Passavam alguns minutos das três horas da manhã. Um grupo de pessoas, de que não interessa designar as idades, percorria as ruas da vila onde habito, gritando como se uivasse à Lua. Perguntou-me a minha companheira, em que estás a pensar ? Respondi-lhe que em muitas coisas. Revela-me, solicitou. Estava a pensar em manter o silêncio. Porquê, insistiu ela, para que lhe explicasse. Deus já os ouviu, parece-me uma censura minha. Seria diferente se pensasse que Deus os escuta sempre, pois essa é a verdade de que provavelmente andam arredados, por esquecimento. Mas, também, isto que penso é desnecessário. Estas manifestações ruidosas, dispensam os meus comentários. E no entanto, não deixamos de reagir e de pensar sobre tudo o que nos rodeia. O mais absurdo é, no entanto, ter tido estes pensamentos, sendo ateu, como tu sabes. Sim, compreendo. Também a mim me ocorreram pensamentos, mas não de censura. Pensava na alegria que os move. Tens a certeza de que era alegria ? Não. Não posso ter. Mas prefiro sempre olhar positivamente para as coisas. Talvez, a tua atitude seja mais razoável do que a minha, ao pensares desse modo. No entanto, nem sempre somos nós que escolhemos os nossos pensamentos. Sim, entendo-te. Poderias mudar de atitude se quisesses. Também quanto a isso, sou céptico. Não creio poder ver-me livre tão facilmente de atitudes mentais que fui construindo ao longo de tantos anos. Força do hábito, necessidade, objectivos, quiçá ?... Não é fácil alterar disposições com raízes tão longínquas e profundas. Sim, mas nunca é tarde para recomeçar e as mudanças, não surgem de um dia para o outro. Dizes bem, dizes bem. teria que ter tido outra vida ou passar a ter outra, mas não me parece que venha a ter tempo para tal. Concentro-me nas disposições de que sou portador e tento apenas limar-lhes as arestas, ou, se preferires, puxar-lhes de vez em quando as orelhas. Findas estas palavras, a minha companheira sorriu-se e permanecemos os dois juntos, abraçados em silêncio a admirar com perplexidade as estrelas que cintilavam sobre as nossas vidas.

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