«Amar é simples, muito simples,
mas nós preferimos quase sempre complicar. É quase como se pretendêssemos
embelezar o que por si já é belo. E, como complicamos, muitas vezes acabamos
por perder de vista o essencial, que é a felicidade que só amar proporciona.
Quando amamos outro ser que consideramos poder vir a ser nosso par,
questionamo-nos também, quase sempre, se somos correspondidos nesse amor?
Escutando os nossos desejos, emoções e sentimentos agimos no entanto permeáveis
a toda a interferência a esse amor que vivemos na primeira pessoa. Seria fácil
seguir cânones nestas matérias, mas o amor não escolhe pessoas, tempos,
lugares. No entanto, os cânones revelam-se fruto de experiências anteriores
partilhadas, e deles emerge com solidez, o saber dos tempos. Por vezes o que se
vive e sente não condiz com esses cânones pura e simplesmente. É nesses
momentos que a razão claudica indecisa quanto a matérias sobre as quais não se
encontra habilitada a pronunciar-se. E como resultado sentimo-nos perdidos e
desorientados sujeitos a forças poderosas alheias à nossa vontade e que não
controlamos de todo. Tentar ver na nossa decisão/reação a esse dilema causado
por forças opostas e cegas (a cegueira da razão que não consegue penetrar em
domínios para os quais não está habilitada e a cegueira da paixão/desejo que
exige o objeto amado contra todas as adversidades) a resposta verdadeira é pura
leviandade e denota uma profunda crueldade fruto de incompreensão para com quem
sente. Nesses momentos aconselha-se o uso na relação dialogante da honestidade,
a definição clara dos seus termos, etc. Porém, todos sabemos que por mais
definições ou contratos que possamos estabelecer, as palavras escritas ou
pronunciadas quase nunca acompanham o normal desenrolar da vida e acabam por se
tornar anacronismos com facilidade. Diz o ditado popular «palavras leva-as o
vento» e assim parece verdade. Mas, apagar ou apaziguar sentimentos e emoções é
coisa que não se faz por mera dedução ou qualquer noção de verdade lógica. Não
basta, dizer basta, quando se trata de assuntos amorosos. Também parece não
chegar o agir com precaução, aliás tal comportamento até pode ser entendido
como um retraimento quando na realidade se suporia que a pessoa investisse
mais. A outra opção a seguir parece ser a mais fácil e consiste em nada refrear
e deixar que tudo aconteça como sucederia sem a nossa intervenção. Mas, também
esta opção é falaciosa. Na realidade, quando deixamos as coisas correrem
estamos na mesma a interferir, tendo decidido precisamente que não interferiríamos,
ou seja, não interferir é uma forma de intervir e por isso mesmo de interferir.
Não existe qualquer neutralidade quando estamos diretamente envolvidos em algo
que nos diz respeito. Ausência de ego? Também não parece solução. Parece
natural amar de forma gratuita e incondicional quem realmente se ama, mas tal
não é natural, nem corresponde à verdade. Mesmo o amor de uma mãe por seu filho
recém-nascido não é incondicional pois, ainda assim, ela retira algum prazer da
relação que se estabelece. No fundo, todos também gostamos de ser amados pelos
outros e medimos tudo isso de formas subtis, umas vezes com maior rapidez
outras vezes de formas mais lentas, mas todos sabemos ler esses sinais. O que
se salva então de tudo isto? Tudo e nada. O mais certo e natural é que por mais
experiências de amor que se tenham vivido se volte na mesma a gozar e sofrer
como se de cada vez se regressasse a um estádio de infância e em que apenas
existe como verdade a possibilidade de voltar a aprender. Sim…De tudo, o melhor
que todo o amor nos pode dar é o renascer da possibilidade de aprender com o
outro e de partilhando com ele crescer de novo.»
[noético-02/07/2013]
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