«A
pureza está sempre onde eu não estou, por isso estranho, porque sonho
sempre com algo que nunca vi. E ainda mais estranho me sinto, porque
desconheço esse fiel, que faz pender o meu prato da balança, para esse
lado impuro. Por que é que afinal faço isso comigo ? Quem me condenou
senão eu ? Por que é que as coisas em que acredito, me julgam, me
censuram e me condenam ? Quem lhes deu esse poder, senão eu? Ah!...Já
sei ! É essa a espada com que brincava à vida quando era pequenino.
Chamaram-lhe de Damocles, mas só pode ter sido por engano, pois eu
te-la-ei roubado certamente nos meus pensamentos e com ela terei sido
condenado à mesma provação. Não, não quero que as palavras pairem sobre o
meu coração condenando-o ao medo por querer evitar o seu afiado gume
dilacerante. Não, não quero ser puro assim. Não, não quero
pureza alguma que me condene e crucifique. Decido ser impuro. Pelo menos
estarei vivo para presenciar a degeneração da minha carne e do meu
próprio espírito. Não, não quero mais alvuras imaculadas. Tudo isso me
conspurca, me aprisiona, me dilacera, me faz sofrer de uma inutilidade
ainda maior do que a própria inutilidade de ter nascido. Não, não serei
puro, nem almejarei o Céu. Também não temerei o Inferno em que não acredito. Não viverei em nenhum desses dois mundos. Serei, apenas eu, um
simples grão de areia neste extenso e infindável deserto por onde
passo.»[noético - 02/08/2013]
Sem comentários:
Enviar um comentário