quinta-feira, 11 de julho de 2013

Amar vs Amar



«As crianças amam sem cuidado. Sem pudor, sem reservas, sem terror. Elas amam alegremente, sem esperar, sem ilusões, sem barreiras. Elas, não amam por qualquer razão. Amam, apenas, por que lhes vai no coração.
O amor adulto, pelo contrário, é uma profanação. Baseia-se no cálculo, na predição, na estratégia, no que aparenta ser seguro. Parece quase uma paralisia do coração fabricada por uma qualquer metodologia científica. O amor pretensamente adulto é tudo menos inocência. Devassa segredos porque aspira ao transparente. Produz engodos e encantamentos como estratégia. Toma precauções para o futuro e higiénico resguarda-se usando fralda ou babete para não se sujar. Gosta de corresponder a perfis. Diz-se com personalidade. Tem a mania. O amor adulto é vil e mal-educado. Aborrecido, previsível, insalubre e mastigado até à exaustão. Tem a mania que faz as malas e vai de férias com o ferro de engomar corações e a prancha de pisar sentimentos. Usa uma espécie de gel para alisar diálogos e de simplex para não dar preocupações. Todo ele é forjado entre a beatice de uma sacristia e as cobranças de uma repartição de finanças. O amor adulto é uma fina flôr para burgessos. Embrulha-se em romantismos, empacota-se em conceitos e é servido em cardápios à mesa de cadáveres adiados. Prescindindo dos afectos, torna-se afectado. Acha-se filantrópico, anda sempre sério e preocupado e até faz voluntariado. Adora fechaduras, dobradiças, correntes e cadeados. Faz de conta que é maroto, atrevido e engraçado. Adocica-se a si próprio como se fosse um rebuçado. Gosta de ser proprietário do outro. Adora poder, até mais do que copular, para não dizer a palavra que começa por f. No fundo, corresponde à profanação do sentido do próprio sentimento e, a uma forma de devassa da vida do outro, que não é o próximo, mas sim, o mais longínquo.»
[noético - 11/07/2013]


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