sexta-feira, 20 de julho de 2012

Em diálogo com o mundo

Passavam alguns minutos das três horas da manhã. Um grupo de pessoas, de que não interessa designar as idades, percorria as ruas da vila onde habito, gritando como se uivasse à Lua. Perguntou-me a minha companheira, em que estás a pensar ? Respondi-lhe que em muitas coisas. Revela-me, solicitou. Estava a pensar em manter o silêncio. Porquê, insistiu ela, para que lhe explicasse. Deus já os ouviu, parece-me uma censura minha. Seria diferente se pensasse que Deus os escuta sempre, pois essa é a verdade de que provavelmente andam arredados, por esquecimento. Mas, também, isto que penso é desnecessário. Estas manifestações ruidosas, dispensam os meus comentários. E no entanto, não deixamos de reagir e de pensar sobre tudo o que nos rodeia. O mais absurdo é, no entanto, ter tido estes pensamentos, sendo ateu, como tu sabes. Sim, compreendo. Também a mim me ocorreram pensamentos, mas não de censura. Pensava na alegria que os move. Tens a certeza de que era alegria ? Não. Não posso ter. Mas prefiro sempre olhar positivamente para as coisas. Talvez, a tua atitude seja mais razoável do que a minha, ao pensares desse modo. No entanto, nem sempre somos nós que escolhemos os nossos pensamentos. Sim, entendo-te. Poderias mudar de atitude se quisesses. Também quanto a isso, sou céptico. Não creio poder ver-me livre tão facilmente de atitudes mentais que fui construindo ao longo de tantos anos. Força do hábito, necessidade, objectivos, quiçá ?... Não é fácil alterar disposições com raízes tão longínquas e profundas. Sim, mas nunca é tarde para recomeçar e as mudanças, não surgem de um dia para o outro. Dizes bem, dizes bem. teria que ter tido outra vida ou passar a ter outra, mas não me parece que venha a ter tempo para tal. Concentro-me nas disposições de que sou portador e tento apenas limar-lhes as arestas, ou, se preferires, puxar-lhes de vez em quando as orelhas. Findas estas palavras, a minha companheira sorriu-se e permanecemos os dois juntos, abraçados em silêncio a admirar com perplexidade as estrelas que cintilavam sobre as nossas vidas.

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