«Os
cães ladram e a caravana passa. Deitam-se para as bermas alguns ossos
para que as matilhas se degladiem entre si. O cidadão-cão está sempre
pronto a mostrar os dentes ora para rir mostrando que obteve mais ossos
que outros ora para arreganhar os dentes para apanhar qualquer osso. De
facto, a caravana passa. Já não há lobos apenas canídeos domesticados.
Vive-se e morre-se pela,para,na matilha. Morrer-se
ou viver-se só é falta grave. Já os domésticos cães não estão
acostumados. Dependem das leis e do pão dos senhores de cada dia. A lei
cria não só ordeiros canídeos como desordeiros, em suma, divide. Mas,
mais do que isso, institucionaliza os horizontes não prevendo mais
nenhuns para além do seu atrofiado alcance. Estradas, aquedutos,
edifícios crescem de acordo com as leis. Todos os espelhos da urbe
reflectem a ordem dos canis onde medram e habitam os agora
cidadãos-cães. Não olhes para lá do canil senão enlouqueces porque a
matilha rapidamente se revoltará contra ti. Serás visto como
anti-matilha, logo, um perigo. Bela lógica esta. Ou estás quietinho ou
levas no focinho. Liberdade ? Se seguires a matilha poderás ambicionar
ainda a chegar a alfa. Até lá, amochas, vegas ou acabarás trucidado pela
civitas-canídea. Heróis, santos, canídeos honrados, só na urbe-canil.
Fora dela, só existem os bárbaros. Nem sequer tens direito a renunciar
ao teu pedigree. Sem BI não existes porque a única forma de o fazeres é
seres canídeo. Os canídeos arranjaram uma forma de colectividade em que
ninguém pode fazer mais nada senão os actos consentidos pela matilha.
Reconhecerem-te tornou-se um vício, uma adição a que lhe chamam virtude.
Se trabalhas para o canil és um benemérito, um funcionário, um
voluntário, um filantropo. Qualquer atentado contra a matilha governada
pela lei e serás sancionado, ostracisado, incompreendido e apelidado de
bárbaro. Ainda acreditas pois que existe lugar para a diferença no canil
? Talvez só no tom diferente do teu ladrar.»[noético-18/07/2014]

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