
«As crianças amam sem cuidado. Sem pudor, sem reservas, sem
terror. Elas amam alegremente, sem esperar, sem ilusões, sem barreiras. Elas,
não amam por qualquer razão. Amam, apenas, por que lhes vai no coração.
O amor adulto,
pelo contrário, é uma profanação. Baseia-se no cálculo, na predição, na
estratégia, no que aparenta ser seguro. Parece quase uma paralisia do coração
fabricada por uma qualquer metodologia científica. O amor pretensamente adulto
é tudo menos inocência. Devassa segredos porque aspira ao transparente. Produz
engodos e encantamentos como estratégia. Toma precauções para o futuro e
higiénico resguarda-se usando fralda ou babete para não se sujar. Gosta de
corresponder a perfis. Diz-se com personalidade. Tem a mania. O amor adulto é
vil e mal-educado. Aborrecido, previsível, insalubre e mastigado até à
exaustão. Tem a mania que faz as malas e vai de férias com o ferro de engomar
corações e a prancha de pisar sentimentos. Usa uma espécie de gel para alisar
diálogos e de simplex para não dar preocupações. Todo ele é forjado entre a beatice
de uma sacristia e as cobranças de uma repartição de finanças. O amor adulto é
uma fina flôr para burgessos. Embrulha-se em romantismos, empacota-se em
conceitos e é servido em cardápios à mesa de cadáveres adiados. Prescindindo
dos afectos, torna-se afectado. Acha-se filantrópico, anda sempre sério e preocupado
e até faz voluntariado. Adora fechaduras, dobradiças, correntes e cadeados. Faz
de conta que é maroto, atrevido e engraçado. Adocica-se a si próprio como se
fosse um rebuçado. Gosta de ser proprietário do outro. Adora poder, até mais do
que copular, para não dizer a palavra que começa por f. No fundo, corresponde à
profanação do sentido do próprio sentimento e, a uma forma de devassa da vida
do outro, que não é o próximo, mas sim, o mais longínquo.»
[noético - 11/07/2013]


