Rapsódia
«Os homens não descendem dos macacos, mas desenvolvem todos os esforços para o fazer crer...Toda a vida é um mosaico de plágios. (...) A maioria imita por preguiça, para se poupar o trabalho de procurar de inventar, ou por prudência, que aconselha os caminhos percorridos e as experiências coroadas de êxito...Se viver é distinguir-se, o orgulhoso deveria providenciar para não se parecer com ninguém. Mas, a inveja, sob a sonante designação da emulação, trai-os:...o génio, conquanto não possa deixar, por vezes, de imitar como todos, tem esse nome enquanto extrai da substância nativa o que pretende: é aquele que tem coragem de rejeitar os mestres, proceder ao contrário do que a maioria diz e faz, de matar em si a natureza ovina e traçar-se, em novas regiões, caminhos que ninguém percorreu antes dele. (...) Neste renegar de si e querer ser cópia de outrem reside porventura o sentido de uma vergonha obscura...[A] imitação... pressupõe sempre a superioridade do modelo...O mal reside em que todos, até os maiores, dão mais exemplos tristes que óptimos, e os próprios imitadores, sendo também homens e dos menos vigorosos, estão mais sujeitos a imitar o mal que o bem.(...) Afirmar o contrário de outra pessoa equivale a segui-la - quanto mais não seja, na radicalidade do estilo.(...) Quando dois homens conversam, o mais fraco é sempre levado a imitar o outro, mesmo no tom de voz e nas atitudes, acabando por exprimir pensamentos opostos aos seus ou aos que manifestaria se falasse com outro. Qualquer de nós, se não é forte e vigilante, tem tantas maneiras de ser e de falar quantas as pessoas com as quais se encontra. A personalidade absoluta é tão rara, que se costuma desprezar como loucura ou venerar como génio. E a mania de imitar não se verifica apenas nos indivíduos singulares - na realidade, domina ainda mais facilmente os homens reunidos. A adição de muitas inteligências produz, na maioria dos casos, uma babuinada. Toda a casta experimenta prazer em macaquear os costumes da outra (...) A vaidade dos povos não os salva de se copiarem mutuamente - basta que uma nação seja, ou pareça, mais rica e preponderante, para que todas as outras adoptem as suas modas, o seu sistema de vida e até a sua língua e hábitos mais ridículos e repugnantes. Houve uma época em que todo o Ocidente se coloria à grega, no Renascimento à italiana e mais tarde à francesa e à inglesa. Hoje, somos todos imitadores da América.(...) [A] vida tornou-se cada vez mais uma imensa litania de repetição...Somos uma raça de copiadores - de nós mesmos, dos vivos e dos mortos. A pobreza de imaginação e o medo do novo tornam-nos praticantes do já visto e já feito. Se a moda ajuda - e impera em tudo - , vemos de súbito uma multidão trajada toda com o mesmo tecido cosido da mesma maneira, que se precipita atrás dos mesmos ídolos ou prazeres e grita em coro as mesmas palavras. Para ser em tudo e para tudo como os outros, recorre-se à violência, contra o nosso próprio ser, diz-se aquilo que não se pensa, finge-se sentir o que não se sente, pratica-se o mal ainda que a sua própria natureza se repugne ou haja risco de vida. Tudo se copia: da maneira de pensar à de andar; o estilo do amor como o do penteado. Quem não papagueia as imbecilidades correntes é inimigo da pátria ou, pelo menos, excêntrico ou bárbaro...Julgamos falar com duas pessoas diferentes e reparamos de repente que nos dirigimos à mesma alma, se é permitido o termo, dividida por dois corpos quase iguais.(...) São muito raros aqueles que morrem tendo possuído verdadeiramente a sua alma.(...) [Q]uase ninguém se atreve a ser o que é e todos querem ser outros...[U]m desenho tosco efectuado numa parede vale sempre mais do que uma cópia da Sibila de Miguel Ângelo.(...) Mas o homem não pode deixar de copiar e não faz senão copiar: é um fabricante de duplicados. Porque quer ter uma réplica do mundo, reduzida às proporções humanas e aos seus gostos. (...) Toda a arte é, pelo menos para metade, cópia: cada um que desenha ou pinta imita alguma parte do mundo...As casas são cópias aperfeiçoadas das grutas; as colunas cópias lisonjeiras das árvores; a própria música inspira-se nos sons da Natureza e nos rumores da vida.(...) Metade da magia provém da imitação, e a ciência, para explorar as forças naturais, tem de imitar a Natureza: criar lagos e cascatas para aproveitar a energia existente na água; escavar canais que são cópias de rios; reproduzir as asas das aves para as suas máquinas voadoras. Se o Demónio é simia Dei, nós somos Simiae mundi.»


