Se a perfeição for a ausência de imperfeição, então todas as imperfeições são o modelo da perfeição que se nos escapa. Digo modelo por que é a partir dessas imperfeições que nós trabalhamos a ideia de uma perfeição. Mas a questão que se coloca é se esta perspectiva da perfeição não é ela também imperfeita ? Outra questão que surge é saber se duas imperfeições opostas resultam numa só ideia singular de perfeição ou se, se anulam de algum modo ? Ainda outra questão, bastante rebuscada é a de saber se a perfeição inclui a imperfeição ? Se não inclui, trata-se de um conceito fechado. Se inclui, então, a perfeição pode ser considerado um conceito aberto. Se a imperfeição pode ser um mal, então uma perfeição que a inclua, deverá necessariamente incluir o mal como elemento da perfeição. Se, pelo contrário a imperfeição não é um mal, pode perfeitamente ser incluído num conceito aberto de perfeição. Em suma, fechado designa concluído, completo, totalmente concretizado. Aberto, algo que é construível, edificável, realizável mas, e aqui podemos subdividir, para alguns, alcançável para outros inalcançável. Podemos aprofundar ainda mais o conceito de perfeição mas, ainda nem sequer definimos o que designamos por imperfeição. Será que haverá uma ? Voltamos à petição de princípio afirmando que a imperfeição é a ausência de perfeição. Aqui, mais uma vez escorregamos. Podemos ou não construir quase na perfeição toda uma casa e falhar na edificação do telhado ? Poderemos dizer que toda a construção é imperfeita ou que só parcialmente o é ? A partir de que ponto algo passa a ser imperfeito ? Relembra o paradoxo do calvo. Mas, o mesmo pode ser dito sobre as partes de uma casa. A partir de que critério se considera algo feito como perfeito ? Uma peça mecânica assenta noutra como uma luva. Dir-se-á perfeita na sua criação. Depois a peça, com o uso deteriora-se. Se fosse perfeita deteriorar-se-ia com o tempo e o uso ? Então, talvez sejamos forçados a reequacionar este conceito de perfeição. Mas, se então nada é perfeito, como estabelecemos o que é imperfeito ? E, se tudo é imperfeito, este não será um absoluto imperfeito ? Como sabemos que é imperfeito um vulcão explodir ou uma estrela desintegrar-se ? Como sabemos que é perfeito o nosso amor ou as nossas crenças se levarem-nos a matar ?
Parecem estranhas e longínquas estas questões e associações e suposições, contudo, podem ser plausíveis. Comparando a perfeição com a composição do ar que respiramos. Alguns gases são tóxicos como o oxigénio. Outros, só por si, não nos permitiriam viver. Se juntarmos poeiras, polens e cinzas, poderemos continuar a respirar até certo ponto diferente do ponto de adoecer ou de até morrer. No ar que respiramos faltam um sem número de outros gases, diremos então que o ar que respiramos é imperfeito, incompleto, impermanente ? Sendo por certo ajustado a nós, mataria por certo a maioria dos peixes. Afinal, o que se decide sobre a perfeição do ar ? Ou teremos que entrar na equação com a água do mar ? Os ciclos das coisas que se completam e de que ignoramos todos os elos da cadeia diz-vos alguma coisa sobre a perfeição ou imperfeição das coisas do mundo ? O que pode ser perfeito para um ser que não faz a menor ideia do que isso seja ? E se a perfeição for algo de natureza dinâmica e adaptativa, sem uma única resposta e sem um único princípio diretor ? Outro conceito que poderemos trazer a jogo é o de equilíbrio. Não é pelo grau que se define. O fiel da balança está em equilíbrio no vinho e no vinagre, na água da chuva e na água do mar, na trajetória dos planetas e das galáxias. Tudo se acomoda e desacomoda e tudo permanece em permanente mudança. Nenhum relógio é infalível ou perfeito e, no entanto, todos seguimos os dígitos ou os ponteiros por eles indicados.
03/05/2026
Sumário: Este texto apresenta uma reflexão filosófica profunda sobre a natureza da perfeição e a sua relação intrínseca com a imperfeição. O autor questiona se estes conceitos são absolutos ou relativos, sugerindo que a nossa ideia do que é perfeito nasce frequentemente da observação das falhas e lacunas do real. Através de exemplos práticos como a construção de casas, peças mecânicas ou a composição do ar, explora-se a hipótese de a perfeição ser um sistema dinâmico e adaptativo em vez de um estado estático. A narrativa propõe que o equilíbrio e a mudança permanente podem ser mais fundamentais do que uma pureza inalcançável. Por fim, o conteúdo desafia o leitor a considerar se a perfeição poderá ser um conceito aberto, capaz de integrar o erro e a impermanência como partes de um todo harmonioso.
