«Tento não pensar para não percorrer do pensamento sempre as mesmas
enseadas. Uma duna onde uma flôr vermelha sobressai dum monte de ervas
contorcido pelo vento arrasta-me para outra praia. Imagens que se
compoem sem nexo aparente com histórias que é preciso contar. Flores de
um sentimento poderoso e imparável que cobre de areia todas as palavras
corroídas pelo sal. Já não se vive de encanto. Já nem as lágrimas ou os
sorrisos o soltam das suas amarras de beleza estilizada. Acabou-se
com a pureza e substituiu-se pela assepsia mercantilizada de paraísos
mecanizados e virtualizados. Tudo postiço, tudo polido, tudo reificado.
Há progressos que a cada novo passo ocultam o puro, o descarnado, o
simples, o não premeditado. Até os discursos se tornaram diálogos
psicologizados. Mais do que na renovação da Terra há que continuar a
acreditar na sua regeneração.»[noético-09/01/2014]

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