«Não
precisas de apagar as tuas marcas, o tempo fará isso por ti. A
simplicidade derrota-te a cada novo entusiasmo, nova prosápia, nova
estátua que ergues. Sabes bem o vão que tudo isso é. Não é contudo o
tempo que te mata. É o desejo que te consome. Compreenderás um dia que
vives e morres pela mesma razão. Fugir de ti, da tua natureza é inútil,
impossível. És livre? Primeiro terás que encontrar a liberdade e só
depois a poderás desfrutar. Possuir pensamentos não significa o mesmo
que ter ideias. A maior parte do tempo, tu não fazes a menor ideia do
que se passa e do que se te passa. Só quereres não chega. Mais do que
querer não há. Pena? Nenhuma. Condoer-me-ei por ti se persistires assim.
Não me dói o que não tens. Doí-me antes o teu excesso. E tu queres e
queres-te demais. És uma discípula da vontade. Acreditas piamente que
partiste e que um dia irás chegar. Nem sabes aonde, mas crês. Crês que
viajas, crês em tudo e mais alguma coisa. De malas e
bagagens imaginas-te a viajar. As ninharias acompanham-te por toda a
parte, fazem parte da tua mochila, da tua casa, da tua psicologia, da
tua ambição. Não enxergas?... Partes tal e qual como és, e tu, não és
assim tão diferente do caracol... As tuas duas pernas não chegam para
enfrentar a existência. Mexer não é o mesmo que esbracejar e isso nem se
compara com o abraçar. Mas, desengana-te. Abraçar não é o mesmo que
estender os braços para segurar alguém. Isso é apenas suplicar. E tu
suplicas muito, muito, muito. Vives a suplicar o céu e o inferno
conforme te debates com esse vazio monstruoso que habita as tuas
entranhas. Esgaravatas, escarafunchas, picas e arranhas. Imaginas que
unhas são garras que te prenderão. Que dedos são pinças que te susterão.
Que um dia a beleza cobrirá como um manto toda a Terra...Sonha,
continua a sonhar...Nunca é demais sonhar mesmo que isso signifique que
muito sangue se verteu em nome do que dele cresceu. Mas, se me permites,
enquanto tu sonhas, eu prefiro evaporar-me.»
[noético-28/09/2013]
[noético-28/09/2013]
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