Quem és ? Eu sou aquele que «sou». Mas, que é isto do que somos ? Nenhuma divindade certamente. O ser é um sou que vai sendo. Um movimento ou uma sucessiva instanciação do ser. O problemático reside na evocação e na antecipação. O que se era já não se é. E, no entanto, o que se foi, parece transmutar-se em cada nova instância do ser, como se, de um património, de uma sedimentação, se tratasse. Aquele que é, revê-se no presente como fruto de um passado, que já não é presente mas, no entanto, presentificado pela evocação. É o «eu autobiográfico», de que fala Damásio. Mas, o sou, é também o agora e o futuro - o que ainda não se é -. É-se sempre o indefinido, «o apeiron», o ser em aberto e não definido, a que se confere (sentido, unidade,consistência), permanência. «Mudando permanece» - diria Heraclito. Coloquei parentesis porque o sou não é sentido - antes do sentido preexiste a deriva da sua procura -. O sou não é também unidade, pois a unidade ainda não está constituída mas em processo de constituição. E o sou é tudo menos consistência, pois não se pode consistir no que já não consiste ou em tudo o que ainda não consiste.
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