domingo, 4 de fevereiro de 2024

A tecnologia não civiliza o homem!


A tecnologia é e sempre foi um instrumento precioso no progresso das sociedades. No entanto, a tecnologia, embora possa facilitar algum tipo de aprendizagens, mais focadas na formação profissional, tem falhado redondamente em contribuir para a civilidade, humanismo, respeitosidade e engrandecimento das culturas e sociedades ao longo da História. A mera produção de riqueza material através da evolução tecnológica promoveu maiores desigualdades, disputas por riqueza, desenraizamentos culturais, evanescência das tradições, excentricidades e individualismos, isto, para não contemplar, o exponenciar de lutas fraticidas pelo poder, queimas em fogueiras, guerras mortíferas e quase constantes, etc. 
Faça-se a pergunta, quantos dias de paz teve o planeta desde que há registos históricos ?
Por isso, penso que não estamos mais civilizados e respeitosos, nem no trato com o outro, nem no respeito pela natureza. Daí decorre, também,  a actual,  tremendamente aflita preocupação com o clima e com o respeito por grupos sociais menos representativos das diferentes sociedades e culturas pelos mais diversos quadrantes políticos. Se tudo estivesse melhor, mais civilizado, não haveria esta actual necessidade premente.
A natureza e os factos históricos falam por si. 
Confiar na tecnologia como panaceia da construção de um novo humanismo e de novas formas civilizacionais é uma falácia monumental. 
A tecnologia não civiliza o homem!
Se há algo de positivo que se pode atribuir à tecnologia, tal, deve-se ao Homem que a criou, parcialmente a civilizou e a adaptou e empregou para certos fins eticamente positivos.
Se o Homem não se civilizar a si mesmo, não há nenhuma tecnologia que o faça. O mesmo é dizer-se, se o Homem não se revolucionar interiormente e salvar a si mesmo, nenhuma tecnologia o salvará da sua auto destruição.
Mas, como salvar-se a si mesmo se o Homem não se conhecer a si mesmo ? Não haverá nada para salvar. Também não haverá nenhuma revolução interior a fazer.
Haverá a crença falaciosa e fatídica de que a tecnologia resolverá todos os problemas, tal como, no passado, orar aos deuses servia de panaceia para alienar os espíritos e lhes infundir alguma esperança. Sim, a esperança é fundamental mas, é diferente de ficar à espera. E, como vimos, alienarmo-nos à tecnologia não é caminho algum, mas sim, a tentativa apenas simbólica de regressar ao ventre da mãe, de recolher à concha, de procurar mentalmente uma desculpa que confira proteção contra o peso e crueza da realidade, de negar o que não convém ver, de, em suma, nos demitirmos das nossas responsabilidades como seres adultos adoptando verdadeiros comportamentos infantis. 




Eu gosto

Uma sociedade que, não é capaz de socializar e conviver, pacificamente, sem polícia, não está apta para sobreviver, nem para ser livre.
A desculpa é sempre, são só alguns. Mas, a verdade é, que os muito poucos, perturbam mais do que, o vasto rebanho que os tolera, nas suas irrupções de violência gratuita.
Fala-se mais em futebol do que em educação ou ensinança. Saber estar, saber respeitar, saber interagir com correção, simpatia, empatia e retidão está fora dos interesses gerais da comunidade que, considera tudo isso, como mais um adquirido, portanto, algo não  muito valorizável, uma vez que passa a ser um "dejá vú".
A liberdade resume-se ao "eu gosto"!

sábado, 3 de fevereiro de 2024

Entre-Rios


Há toda uma vida, de emoções, sentimentos, pensamentos, intenções, considerações que nos escapam a cada segundo que passa, para além ou aquém, sempre, desta vida que, a cada instante, concretiza-se. Só, a música e a poesia, parecem conseguir vislumbrar um pouco desse imenso universo, em movimento, obliterado. É, como se houvesse um negativo de nós, que nos escapa. Não, não é inconsciente. Por vezes, apesar da sua fugacidade, é até bem consciente e permanece, fraccionário, por segundos. Para onde corre esse outro rio de nós ?  E nós, se calhar, não passamos de uma pena de pássaro flutuando sobre as águas ao sabor da corrente... Quiçá ? E é, como se, houvesse realmente, um universo próximo, para onde a nossa posição saltaria, quânticamente, num ápice e, outra biografia, seria então, construída. Uma espécie do universo do não, em que, nunca seremos decisores, nem teremos arbítrio. Universo do não porque se perdeu oués fechou a janela de oportunidade numa fração de segundo. Não, um universo de negatividade. É quase como se fossemos convocados para um salto, mas a estrada já estivesse debaixo dos nossos pés, forçando o caminhante ao caminho. Parecem faíscas determinantes mas, deixam antever um outro mundo, neste. Uma fissura, não determinista, um ponto de fuga. Imagino, que, tal como uma maré, esse fluxo que nos sobrevoa a uma velocidade estonteante, também, reflua, minando a linearidade do continuum vivendum, numa espécie de preenchimento silencioso, a presença da ausência, a pausa na melodia que confere encanto ao desencanto. Ying e Yang!

Ad lacrimam





Pediram-me para chorar

Derramei lágrimas de pó

Nada pude acrescentar

Toda a vida é ser-se só


A solidão, não é sofrimento

Mas, sim, chama ardente

Lembrança do existente

Vivido a sós, por dentro.


A vida é o que é

Movimento misterioso

Ninguém compreende o que é

Mesmo sendo curioso


Acordo com a esperança

Intervalo que não se alcança

Meta que é uma causa

Forma feliz de pausa







In tempore mortis



Quando eu morrer, espero que ninguém chore por mim. É simples, concluí. A vida é curta e efémera e, segundo o que sei, embora ela, mereça e deva ser bem vivida, acaba por não ter significado algum. Também é simples. Se vos perguntarem qual o seu significado, certamente esboçareis uma resposta mas, jamais alguém saberá verdadeiramente responder a essa questão! Tudo termina para o morto. Tudo continua para os vivos. Procurar sentidos onde não os há, vasculhando pelo deserto, ao longo dos tempos, faz-nos ver que somos imensamente resilientes mas,  de modo algum imortais. Num ápice décadas de anos de vida se desvanecem, perdendo qualquer significado. Não há mais forma de ancorar o navio. Os nossos verdadeiros restos mortais são memórias. Temporariamente perpetuam-nos, os que nos lembram. Também eles se finarão e com eles, a memória que guardaram. Lembrem-se, se tiverem saudades do que essa memórias evocam que, também, a esperança findou. Não há regresso, ressurreição, vida eterna. Como sei isso ? Já decorreram milhares de milhões de anos sem qualquer prova de que alguém tenha ressuscitado ou  voltado de qualquer outra forma de vida para o poder contar. Não há, pois, qualquer evidência factual que justifique essa crença. Dito isto, antes de ter morrido, ficarei feliz se, após a minha morte, apagarem-me das vossas mentes o mais rápido possível. Enterrem-me, também, nas vossas memórias, sigam em frente. Não tereis nenhum ganho em relembrar-me. Continuarei a ter múltiplas faces, favoráveis e desfavoráveis. Tanto faz. Por mais homenagens ou pragas que me rogueis, não regressarei. Parti de vez. Se assim, não fosse, para que existiria a palavra fim ?




Non aeternum


[Nemo nostrum tam magni momenti est ut memoria in aeternum mereamur.]
"Nenhum de nós é tão importante a ponto de ser lembrado para sempre."
[noético in "Omnia et nihil" - 6/11/2023]



Por que não nos devemos cingir apenas aos factos


Existe a falácia de que não devemos ajuizar, quando de facto, proferimos juízos de facto e de valor a toda a hora, sendo ambos estruturais da natureza humana. Mas, ater-mo-nos aos factos, apenas, também, nem sempre funciona. Exemplo: alguém roubou alguma coisa em miúdo ou até em adulto - um pouco mais grave -, segundo os factos essa pessoa roubou, poderemos enquadrá-la no conceito de ladrão ? Se não, a partir de quantos roubos poderemos enquadrá-lo nessa categoria ? Faz lembrar o paradoxo do careca, que diz, a partir de quando poderemos considerar alguém careca? Nenhum cabelo, um  só cabelo, uma dúzia, uma centena de cabelos ? Porém, também, não podemos apenas obstar ao julgamento de valor que nos leva a ser prudentes com essa pessoa após esse seu primeiro acto. É de elementar sensatez.  Então, como ficamos ? Só pelos julgamentos de facto ? Não.  Mas, também, é abusivo e insensato, usar indiscriminadamente  juízos de valor sem considerar e respeitar os factos. Embora, ninguém saiba onde está ou fica o meio, excepto no fiel de uma balança, é nele que habita a excelência, o equilíbrio.





Não quero mais ser professor



Faz já algum tempo que deixei de exercer actividades lectivas. Ainda, hoje, conservo o bichinho de ensinar, actividade para a qual estou perfeitamente qualificado. Sucede que, perante um futuro de exigência mas, repleto de instabilidade optei por outros caminhos profissionais. Exerci, com alma e coração e, foi bom enquanto durou. Depois, a percepção do carreirismo de alguns professores, os currículos de ensino quase imutáveis, a falta de compromisso dos pais com a aprendizagem dos filhos/alunos, o desinteresse dos sucessivos governos pela educação, a imbecilidade da representação sindical, únicamente preocupada com a sua agenda política, o descentramento geral, social e colectivo quanto aos interesses dos alunos, libertaram-me da mestria. Não quero mais ensinar. Não acredito no futuro dos alunos, numa sociedade perdida e caduca em declínio. Facilita-se tudo. Alunos no 10° e 11° ano que sabem recitar discursos sem perceber patavina do que leram, entre muitas outras situações. As estatísticas melhoram com a diminuição da exigência quer na habilitação dos professores, quer na habilitação dos alunos e, os governantes, apenas pretendem resultados para exibir a sua vaidade encobrindo os verdadeiros intuitos políticos que se pudessem reduziriam as massas a ignorantes para poder manter o poder ou, degradando a escola democrática, a pretendem apenas qualificada para a elite.  Na realidade, como um dia disse aos meus alunos, não sou eu, professor, quem mais importa. Não é o currículo, são eles, os alunos, o centro de toda a educação. No entanto, pelos discursos que vemos de políticos, pais, sindicalistas e até de alguns professores, nem se fala deles, os alunos! 
Por isso desisti de pregar a bestas quadradas sobre os benefícios de uma verdadeira aposta na educação e ensino, tendo como alvo e objectivo único, servir os alunos e aumentar-lhes o máximo dos conhecimentos e perícias, adquirindo-o e utilizando-o com critério, mantendo sempre uma atitude de probidade e humildade intelectual. Salvé o Ensino! Sem ele, descenderemos às cavernas. Já falta pouco. As multidões vociferantes de nada se apercebem, apenas dizem mal, numa espécie de fátua crítica atirada para o ar, sem alvo definido, à toa. 
Não, não professo mais, não ensino mais ninguém. Quem quiser aprender recorra às máquinas, à IA, aos professores fáceis, aos políticos e políticas circunstanciais, aos currículos promovidos pelo marketing e sobretudo, dedique-se a ensinar-se a si mesmo. Não contem mais comigo. Sejam adultos! Tomem  conta do vosso Destino já que se acham tão capazes, defendendo este actual estado de coisas.
Não, não voltarei a ensinar! Remeto-me ao silêncio da minha ignorância para deixar brilhar a vossa!