Monsanto
Não sei porque nasci? Àparte da explicação clássica dos meus pais terem copulado, de um espermatozóide ter-se entranhado num óvulo, de a minha mãe me ter transportado no seu ventre e finalmente me ter expulso dele para um lugar estranho, nada mais sei.
Nasci nem sei quando, desarmado, sem conceitos. Os olhos abriram-se e esse sentido revelou-me um monte de figurinhas diversas logo que se desvaneceram as primeiras névoas.
Primeiro senti e foram os sentidos que me exibiram pela primeira vez o mundo. Coitado do Platão que trocou tudo, mesmo tudo.
Nasci e não fazia ideia onde estava, com quem coabitava. Os sentidos apresentaram-me o espaço e o movimento. Interagindo, o caótico confuso foi-se tornando mais claro ainda mesmo sem conceito. Há uma espécie de pré-linguagem de origem motriz: balbuciamos, apontamos, revelamos expressões faciais, por vezes choramos ou desatamos aos gritos, contorcemos o corpo, agitamos os membros, etc. Uma gramática perfeitamente adequada à nossa dependência.
Ouvir sons dos meus pais e outras entidades em meu redor não me queriam dizer nada. Não percebia o mundo por palavras nem por conceitos mas eu, já aqui estava, presente, no mundo.
Sinais, padrões e repetições, com o hábito foram progressivamente permitindo que chegasse às palavras e mais tarde, com elas, chegar aos conceitos e continuar a operar sobre o mundo de mais outra forma.
Quando se morre, tudo isso acaba. A vida, não são conceitos. Acabam-se todos os sentidos, o cérebro detêm-se e tudo acaba.

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