terça-feira, 16 de junho de 2026

Embebedemos-nos



Alguém virá acusar-nos de faltar à moral por termos escolhido este título. Vem sem encontro marcado. Não precisa estar preparado. Embebedar-se fará o resto. Que resto ? Fará sentido. Sim, fará sentido. Enamorar-se é de certa forma, perder-se e reencontrar-se de outro modo. Sem enamoramento o tempo parece esvaziar-se sem sentido. Enamorados, cada minuto ganha sabor, côr, contexto, expressão, sentimento, vida. Enamorar-se é ganhar dimensão não para se tornar grande mas, por ganhar alento, sopro, coragem, sentido. O amar, amoroso, é sem amarras. Enamorar-se é estar-se vivo, presente, ausente e a chegar de braços abertos a qualquer lugar, sem possessão, sem avidez, sem delírio. Quem nunca se enamorou jamais poderá compreender a poesia. Enamorar-se não é um destino, uma fé, um acoplar-se a algo mas, é ser-se transiente ou transeunte. Em movimento consciente. Ser-se, sem amarras, nem palas, nem pingentes, nem desígnios. Ser-se, pura e simplesmente. Sem adjetivos, sem objetivos, sem subjetivos, sem relativos mas, também, sem absolutos. Enamorar-se é embebedar-se, permanecer sobriamente turvo, maravilhar-se!

A Filosofia deixou de ser séria

A Filosofia deixou de ser séria e, também, deixou de filosofar. O que temos hoje, são apenas debates ideológicos para tentar provar quem tem mais razão. Proferimos comentários e argumentamos sobre crenças, sem examiná-las. A pressa, exige respostas, rápidas e, no meio disto tudo, onde está o distanciamento, onde está a reflexão, onde está o diálogo e o debate em prol da verdade, diferente daquele de quem somente pretende ter mais razão ? Pois é, a Filosofia deixou de ser séria. Quere-se tudo solúvel, instantâneo, sumariado e não há tempo para mais. Aprofundar é para doidos. Coloquem-nos no hospício. O mundo é para normais, normalizados, todos distintos e todos caricaturados. O fácil tornou-se o dogma. O imediato a métrica. O rebanho, a ilusão da diversidade. A democracia, a celebração da aporia do individualismo. A Filosofia, a proclamação do que se pretende e não se procura nem entende. Hanna Harendt falava na banalização do mal mas, não se trata do mal, mas sim, da banalização/vulgarização da ignorância, como afirmação da opinião suprema da felicidade dos povos. Direitos, capacidades, quereres, potências. Há uma terraplanagem cultural de superfície. Tudo é epidérmico. Hiper sensível, hiper ativo, hiper mercado, hiper. A selfie é uma espécie de hiper retrato do suicídio de que se quer deixar vestígios. Não olhes para mim,  olha para o meu retrato para me veres, pois esse é o cúmulo do desejo a atingir, o orgasmo da comunicação. Narrativas, são lenga-lengas por todos os lugares disseminadas, esconderijos de opinião. A Filosofia não morreu mas, não deixou herdeiros. Os repetidores tornam qualquer mensagem um cânone. Hoje, o cânone dura dois minutos. A eternidade parece pois longínqua, um tempo chato para causar interesse. O sólido mudou para liquido. A máscara virou o ser e este tornou-se autista.

Pensar tornou-se inútil com tantos emplastros tecnológicos. Qualquer dia, a máquina fala por ti, nem precisas de te esforçar. Ela já escreve por ti. Já pensastes no que estás aqui a fazer? Quem és tu e para que serves tu ? Quando é que abandonas o teu berço ? Quando é que te tornas Homem ?