivar. Posídon tinha um desejo ávido por reinos terrestres e, um dia, declarou-se rei da Ática, espetando o seu tridente
na Acrópole sob os protestos
da deusa Atena, que considerava a cidade sua. Os deuses fizeram uma reunião no Olimpo e
decretaram então que a cidade seria daquele que oferecesse o presente mais útil aos mortais. Posídon
criou então com o seu tridente, a partir de uma pedra, o
cavalo. Atena, apresentou a
oliveira. Avaliando as ofertas, os deuses concederem a Atena a cidade.
Irritado, Posídon fez soltarem-se enormes
vagas que inundaram toda a
planície onde ficava a cidade. Para apaziguar a ira de Posídon as mulheres de
Atenas foram privadas do direito de voto e aos homens foi-lhes interdito usarem
o nome das mães. Sequioso de mais terras passava a vida em conflito com os outros Deuses que acabaram por o proibir
de causar mais inundações. Tendo perdido uma disputa com Hera
sobre a posse da Argólida e sem poder recorrer a inundações, resolveu secar todos os cursos de água dos que
haviam sido seus juízes. Porém, por amor a Amimone, uma das Danaides, fez com que o rio de
Lerna, na Argólida, voltasse a correr permanentemente. Posídon
envolveu-se ainda com a sua
irmã, Deméter. Esta, para fugir ao seu assédio transformou-se em égua. Mas,
Posídon metamorfoseou-se em garanhão e cobriu-a. Deméter enfureceu-se de tal
modo que passou a ser conhecida como a «Deméter
em Fúria». Dessa ultrajante
relação nasceu a ninfa Despoína e o cavalo selvagem Aríon.
Comentário:
Os
mitos têm um carácter polissémico, i.e., possuem diversos sentidos. Falam de
Deuses e Deusas, com poderes especiais, mas também, com sentimentos e
comportamentos verdadeiramente humanos. Este, em particular, começa por relatar
a traição dos filhos em relação ao próprio pai, Cronos, tudo por causa da
herança do universo, neste caso, tripartido em três regiões, o mundo da luz, o
céu, sendo Zeus o deus do raio (tal como
na mitologia nórdica, Thor era o deus do trovão), o mundo das trevas do
obscuro e infernal e o mar que com a sua energia, fluidez e agitação se
assemelha muito à vida. O que Posídon fez ao ajudar a destronar seu pai, não o
quis para si, desistindo da sua atração por Tétis. Freud, conhecido como o pai
da psicanálise, irá mais tarde, falar no complexo de Édipo deste desejo de
matar simbolicamente o pai, de o destronar. Pode-se
eventualmente aqui vislumbrar uma certa
forma
de iniciação da juventude com a passagem à fase adulta e o assumir de todas as
responsabilidades inerentes. Mas, também se pode entender como uma nova forma
de repartição do poder e de passagem de uma autocracia (poder por si próprio, de um
só) para uma oligarquia (governo de
poucos). Inevitavelmente, os mitos, enraízam-se também na realidade.
Alguns, como este, estão intimamente ligados à vida dos homens, às lutas
relativas à estruturação da
organização social (passagem do matriarcado ao patriarcado) e a formas de
organização do tempo,
de carácter astrológico e religioso
(passagem dos cultos lunares para os cultos solares). O episódio em que as mulheres de Atenas
cedem o seu direito de voto e os homens deixam de usar o nome da mãe, apenas
para apaziguar a ira de Posídon, é disso um exemplo que faz-nos também refletir
sobre a luta imensa travada pelas mulheres para recuperar de novo o direito a
voto (início do século XIX até meados do
século XX - em Portugal só a partir
de 1931 - ). Igualmente faz-nos repensar
nas evoluções e retrocessos que a humanidade ao longo da sua existência
atravessou. Posídon era um deus, sequioso de terras. Nesse desejo de obter
posses materiais não se diferencia muito dos humanos, basta lembrar como se
constituíram Impérios ou como ainda se vive numa sociedade materialista e
consumista, numa civilização sempre mais virada para o «Ter», do que para o
«Ser». Posídon encarna, tal como quase
todos os «doze deuses» do Olimpo (morada dos deuses) , uma espécie de Don Juanismo (libertinagem sexual) ainda tão presente
nos comportamentos humanos. Falei nos doze deuses Olímpicos porque de facto os
números estão inevitavelmente ligados, desde a antiguidade, a qualquer forma de
expressão e organização humana. O tridente
de Neptuno é apenas um exemplo. O mesmo número é passível de se encontrar no
trisquel celta (símbolo com três
espirais, em que duas entram e saem de um círculo - representando os dois
movimentos que compõem a dualidade das forças em permanente interação da
natureza - e uma terceira que
representa o equilíbrio entre as outras duas), bem como, em tantos outros
símbolos da antiguidade e da modernidade. Se
pensarmos, por exemplo, na figura
geométrica que constitui o triângulo, na tríade divina - pai, filho e espírito
santo -, no ciclo da vida - nascimento, vida
e morte - , na divisão - corpo, mente e espírito- , nas primevas estações do ano - primavera, verão e inverno -, etc.,
compreenderemos melhor até que ponto os números nos influenciaram e influenciam
o pensamento.
Embora
houvesse muito mais a considerar, termino, com uma referência à relação
incestuosa existente entre Posídon e Deméter. Não se podem interpretar os mitos
à letra, mas, também, não é possível fugir completamente à sua letra. É uma
realidade que Posídon está intimamente conotado com o mar e com a
criação e as corridas de cavalos. Sabe-se bem a importância e utilidade que os
cavalos tiveram em toda a História da Antiguidade e, que, se estendeu até
meados do século XX. Porém, muita da documentação antiga que nos chegou é
prolífica em relatos de situações incestuosas. Não há que esconder, que, ao
longo da história da Antiguidade, Idade Média, Renascimento e Modernidade, se
praticaram inúmeros casamentos incestuosos, entre membros das mesmas famílias,
com o intuito de preservar no seu seio as suas possessões e de aumentar o valor
do seu poder. Só com o advento da medicina
e da genética se começou a entender melhor os perigos da consanguinidade. Este
tema do incesto é aliás comum em muita da literatura universal e nacional.
Desta última, e em boa parte da sua
obra, é disso, exemplo, o nosso ilustríssimo escritor Eça de Queirós.
Bibliografia:
GRAVES, ROBERT,(2005), Os Mitos Gregos,Trad. Fernanda
Branco,Lisboa: D. Quixote
Poseidon. Encyclopedia Mythica. Acedido em 13/01/2012 da Encyclopedia Mythica Online,
http://www.pantheon.org/articles/p/poseidon.html
Greek Mythology : Gods & Goddesses: Sea Gods. Acedido
em 13/01/2012 da Theoy
Greek Mythology.,http://www.theoi.com/









