quarta-feira, 6 de março de 2024

Em suspenso

Levamos, levei, muitas vezes, com demasiada leveza, a ideia da morte. Daquele momento, em que, não nos despedimos mas, de vez, partimos.
Lembro ,outros, que já partiram. Quanto ficou para eles dizerem e fazerem? Mas, não houve mais tempo. O que quereriam ou teriam querido comunicar que não lhes foi possível ? Fazer ? Senti de perto a morte aproximar-se e, pensei neles, evocando a solidão que é estar-se nesse momento final. Sim, somos só nós. Nada a demonstrar. Toda a vaidade esvai-se. De que adianta deixar-se mais ou menos lembranças ? Não iremos estar por aqui, para ouvir ou ver, quem falará de nós. Nada do que fizémos,  criámos, vivêmos, terá relevância para nós que cessámos de existir. Claro, é bem melhor ter vivido em tentativa constante de acordo connosco. Afinal, fomos alguém, aquele que nos fomos imaginando mas, agora, até esse pensamento perde força. Toda a vaidade é vã. Tranquilo ou insaciado que importa ? A morte é implacável. Partir com sonhos de outro mundo, daí se dizer partir, viajar para outro lugar, é espúrio. Não há certeza alguma de que o sonho se concretize. Dirão, há a esperança. Sim, haverá mais essa vaidade, essa confiança num futuro, sobre algo, que nunca se passou, nem qualquer garantia que se passará. E se nada disso se realizar, de que serviu ter sonhado essa última vez ? Que vantagem isso trouxe ?  Acaba-se sempre por nunca se concluir. Concluir o quê ? As nossas leis, não funcionam, do outro lado, a partir do primeiro traço do além. Dói deixar aqueles que amamos. Nunca mais nos encontraremos. É um fim duplo da história, para todas as biografias envolvidas. Aquelas biografias que ficam, ganhando uma alínea e, também, para aquelas, para quem já não terá mais linhas. Só um ponto final. Um regresso ao silêncio de onde nunca se partiu. Sim, nascer vem do silêncio. Morrer, é reentrar no silêncio mas, num silêncio absoluto, num movimento em eterna pausa. O universo recicla-se mas, não se regenera. São duas encostas diferentes da vida. Caminha-se para o nulo.

Sem comentários:

Enviar um comentário