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| Der Blinde fuhrt die Blinden - Walter Heckmann (1991) |
«A maior de todas as cegueiras é
a lucidez e, é por isso, que agora sei quem eras e quem tu és. Não há lento nem
apressado quando se age com naturalidade. Só há um tempo, aquele que é teu.
Também, não existe nem culpa, nem remorso, nem ressentimento. O que não existe mais
é o entendimento prévio, em que tu fazias do idiota deslumbrado, dominado pelo
falhanço constante da luta contra as tuas próprias fraquezas. Afinal, estavas mais
desperto do que demonstravas e transparecias. Por vezes deixavas-te alucinar amorosamente
como se tomado pelo poder de uma droga. Não era hipocrisia. Disso tu não
percebes nada. A esperança era o isco e tu seguias o fio de Ariadne como um
sonâmbulo fascinado pela promessa adiada. Afinal, algo para o qual tinhas sido
treinado toda uma vida. Só, por isso, sucumbias e tornavas a sucumbir,
agarrando-te a essa tortuosa meada. Sim, tu não te comportavas como pessoa, nem
como gente, mas simplesmente como um vulgar cliente. Como aquele, que se deixa
seduzir por uma certo discurso apelativo e, que se deixa trair ou vencer pelo
seu próprio desejo, fundado na ilusória supressão da carência, por algo, substancialmente
tangível. Afinal, o jardim por onde caminhavas, não tinha flores. Habitavam
nele apenas esqueletos e espectros, que em grotesca procissão noturna, entoando
cânticos sedutores dançavam valsas delirantes. Sobre as sepulturas dos sentimentos
cresciam desenraizadas, máscaras vazias de entes, aparentemente de outro mundo.
Nada era estreito ou plano. Tudo era palco e teatro, génese de personagens e
ficções ocupadas por ossaturas desengonçadas, quase ridículas, meio divertidas
e deliciosamente picantes. No lume brando da fogueira alimentada por pequenas deixas
ou grandes falas se montavam cenas e se produziam actos. Pois é…Todo esse carrossel
parecia assombroso, mas de facto estava era assombrado pela luz, que protelava
a sombra e te cegava pálida, indefinida, virginalmente alva. E tu sucumbias e
sabias por que sucumbias e sucumbias por que sabias…Imbecil cego alucinado.
Ainda bem que fechastes os olhos e acordaste!»
[noético-01/09/2013]

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