quarta-feira, 9 de julho de 2014

COM É DEMASIADO

Stand Out From the Crowd - Ian Gamache
«Crescemos com os outros? COM, é demasiado. Lá em casa a minha mãe só cozinhava fritos e eu sonhava com uma dieta mais salutar. Mais tarde, acabei por viver com uma pessoa vegetariana que até dizia que o sangue da carne causava hostilidade nos humanos. Acho que adormeci e até ressonei nesse mundo Zen. Julgava-me liberto e purificado. Foi quando dei por mim a precisar de uma certa dose de agressividade para sobreviver e quase ia sucumbindo às agruras da vida. Chiça, bronco, disse para mim mesmo. Por que te deixaste levar por familiares e amigos? És bronco. Está dito. Então, não conheces Platão, Aristóteles, Picasso, Pessoa, Stravinsky, Hitler, Napoleão, César, Jesus Cristo, Maomé ou Buda ? Não, pá! Então és ignorante! Sim, deles, sou ignorante. Nunca ressuscitei, nunca matei nenhum ser humano, nunca criei uma obra musical, nunca reencarnei, nunca pintei mais do que algumas paredes como um trolha. O que eu não sei, é muito. Muito bem, então, deverias acompanhar-lhes o conhecimento, imitar as pessoas que eles eram, seguir-lhes o exemplo. Obrigado pelo conselho. Hoje, sei por que não sigo ninguém, excepto a mim próprio. Acompanhar, seguir, obedecer, engrossar o rebanho, tudo isso que nos dizem ser a única forma de ser e estar...Tudo isso, eu, não faço como todos desejariam que fizesse, estivesse, pensasse. COM é demasiado. Verdade, sou ignorante da vida de outros. Tento é não ser ignorante da minha própria vida, dos meus sentimentos, dos meus pensamentos e sobretudo das minhas decisões. Nenhum dos ilustres desconhecidos que me apresentaste viveu ou viverá por mim, por isso, acho mais ignorante da tua parte que os tentes acompanhar, sobretudo, quando todos eles já morreram. Deixaram ideias, influenciaram e influenciam muitos, sobretudo aqueles com mentes ocas e vazias que, apenas, com o substrato das mentes de outros conseguem elaborar pensamentos e ideias. São os rapsodistas das mentes dos outros. A esses devoradores de cabidelas artísticas e filosóficas desejo muito bom penar. Acho que lhes assenta bem e que precisam dessa palha toda para se alimentar. Prefiro a minha espécie sobrevivente e resistente, de ignorância. Respeito que eles tenham, a deles. Só, não permito é que me venham missionar. Quanto ao COM, vê lá se aprendes por ti qual a melhor companhia a ter por perto; se a família, os amigos, os ilustres ou a tua própria solidão. Diz-se, que é sempre melhor tê-los do que os não ter. Verdade ? Nem sempre. Lembra-te que só tu estarás presente no teu leito de morte. Paz para mim e muita oração para ti.»[noético-08/07/2014]

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