«Sem ti sou deserto, areia estéril onde nada
floresce, mar de sal, pedra inerte. A maior distância é a tua ausência, o
único vazio insuperável. É sempre a ferida que nos move em céu aberto,
até ao poente. Navego cego de dor, uivando a cada passo,
como se cravado por espinhos de esperança eriçados contra o tempo. Não
sei haver-te, embora tu existas como lugar de mim. Não sei ter-te,
embora tu me possuas a mim. E eu, que queria tanto...tanto...não te
querer assim...Alguma vez conseguirei escapar-me a esta barcaça que
sente e pensa furiosamente ? Chamamo-lhe travessia mas tudo não passa de
um remar a braços que se meneiam síncronos e ritmados dilacerando as
águas sem destino. Um dia, amor, conto-te o incontável. Tu bem sabes que
tudo se move por promessas reacendendo a vida como sombras projectadas
por círios traiçoeiros. Não sou transparente. Não sou vazio. Antes me
esvaziasse dessa opacidade bolorenta, resíduo putrefacto, abandonado nos
porões do esquecimento.»segunda-feira, 5 de agosto de 2013
SER DESERTO
«Sem ti sou deserto, areia estéril onde nada
floresce, mar de sal, pedra inerte. A maior distância é a tua ausência, o
único vazio insuperável. É sempre a ferida que nos move em céu aberto,
até ao poente. Navego cego de dor, uivando a cada passo,
como se cravado por espinhos de esperança eriçados contra o tempo. Não
sei haver-te, embora tu existas como lugar de mim. Não sei ter-te,
embora tu me possuas a mim. E eu, que queria tanto...tanto...não te
querer assim...Alguma vez conseguirei escapar-me a esta barcaça que
sente e pensa furiosamente ? Chamamo-lhe travessia mas tudo não passa de
um remar a braços que se meneiam síncronos e ritmados dilacerando as
águas sem destino. Um dia, amor, conto-te o incontável. Tu bem sabes que
tudo se move por promessas reacendendo a vida como sombras projectadas
por círios traiçoeiros. Não sou transparente. Não sou vazio. Antes me
esvaziasse dessa opacidade bolorenta, resíduo putrefacto, abandonado nos
porões do esquecimento.»
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