segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Confissão

Nunca fui santo nem mártir. Sei que não sou nenhum exemplo, quer positivo, quer negativo. O que sou, não perturba o que possa pensar sobre mim ou sobre o mundo. Pode-se-lhe chamar esquizofrenia ou algo parecido, é-me indiferente! Sofro quando vejo as consequências de de pensar e agir mal, não porque, não se reflita mas, por se refletir tão apressada e precipitadamente, ou ainda, por se refletir tão interessadamente, cuidando apenas daquilo que consideramos egótica e enviesadamente como benéfico, ao invés de refletir de forma desapaixonada,  não imediatista e apressada. O mundo choca-nos e tinge-nos de horror. Somos homens e não nos parecemos com Homens mas sim, mais com bichos ou pior ainda. Animais, sem forma. Animais que já não são bichos e homens que nem chegam a ser Homens. Alguma forma intermédia que mais parece uma anomalia da natureza. Parece e, é. Os indeterminados. Os indistintos. Porém, sobressaem porque têm um Deus, o dinheiro, que os faz rojarem-se como répteis ou trepar como chimpanzés para alcançarem o seu modelo. Vivem, correm, matam-se, esfolam-se e renegam-se nesse delírio de perseguição à imaginada pobreza e nessa obsessão compulsiva de atingir os píncaros da fortuna dourada. Tudo o resto, até mesmo futuros danos causados a eles próprios figuram fora das suas equações. Indistintos e autodestrutivos. Poderiam ser zombies, meios mortos, meios vivos mas, não. Estão de pé como faróis, cegos pela luz que perseguem como barcos à deriva quer haja tormenta ou calmaria. Para eles, tudo, todos os dias se agita e, a tarefa nunca termina, são ávidos e da avidez se saciam. O mundo enche-se de horror e de dor e nem nessas horas eles se estancam.Os indistintos querem ter nome, ser eleitos, reconhecidos, idolatrados, forçadamente amados, em suma, senhores do mundo e de todos. Sem o que lhes escapa, parecem ouriços, espicaçam tudo  e todos os que os rodeiam e que com eles habitam. No fim de tudo, a morte. Não, não choram, nem se arrependem pois, nunca se souberam amar, dominar, controlar, abrir, repartir, dar a comungar. Era o seu projeto perseguirem o inalcançável como se fosse um troféu de caça. Era o seu mote conquistar o que lhes revelaria o universo que sempre lhes faltaria para conquistar. Morrem fiéis a esse mundo e é tudo quanto levam com eles, sem que deixem muitas memórias pois, logo outros indistintos lhes tomam o lugar e mais uma vez, até na morte, mais rapidamente se desvanecem.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Embebedemos-nos

Alguém virá acusar-nos de faltar à moral por ter-mos escolhido este título. Vem sem encontro marcado. Não precisa estar preparado. Embebedar-se fará o resto. Que resto ? Fará sentido. Sim, fará sentido. Enamorar-se é de certa forma, perder-se e reencontrar-se de outro modo. Sem enamoramento o tempo parece esvaziar-se sem sentido. Enamorados, cada minuto ganha sabor, côr, contexto, expressão, sentimento, vida. Enamorar-se é ganhar dimensão não para se tornar grande mas, por gangar alento, sopro, coragem, sentido. O amar, amoroso, é sem amarras. Enamorar-se é estar-se vivo, presente, ausente e a chegar de braços abertos a qualquer lugar, sem possessão, sem avidez, sem delírio. Quem nunca se enamorou jamais poderá compreender a poesia. Enamorar-se não é um destino, uma fé, um acoplar-se a algo mas, é ser-se transiente ou transeunte. Em movimento consciente. Ser-se, sem amarras, nem pálas, nem pingentes, nem desígnios. Ser-se, pura e simplesmente. Sem adjetivos, sem objetivos, sem subjetivos, sem relativos mas, também, sem absolutos. Enamorar-se é embebedar-se, permanecer sobriamente turvo, maravilhar-se!

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

O catastrofismo amedronta mas, afinal não é o fim.

            Chelsea Saunders/Current Affairs

Texto extraído da plataforma Google (IA):

O tecnofeudalismo é um conceito (popularizado pelo economista Yanis Varoufakis) que argumenta que o capitalismo, tal como o conhecíamos, chegou ao fim e foi substituído por um novo sistema económico e social dominado pelas grandes empresas de tecnologia, como Google, Amazon, Apple e Meta.

Neste sistema, essas "Big Techs" atuam como modernos senhores feudais digitais

Diferenças Fundamentais em relação ao Capitalismo

A tese central é que, enquanto o capitalismo se baseava no lucro (extraído da produção e venda em mercados competitivos) e na propriedade dos meios de produção, o tecnofeudalismo baseia-se na renda (extraída do controlo de plataformas e dados). 

As principais características incluem:

1- Feudos Digitais: As plataformas online (como a Amazon, Google Search ou Facebook) funcionam como "feudos na nuvem". Em vez de possuírem terras, estas empresas controlam a infraestrutura digital essencial e os algoritmos que ditam as interações económicas e sociais.

2- Servos da Nuvem: Os utilizadores e até mesmo outras empresas que dependem destas plataformas tornam-se "servos da nuvem". Trabalham (produzem conteúdo, dão dados, treinam IAs) de forma não remunerada, gerando valor para os "senhores" tecnológicos em troca de acesso aos serviços e à visibilidade nas plataformas.

3- Capital em Nuvem: O "capital em nuvem" (a interconexão de máquinas, software, algoritmos e hardware) tem como objetivo principal modificar o comportamento humano e extrair renda, em vez de produzir bens tangíveis no sentido tradicional.

4- Monopólio e Controlo de Mercado: As Big Techs procuram eliminar ou absorver a concorrência, solidificando o seu monopólio e impedindo o livre mercado (uma premissa do capitalismo clássico). A Amazon, por exemplo, substitui o mercado tradicional ao intermediar diretamente a venda e a compra através dos seus próprios algoritmos. 

Em suma, o tecnofeudalismo descreve uma concentração de poder sem precedentes nas mãos de poucos gigantes tecnológicos, que exercem um controlo quase absoluto sobre a vida digital e a economia global, extraindo valor de forma rentista, em vez de produtiva. 

Discussão (humano):

Parece-me um dos erros, generalizar toda a economia, resumindo-a às rendas das tecnológicas. Na realidade pode haver alguns feudos (alguns monopólios, plutocracias) tecnológicos mas, as transações comerciais não se baseiam exclusivamente em algoritmos digitais, nem o sistema produtivo se resume aos bens digitais e, mesmo dentro do mundo digital existem plataformas que competem entre si, gerando diferentes oportunidades de mercado. Youtubers e influencers, indivíduos  com certos talentos, também lucram muitíssimo com as plataformas digitais e, não são os senhores feudais das plataformas mas, manipulam em seu benefício multidões. O conceito de tecnofeudalismo é pois muito enviesado e extremamente redutor.

Quanto ao "Capital na Nuvem" transformado em bens não tangíveis, poderemos, também argumentar que, muitos dos bens tangíveis se baseiam na cosmética, que sendo algo de essencial à vida humana, não são, e nunca foram, uma das componentes mais vitais da nossa vida, exemplificando uma economia baseada na superficialidade, algo de muito pouco tangível, no sentido de absolutamente necessário. Não vou falar de cinema ou de literatura face à  realidade concreta. Vejamos a indústria dos pets ou mesmo da cosmética e todas as sub indústrias que lhe estão associadas. Que utilidade produzem para além de exaurirem os recursos naturais e satisfazerem os desejos estético-atrativos, como forma de exercício do poder de fascinio dos humanos sobre outros humanos ? Por outro lado, as IA’s também consomem água, energia e silício, bem como outros elementos raros, necessários para os chips, em quantidades abissais.

Relativamente  ao exemplo da Amazon, há que referir que, sendo uma plataforma distribuidora quase global, permite encomendar produtos que, por sua vez tem de ser produzidos tangivelmente antes de chegarem ao consumidor final, de acordo com as necessidades deste. Note-se que outrora, também  havia lojas grossistas e a retalho a intermediar as trocas comerciais. A diferença é que a intermediação passou a digital. Também os xamãs e os padres intermediavam as relações com os deuses. Tudo hoje, porém, é mais simples, mais rápido e mais cómodo. De resto, nada de novo quanto ao comércio se ter transferido em parte para plataformas digitais. O surgimento dos hipermercados, embora tenha causado muitos estragos ao comércio também, não acabou com todas as pequenas superfícies comerciais e com  os mercados tradicionais de rua.

A invenção do multibanco e dos serviços  bancários online, bem como das portagens com Via Verde, nunca teria acontecido sem a World Wide Web, e como isso nos facilita a vida.  Aquilo que nos aprisiona, afinal, é o desejo do nosso próprio bem estar, não é nenhum algoritmo extraterrestre.

Consideremos também a invenção  tecnológica do automóvel. Primeiro criaram-se as máquinas, depois, as estradas e depois sucedeu-se um rodopio de transformações colaterais, (entre elas, das cidades e dos campos) que modificaram  completamente a nossa forma de viver e de estar e de negociar e nos tornaram  servos dele. No entanto, ainda se anda de burro, carroça e de coche e, agora, com o advento da moda do “elétrico” até de trotinete o que é fantástico mas não milagroso. Igualmente, o telefone, ao tornar-se móvel, realizou semelhante transformação e trouxe novas formas de comunicação, de negociação, de transação e de alienação. Portanto, nada de novo, aqui, também.

Quanto aos servos da nuvem, poderíamos dizer que os protótipos se democratizaram e que agora todos os utilizadores são experimentadores (Beta Testers). Fornecem dados, (os serviços  de inteligência também escutavam e gravavam conversas por telefone ou vasculhavam correspondência escrita, os candidatos a emprego, também expõem muitos dos seus dados nos seus currículos, etc.) colaboram e não são remunerados, ações que outrora cabiam ao voluntariado, ou ainda antes, aos escravos, tendo apenas mudado os meios e não os processos. Portanto, aqui também, não há grandes novidades.

Resumo curto das críticas ao tecnofeudalismo:

1 - O conceito exagera ao reduzir toda a economia aos lucros das Big Tech e ignora a diversidade dos mercados;

2 - O digital não eliminou a produção tangível nem as formas tradicionais de comércio, apenas criou novas e, a outras, transformou;

3 - A influência da tecnologia sobre o comportamento não é nova — sempre existiu (arco e flecha, fogo, roda, olaria, aquedutos, automóvel, eletricidade, telemóvel, internet);

4 - Os “servos da nuvem” são apenas uma versão moderna de práticas antigas de colaboração não remunerada ou de vigilância por relações de poder, interesses económicos ou de segurança.

Em resumo, o tecnofeudalismo simplifica demasiado e não capta a continuidade histórica das transformações tecnológicas.

Crítica ao conceito de tecnofeudalismo pela IA:

A tese de Varoufakis é poderosa como metáfora, mas falha enquanto explicação estrutural do sistema económico atual.

O conceito de “tecnofeudalismo” confunde poder de plataformas com poder feudal, ignorando que as plataformas operam num ambiente de mercado global, com pressões competitivas e regulatórias — algo inexistente no feudalismo histórico.

No feudalismo, o vínculo era jurídico e vitalício; hoje, a relação entre utilizador e plataforma é voluntária e reversível, ainda que condicionada por efeitos de rede. As plataformas extraem dados e influenciam comportamentos, mas não exercem controlo territorial, militar ou institucional como um senhor feudal.

Além disso, assumir que o capitalismo morreu e foi substituído por uma ordem rentabilista total carece de evidências.

Continuamos num capitalismo profundamente plataformizado, mas ainda assim capitalismo.

O termo “tecnofeudalismo” funciona como metáfora crítica, mas não descreve com rigor o sistema económico atual.

Conclusão da discussão: (humano)

Pensamos que o catastrofismo medra sob a forma de metáfora  interpretativa e amedronta, apelando à resistência e luta, como antídoto salvítico às doutrinas, igualmente populistas da Salvação.

Parece-nos que este termo contém em si, pois, um viés propagandístico e ideológico deliberado, não cabendo por isso, a nosso ver, na categoria dos conceitos filosóficos, não acrescentando nada de superlativo à discussão das questões económicas atuais.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

In-Direitos humanos

Ok, certo, todos temos direitos iguais. Falta a parte de que temos deveres iguais, entre os quais, preservar esses mesmos direitos. Questão; matar não é direito nem dever, será que deve ser tolerado ? Se sim, qual a vossa resposta? Se não, qual a vossa resposta ? Um preso por assassínio deve ser apenas privado da sua liberdade de movimentos, permanecendo preso ou, deverá quase perder todos os direitos racionais humanos e, ser tratado como um bicho sem qualquer consciência moral (mesmo  que revele arrependimento) ? Um miúdo matou mãe porque esta o chateava ou pressionava a estudar. É natural que se deduza que, se mata a mãe com frieza, matará qualquer um de nós que o contrarie e que não lhe seja familiar com a maior  das friezas. Regenerar-se com o peso na consciência da morte da sua própria progenitora será possível ? Vai estar preso ou internado o resto da vida ? Terá cura da sua psicose social ? Viverá, com a famosa receita da Disney, um dia de cada vez. Mas, não é isso que fazem os seres normais ? Um dia de cada vez ? E, certamente, a maioria, não se dedica, contêm-se e, não pratica crimes durante uma vida inteira. Portanto, um dia de cada vez não serve de paradigma ou atestado de cura de ninguém. Matou, foi intencional, não por acidente. Matará quase certamente outra vez. Verdade absoluta? Não. Mas, nenhuma sociedade normal consegue viver tranquila e pacificamente com gente desta nas proximidades. Direitos humanos ou direitos animais para quem se comporta animalescamente ? Está na altura dos humanos decidirem o que os torna humanos e diferentes e não o que os torna animais e grotescos. Direitos Humanos aplicam-se a humanos não a simples animais. A esses, apliquem-se os Direitos Animais, ou outros, excluindo o direito de não querer trabalhar ou de continuar a desobedecer às regras que lhe são impostas pela comunidade prejudicada e,  pela penalidade a que foi condenado por ações ilícitas.

sábado, 1 de novembro de 2025

O mesmo mundo

O mundo continua habitado pelos mesmos seres, exceto os extintos. Na voragem dos dias deparamos com a inversão dos "direitos humanos" simplesmente pela aniquilação dos "deveres humanos". Quais são, então, os nossos deveres ? Se não temos deveres, será que temos direito a ter direitos ? Se os nossos atos se pautam pela violência, pelo crime, estamos em condições de exigir ser tratados de acordo com os direitos humanos, uma vez que, nas nossas ações, agimos contra esses mesmos direitos na pessoa dos outros ? É lícito a quem cometeu um crime hediondo, quando detido, ter o direito de se recusar a trabalhar para contribuir para a despesa que provoca com o seu encarceramento ? É lícito para um indivíduo matar, roubar, violentar outros, só por que nasceu com maiores dificuldades, menos apoios, porque não teve ou não escolheu ter as mesmas oportunidades que outros ? Muitos, resistem, integram-se, esforçam-se, alcançam, superam-se e triunfam da pobreza e também da miséria moral. Outros, simplesmente abandonam-se ao mais fácil, tudo tem de ser prazeroso, agradável, srm obstáculos e, se estes aparecem, sentem-se umas vítimas da História e da Humanidade. Haja paciência para eles, também, mas,  piedade alguma! Quando dói, dói a todos. Somos todos de carne e osso, alguns com "alminha" outros com "caquinha". A sorte nem sempre está do lado dos inteligentes,  porém, também, nem sempre está do lado dos que não a usam. Daí ao desastre, qual dos dois está mais apetrechado para o evitar ? A inteligência, porém, também não resolve tudo. Porque somos como somos, o que queremos e o que fazemos para querer ser assim como queremos ? Viver para nos queixarmos, para nos vitimizarmos é uma forma maior ou menor da nossa existência ? O que nos torna verdadeiramente diferenciados dos outros seres do reino animal ?

domingo, 19 de outubro de 2025

Aqui ou ali não são a mesma coisa

Se eu for inteligente deixarei de ser estúpido e ignorante. Não o sendo, como lidareicom a hipótese? Sim, hipótese. Há tanto a hipótese de ser inteligente como a de que isso resolva causalmente a minha estupidez e ignorância. Bem, sejamos deveras inteligentes. Uma decisão e/ou ação  estúpida não implica estupidez subsequente. Uma decisão, desinformada, com um ação baseada na ignorância, também, parece, nada ter a ver com um estado de ignorância permanente. Dizem, que é preciso aprender a pensar, ter espírito crítico, alguns, até, asseguram que tudo isso mos irá redimir, salvar, libertar talvez da morte ? Percebe-se o exagero da crença na questão. Não "fui feito para a filosofia" dizem-me com frequência. Fico arrepiado. Parece que não foram feitos para viver?! Filosofar é vida. Quem matou isso ? Certamente mais um sabichão daqueles que nem sabem o que sabem ou que ficam impressionados pelo que julgam saber sem nunca sequer duvidar que apenas julgam que sabem, não sabendo nada, efetivamente. Parece uma conversa semelhante a esta sobre veiculos automoveis: "Sabes porque tenho um Ferrari ? Não! Tenho-o porque sou bem sucedido." Quantas falácias grassam nesta história ? O que significa ser-se bem sucedido e ser-se infeliz ? Bem, quanto ao sucesso crê-se que a infelicidade está excluída. Certo. Crê-se mas não mais do que uma leitura parcial da coisa. E, porque a infelicidade está excluída ? Só é válido viver-se feliz ? Uma mãe ou um pai adoecem. Dão trabalho, muita preocupação, muita tristeza e por vezes até muito desespero. Acabarão por morrer e com eles o desespero. Mas, será que não houve alguma alegria, algum alento por amarmos os nossos familiares ? Quem disse que felicidade era só prazer ? Sentir-se feliz de ter cuidado com amor os pais na velhice, tal como também se foi tratado com amor, cuidado e carinho na infância, apesar de todas as dores e contrariedades não será uma felicidade meritória e bem mais inquebrantável ? Doeu mas, superámos! Fomos dignos. Custou mas resistimos e sobrevivemos, com alegria de ter feito tudo quanto deveríamos ter feito. Alguém que amámos, faleceu. Sentimos uma perda menor por termos tido mais tempo acompanhando-os. A nossa vida não foi posta de lado, o nosso individualismo sim. A nossa vida, não somos só nós. Quanto aprendemos ? Afinal há coisas que o prazer não nos reserva. Afinal há alegrias bem mais profundas e duradoras do que nas ações esporádicas orientadas exclusivamente para o prazer imediato. É um orgasmo ter a consciência limpa. Dormir sem pesadelos. Ter a convicção de que somos dignos pela dignidade que praticamos. Diria até, eu que sou descrente, uma verdadeira benção!

domingo, 5 de outubro de 2025

Tolices

Será que para além da visão teremos outro órgão que nos desperte tão vivamente para a consciência ? Duvido. Mas, será fruto do órgão ou da carga sociocultural que muitas vezes nos parece embutir ? Não há estudos sobre isso. Também não há estudos sobre muita coisa. Para estudar, é preciso tempo, um tempo que cada vez temos menos, porque nos reprimimos e restringimos a um tempo acelerado, quase hiperativo, por isso, quase momentâneo e evaporado. Acabou-se  o tempo mas, acabámos de chegar/acordar/tomar consciência. Foi-se o bébé com o banho, "foice" a colheita antes mesmo de ser semeada. Eis a pressa! E é tão nostálgico chorar como ementa, o que ainda está disponível nos armários do cérebro dispensado. Fomos o que já nem éramos armados em ser o que nos achávamos e sem ter linguagem sequer para o descrever. Percurso e currículo. Os idealistas sonhadores pensam em igualdade. Não vou aqui descrever outros idealizares. A versão real, a verdadeira é a de que fotogramas ou ideogramas não são a realidade. Ui, o que será a realidade ? Investe-se tempo em tentar saber o que ela é, mas, não há qualquer resposta a dar sobre o inacabado. O órgão mais profundo do ser humano não tem lugar, escapou-se, fugiu, tornou-se consciência por um lapso. Clarificou-se ao equivocar-se. Era o ovo ou a galinha ? Era a dúvida ou antes a existência a dizer, estou aqui, o que estás aqui a fazer, pensas ? E se não existisses ? Pensas no que seria não existires. Mas, sem existires, será que pensarias sequer sobre isso ? Sobre se penas ou existes ? Existo antes de o saber. Como posso ter a certeza ? Nenhuma. Nem o pensar me garante. Para pensar, tenho que estar vivo.

Já viram algum morto consciente ? Eu, não!

sábado, 4 de outubro de 2025

O mais estranho é ser-se íntimo!

Ninguém dá um vintém para me procurar. Eu, ele, do ponto de vista do outro, sou autónomo, independente, quase auto suficiente. Ele, não precisa de nós e nós podemos, então, concentrarmos-nos, também, nas nossas exclusivas vidas, sem receios ou preocupações demasiadas. Enquanto  não houver más notícias, não precisamos de atuar. Porém o tempo passa e o amor ou o tempo para amar acaba por faltar. Muitas vezes, chega-se tarde, acorda-se, desperta-se, reage-se tarde. Hoje, nunca é hoje mas, sim, a possibilidade do amanhã. António Variações sabia o que dizia e cantava. 
Porém, porque haveria alguém de ter que me atribuir um vintém ? Chega a ser ridículo, mendigarmos amor, carinho, atenção. Mas, será que o é ? Ridículo ? Mendigarmos ou penarmos ? Penar é o verbo e termo correto. Penamos. Não, não se trata do Limbo, Purgatório ou similar. Trata-se de estar vivo. Pena-se pelo outro e quase sempre sem o outro, por vezes sem nós próprios ou como se nós próprios fossemos o outro que almejaríamos ser e de que não temos noção se já fomos, se o somos ou se, algum dia o seremos. E que importância tem a figura, o que figuramos de nós e para nós com vista ao dúplice que é o outro ? Pois é! Claramente eu não sou de cá. O ser estrangeiro ocupou-me o eu, que por sinal, nunca fui. O mais estranho é ser-se um eu.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

A direção do ser

Temos que ser fiéis a nós próprios ainda que isso nos prejudique, de outro modo, nunca seremos felizes, porque passamos o tempo a desviar-nos do que somos e, nessas circunstâncias, ser-se feliz é, apenas,  uma miragem. Se não nos vivemos integralmente como poderemos realizar-nos ? Percamos, no entanto, a ilusão de que estaremos sempre no controle. Convém não perder nunca a direção, mesmo que percamos temporariamente o sentido.

Filosofia da Bimby

"pós-verdade" parece daquelas receitas chavão saídas de uma bimby pseudo filosófica. Não há, nem pré-verdades, nem pós-verdades. O que há é muita propaganda, muita mistela associada a muita falta de carácter, com uma tremenda vontade de enganar e ideologizar as massas. Pós-verdade é pura e simplesmente, tal como o "fim da história",  uma patetice aguda e propagandística a tender para um snobismo pseudo-intelectual. É daqueles palavrões que soam bem e que os wokistas e esquerdóides adoram como se de uma biblia santa se tratasse. Quando a parvoíce impera, o esclarecimento torna-se quase um milagre.

domingo, 1 de junho de 2025

O que parece melhor

Amigos, somos amigos como ? Juntá-mo-nos aqui nesta encruzilhada e, confundidos sobre o caminho a tomar, celebramos em comum o nosso destino, antes de partirmos para ele. Nada garante que seguiremos o mesmo caminho. O facto de viajarmos juntos nada garante sobre a viagem. Sermos 3 ou sermos apenas 1 em cada caminho não lhe confere qualquer consistência. Será ? Tem vantagens caminharmos juntos e tem também, inconvenientes. Pode parecer à primeira vista que 3 têm mais força que 1. Pode sim. E até, se juntos permanecerem, unidos, mas não alienados, poderão ter mais chances de sobrevivência. Mas, se de três resultar uma maior fragmentação de quereres e desejos, pode ser o colapso rápido e inexorável. Nessas circunstâncias, ser-se 1 pode até ser bem mais  vantajoso. Sem dissenções, sem fragmentação é possível dar uma resposta mais assertiva e, se racionalmente válida e adequada, revelar-se a melhor opção. Onde se situa aqui, então, a democracia ? Pois, convido-vos a pensar...

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Sem Guarda

O mais incompreensível, que agora se tornou compreensível é a ausência da Verdade.  Muitos pensam que, não havendo uma Verdade então, tudo é válido e verdadeiro desde que alguém o faça acontecer. Mas, o que acontece com este posicionamento ? Podemos fazer explodir uma ogiva nuclear e, foi algo que aconteceu por efeito de uma ação de querer. Será um facto verdadeiro mas, não a Verdade. Um facto verdadeiro, seja julgado moralmente correto ou incorreto, fará sempre, parte da Verdade mas, não será nunca a Verdade. Cabe então perguntar o que é a verdade ? Ninguém sabe! É a única resposta humilde, responsável, racional e emocional. A verdade é como um modelo de triângulo perfeito. Algo que não existe na Natureza. Algo que a matemática e o pensamento humano conseguem equacionar e criar como utopia, utilizáveis à escala natural mas ausentes dela. A haver uma perfeição na Natureza ela não é sequer comparável à nossa capacidade de concepção. Isto não significa que tenha de haver deus. Essa é a resposta mais fácil para quem quer crer a qualquer preço. É com triângulos perfeitos que se medem áreas. Deus, poderia ser a perfeição matemática. Eu, não acredito nisso. Mas, sim, podia. A utopia é a perfeição. A perfeição é o que estamos condenados a perseguir sem nunca podermos alcançar. Parece ridículo? Pode parecer, até mesmo absurdo mas, não é. Se não houvesse um objetivo qual seria o objetivo? Se cada um tivesse e olhasse apenas para o seu projecto como seria possível construirmos uma sociedade juntos, com as vantagens e desvantagens daí supervenientes ?
Disse um dia, e muito bem, se a Verdade fosse apropriável rapidamente se tornaria numa arma de arremesso. É estranha esta contradição de se querer tanto a Verdade e, ao mesmo tempo, de haver tantas vantagens de não a haver. É muito melhor  ter um caminho a percorrer (por fazer) do que encontrar um caminho já percorrido (já feito e encerrado), embora, o já feito e percorrido também sirva de reserva estratégica de conhecimento para projetos futuros. Esta é a ideia de que a única verdade é não haver nenhuma. Mas, o homem, teve de construir os seus ídolos, os seus mitos, teve de ser honesto sendo desonesto, enganando-se a si e tentando enganar, a seu favor, a Natureza. Foi preciso sobreviver. Foi preciso construir um mundo com os outros  Foi preciso prescindir de um excessivo egoísmo. Chegámos com todas as virtudes e ou defeitos aonde chegámos pir que de certa forma, caminhámos juntos. Sózinhos não chegaremos a lado nenhum. Quem não entender isso pode sonhar com o Kaos que o espera. Uma das maiores virtudes destes novos tempos é a virtude convivencial, uma crescente raridade.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

É preciso amar a sabedoria

Não há receitas mágicas, credos infalíveis, realidades constantes, inteligência suficiente, circunstâncias perfeitas. Tudo isto é trivial, óbvio para incorrer num pleonasmo. Será? Será que até mesmo o tão óbvio atravessa a nossa consciência em cada imediato ? Óbvio que não. Nem o óbvio é óbvio para o que se diz ser óbvio e, no entanto, somos quase sempre crentes do óbvio, nem argumentamos. É o que é e, como Epicuro defendia, temos que nos ajustar ao que é, a realidade do que acontece. Ajustamento, que pode ter significado de adaptação o que nada tem a ver com conhecimento ou até,  talvez, tenha..Talvez nos adaptemos primeiro e conheçamos melhor a realidade à posteriori, pelo menos, na maioria das vezes. Mas se não é conhecimento será sabedoria ? Parece quase esquizofrénico, se é que não o é? Podemos ter sabedoria sem conhecimento? Estranho, não é ? Pensem lá?...

quinta-feira, 27 de março de 2025

Sobre os tropeções e atropelos

Amigo, se caíste levanta-te. Se, não te conseguires levantar, gatinha. Se, não conseguires gatinhar, rasteja. Se, não conseguires rastejar, estás morto. Mesmo que te levantes não tardarás a cair de novo. Não somos sempre-em-pé. Quando dormimos, fazê-mo-lo, quase sempre deitados. A posição, para a vida, só interessa em termos de velocidade. Rastejar é mais lento do que correr, andar ou saltar. Não somos Cangurus. Mas, somos mamíferos. Não somos kanicus nem gúrus. 
Quem mais alto sobe, tanto maior será a queda. Mas, para que interessa a gravidade nessa matéria ? Não vamos todos descansar eternamente para o mesmo lugar ? Qual o poder de saber mais isto, possuir mais isto, isto ser de melhor qualidade, ter mais audiência, etc? Poder desfeito num ápice como tudo o resto. Então, o que resta ? Ser digno ? Ser signo ? Ser hino ? Ser ? Ser, é falso. Nunca se  é plenamente. Nunca se deixa plenamente de ser até morrer. Ou seja, somos contradição até à morte, contraditória à nossa vida. De lembranças que não queremos até ao desespero de querer lembrar o que já não se lembra, viajamos perdidos no tempo e no espaço, entre as sombras dos conceitos e as clareiras vazias.
Por entre os pingos da chuva há que caminhar, umas vezes secos, noutras molhados. Não há outro modo de viajar. Boa viagem é sempre o mote do desejo. Deus me salve daqui, será o lema do acossado ou aflito. Na realidade, nem se viaja desse modo, nem seremos abduzidos para outras paragens. Está tudo dito.

sábado, 22 de março de 2025

Texto crítico

Primeiro, as máquinas não pensam pois não possuem autoconsciência ou sequer  consciência moral. Deveriam arranjar outro nome para o caso. Segundo, diz-se que elas pensam porque cada vez nos deparamos com seres cada vez menos pensantes, o que constitui um facto. Vejamos... Vocabulário cada vez mais básico. Incapacidade quase total de cálculo só  possível com o apoio da máquina. Sem vocabulário não há capacidade de relacionar conceitos e, portanto, de ajuizar. Raciocínio lógico só a máquina é que faz. Sem a faculdade do juízo, como se compreende ou analisa ou se sintetiza ou discerne ? É a geração mais bem formada de sempre ou talvez a geração mais inapta de sempre o que é verdadeiramente assustador  face ao futuro ? Óbvio, como em tudo, há exceções, mas estas, estão prestes a valer Diamantes face à sua cada vez maior raridade. Apoiados nestas realidades sociológicas junta-se um coro de mendecaptos que têm uma fé tecnológica, com base na ignorância, em tudo o que lhes parece moderno, chegando quase a constituir uma nova religião salvítica. Apetece dizer; continuem, continuem que vão bem!

domingo, 9 de março de 2025

A Catedral Inacabada

O objetivo de uma desconstrução não é destruir tudo quanto se nos apresenta produzido. Será mais como uma engenharia inversa. Gaudi exemplificou na sua catedral inacabada como se pode construir com um fim sem fim, qual metáfora do parafuso sem fim de Arquimedes...Construir sem fim e desconstruir revertendo...Ora, pode-se esperar também um início e encontrá-lo mas, também pode ser lícito encontrar um início sem início. Será ? Parece-vos estranho ? Por que não ? Pensando melhor... A catedral sem fim teve um início e poderá no entanto permanecer inacabada infinitamente. Algo a pôs em marcha e, enquanto houver, homens, paciência, espaço, persistência ela, permanecerá inacabada. Mas, teve de ter um início. Sim ? Ao colocar a 1 pedra ? Na mente de Gaudi ? Nos tetra avós do catalão? Reduz-se ao absurdo e voilá... Encontrou-se a verdade! Verdade ou atalho preguiçoso e conveniente ? A construção também pode a qualquer momento parar e será que alguém está capaz de o prever com certeza ou aproximadamente? Infinito é infinito mas, também, só existe porque como dizia e bem Protágoras, o Homem é a medida de todas as coisas, pois só ele criou o medir. Não foi a matemática que criou o homem mas sim, o contrário. Não foi deus que criou o homem mas o homem que criou a ideia de deus. O Universo existiria sem o homem? Sim, mas não teria ninguém para o reconhecer enquanto Universo.  Mas então quem o criou, qual a causa primeira de tudo isto ? Coloca-se a mesma questão do ovo ou da galinha. O início da Catedral. Vejamos... Um pedaço de luz chega-nos de uma estrela longínqua que já morreu há milhões de anos antes sequer de termos nascido. Faz-vos sentido ? Onde está o início ? Opiniões, aparências diria o Platão e que somos seres cheios de cópias das Ideias. A luz aparece, mas não é cópia de Ideia nenhuma. Nem sequer posso relembrar algo que existiria há milhões de anos antes de eu ter nascido e da qual ainda estou a receber emanações celestes. Platão estava errado neste ponto. Para ele, ciência era doxa, opinião,  não verdade. Tem razão. Ciência é verosemelhança não verdade.  Mas, quem sabe o que é a verdade ? Uma coisa é certa, a ideia ou conceito de verdade são criações racionais do Homem.  Podemos dizer, a Razão criou muita coisa estúpida. Correcto. A Razão guiada pelo Homem faz o que ele lhe dita ou refletidamente ou por impulso. A Razão planeia guerras e assassinatos tal como obras científicas,  filosóficas, artísticas e por aí fora. É por isso que, a Razão não se pode tornar o mito dos filósofos. Porém sem ela, o que seríamos e o que poderíamos esperar ?  Protágoras portou-se bem. Medida sim, de tudo e para tudo. Tudo o que não for medido é incomensurável o que é diferente de imensurável. À questão qual o início do íncio ou ou fim do fim poderíamos juntar a questão de saber que razão traz a luz à razão? É fácil responder a isto ? Não adianta virar as costas. Fechar os olhos não faz as coisas aparecerem ou desaparecerem. Ora bem, Gaudi respondeu a esta última questão. A Razão é uma catedral em construção (e também em degeneração que pode ser regenerada ) sempre inacabada.


Céu e Inferno



O céu e o inferno estão em nós. Deus é a força que nos move, que nos faz vencer a inércia em direção ao céu e que, nem sempre se alcança, uma vez que, ninguém deseja o inferno. Estar no inferno, cair nele nem sempre é evitável ou voluntário. Também, o céu, nem sempre é alcançável ou voluntário, apesar de ser quase sempre desejável. O desejo e a vontade podem apenas um pouco quanto ao sentido das nossas escolhas. É o pouco que nos cabe fazer, o pouco que baseamos no nosso ínfimo saber. Saber é pouco e, nunca é muito poder. Nem mesmo a posse do saber é decisivo para alcançar o céu. O imponderável faz a maior parte. Não é o acaso que manda mas, também, não é o mito ou crença na razão, por muita que seja a fé, que dirige os acontecimentos. Se fizermos más escolhas poderemos ainda assim ficar mais próximos do céu. Fazendo boas escolhas podemos inacreditavelmente aproximar-nos do inferno. No geral, no entanto, más escolhas trazem-nos desvantagens e boas escolhas potenciam maiores vantagens. O certo nem sempre é a adequação. O julgamento falha, não só, porque inadequado mas, também, porque a priori torna-se complexo revê-lo. A priori é ponto de partida e nunca de chegada. Revisão só a posteriori e, esta, pode ocorrer tardiamente, quando já a proação e/ou qualquer reação sejam irrelevantes. Há então que reorientar o sentido, realinhar a disposição, redobrar o esforço e recuperar a desvantagem em direção ao céu. A força é o movimento da massa em deslocamento que flui como lava incandescente, lentamente, quase incontrolável mas, sempre imparável até ao seu zénite entrópico. Não é outro ente. É matéria em transformação incandescente. Deus é o telúrico obrando à superfície do ser.

Ensinar a refletir sem refletir




Caminhava em direção à escola onde lecionava e pensava para consigo mesmo, como poderia ensinar os alunos a refletir se,  ele, como professor, nem sequer tinha tempo para refletir ?  E dizia para consigo mesmo, bem, até teria tempo mas, a vida, não é só trabalho e reflexão, são precisos intervalos, pausas, recreios tal como existem entre as palavras que, também, por vezes se calam. Processos, processos e Kafka na memória. Tanto controlo e rigor descontrolados! A máxima eficiência transformada em força de inércia. Os burocratas aos uivos clamando pelas estatísticas. Resultados, soluções, remendos, derivações, enfim!... Uma panóplia de infindáveis recursos usados para atravancar a vida em vez de a alavancar. Por isso, chama-se-lhe parafernália. Sobre a aparência de saúde o Homem está doente. As sociedades estão enfermas da vaidade pelas suas próprias obras.

Porque não somos as marionetas de deus

Se tu acreditas em Deus porque acreditas na Física ? Mas, a Física, não é uma construção humana, racional, com base no que consideramos serem factos materiais ? O que é a matéria ? Como se forma o espírito ?  E o mesmo, raciocínio não o temos sobre Deus ? Quem é ? Como o estabelecemos ? O que o distingue ? Como podemos saber isso ? Entendes agora ?... Será a Física o percurso racional para tentar explicar Deus, deixando a fé, como fenómeno irracional, ser uma crença irracional pelo indemonstrável, pelo verificável, pelo corroborável ?... Alguns dizem que a fé pode ser racional. Equívoco! Fé não é racional mas sim, apenas crença. Esperança que seja. Palpite sem prova. Fé é crença na crença, tão somente, sem qualquer outra evidência que não o acreditar em algo. Razão é bem mais humilde e complexa do que um simples crer ou acreditar. A razão é céptica (kanicus) à partida. Demonstra? Exemplifica? Corrobora? Certifica? Garante ou então, não?! Crer só por crer é fé, nada garante, excepto a fidelidade sofismável a ela própria, em suma, "eu creio"! Essa firmeza atitudinal, nada tem de evidência no seu concreto, excepto se for apoiada por factos. Pois bem, o que é um facto ? Questão  complexa e racional. Se Deus é um facto, então tem de preencher certos requisitos para o ser. Quais são eles ? Quem os estipula ou postula e como ? É Deus que narcisisticamente se postula a ele próprio, ainda para mais, através de um intermediário, considerado menor ? Não acham isso suspeito ? Deus querer ser reconhecido por uma sua criação (visão narcísica de adulação dele próprio através da sua criatura servil e menor), sua criatura diminuída ( com mácula, defeito, castigo físico e/ou moral ) para glorificar a sua divindade ? Não acham isto, ridículo? Fantasioso ? Não acham isto uma construção racional defeituosa em si mesma ? Se crêem em Deus então, não precisam de razão, nem de ciência. Para quê ? Deus, já decidiu, já resolveu e vos guiará como marionetas, como criaturas submissas às leis determinadas pelo seu ser único, o ser perfeito, supra natural, supra racional! E, assim, chegamos à ditadura e à questão:  para que é preciso pensar ?  Para que serve filosofar ? Deus explica e, se não explica, assim dispõe, decide, quer e obriga, forçando todo o universo (determinístico porque previamente determinado) a curvar-se a sua alteza real. Pois é... O mundo parece-se algo com isso ? Não, francamente não! Se acham o contrário é melhor reverem a arquitetura dos vossos conceitos e dos vossos juízos. 

Nem é difícil






Graças a deus sou ateu! Por que começo com esta frase ? Primeiro, cultura, linguagem cristã. Temos outra ? Aqui, não. Graça, deus, até ateu se referem a deus e à linguagem teológica a que estamos presos. Deus é um modelo, diz-se, para os crentes. Para um ateu, um simples modelo ou abstração, sem mistério, absolutamente funcional e humano. Daí a ajoelhar ? Que ajoelhem os iconoclastas! Não sigo centralidades! Não há centro mas, centros. Não há esfera mas, esferas e estas, oscilantes ou em movimento produzem uma mão cheia de excentricidades. Elipses, parábolas, etc.Referencial ? O filme Ágora. Ateu ou atheos ? A Theo ? Claro, não sou Van Gogh das palavras. Teo, deus. Não, não há! Derrubar uma mentira com milhares de anos, é obra! Há sempre continuadores acerebrados. Sim, sem cérebro. Eu, a teu, ateu, ou seja, sem deus. E sou a teu, por que nunca serei teu ou de ninguém, pertença, biscoito, galhardete de ti ou de alguém. Pertenço-me a mim ? Não sei quem sou ou a quem pertenço. Sei que sou assim, pertenço a mim. Um reino meu que não é pertença de mais ninguém. Propriedade ? Não. Dizem, tenho herança genética e cultural. Herdei muita coisa que não me pertence, para a qual não sou digno merecedor. Mas, herdei e, no entanto, não me apropriei, mesmo usando, mesmo banqueteando-me! A vida é farta. Luminosa. Pródiga.

A LEI DO 'FURÃO'

Van Gogh
«Quem me dera ter poder para fazer todos felizes, desde que, essa felicidade também não me matasse?! Mas...Se calhar, estou-me queixando defendendo um imaculado que eu não sou nem eles nunca foram e, não forão. Amigo sou, serei, sofrerei se necessário mas...A vida só darei por alguns.»[noético-09/10/2014]







E se de repente...

De repente surgiu algo determinado de encontro a uma disposição que apanhada de surpresa  mas determinada na sua forma tem de se ajustar a esse novo contexto de determinação. A resposta adaptativa estaria pré programada por antecipação ? Então não haveria evolução genética ou esta seria apenas fruto de interferências predeterminadas ? E, por outro lado, com esses mesmos determinados ingredientes  será que geraria sempre em cada disposição sempre a mesma padronizada reação, como se as rochas se deformassem ou erodissem sempre do mesmo jeito ou, os seres humanos reagissem todos da mesma forma ? Quem reduz tudo à fractalidade equivoca-se. Sabemos da nossa tendência à simetria, porém, tendência,  não é fatalidade ou destino pré programado. A busca de padrões também poderia ser um constrangimento determinado o que limitaria fortemente a ciência. E será que não a compromete  seriamente? Temos outro meios não determinados de conhecer ? Mas, se tudo está condicionado, quer as causas, quer os efeitos estão viciados e conhecer limita-se a um mero constatar e quanto ao prever seremos simplesmente demasiado limitados na projeção dos antecedentes em direção aos consequentes. Mais baralhados ficaremos se invertermos a seta do tempo. Ao que parece recebemos luz do passado como se viesse do futuro. Incrível. Então até o futuro está programado. Ou será que não existe futuro algum ? Como compreender isto ?
Não estamos aqui apenas a clarificar conceitos. Estamos a problematizar a questão. Temos, porém, de ser concisos e claros. Temos ? 

SOBRE O LIVRE ARBÍTRIO



Aquele que se emociona, que sente, que pensa, que age e interage, que se responsabiliza, tudo num só, quem é ? Será que estamos no controlo de isso tudo ou somos completamente comandados por forças interiores e exteriores que nos ultrapassam ? Ou tomamos essas forças que não controlamos e as dirigimos e/ou orientamos num sentido que nos permite pensar que somos uma entidade única, a principal, ainda que não singular,  responsável da nossa biografia ?  E, se tudo isso não passar de uma ilusão e até esse sentimento de controlo for também fruto da energia que nos percorre ? Será que a natureza está pré programada para produzir uma sinfonia de Mozart ? Será que a natureza está programada para nos conduzir até à lua ou até marte ? Será que a natureza está determinada a produzir deuses ou quaisquer outros seres espirituais ? Será que é a natureza que produz todas as filosofias ? Para Espinosa, sim. A natureza é tudo. Tudo é manifestação da natureza e não há separação entre corpo e alma porque tudo brota da mesma fonte, estilo Lavoisier, na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. A essa ideia, opõem-se os dualistas platónicos, que defendem que corpo e alma são duas substâncias distintas. Uma física e a outra metafísica (para além da física), como uma ideia que é algo que não se consegue agarrar, podendo ser gravada na memória ou em qualquer outro suporte enquanto escrita mas que não é possível capturar. É possível transmiti-la mas não tocar nela. Sem corpo material será que a ideia subsistiria ou até se produziria ? Ainda hoje se discute esta questão. Uma coisa parece certa, a cultura é fruto de todas as flutuações da matéria humana mas, não parece haver uma única e universal biologia totalmente comum e pré programada. Mesmo com as enormes repetições históricas dos vícios e virtudes humanas não é possível prever a História do futuro. Ou a ciência ainda falha neste capítulo ou então haverá sempre escolha humana. Também a interação de cada ser com os outros seres, ao longo da sua biografia, interfere de modo não pré programado na resposta individual de cada ser e na futura cadeia de interações desse ser com o coletivo dos outros seres. Também aqui é difícil identificar as causas e deduzir as consequências. Mais uma vez a ciência falha e, quanto mais tenta explicar mais parece haver por explicar e para prever. O que pretendo dizer com isto é que talvez a ciência não consiga demonstrar que temos ou não temos livre arbítrio. O certo é que o determinismo radical, chega a ser quase não científico ao propor que tudo está pré determinado excluindo qualquer hipótese de progresso do conhecimento científico ou reduzindo toda a vida humana a causas e efeitos numa perspectiva muito behaviorista e reducionista, estilo estímulo-resposta do ser humano. Somos muito mais que o fruto de causas e efeitos e, mesmo sem opções divergentes podemos sempre escolher decidindo não escolher ou, talvez, sejamos simplesmente determinados à escolha o que não significa determinados a determinar a escolha.


É estranho

É estranho ser assim
Deste modo e não de outro
Não sou o que aprendi
Nem sequer  o que esqueci
E, permaneço igual
Todos os dias diferente
Assertivo e perplexo
Sem fiel e sem balança
Estático e oscilante
Num rumo indefinido
Marcado pelo desejo
De nada mais desejar.
Porque nem o que se deseja
Se consegue captar.
Cativo do impermanente 
Livre, no inconsistente
Prefácio e epílogo
De um livro inacabado.
É da Terra ser-se enterrado
E da Vida ser-se emprestado.


O Antropocentrismo será um fatalismo?

O androcentrismo pode ser ou não um fatalismo. De facto não existe outra forma de ver o mundo senão a que é construída pelos seres humanos. A nossa empatia e compreensão para com outros seres é ela própria imaginativa e  antropocêntrica. O mundo, a realidade que construímos nos lugares que percorremos e habitamos são construtos de um Antropos. Protágoras tinha razão, o Homem é a medida de todas as coisas, até de Deus. Nenhum outro animal seria capaz de o fazer por si senão o Antropos. Podemos dizer, a ciência alcança de outro modo, vai para além dos nossos sentidos. Sim, mas quem faz a ciência sem ser à sua medida e criando outras métricas ? Quem conhece sem ser à sua medida ? Sem comparar à sua escala, sem submeter ao seu tipo de inteligência, entendimento e compreensão ? Se não fosse assim, seríamos alienígenas na nossa própria mente, corpo e mundo. O único fatalismo é o enviesamento de assim sermos e pretendermos pensar o contrário.

Os cépticos têm alguma razão para se pronunciar ?

Partamos da tese de  que os cépticos têm razão e de que nada conhecemos. Porém, para quem nada conhece, as elocubrações mentais criadas, os construtos, parecem descrever, relativamente bem, o mundo real e, permitir ao homem intervir de algum modo, responsável, pelas suas ações e intervenções. Este, é o paradoxo. Como é que as nossas crenças estão todas erradas ? Seria ou é, como se a ficção se ajustasse, pelo menos, dentro de certos 

moldes, funcionais, à realidade. Ninguém sabe o que é zero, ou um número imaginário ou, até mesmo, um triângulo equilátero. E, no entanto, não saberíamos descrever ou prever, a realidade, com tanta exactidão, sem esses instrumentos. É estranho, muito estranho. Por outro lado, dizem-nos, alguns  neurocientistas, que o cérebro é que cria a ilusão da realidade. A questão é então, esta: Se o cérebro é que cria a ilusão da realidade, também, é ele que cria os métodos e instrumentos de medição que permitem manipular e prever com relativa precisão essa mesma ilusão sem que, com tal, surjam acidentes e eventos caóticos causados pela inaptidão humana. Estranho, novamente. Para mim, este argumento, basta, para derrotar o determinismo neurociêntífico. Se captamos tão mal a realidade como podemos tanto sobre ela ? De que equívoco falamos ? Dirá o ceptico, conhecemos a ilusão não a verdade. Pois... Como é que sabemos melhor o que é uma ilusão e menos o que é uma verdade acerca da realidade, dita, fantasiada ? É possível pensar que nada se conhece, sem se pensar ou sem se crer no que se pensa ? Pois é... Quem sabe ? O céptico ?

Imperial



Ser Jovem, Todo o Terreno.




Bem...Já fui jovem e, lamento, não vejo nada de jovem, nos jovens de hoje. Parecem-me, ou meros papagaios do que ouviram outrora, ou seres esquisitos, sem a menor curiosidade intelectual (salvo os que a têm), ou seres derrotados à partida ou à chegada mas, sobretudo, sem ideias, sem conhecimentos, sem soluções e, cheios dos mesmos entusiasmos e sonhos que, nós, também, ou só alguns, tivémos.
Ser jovem deve ser mais uma das profissões mais antigas do mundo. Todos depositaram esperanças nos fieis depositários. Muitos, já cá nem estavam, quando essas esperanças se concretizaram ou goraram. É a vida! Hoje, ao ver um jovem "JOTA" falar na sua própria crença em si, pareceu-me mais um padre a vender um dogma, estilo, creiam em mim. Lamento, não ser condescendente! Creiam em mim, é digno de quem quer demonstrar tudo, sem nunca ter hipótese de ter provado nada ou quase nada. Precisa-se de crédito para crescer! Sempre! Apostar, não tem de ser uma cegueira e, pode, até, ser a melhor solução. Nada se faz ou existe, sem risco! Viver é um risco! Morrer é uma certeza e uma verdade. Jovens todo o terreno ? Aqui, vacilo. Aqui direi, há cada vez menos! Desacredito. Cada vez estão mais "geração biberão"!  Sem pais, ou velhos, não dão uma para a caixa! Sujar sapatilhas, fatos ou a pele ? Chega de falsas promessas. Falta a energia para sofrer, a tolerância à dôr, sem se ser masoquista! E quanto às provas, só falta, elas, serem realmente dadas! Aí, o discurso será substituído pela consomação e, aí o júbilo terá, finalmente, a sua real ocasião.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

A próxima fé!

Tenhamos sido bons ou maus, ricos ou pobres, bem ou mal sucedidos, com melhor ou pior saúde, quase todos nós teremos um dia que enfrentar a dor, antes da morte. Quase ninguém escapa a esse sofrimento. Prémio ou castigo, ninguém sabe. O corpo definha e cobra ao espírito esse preço, como se, de uma vingança se tratasse, não o sendo, no entanto. Habitaste-me agora, morres comigo. Irás sofrer. Que destino tão belo que deus nos traçou. Fomos uma criatura sujeita aos seus desígnios ou caprichos e fartamos-nos de sofrer, dizem, para a nossa purificação. O certo é que, ao que parece, fomos criados com defeito, caímos em pecado por causa de termos usado um instrumento que deus nos concedeu e para o qual não nos habilitou. Então, para quê que deus nos dotou de um instrumento que não sabíamos utilizar ? Andou a brincar connosco ? Fomos ou somos o seu divertimento ? Perdoem-me mas, só idiotas acreditam nisso. Não é certamente esse deus. Mas, então qual ? A vida continua a ser igual para o homem independentemente de qualquer que seja o deus adotado. Das duas uma, ou não sabemos explicar o que seja deus ou tudo não passa de uma medíocre invenção, ou de um ardil para nos subordinarem  ao poder de certos homens. Lembram-se das monarquias absolutistas ? Os clérigos funcionam quase na mesma base. Sofreremos todos para remissão dos pecados devido a uma criação defeituosa do próprio deus ?  Bem, outrora e ainda hoje, em certos lugares se, dissermos estas palavras somos considerados blasfemos e heréticos, criaturas quase satânicas. Para eles só há céu e inferno, deus e satã e mais ums anjos e pequenos demónios. Tido muito maniqueísta. Ou preto ou branco ou cinzento ? Pois, o limbo foi abolido tal como dantes foi considerado. Nota-se as certezas que têm sobre essas ditas realidades fantásticas. Qual é então o problema? A ameaça que representamos para as suas mentiras e doutrinas enganosas. Até poderia haver eventualmente Deus mas, certamente não é o que eles defendem ou teorizam e nem nós sequer conseguiríamos explicar. Porém, se Deus estivesse para além da nossa compreensão e entendimento, como saberíamos alguma vez que existe identificável, e até, como conheceríamos a sua palavra ? É muito contraditório e muito duvidoso. Entretanto, também, igualmente possível seria não haver deus algum, algo bem mais fácil de explicar e/ou demonstrar por absoluta ausência de provas concretas ou abstratas da existência de deus. As únicas provas advêm do testemunho de humanos que acreditavam nessas entidades supranaturais e dos seus acólitos convertidos a essa ordem imaginária dogmática que nunca findou de se reproduzir para perpetuar o poder de alguns homens sobre outros. Daí que, as tiranias ainda hoje ocorram. As doutrinas de pensamento único baseadas em factos imaginários ainda proliferam com muito sucesso por aí. Falta só criar ainda a religião do unicórnio-deus.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Pensar bem ou mal e não pensar

Pensar bem o que é ? Bem, não há nenhum pensamento perfeito. E, também, não há nenhum pensamento sem sujeito. É impossível um conhecimento puramente objetivo nesse sentido. É o sujeito que conhece. Mas, ainda que não consigamos definir com um critério rigoroso e objetivo nenhuma valorização válida, temos todos que reconhecer que há patamares (prefiro, em vez de graus) de proficiência do pensamento. Ora, haverá patamares muito inferiores e outros muito superiores. Em quê e como ? Irei falar do que constitui os patamares, os graus. Graus de quantidade e qualidade de recolha de dados. Graus de coesão e relacionamento entre esses dados. Graus de tratamento/análise desses dados de modo a constituir informação relevante para qualquer determinado fim ainda que hipotético. Graus de enquadramento de cada realidade. Graus de adequação da informação à realidade. Graus de reanálise da realidade e da adequação da informação a essa reavaliação. Haverão mais situações mas, não iremos ser exaustivos relativos ao quê. Como ? O Como tem a ver com o modo e a modalidade. De que modo se pensa ou se pode pensar ? Há sempre um sujeito e um objeto, uma relação e uma ou mais finalidades envolvidas. Uma das finalidades é a conformidade ou adequação. A relação pode ter variadíssimas vertentes e disposições. Pode ser mais lógica do que emocional, pode ser o contrário, pode ser um equilíbrio entre as duas, mas terá sempre que conformar-se a uma ideia ou a uma realidade. Porquê esta distinção? Porque uma ideia pode simplesmente significar um fim imaginário. Uma realidade pode ter essa modalidade, mas, referimo-nos, neste caso ao mundo físico e à nossa adequação/adaptação a ele. Podemos adaptar-mo-nos de modos diferentes mas, certamente, alguma disposição sobressairá sobre outras adaptações numa realidade em constante mudança. Óbvio que uma realidade tem inúmeras modalidades possíveis e até talvez inimagináveis. Então, temos um Como muito complexo. Há quem confunda confuso com complexo. O sujeito pode confundir-se. A realidade é o que é, ou seja, o que se depara ao sujeito e, também, em parte, a forma como ele a interpreta. A forma como cada um interpreta e interage com a realidade é múltipla, diversa, com alguns laivos susceptíveis de padronização mas nunca uma forma única e absoluta e/ou imutável. Bem, já refletimos um pouco sobre o pensar bem ou mal. E, quanto ao que designamos como não pensar ? Bem, ninguém na realidade conseguiu alguma vez o Nirvana, embora, alguns, adorem ser adorados por dizerem tê-lo alcançado. Mas, não era a este sentido de suspensão do pensamento que nos referíamos. Talvez, possamos chamar-lhe apenas pensamento reativo. Porquê? Por que não é um pensamento proativo, minimamente fundamentado, situando-se quase no domínio do caótico e das relações básicas entre preconceitos, podendo os fins serem efetivamente reais e concretos. Este é o não pensar. Independente da disposição, ao sabor das emoções, caoticamente organizado, umas vezes lógico, esporadicamente, outras vezes, quase um pre pensamento humano, cheio de força mas sem direção ou sentido. É um tipo de pensamento não tão incomum entre os homens ditos "sóbrios". 

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Bem, não é bem assim...

Verdade. Questão muito complexa. Porquê? Há que avaliar a sua pertinência, a sua adequação, a sua conformidade, a sua sincronicidade, etc, ou seja, todo um mundo de imprecisões. Mesmo quando estes e mais fatores podem ser praticamente quase quantificáveis há sempre uma métrica marginal que se nos escapa. A nossa aproximação é laboriosa mas sempre precária. A verdade foge aos nossos modelos, talvez, demasiado perfeitos para exprimir qualquer realidade. São os nossos parâmetros, demasiado intransigentes que apenas se adequam parcialmente à realidade. Aqui ou ali, os modelos encaixam-se na realidade com perplexidade mas, logo a sincronicidade falha. Ora, a verdade, não pode ter a plasticidade do tempo todo, nem é passível de estabelecimento parcial. Em suma, como procurar a verdade se, não temos ideia do que ela é a priori ou se, estabelecemos restrições ou métricas consensuais ou aleatórias para a sua captura ?

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Um Cro-magnon Informado

Leia-se um capítulo de Proust, Aristóteles, Séneca e, reflita-se, na pessoa que somos, no que temos capacidade para fazer, na forma e no alcance do que pensamos, na precisão do que escrevemos. Se, formos humildes, certamente,  sentir-nos-emos pequeninos anões, pó das estrelas, em matéria de elegância e solidez de inteligência, face a essas figuras do passado, que até hoje, nos ensinam. Ao comparar-me com eles, sinto-me um Cro-magnon Informado. Afinal, tanta informação, não me trouxe maior lucidez, maior sensatez, maior sabedoria. Quando me vejo entre os homens comuns de hoje, empoleirado numa gravata e num canudo de um curso qualquer superior, percepciono a mesquinhez desses nossos ensaios no ridículo. Titubeantes e indecisos ou cegamente decididos, oscilamos como velas ao vento, num marear obtuso e incoerente, sem rumo nem projeto, arrastados pela vida ao sabor das correntes.

sábado, 12 de outubro de 2024

A CAVERNA É A BOLHA

A caverna é a nossa bolha, a nossa ilha, o nosso círculo de verdade, a nossa rede social, a nossa ignorância. Dentro dela, vivemos acorrentados uns aos outros, numa cacofonia ruidosa que ilude ser um diálogo, presos às nossas crenças comuns, que são sombras, aparências, sem nunca nos questionarmos se estamos certos ou errados ou se existem outras realidades que desconhecemos e que, por vezes, outros, poderão partilhar connosco. O conhecimento comum, trivial, conformado e aparentemente consistente, não deve pois, obliterar o pensamento ousado, questionador, que busca e procura transcender-se e ampliar-se. As sombras não se extinguem enquanto não se extinguir o fogo desse inconstante desejo e dessa profusa emotividade que projecta e distorce o real e o converte em sombras e ruídos, não deixando penetrar a luz, o lúmen da razão que clarifica, delineia as formas, ordena e constrói de acordo com a dinâmica de um mundo vivo e real, onde o homem se torna homem, se liberta dos grilhões da ignorância, se autonomiza e, se transforma num ser moral, responsável pelo seu arbítrio e pela sua práxis. A caverna está por todo o lado e em todo o lado, mesmo quando, cegamos deslumbrados pelo conhecimento que, não é, nem de longe, nem de perto, a verdadeira sabedoria.

sábado, 31 de agosto de 2024

O Grau Zero

Confunde-se muita vezes conhecimento e sabedoria. Quem pretende, erroneamente, fazer da filosofia um modo de busca de conhecimento, encontrará nela, certamente, uma panóplia de nomenclaturas criadas a pretexto da sua sistematização. Viciados nesta sistematização, confunde-se toda a filosofia com os conceitos, de que ela apenas subsistiria ou então, com a própria ciência (doxa) como forma de sobrevivência sob ocultação por detrás dela.
Pergunto, onde e quando se filosófa ? Sim, é certo que a filosofia se exerce pela razão mas, também, pela práxis. Já se esqueceram os filósofos de como ela nasceu ? O que dizer da filosofia do Jardim ou da antiquíssima Skolê que não tem nada a ver com os atuais programas de ensino e a escola actual ?
O verdadeiro exercício do saber filosófico resume-se essencialmente ao questionar e ao progredir nesse questionamento, incessantemente, como forma de aprender e aperfeiçoar a arte de pensar com vista ao viver, ao saber viver e à sabedoria como cúmulo do saber viver melhor ou de modo mais sábio e inteligente, na posse e uso máximo das nossas faculdades da razão e a sua proficiente aplicação à práxis.
Dir-se-á que, a crença exacerbada na Razão, sob a forma de uma prepotência intelectual arrogante e fanática causou a quase catástrofe ecológica atual. Faço uma leitura diferente. Não houve nunca um abuso do uso da Razão, pela humanidade, pelo contrário, a coberto de um pretexto uso da Razão nunca se agiu tanto contrariamente a ela e, nunca se agiu tanto e tão sistematicamente de modo irracional. O mal não adveio da Razão mas do seu pretenso, mas falso, bom uso. A ilusão do bom uso da razão não se pode substituir ao verdadeiro uso de uma Razão que não se reconhece a si mesma como hegemónica, nem soliloquial, e que, antes pelo contrário se descobre ínfima no seio de um mundo polissémico e desordenado. Ordenar para compreender não significa subjugar o concreto a uma ordem racional, nem utilizar a ordem como teckné manipuladora do concreto com vista à sua modificação exploratória sem avaliação das suas consequências e subsequentes rectificações racionalmente justificáveis.
O conhecimento é um construto humano. O conhecimento não é tudo. O amor "filo" à sabedoria "sofia"  revela e exige um cuidar pelo "ethos" do saber, um velar por ele num mundo, o que constituiria o pleno uso da Razão. Ora, o que se tem visto proliferar não é isso. O uso desenfreado de uma razão amputada de um ethos, isso sim, é o que se tem verificado. Temos vivido guiados por uma razão manca que não se reavalia e que apenas avalia. Não podemos passar sem a Razão mas, será que sabemos viver com ela ?
Ao falar dos programas de filosofia no ensino, exprimia este questionamento. Será que estamos realmente a ensinar a filosofar ou a pensar e pensar bem nas nossas escolas (recuso-me a escrever com letra inicial maiúscula) ?

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Em favor do silêncio

O motor imóvel. O que move e não é movido, excepto que é movido a mover, não é verdade ? Mas, se não é movido a mover porque move ? Tem de agir para mover. Será deus um paradoxo ? Pode um paradoxo constituir uma prova argumentativa ? Não. Pode resultar de uma demonstração argumentativa ? Sim!

Ora, o que move e não é movido é causa primeira de tudo que se move. Se é causa provoca um efeito. Todas as causas provocam um efeito e este efeito é causa de outros efeitos ad infinitum. Mas, se assim sucede, uma causa tem de ter outra causa que lhe antecede, ou seja, uma origem. Nesse caso não haverá causa primeira e existirão também causas originárias e não originais, ditas "primeiras", antecedentes, também ad infinitum. Ora, isto não parece razoável.

A necessidade versus a contingência ou os acidentes. A ideia de um substare ou substrato advém de Aristóteles. Há coisas ou qualidades permanentes e outras impermanentes, contingentes ou acidentais. Segundo o filósofo o permanente seria o palco que susteria os acidentes e, sem os quais, estes últimos não se dariam. Estilo, a estabilidade é o garante da impermanência. Vejamos... Um objeto diz-me sem cor porque a quantidade de luz absorvida e reflectida varia e os órgãos dos sentidos que a captam interpretam de modos diferentes. Primeiro, o objecto varia no tempo tal e qual como a luz e a fonte da luz que é outro objeto. Portanto, qual é o permanente aqui ? A mudança, como diria Heráclito. Ora, será possível que, no meio de tantas mudanças, não possa haver um ou mais momentuuns em que, quer o corpo iluminado, a fonte que ilumina e o corpo que percepciona se repitam ao coincidir ? Será impossível que tal aconteça, estilo, uma capicua, 222, 333, etc ? Ou seja o corpo está num momento de repetição, o ângulo e a frequência da luz também num momento de repetição e a fonte o mesmo ? Um alinhamento  triplo repetido. Possível é. Aliás, para quem acredita na "substância" no "substare" não é difícil pois, é nisso mesmo que acredita. Porém, aqui, o mundo está invertido. Os acidentes é que permanecem e as condições de repetição é que constituem o acidental, o raro, o fortuito. Ou seja, a substância é impermanência e os acidentes é que permanecem. Não é isto, contraditório em si ? Pois, parece-me que sim  e, no mínimo paradoxal. Não podem ambos os argumentos serem verdadeiros. 

E, poderíamos seguir por aí fora na desmontagem dos argumentos de Aquino.

Em resumo, crê quem quer crer e, muito provavelmente, constitui um exercício espúrio tentar provar a existência do não existente.

O que é o desconhecido? É vasto e ninguém sabe. O que é a morte ? Ela existe e ninguém sabe! Quem será ou serão deus ou os deuses ? Ninguém sabe! Haveremos de os inventar como às sereias e aos unicórnios. Do que podemos falar e conhecer ? Do que acontece e da vida.

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Máxima

Os direitos civis, sem reflexão crítica, adormecem e confinam os homens à sua própria escravidão.

Tardiamente

Chega uma hora em que apenas esperamos que os acontecimentos da natureza evoluam a nosso favor, tudo apenas, porque há muito tempo nos divorciámos dela e, como seres conscientes, tememos as consequências dessa nossa atitude precipitada.O controlo é ilusório, a consciência é mínima, a necessidade imperativa, a construção provisória, a vontade esperançosa e o conhecimento fragmentário, de modo que, só nos resta a humildade e o espanto, mais do que o prazer e a dor, a alegria ou a tristeza no meio de tanto encanto e desencanto.Se as coisas são como são, afetam-nos de um modo em que elas não são, mas sim no algo em que se tornam pela nossa compreensão. Podemos saber coincidir assim como mostrar diferença por comparação, nuns casos atendo-nos noutros excedendo-nos, sem que nunca esse vínculo seja definitivo. Declarar seria se, de tudo o que é dito surgisse maior claridade, tal como, diferenciar o "juntar" do "somar", não se limitando a discorrer sobre o óbvio.Quantas e quais células transportam um pensamento ? Quantas e quais formam um conceito ? Não há pensamentos sem células, sem moléculas, sem átomos, sem partículas, sem energia, sem Universo e, muito menos (como pescadinha com rabo na boca) sem pensamento. Poetizando, pensar é quase como um produto de fabrico químico, incontrolável na sua génese, para qualquer humano. O livre arbítrio será como uma corrente químico-eléctrica emergente entre múltiplas correntes que lhes confere uma orientação ou ordem cuja origem pode até ser um núcleo ilusório chamado sujeito, como se as marginais correntes das marés é que lhe delineassem os contornos mais ainda do que as areias de uma praia. Uma espécie de princípio de impulsão de Arquimedes mas no eixo horizontal (para compreensão) e em múltiplos eixos, na concretude.  Tudo isto, já estava inscrito no Tao. Fazer do Tao uma religião é perder-lhe completamente o sentido. A insuficiência das línguas e o seu cada vez maior atrofiamento não permitem diferenciar o sagrado do sacralizado. O Sagrado, não é Deus. O sacralizado é! Sacralizado é como a cristalização de um mineral. É o advento das ideologias que, por serem prolíficas e daninhas, ocupam todo um vasto espectro do espaço-tempo, parecendo ser, ou prometendo ser, a revelação ou a salvação. Sagrado é, outra coisa. Não envolve nenhum ser parasitário â mistura, nem é evidente como revelação e muito menos salvação. O Sagrado não se revela, respeita-se pelo entendimento. Não se venera, simplesmente, não se profana. Não nos salva, apenas nos desperta aonde estamos a cada instante.É preciso ter olhos para ver para além das imagens e do imaginário. Nada é sobrehumano ou inatural. O Universo é natural. O homem que ama e que mata é natureza. Há que aprender a pensar entre as palavras e escapar ao eflúvio de falsas erudições murmurantes e ruidosas. Não acredites no Sagrado, encontra-o!

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Reflexões

Os meus botins, que trago calçados, fazem-me lembrar os teus sapatos de atacadores azuis, que foram os teus últimos. Pensava há pouco, ao avistar um pequeno ser de guarda-chuva, graciosamente caminhando, nas saudades  que sinto. Estou aqui, ainda, rodeado da prateada beleza do Mar, vista sublime do Oceano. Tantas horas solitárias, tantos sonhos frustrados, tantas esperanças, tantas horas sem sentir o prazer de compartilhar. Só caminhei, só caí, só me  ergui mas, só, nunca foi a minha natureza. Mar, ventos, sol, nuvens, tempestades... Fui salvo pela agrura dos elementos que sempre me despertaram ou tornaram sonâmbulo caminhante por entre os vivos.

Mudança de Paradigma

Não sabia se iria viver ou morrer. Fiz o meu balanço. Nada a arrepender.  Preparei-me para partir. Não morri. Que medo, agora, de viver!?

Sem livre arbítrio não há ciência

Eu, fui aquilo que pude ser, enquanto fui alguma coisa. Claro, que não fui fantasma. Até, depois de morto, alguém se lembra de me ter visto, de me ter falado, de me ter aturado, de me ter amado. Faço da testemunha de outros, a prova de que existi, mesmo que, essa prova, se apague, pois, a memória, não é eterna, aliás, como tudo o que sabemos. Dirão os deterministas que estava tudo determinado, ainda que, mudando as múltiplas disposições, determinantes a cada instante, e que, portanto, apenas cumpri a minha natureza. Falso, nem sei qual a minha natureza foi, ou era. Não sei, mas, se assim estava determinado, deveria em vida ter chegado a saber. Nunca soube. Era ela que me controlava ? Claro que não. Uma coisa é estar com fome, outra, decidir fazer jejum. Claro, esta decisão não se pode perpetuar sob risco de vida mas, podemos, sempre, dentro das possibilidades que conhecemos ou, que consideramos disponíveis, escolher. Podemos perfeitamente jejuar uma refeição. O limite, foi a natureza determinística que impôs. A decisão foi o momentum do livre arbítrio. Se isto é traduzível em ondas cerebrais prévias, por favor, identifiquem os triliões de sinapses que dão origem a estas ações?... Ah, e até estava acompanhado com alguém com fome que se alimentou. Duas configurações, dois mundos, o mais razoável seria comer e, no entanto, eu preferi, apesar do sacrifício, não o fazer. Motivos ? Testar o meu autocontrolo. Belas ondas cerebrais. Agora, imaginemos o mesmo no cérebro de um muçulmano durante o ramadão. Pensemos que, o que lhe vai na alma é o cumprimento, devido à sua crença num voto de jejum. Devem ser outras ondas cerebrais com um desfecho semelhante. Tudo, determinado. Eu, por que decidi, ou alguma determinação desconhecida decidiu por mim, testar a minha própria natureza e, o muçulmano por que as suas crenças, também, todas determinadas, o conduziram à obediência ao código do jejum próprio da sua religião. Chega a ser ridícula, a opinião dos deterministas. Mais, ainda, dos deterministas ateus. Parece que defendem uma posição próxima da pescadinha com rabo na boca. Se não são livres, de escolher, conscientemente, então, são tão predestinados como qualquer crente quando acredita sobre o que diz a sua religião. Sucede, que, até nem mesmo a maioria dos crentes religiosos acreditam nesse modo ou disposição do universo, pré determinado. Por isso, ainda mais ridículo parece, haver cientista a defender estas posições. Escudam-se, claro, em Espinosa. Deus ou a Natureza. E, então, tudo passa a ser Deus. A Natureza é Deus e, a ela ninguém escapa, quais passarinhos, numa gaiola, criada por um vocabulário inventado por padres. E volta-se ao mesmo. Ninguém sabe de nada. Mas, Deus porquê ? Certo, o livre arbítrio parece uma arrogância. E é! É a única forma de subsistirmos, de nos rebelarmos contra a natureza, sendo Natureza. É uma rebelião que cria caos e ordem. Dela resulta a cultura, coisa criada pelos homens e pela razão ou inteligência humana para subsistir e até, atingir os píncaros de viver, acima do sobreviver. Um luxo da natureza ou que a natureza concedeu a si mesma, talvez, a maior falha ou rutura detectável no universo, a consciência e a liberdade (condicionada às disponibilidades) de escolher, mas, ainda assim, uma escolha, ainda que ela invoque energias determinadas para a sua execução. Pegar num curso de um rio e desviá-lo. Não estava escrito em nenhum lado, nem em nenhum Destino, embora possa sempre figurar no livro do mundo dos contabilistas probabilistas ou, diria, dialéticos ?  

Deixo-vos

Digo-vos, aquilo que já todos sabeis, sobre como viver, numa simples fórmula: superação na tristeza e na dor, harmonia no quotidiano e intensidade na alegria.

Método

Um método pode, durante um limitado período de tempo condicionar, não só os resultados obtidos e a obter, bem como, afetar a possível diversidade de abordagens que, poderiam, eventualmente, alargar, pelo menos, a expectativa de um maior ou mais vasto e amplo espectro de conhecimento.

Trilogia

Não somos santos, nem malignos, nem loucos. Temos dos três um pouco. Ainda bem que, por vezes, é muito melhor o não ser que somos do que, o não ser que supomos ser. Ser, portanto, não é a única razão de existir e, por vezes, existimos não sendo, tal como, muitas vezes somos, não existindo. Convém clarificar. Existir não é o mesmo que viver. Estar vivo, ser vivo não significa existir. Também, existe muita coisa que não é viva.

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Potássio na água

O mais valioso perante a morte é 

Viver e estar em paz

Pois, depois de mortos, tanto faz.

Porquê a paz se a morte é descanso eterno?

A paz como equilíbrio,

Adaptação, sem excesso.

Não eternidade,

Não prolongamento,

Insustentável, indevido.

Não uma sonolência absurda

Mas, simples prudência,

Evitando o inferno,

E buscando o céu,

Na Terra dos homens.

Ainda que, esse céu, seja só por nós habitado e que, raramente,

Ou mesmo nunca, chegue a ser partilhado.

Há muito mais do que nós, em nós,

E cada jardim possui a sua geometria.

Alguns jardineiros tratam bem do seu quintal 

Outros, apenas sonham com o quintal alheio

Ainda outros ou são tolos ou desleixados

Mas todos os jardins têm flores

Mesmo aqueles em que as sementes não estão visíveis à superfície.

Todos os nossos jardins morrem de forma diferente, só muda o modo... 

O nosso ego aflito dilui-se como potássio na superfície ondulada da água

E, depois,  mais nada.

Fadigas e canseiras, 

Alegrias e brincadeiras

Jardins e jardineiros

Num ápice, tudo finda

E seremos nada.


segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Quando der por mim...

Quando der por mim, estarei morto. A ignorância parece ser o combustível que incendeia o conhecimento. O que não sei, desafia-me ou, desafia o meu orgulho, a minha vaidade, a sede de ser importante, de não me reduzir ou resignar à pequenez. Pouco importa o que não sei, pois se, sobre tal, nada sei, nem sequer posso avaliar a sua importância. Não há a prioris do valor. E, pouco importa o que seria pois, nunca se poderá achar muito a descobrir uma ínfima parcela. Por tudo isso, enquanto entretido a lutar contra o excesso de luz e, também, de escuridão, quando der por mim já deverei estar morto pois, se não sei, como posso dar por mim ? Como posso dizer-me consciente ? E, se o posso, em que termos? Da realidade, a cada instante, captamos e processamos uma infinitésima fração. Como é que uma ínfima parcela da realidade pode ter noção sequer do seu todo? Conhece uma formiga todo o deserto do Saara que percorre ? Enfim!...Ínfimos, somos e seremos. Não estúpidos. Esses, são os que sabem sem saber. Os que sem saber imaginam que já sabem. A humildade não extingue o saber, pelo contrário, é o seu verdadeiro ponto de partida, o qual, se persistirmos para sempre nele, nesse ponto permaneceremos. Mais que isso, é veleidade. Menos,  é leviandade.  Quem chega a um ponto acrescenta um ponto. O contrário é ser-se nulo. Mas, quando dermos por isso, já teremos terminado o que nem sequer iniciámos!

segunda-feira, 15 de julho de 2024

A intimidade

Ela, surge sem aviso ou, fazendo-se anunciar, vai-se revelando aos pouquinhos sob a forma de rituais.  Diz-se, que aproxima seres. O meu ponto de vista é outro. Os humanos familiarizam-se por uma ou sob uma aparente proximidade. Digo, aparente, por que nunca jamais alguém vive ou viveu a vida dele através de outro. Nunca jamais alguém esteve dentro dos pensamentos de outrém. É essa a distância que nos torna próximos. Somos família mas, com muito pouca coisa própria (para além da natureza instintiva) em comum. Daí que, a intimidade, o intimismo que se possa estabelecer entre quaisquer dois ou mais sujeitos, seja sómente um acordo temporário, uma aparência bonita e, muitas vezes, sem qualquer consistente concretude. Não nos iludamos pois com as exibições e manifestações, talvez, muitas vezes exarcerbadas, quer de amor,  de companheirismo e/ou de amizade.
À moda Confuciana diria; o próximo oculta o distante.

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Falta-lhes um dedo!

Se... Que mais ? Oh, homem desembucha! Mas, não há mais!
Perdemos-nos! Aonde estavam ? Não sabemos situar. Então, como sabem que se perderam ? É verdade, não sabemos.
Um robô costumava reabastecer-se a ele próprio e, após, realizar uma dança. A partir de certa altura deixou de realizar a dança. Por eficiência energética abandonou o ato inútil de dançar. Evoluiu. Excelente! Aprendeu. Magnífico! Só que... Desconsiderou todo o bem estar que a dança causaria em termos mentais a um ser humano consciente. E se para uma máquina sem emoções a lógica proposicional e do cálculo são suficientes, para um humano,não! Não são! Uma dança pode significar um novo equilíbrio psicológico, muito mais eficiente ou gratificante do que um cálculo de calorias ou energias perdidas ou ganhas. Um homem motivado, pode até pensar e trabalhar melhor mesmo que com uma fome tolerável. Um robô, por eficiência estupida, desconsidera esse gasto de energia "inútil". Claro, que a máquina não tem de ir ao psiquiatra. Mas, é precisamente por isso, que nunca será humana, nem sequer lhe chegará aos calcanhares! Por isso, não há que temer o HAL de 2001 Odisseia no Espaço. A mente, não é algo separado de um corpo. Não há nenhuma máquina que sequer se aproxime de perto da perfeição, competência e eficiência adaptativa de um ser humano. E, tudo isso, até um simples dedo encerra mais inteligência por milímetro quadrado do que qualquer máquina mecânica criada pelo homem. Desiludam-se os quasi fanáticos (ignorantes) da IA.

quinta-feira, 27 de junho de 2024

Considerar os intervalos

Contas-me as peripécias da tua história com um enorme entusiasmo e eu, cansado do teu monótono tagarelar digo-te que não estou interessado em ouvir. Pode ser o cúmulo da falta de empatia, ou até, talvez, inveja, por não ter tantas peripécias ou uma autobiografia interessante para te relatar. Contudo, incomoda-me ouvir-te. Peço-te o silêncio. Tu insistes. E eu, começo a ficar irritado, desconfortável. Se era para me conduzires a este estado, com a tua necessidade de interagir e de te relacionares comigo, então, tornou-se contraproducente.  Relacionar-me contigo não significa que seja permanente, contínuo, sem pausas. Há momentos em que as nossas disposições divergem. Não dá para viver num eterno abraço. Não dá para prolongar um beijo até ao infinito. Temos que considerar os intervalos.

Viver

A vida é o acto mais solitário que existe.

Um soldado caído, exclama, alvejaste-me, não pares, mata-me!

A vida é o próprio existir solitário em acto, acrescenta quem alvejou, é por isso que não te mato.

Prazer e sofrer são os únicos sentires do que é estar-se vivo.

A dor acorda e desperta para a maldita hora que se consome para a meta.

O gôzo emola e ruma ao consolo da bastança, efémera celebração asceta.

Talvez, um frequente oscilar temporário seja o único estado do ser-se vivo.

Mas, de que tudo isto interessa, após ter-se morrido ?

Interrogar é o coração de todo este ruído, imersão total nos sons que nos transportam ao destino.

Valeu a pena ter vivido ? À pena valeu, também, ela, termos fingido!

Não sei se reconheço

Não sei se me reconheço? Não sei se reconheço estes rostos, todos, na enfermidade... Gente comum, vulgar, cada um com seu percurso, sem nunca nos termos cruzado. Generalidades, inutilidades. Sofremos e nem há como evitar. Se a maldade da doença nos afectar, só resta Não sei se reconheço. Este equilíbrio entre as nossas aspirações, possibilidades, inevitabilidades perfaz o triângulo da nossa existência.  Com nada viemos e nada levamos. 

Inocência Perdida

Uma naja aspira as ínfimas particulas do teu odor, serpenteando a sua língua bifida, fitando-te, olhos nos olhos, antes de te dar a última mordidela, enquanto tu, jazes, inválido, de pernas partidas, debaixo de uma enorme laje de betão. É a tua última cena enquanto alma viva. É o terror! A tua consciência não te deixa sair de cena. Estás preso às tuas percepções, ao vício de um real construído, do qual não consegues escapar. Ah, malditos sentidos. Ah, incontrolávell cérebro. O terror, não é a morte, é antes, a última cena, ceia dos nefastos sentidos, cerebralmente reconstruídos, sem que, voluntariamente, consigas escapar à cena animada e colorida e, à escuridão do medo. Para que te serve uma consciência, um cérebro, os sentidos quando morres ? De que te serviram os alertas ? Inocência perdida,  consciência terrífica. É o preço da vida. Não controlamos o nosso cérebro.