segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A PUREZA


«A pureza está sempre onde eu não estou, por isso estranho, porque sonho sempre com algo que nunca vi. E ainda mais estranho me sinto, porque desconheço esse fiel, que faz pender o meu prato da balança, para esse lado impuro. Por que é que afinal faço isso comigo ? Quem me condenou senão eu ? Por que é que as coisas em que acredito, me julgam, me censuram e me condenam ? Quem lhes deu esse poder, senão eu? Ah!...Já sei ! É essa a espada com que brincava à vida quando era pequenino. Chamaram-lhe de Damocles, mas só pode ter sido por engano, pois eu te-la-ei roubado certamente nos meus pensamentos e com ela terei sido condenado à mesma provação. Não, não quero que as palavras pairem sobre o meu coração condenando-o ao medo por querer evitar o seu afiado gume dilacerante. Não, não quero ser puro assim. Não, não quero pureza alguma que me condene e crucifique. Decido ser impuro. Pelo menos estarei vivo para presenciar a degeneração da minha carne e do meu próprio espírito. Não, não quero mais alvuras imaculadas. Tudo isso me conspurca, me aprisiona, me dilacera, me faz sofrer de uma inutilidade ainda maior do que a própria inutilidade de ter nascido. Não, não serei puro, nem almejarei o Céu. Também não temerei o Inferno em que não acredito. Não viverei em nenhum desses dois mundos. Serei, apenas eu, um simples grão de areia neste extenso e infindável deserto por onde passo.»
[noético - 02/08/2013]

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