1/4 para as 7. Esqueci-me
de tirar os agrafes do forno. O cheiro a clips esturricados invadiu-me as
narinas...Um ano novo começa...Onde está a novidade ? Dava tudo para que não me
vissem nem me falassem mas para permanecer no meio dessa massa anónima de cujo
cheiro quimérico a transpiração sinto os passos... Eu sou o maior filho da mãe
que há por estas bandas. Seria ridículo até nisso julgar-me herói. Há sempre um
caso mais desesperado e mais estranho que o meu. O que somos ? O que
pretendemos ser ? Aonde queremos chegar ? Uma coisa parece certa, somos pouco
amigos do animal que sentimos em nós. Somos...Uma súmula indiferenciada de
identidades, uma rábula de quimeras, um efervescer simbólico com pretensões à
eternidade. Chegar à vida não é simples, é-nos dado, por quem nos procriou.
Chegar à morte não é simples, para ela somos guiados, como robôs naturais. O
sonho é ser deus, a fraude é o sonho intangível, o facto o resto visível de
toda esta loucura, normalíssima e sereníssima, que nada tem de estranheza ao
fim de uns breves anos da nossa permanência. Bebamos o elixir das almas belas,
o vinho daqueles que não se refinam nas sarjetas. Não basta ser, é preciso Ser,
Grande, Virtuoso, Belo, Sucedido ou, uma outra coisa qualquer que brilhe e que
afugente a poeira que cobre finalmente o bronze dos anos. Quebrar um silêncio é
apenas uma outra subtil forma de emparedar as palavras. Um filtro de fixação de
CO2 que se evade pela nossa boca, como um peixe debatendo-se retirado de um
anzol. Tudo o que vejo, relembro, rememoro como vivência, faz-me sentir o maior
filho da desgraça à face do Planeta. Foi assim que eu fui ? Quem me ensinou a
ser assim ? Porque me tornei neste ser assim e não numa maçã pendurada numa
macieira ? Responderia...Fui andando com os amigos. Fui sendo por aposta em sortes. Não tinha
nervo para toda aquela paródia da disciplina macaca, a mesma que,
transforma estátuas em corolários de bênçãos pré-alinhavadas.
Desgraça...Não nasci para a costura...Mas, nasce-se para alguma coisa, como se
o futuro já tivesse traçado ? Será que o Destino consegue invadir os
terrenos da História, como um rio que corre sobre a terra ? Seremos mero
aluvião do tempo ? Bolhas!...Façamos bolhas... Guardemos a
"interrogação" como a única chave do nosso mundo. As bolhas ?...Produto
que a si se produz ? Quiçá?
[noético - 16/12/2011]
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