quinta-feira, 27 de junho de 2024

Inocência Perdida

Uma naja aspira as ínfimas particulas do teu odor, serpenteando a sua língua bifida, fitando-te, olhos nos olhos, antes de te dar a última mordidela, enquanto tu, jazes, inválido, de pernas partidas, debaixo de uma enorme laje de betão. É a tua última cena enquanto alma viva. É o terror! A tua consciência não te deixa sair de cena. Estás preso às tuas percepções, ao vício de um real construído, do qual não consegues escapar. Ah, malditos sentidos. Ah, incontrolávell cérebro. O terror, não é a morte, é antes, a última cena, ceia dos nefastos sentidos, cerebralmente reconstruídos, sem que, voluntariamente, consigas escapar à cena animada e colorida e, à escuridão do medo. Para que te serve uma consciência, um cérebro, os sentidos quando morres ? De que te serviram os alertas ? Inocência perdida,  consciência terrífica. É o preço da vida. Não controlamos o nosso cérebro.

Sem comentários:

Enviar um comentário