«Tu sabes bem que já aprendeste a viver com o
teu outro lado. Já há muito que entendeste que a harmonia não é
passividade nem um mar de rosas. Quem quiser que pense assim mas que se
desengane depressa. Um violino com cordas afinadas continua
a ser um violino e pode tocar peças com ritmos e melodias muito
díspares. Nunca será um piano e vice-versa. Um dia estás calma e
tranquila e outros irritada e intranquila. Assim, a música será
diferente. Uns dias podes ter muito a dizer e outros nada mesmo que
valha. Não se é todos os dias igual. A coerência vem de afinares as
cordas do teu instrumento e não das melodias que nele tocas. Seres um
violino ou um piano ou um saxofone ou outro qualquer instrumento
afinado. Se quem contigo convive não entende isso, paciência. Não vais
desafinar o teu instrumento por amor às audiências ou para as salvar.
Ninguém te escutará depois de morta. Por isso, aprendeste a viver também
com a raiva, o sofrimento, a revolta e não apenas com um sorriso
forçado cravado nos lábios. Tu sabes que nunca serás uma perfeição ou um
poço de virtudes. Não foste feita para desistir de ti. Seria bom que a
hipocrisia já tivesse tido o seu tempo. Porém, pelo menos para ti, tu
sonhas que ela se acabe de vez e preferes que temam antes a tua fúria
honesta do que a tua raiva dissimulada. Tu sabes bem os danos que esta
última atitude provoca nas relações com o tempo. Corrói-as. Para ti já
basta de palavras. Tu passaste aos actos. Vives inteira e por inteiro e é
tudo.»
[noético-21/09/2013]
[noético-21/09/2013]

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