segunda-feira, 5 de agosto de 2013

ABETARDAS E ANJOS




«É muito natural que existam pessoas que nos queiram conhecer. O que já não me parece tão natural é que a curiosidade que os move se foque apenas em reunir aliados ou em obter ascendente sobre os outros. Parece-me que gostam de exibir as suas barrigas inchadas de currículos manifestando a sua prosápia por detrás de discursos humanitários ostensivamente elaborados. Por vezes tornam-se cansativamente repetitivos parecendo daqueles políticos que estão sempre em campanha ou até aquele tipo de homens religiosos chatos que a propósito do espírito de missão não param de nos bater à porta todos os dias com a sua emérita salvítica mensagem. Digo e repito, estou farto desses chatos. Usam a sua cultura e sabedoria como arsenal de crueldade enquanto pregam mensagens poéticas, proféticas e pacificadoras. Parecem verdadeiras rosas que por detrás das suas belíssimas e delicadas pétalas apenas escondem adagas e espinhos prontos a ser cravados. Conheço bem esses rios lamacentos, essas sendas que parecem pronunciar longos caminhos mas que desembocam sempre em becos. No final, dizem que nos conhecem tal e qual somos. Que pena. Nem sequer imaginam que não somos quem vêem, nem quem deles se projetam. Enfim, a cegueira tem muitos trilhos. São todos eles grandes lutadores, esperneiam muito, talvez até demasiado. Devem passar a vida a agitar-se julgando que desse modo transformam o mundo. Batem tanto as asas essas abetardas e anjos. Fazem um vistão. Milagre. E eu que odeio milagreiros e viciados em poções mágicas. São como idiotas que confundem algazarra com progresso. Crentes cegos da mudança. Até quase disso fazem uma festa a que tantas vezes chamam «luta», mas daquela sangrenta, transpirada, atribulada, sofrida. Sim, muito sofrida, pois sem sofrimento parecem não possuir nenhuma dignidade, perdendo até a possibilidade de passarem a ser conhecidos por ser gente. Pelo menos assim imaginam e vivem, fabricando sonhos que adorariam impingir e impor a toda a gente. Aliás nem sabem fazer outro chinfrim. Adoram arruadas mais do que arruamentos os tais por onde desfilam frequentemente. A cultura serve-lhes para usarem louros na cabeça e talharem a razão à régua ao esquadro e ao compasso, como se nada mais houvesse. Ou perdidos ou achados. Ou vencedores ou frustrados. Ou sim ou sopas. Quando é que estes arautos da transformação se transformarão eles próprios nos seus próprios latidos? Juro que me cansam e aborrecem por que são exaustivos, repetitivos e loucos. Pensam que resistir é tudo, que debater-se é tudo, que mexer-se é tudo. Infelizes discípulos da religião da velocidade. Pobres coitados, irão permanecer o resto da sua vida acelerados e aprisionados ao movimento como se nele tivessem encontrado algum Deus. E no fim nem sequer nos conhecerão ou amarão como somos, mas sim como eles próprios não são, nem nunca serão. E essa é que é a pedra de toque de todo este desmoronar, ao contrário do que muitos dizem, pleníssimo de sentido, pois tudo por eles foi edificado para ruir. Precisam mesmo do pó das estrelas para poderem brincar ao que são.»
[noético-05/08/2013]

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