sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Emparedados



1/4 para as  7. Esqueci-me de tirar os agrafes do forno. O cheiro a clips esturricados invadiu-me as narinas...Um ano novo começa...Onde está a novidade ? Dava tudo para que não me vissem nem me falassem mas para permanecer no meio dessa massa anónima de cujo cheiro quimérico a transpiração sinto os passos... Eu sou o maior filho da mãe que há por estas bandas. Seria ridículo até nisso julgar-me herói. Há sempre um caso mais desesperado e mais estranho que o meu. O que somos ? O que pretendemos ser ? Aonde queremos chegar ? Uma coisa parece certa, somos pouco amigos do animal que sentimos em nós. Somos...Uma súmula indiferenciada de identidades, uma rábula de quimeras, um efervescer simbólico com pretensões à eternidade. Chegar à vida não é simples, é-nos dado, por quem nos procriou. Chegar à morte não é simples, para ela somos guiados, como robôs naturais. O sonho é ser deus, a fraude é o sonho intangível, o facto o resto visível de toda esta loucura, normalíssima e sereníssima, que nada tem de estranheza ao fim de uns breves anos da nossa permanência. Bebamos o elixir das almas belas, o vinho daqueles que não se refinam nas sarjetas. Não basta ser, é preciso Ser, Grande, Virtuoso, Belo, Sucedido ou, uma outra coisa qualquer que brilhe e que afugente a poeira que cobre finalmente o bronze dos anos. Quebrar um silêncio é apenas uma outra subtil forma de emparedar as palavras. Um filtro de fixação de CO2 que se evade pela nossa boca, como um peixe debatendo-se retirado de um anzol. Tudo o que vejo, relembro, rememoro como vivência, faz-me sentir o maior filho da desgraça à face do Planeta. Foi assim que eu fui ? Quem me ensinou a ser assim ? Porque me tornei neste ser assim e não numa maçã pendurada numa macieira ? Responderia...Fui andando com os amigos. Fui sendo por aposta em sortes. Não tinha nervo para toda aquela paródia da disciplina macaca, a mesma que,  transforma estátuas em corolários de bênçãos pré-alinhavadas.  Desgraça...Não nasci para a costura...Mas, nasce-se para alguma coisa, como se o futuro já tivesse traçado ? Será que o Destino consegue invadir os terrenos da História, como um rio que corre sobre a terra ? Seremos mero aluvião do tempo ? Bolhas!...Façamos bolhas... Guardemos a "interrogação" como a única chave do nosso mundo. As bolhas ?...Produto que a si se produz ? Quiçá?
[noético - 16/12/2011]