terça-feira, 25 de julho de 2023

A mente é que é mortal



Tantos séculos de cultura, a afirmar sempre, no mesmo sentido, de que o corpo é perecível e a alma imortal, quase que me convenceram. Porém, face à minha experiência, de quase morte, da qual regressei, pelos meios da moderna ciência da medicina, alterei essa minha antiga crença e perspectiva. O que morre é a mente e não o corpo. Convém explicitar. Corpo aqui designa matéria, energia, composto físico-químico natural, com alguma forma, dentro de uma panóplia de plasticidades. A forma pode mudar, mas a energia não se esgota, não termina,  transforma-se e transmuta-se noutras formas. A forma é metamórfica, camaleónica. Dos átomos e partículas ainda que mais elementares podemos dizer que sempre se transformam. Podemos dizer que um cadáver se decompõe e se transforma em múltiplos elementos físico-químicos que entrarão em outros elos que compõem outras formas corpóreas naturais. O que não poderemos dizer é que a mente não morre. É precisamente essa parte que não é conservável corpóreamente, quando o corpo se desintegra integrando-se no grande ciclo maior ecológico universal. É pois, a mente, a única parte de nós que realmente desaparece, sem transmigrar para lado algum da natureza. Nem quanta algum de energia dela sobra. É a mente que morre, afinal. E fruto da mente, não se perde no total, por que são as formas vivas das gerações seguintes que fixam, como cultura, humana, o rastro das mentes que as precederam. De resto, não há qualquer outro arquivo dessa presença. Contudo, precisemos, é a mente, a individual, que morre. Apenas o arquivo colectivo e virtual das mentes subsiste sob forma cultural.






Verdade


A situação mais perigosa do mundo é aquela em que o conceito/palavra "verdade" cai nas malhas da crença e da superstição. Na realidade, o perigo, não está nunca na palavra/conceito mas, sim, na incapacidade receptiva do auditório e/ou no seu uso como bandeira/dogma. Repetir muitas vezes que uma mentira é verdade, não torna a mentira verdadeira. No entanto, para muitos, assim sucede.
Compreende-se, assim, que, embora todos falem na "verdade" a grande maioria, na realidade, dela afasta-se, mantendo, no entanto, o subtil disfarce de ser seu discípulo.
Para esclarecer: a verdade é algo que se alcança pelo conhecimento através da lógica e do rigoroso ater-se aos factos e, nunca,  jamais, fruto de uma crença ou de um qualquer apelo de seita.
Depois de tantos séculos de luta pela razão, pelo esclarecimento e pela ciência com sacrifícios e fogueiras à mistura, eis que, chegados ao século XXI muitos, voltam a defender a crença de que a Terra é plana, de que não existe gravidade e de que tais convicções (eu chamar-lhes-ia crenças e superstições quasi fanáticas) se baseiam na verdadeira ciência. Essa, é a mesma gente que anda com telemóvel na mão, que usa GPS e as últimas tecnologias fruto de uma ciência que não se baseia nas suas crenças absurdas e até as desmente por completo. Não adianta apresentar-lhes factos pois eles, só acreditam na sua versão única adulterada da realidade mas, que, a eles de algum modo convém. A ciência, a verdadeira é pública, admite as suas falhas e tenta corrigi-las. Não se apresenta como verdade única irredutível, nem se sustenta em crenças injustificadas e não corroboradas por factos mas, isso de nada adianta ou convence quem por conveniência, ressentimento, fidelidade a um certo grupo nega tudo isso. Daí, chamar-lhe superstição, algo que é quase impossível de combater, enquanto que numa crença, ainda se consegue encontrar alguma abertura para ela vir eventualmente a tornar-se esclarecida.



Na cama do hospital


Na cama do hospital, sentimo-nos ínfimos, esmagados mas, ajustados à nossa real condição de seres interdependentes. Na cama do hospital apenas conseguimos imaginar, sem factualidade, como vivem os outros do lado de fora, enquanto eles, quase por completo, ignoram a nossa vida numa cama de hospital. Estando próximos permanecemos tão distantes, à distância de uma parede e de um tecto. À distância da condição de estar numa cama de hospital.
Na cama do hospital e diante  da perspectiva próxima da dor e da morte quase todos se compadecem, se entreajudam, estabelecendo os mais simples laços de humanidade. Na cama de hospital a dor é suportada quer pelo instinto de sobrevivência, quer pela medicação, quer pela empatia dos que, heroicamente, batalham  para nos curar.
Na cama de hospital o mais apto oferece-se aos outros não para se exibir mas para os aliviar. Na cama do hospital o mais antigo ensina aos neófitos tudo o que lhe pode facilitar a sua vida, presumivel, temporária e/ou definitivamente afectada.




Coménio e outros



Abra-se e leia-se a Didática Magna. Pense-se nos séculos que se passaram. Agora, pense-se nos Linkedinns, TikToks, Facebooks e/ou Instagrams...É a revolução, a digitalização, na realidade, uma horda que progride semeando a absoluta ignorância dos factos e da História gerando a quase universal estupidificação. A Terra voltou a ser plana, as vacinas têm chips de controlo das pessoas, os negros foram reis e raínhas da Inglaterra há séculos atrás. Nada é impossível, o etíope pode até, muito bem, mudar a cor da pele. A multidão lidera, incauta e irracional, libertina, imatura, inconsistente mas, empoderada pela quantidade e número de likes, num frenesim psitacista desenfreado. Quem não estiver na onda é melhor deixar a avalanche eclodir e desvanecer-se sem nunca sequer ousar atravessar-se à sua frente.
E eu a pensar que se morreu na fogueira para defender a verdade, para depois se chegar a isto?!...



Os Tuga Libres


Diogo Ribeiro

Os portugueses ficam muito contentes quando os elogiam ou quando algum indivíduo ou grupo de entre eles sobressai no âmbito internacional, embora, para tal, não tenham contribuído com qualquer esforço da sua parte. Quanto ao que se passa entre quatro paredes, já os portugueses criticam, consideram negativo, desonesto, despropositado, desmesurado, infiável, inábil e inadequado sem, contudo, evidenciarem possuir quaisquer padrões de exigência elevados.
Apropriam-se assim de muitas das glórias de outros assim como se demarcam com grande ligeireza dos insucessos comuns próprios, normalmente, responsabilizando terceiros pelos factos.
É uma atitude muito refinada de viver livres e contentes ou presos e amparados ao fado como uma bengalinha mágica.



sábado, 8 de julho de 2023

Do outro lado



Não há ninguém
À minha espera
Do outro lado
Nada, ninguém
Não veio ninguém
Estender-me a mão
Para salvar-me
Nada, ninguém
Nem virgens, nem anjos
Para cumprimentarem-me
Do outro lado
Apenas, nada e, ninguém.