quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Moleirinhas numa Cuba

By Marc Gunther
By Marc Gunther

Colocar uma "moleirinha"😅, ou seja, um cérebro numa cuba como referia Hilary Putnam trata-se afinal de uma mera transposição de um cérebro num corpo físico para outro tipo de corpo físico. Na realidade, o que muda é o ambiente próximo. O pensamento por certo não se manteria o mesmo, pois a fonte e o meio de informação mudariam. Não se pode dizer que  a identidade pessoal/humana se manteria, podendo ser conservada ou não por indução do super computador e pela possibilidade de alucinação. O super computador poderia assemelhar-se a qualquer substância alucinogénica. Seria possível pensar-mo-nos como cérebros numa cuba, tal como hoje nos vemos como cérebros (prefiro mente) num corpo. A questão mais profunda que me ocorre é a de saber se realmente o cérebro numa cuba constituiria efectivamente um ser vivo? É que de facto a vida não é apenas uma mera  receptividade, acumulação ou um mero processamento de informação, mas antes uma conquista adaptativa à necessidade e, um ser vivo está permanentemente em desiquilíbrio e em luta para se equilibrar. Numa falsificação deste mecanismo operativo pelo super computador que poderia falsificar este desiquilibrio a questão perde-se, pois o super computador teria de ser possuidor de um algoritmo quase infinito de geração de problemas e de produção cultural, tal como uma experiência sensorial de um corpo com mente e consciência constitui durante uma vida humana. Pode haver consciência sem vivência vivida e apenas meramente induzida mas, nesse caso, estaríamos perante uma vida ou diante de uma outra coisa qualquer? Um ser pode alucinar com drogas, permanece vivo mas, muitas vezes, nesses estados, não poderemos dizer com razoabilidade que está em condições de viver, pois perdeu o controlo da sua mente e as referências a um mundo circundante, parametrizado e mapeado,  em permanente transformação. Vejamos o caso de um aquário que pode ser sistematicamente alimentado por água e oxigénio e alimento de modo a permitir que dentro dele possam viver peixes.  Agora imaginemos que transplantamos, apenas, o cérebro de um peixe para uma outra cuba tecnológica virtual. Induza-se no cérebro do peixe que está dentro de água, que não precisa de oxigénio, ou de alimento ou até mesmo de água. Consequência, o cérebro do peixe pereceria. Ao contrário, permitamos o alimento, o oxigénio e a água. Que comportamentos  inúteis do cérebro de peixe verificaríamos quanto a agitar barbatanas imaginárias ? Seriam necessárias tais experiências ? Que tomadas de opções voluntárias teria o cérebro do peixe que efectuar para interagir com outros seres holográficos no mesm meio virtual ? Quem controlaria ou alimentaria por sua vez a máquina virtual indutora de modo a que ela se equiparasse à vida, cenarizando-se, complexificando-se, transformando-se e sendo potencialmente pseudo-transformada por cérebros de peixe ? Será que o cérebro de peixe conseguiria fabricar utensílios, teria necessidades (sem serem induzidas e/ou como produzí-las) ?  Um super computador não é todo o Universo físico, nem progride por si próprio num Universo físico, é apenas uma pequena parcela. Claro que há a AI mas não me parece que exista uma máquina de interrogar ou de filosofar perante o Universo ou haverá ? Sem necessidade, não há sentido, nem nada faz sentido. A inutilidade de uma máquina numa cuba seria total. Bastaria, no caso humano, induzir uma noção de felicidade perpétua do tipo "tu és feliz e nada te falta" que, tudo isto, por si só se revelaria de uma total inutilidade. Um peixe num aquário vive mas consciente. Fora do aquário debate-se até à morte por asfixia. Quem precisa de viver num coma ou acredita que vive num estado de coma  (ou de vida induzida) ? Quem não sente o perigo não foge, ou seja, nem reage. Um sistema informático quando há uma falha de energia (não havendo UPS e geradores) não falha parcialmente, mas na sua totalidade e por si só não se auto recompõe ou reconstitui. Um humano pode resistir à fome, com limites, mas há-de fazer tudo para se recompor tentando adaptar-se a esse desafio, para o superar, o mais rapidamente possível. Há toda uma dimensão cultural humana, que não é apenas singular, mas colectiva e transversal no tempo, sempre em transformação que escapa completamente a qualquer super computador. O cérebro numa cuba teria consciência de lata e de pilhas eléctricas bem ao estilo Oz. Um verdadeiro empobrecimento. 




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