domingo, 10 de abril de 2011

O coração tem razões que a própria razão desconhece

A frase de título foi proferida por Pascal, mas já Camões também assim o entendia na sua Lírica. Junto-me a estes homens neste seu pensamento. De facto, parece-me uma chamada de atenção para o desprezo a que um mundo tão voltado para a tecnologia e para um saber racional vota essa parte de nós próprios.
Os sentimentos não têm uma gramática tão bem articulada como um pensamento que se socorre da língua e da sua organização. Parece-me que adjectivar os sentimentos como desprovidos de qualquer forma de conhecimento é redutor e, sobretudo, uma forma quase primitiva de negar a hipótese de a própria razão se transcender. Quero com isto dizer que, uma razão que diante das dificuldades se desmobiliza, só pode ser uma razão fraca e que em nada ajuda a dignificar o «humano». A ideia de que apenas a ciência, o conhecimento são formas dignas de saber, parece-me uma ideia mesquinha, ou que enferma da mesma mesquinhez que ela própria  condena autodesignando-se como «única». A soberba nunca conduziu a boas respostas na vida. Por isso, a humildade, não deve ser apenas aflorada superficialmente através do reconhecimento das limitações próprias. A humildade tem de ser praticada, sentida, vivida, experimentada e, com ela, os nossos horizontes abrir-se-ão para uma visão mais ampla, mais vasta, mais larga, mais transcendental. Por que isto, de haver apenas fórmulas exclusivas e seguras de conhecer e convém aqui referir a ânsia cartesiana a que por vezes a nossa vontade de conhecer nos conduz, ultrapassando o nosso entendimento, tem as suas consequências. Não, porém, para nos resignarmos ao desconhecimento. Não, também, para nos deixar-mos conduzir pela imaginação desenfreada sem limites. Como referia um antigo sábio, nascido em Estagira (Aristóteles), no termo-médio é que mora a virtude. E o equilíbrio é sempre das coisas mais difíceis de obter. No entanto, também não nos podemos apenas pautar pela procura de equilíbrios e pela segurança e conforto que isso acarreta. Ousar é preciso. Transcender é preciso. Errar não é erro, é o mais humano que se possa considerar. Se não, vejamos... Se a ideia de perfeição como refere Descartes, nos tivesse sido implantada à nascença por um Ser Divino, então, todos deveríamos ter a mesma ideia de perfeição e ninguém a poderia aperfeiçoar. Mas mesmo que tivessemos diferentes ideias de perfeição, cada um seguiria apenas a sua perfeição e, em conjunto, apenas procurariamos aliados que se nos tornassem favoráveis à prossecução do nosso próprio aperfeiçoamento. Esse rumo teria pelo menos um aspecto muito nefasto, o de nos levar a ignorar tudo o que não contribuisse para a nossa perfeição.Ou seja, apenas contribuiria para nos tornar «vesgos» ou «cegos de uma vista». Afinal, entender a perfeição segundo um só paradigma seria apenas o aperfeiçoamento de mais uma imperfeição, no meu modesto entender. Mas voltemos ao sentimento. O que nos é doado não é por nós criado. Ora, se não o podemos criar, tal tarefa está-nos vedada. Existem três consequências que podemos resumir sucintamente quanto a isto. Primeiro, existem limites ao que podemos criar, porque algo é criado sem ser por nós. Segundo, e decorrente da primeira, se algo é criado sem ser por nós, então, temos algo que nos é dado para ser partilhado também por nós e que deve ser preservado, respeitado e porque não melhorado? Terceiro, compreendemos que o acto de criar não é um acto desligado, avulso, solitário, mas antes, e até talvez, solidário, pois o que se cria, tal como uma obra de arte passa a fazer parte do nosso mundo, que é de todos, humanos e não-humanos. Por tudo isto, entendemos  que o acto de criar não deve ser nunca governado pela irresponsabilidade e pela falsa inocência que substima e até nem considera qualquer consequência. No entanto, saber que não está tudo criado confere-nos esperança, abre-nos rumos possíveis, liberta-nos mas, expôe-nos igualmente, responsabiliza-nos tranformando-nos em sujeitos da obra e a ela para sempre biograficamente ligados. Mas que tem tudo isto a ver com o sentimento ? O sentimento é uma área pouco explorada, pouco conhecida, sobretudo das ciências. Parafraseando Kant ao dizer que intuir sem conceitos seria uma cegueira e que entender sem intuir seria vazio, diremos que, uma razão que não seja sentida ou que nem sequer se debruce sobre o sentir é vazia e que o sentimento sem se confrontar com a razão será puramente cego. Ao focar estes dois extremos apercebemo-nos que o equilíbrio é coisa frágil, dinâmica e inacabada, como tudo o que diz respeito ao «humano». Porém, no aprofundar os nossos sentimentos, coisa que só uma razão conduzida com humildade executa, a razão pode descobrir «caminhos» para se transcender no sentido da sua própria razoabilidade. Afinal de tudo, conhece-se também o mundo sentindo e não apenas reflectindo, pois muitas vezes, aquilo sobre o qual se reflecte é fruto de um sentimento. Veja-se o caso dos efeitos nefastos de uma guerra entre irmãos. Só concebemos, reflectimos sobre essas consequências porque nos provocam um sentimento de desgraça, de catástrofe produzida - bem diferente da provocada por um tsunami -, de ignorância por não termos tido medida, etc. Mas também sentimos a priori o que pensamos e o que deduzimos e o que induzimos. Sem sentir, não teriamos esperança, caminho para caminhar, liberdade e um desconhecido enorme por todos os lados que nos abre um horizonte amplo de possibilidades e de problemas. Sem dor, certamente não andaríamos despertos. Não teríamos certamente nem sequer consciência, essa entidade quase esquizofrénica que nos é conatural. Senti, pensai, vivei!

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