domingo, 1 de setembro de 2013

O CLIENTE DA LUZ



Der Blinde fuhrt die Blinden - Walter Heckmann (1991)

«A maior de todas as cegueiras é a lucidez e, é por isso, que agora sei quem eras e quem tu és. Não há lento nem apressado quando se age com naturalidade. Só há um tempo, aquele que é teu. Também, não existe nem culpa, nem remorso, nem ressentimento. O que não existe mais é o entendimento prévio, em que tu fazias do idiota deslumbrado, dominado pelo falhanço constante da luta contra as tuas próprias fraquezas. Afinal, estavas mais desperto do que demonstravas e transparecias. Por vezes deixavas-te alucinar amorosamente como se tomado pelo poder de uma droga. Não era hipocrisia. Disso tu não percebes nada. A esperança era o isco e tu seguias o fio de Ariadne como um sonâmbulo fascinado pela promessa adiada. Afinal, algo para o qual tinhas sido treinado toda uma vida. Só, por isso, sucumbias e tornavas a sucumbir, agarrando-te a essa tortuosa meada. Sim, tu não te comportavas como pessoa, nem como gente, mas simplesmente como um vulgar cliente. Como aquele, que se deixa seduzir por uma certo discurso apelativo e, que se deixa trair ou vencer pelo seu próprio desejo, fundado na ilusória supressão da carência, por algo, substancialmente tangível. Afinal, o jardim por onde caminhavas, não tinha flores. Habitavam nele apenas esqueletos e espectros, que em grotesca procissão noturna, entoando cânticos sedutores dançavam valsas delirantes. Sobre as sepulturas dos sentimentos cresciam desenraizadas, máscaras vazias de entes, aparentemente de outro mundo. Nada era estreito ou plano. Tudo era palco e teatro, génese de personagens e ficções ocupadas por ossaturas desengonçadas, quase ridículas, meio divertidas e deliciosamente picantes. No lume brando da fogueira alimentada por pequenas deixas ou grandes falas se montavam cenas e se produziam actos. Pois é…Todo esse carrossel parecia assombroso, mas de facto estava era assombrado pela luz, que protelava a sombra e te cegava pálida, indefinida, virginalmente alva. E tu sucumbias e sabias por que sucumbias e sucumbias por que sabias…Imbecil cego alucinado. Ainda bem que fechastes os olhos e acordaste!»
[noético-01/09/2013]

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