segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A Al Berto

aqui faço os relatos simples
dessas embarcações perdidas no eco do tempo
cujos nomes e proveito de mercadorias
ainda hoje transitam de solidão em solidão

queria ser marinheiro correr mundo
com as mãos abertas ao rumo das aves costeiras
a boca magoando-se na visão das viagens
levaria na bagagem a sonolenta canção dos ventos
e a infindável espera do país assustado pelas águas

(Al Berto - Salsugem in O Medo, 1982)

Os meus versos preferidos de um poeta amigo

antes dos nomes há a infância
o solícito gesto de respirar
em prados
só ardor e pedra descalça
a obsoleta terra anterior
cor de feno cor de ulmeiro

o acto de escrever

rios atravessados por lajes
rostos cedidos ao lento encantamento
de uma promessa
como se fosse
a fêmea fome

a cerce lira experimentada em
água benta despenhada
apoplética
corda de nomes hínica
em ilhas

os nomes animais despenhados
em olhos
e o laço do rosto
vertical face ao florescimento dos dias
o sangue cor de basalto

Luís Felício (o som a casa) - [1º prémio literário Artefacto - poesia 2010]

E assim nos tornámos seres racionais...

 Primeiro, preparámos a Terra...

Depois, engolimo-la!
                                                                                                                                  


domingo, 16 de janeiro de 2011

Poesia sobre o Pensar

Ninguém pensa só por si.
Todos pensam por si e muito mais.
Mas pensar por quem não pensa
Tem certamente mais do que se pensa
Que se pode conclusivamente pensar.
Tem o que se pensa e também o impensado.
O impensado que só agora se pensa
E o impensado por todo aquele que não o pensa.

Pensar é frágil
E é pelas palavras que se pensa
Até sobre a forma de se pensar, ou não será ?
Pensar parece fácil
Mas é engano pensar que se pensa
Só através das palavras…
Elas servem apenas para designar
Coisas que existem e que não existem.
Quanto às primeiras
Elas não dependem das palavras para as nomear
Quanto às outras sucede o contrário
Dir-se-ia que elas são as mestras da existência
E têm a sua utilidade…
Não fossem elas e não haveria um Quixote
Nem sequer uma simples raiz quadrada.

Mas será que seria possível pensar sem as palavras?
Há quem sustente que sim,
Observando um animal numa caçada.
Formas menores de pensamento dirão alguns.
Simples formas de pensamento dirão outros.
Não é por isso preciso decidir sempre
Basta apenas pensar.

A António Ramos Rosa

«Vivo de uma palavra que se multiplica e atravessa os espelhos e os muros mas que retorna sempre à sede de que nasce ganhando o que perdeu, o silêncio de um começo».

Ilude a Sombra e o Pecado

Quem quer ser
Aquele outro
Que mora na casa
Do seu ser emprestado ?
Quem é ?
Ao que veio ?
Aquele que de pé
Permanece ensombrado ?
Quem és
Ser teu alheio ?
Que luz te ilude
Que te faz estar desse lado ?

A Fogueira da Cultura

A Cultura está intacta! Vive de uma miriade de pequenos cultos que se acendem como fogueiras flamejantes de vaidade.

É Polémico o que Aqui Digo

Sim. Nós vivemos da ilusão e eventualmente sufocaremos com ela. Desde a ilusão da identidade, até à ilusão da palavra, somos como a fogueira ardendo, soltando faíscas reluzentes na noite, lenhos ruborescendo lentamente na entropia da vida, como centelhas incendiadas por um rastilho imparável que nos fará esfriar como cinza das estrelas no pó inerte. Somos ilusão, produzimos ilusão, morreremos ilusão. Se ouvires alguém denegrir a ilusão que é a tua, pensa que se trata penas de uma reificação da ilusão do teu pretenso oponente.Muitos, acreditam que reificar ilusões lhes confere assertividade, convicção, consistência, direito, razão. É por isso mesmo que se trata de uma reificação. Alguns chegam mesmo a reificar-se na genuinidade, na autenticidade, na plenitude. Conceda-se-lhes essa ilusão. Não possuimos nem as melhores nem  as piores ilusões. Temos apenas, ilusões.

O Ser que Somos

Quem és ? Eu sou aquele que «sou». Mas, que é isto do que somos ? Nenhuma divindade certamente. O ser é um sou que vai sendo. Um movimento ou uma sucessiva instanciação do ser. O problemático reside na evocação e na antecipação. O que se era já não se é. E, no entanto, o que se foi, parece transmutar-se em cada nova instância do ser, como se, de um património, de uma sedimentação, se tratasse. Aquele que é, revê-se no presente como fruto de um passado, que já não é presente mas, no entanto, presentificado pela evocação. É o «eu autobiográfico», de que fala Damásio. Mas, o sou, é também o agora e o futuro - o que ainda não se é -. É-se sempre o indefinido, «o apeiron», o ser em aberto e não definido, a que se confere (sentido, unidade,consistência), permanência.  «Mudando permanece» - diria Heraclito. Coloquei parentesis porque o sou não é sentido - antes do sentido preexiste a deriva da sua procura -. O sou não é também unidade, pois a unidade ainda não está constituída mas em processo de constituição. E o sou é tudo menos consistência, pois não se pode consistir no que já não consiste ou em tudo o que ainda não consiste.