quinta-feira, 11 de julho de 2013

Amar é simples.



«Amar é simples, muito simples, mas nós preferimos quase sempre complicar. É quase como se pretendêssemos embelezar o que por si já é belo. E, como complicamos, muitas vezes acabamos por perder de vista o essencial, que é a felicidade que só amar proporciona. Quando amamos outro ser que consideramos poder vir a ser nosso par, questionamo-nos também, quase sempre, se somos correspondidos nesse amor? Escutando os nossos desejos, emoções e sentimentos agimos no entanto permeáveis a toda a interferência a esse amor que vivemos na primeira pessoa. Seria fácil seguir cânones nestas matérias, mas o amor não escolhe pessoas, tempos, lugares. No entanto, os cânones revelam-se fruto de experiências anteriores partilhadas, e deles emerge com solidez, o saber dos tempos. Por vezes o que se vive e sente não condiz com esses cânones pura e simplesmente. É nesses momentos que a razão claudica indecisa quanto a matérias sobre as quais não se encontra habilitada a pronunciar-se. E como resultado sentimo-nos perdidos e desorientados sujeitos a forças poderosas alheias à nossa vontade e que não controlamos de todo. Tentar ver na nossa decisão/reação a esse dilema causado por forças opostas e cegas (a cegueira da razão que não consegue penetrar em domínios para os quais não está habilitada e a cegueira da paixão/desejo que exige o objeto amado contra todas as adversidades) a resposta verdadeira é pura leviandade e denota uma profunda crueldade fruto de incompreensão para com quem sente. Nesses momentos aconselha-se o uso na relação dialogante da honestidade, a definição clara dos seus termos, etc. Porém, todos sabemos que por mais definições ou contratos que possamos estabelecer, as palavras escritas ou pronunciadas quase nunca acompanham o normal desenrolar da vida e acabam por se tornar anacronismos com facilidade. Diz o ditado popular «palavras leva-as o vento» e assim parece verdade. Mas, apagar ou apaziguar sentimentos e emoções é coisa que não se faz por mera dedução ou qualquer noção de verdade lógica. Não basta, dizer basta, quando se trata de assuntos amorosos. Também parece não chegar o agir com precaução, aliás tal comportamento até pode ser entendido como um retraimento quando na realidade se suporia que a pessoa investisse mais. A outra opção a seguir parece ser a mais fácil e consiste em nada refrear e deixar que tudo aconteça como sucederia sem a nossa intervenção. Mas, também esta opção é falaciosa. Na realidade, quando deixamos as coisas correrem estamos na mesma a interferir, tendo decidido precisamente que não interferiríamos, ou seja, não interferir é uma forma de intervir e por isso mesmo de interferir. Não existe qualquer neutralidade quando estamos diretamente envolvidos em algo que nos diz respeito. Ausência de ego? Também não parece solução. Parece natural amar de forma gratuita e incondicional quem realmente se ama, mas tal não é natural, nem corresponde à verdade. Mesmo o amor de uma mãe por seu filho recém-nascido não é incondicional pois, ainda assim, ela retira algum prazer da relação que se estabelece. No fundo, todos também gostamos de ser amados pelos outros e medimos tudo isso de formas subtis, umas vezes com maior rapidez outras vezes de formas mais lentas, mas todos sabemos ler esses sinais. O que se salva então de tudo isto? Tudo e nada. O mais certo e natural é que por mais experiências de amor que se tenham vivido se volte na mesma a gozar e sofrer como se de cada vez se regressasse a um estádio de infância e em que apenas existe como verdade a possibilidade de voltar a aprender. Sim…De tudo, o melhor que todo o amor nos pode dar é o renascer da possibilidade de aprender com o outro e de partilhando com ele crescer de novo.»
[noético-02/07/2013]

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