segunda-feira, 5 de agosto de 2013

SER DESERTO

«Sem ti sou deserto, areia estéril onde nada floresce, mar de sal, pedra inerte. A maior distância é a tua ausência, o único vazio insuperável. É sempre a ferida que nos move em céu aberto, até ao poente. Navego cego de dor, uivando a cada passo, como se cravado por espinhos de esperança eriçados contra o tempo. Não sei haver-te, embora tu existas como lugar de mim. Não sei ter-te, embora tu me possuas a mim. E eu, que queria tanto...tanto...não te querer assim...Alguma vez conseguirei escapar-me a esta barcaça que sente e pensa furiosamente ? Chamamo-lhe travessia mas tudo não passa de um remar a braços que se meneiam síncronos e ritmados dilacerando as águas sem destino. Um dia, amor, conto-te o incontável. Tu bem sabes que tudo se move por promessas reacendendo a vida como sombras projectadas por círios traiçoeiros. Não sou transparente. Não sou vazio. Antes me esvaziasse dessa opacidade bolorenta, resíduo putrefacto, abandonado nos porões do esquecimento.»
[noético - 25/06/2013]

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