sábado, 21 de setembro de 2013

VIVER POR INTEIRO

«Tu sabes bem que já aprendeste a viver com o teu outro lado. Já há muito que entendeste que a harmonia não é passividade nem um mar de rosas. Quem quiser que pense assim mas que se desengane depressa. Um violino com cordas afinadas continua a ser um violino e pode tocar peças com ritmos e melodias muito díspares. Nunca será um piano e vice-versa. Um dia estás calma e tranquila e outros irritada e intranquila. Assim, a música será diferente. Uns dias podes ter muito a dizer e outros nada mesmo que valha. Não se é todos os dias igual. A coerência vem de afinares as cordas do teu instrumento e não das melodias que nele tocas. Seres um violino ou um piano ou um saxofone ou outro qualquer instrumento afinado. Se quem contigo convive não entende isso, paciência. Não vais desafinar o teu instrumento por amor às audiências ou para as salvar. Ninguém te escutará depois de morta. Por isso, aprendeste a viver também com a raiva, o sofrimento, a revolta e não apenas com um sorriso forçado cravado nos lábios. Tu sabes que nunca serás uma perfeição ou um poço de virtudes. Não foste feita para desistir de ti. Seria bom que a hipocrisia já tivesse tido o seu tempo. Porém, pelo menos para ti, tu sonhas que ela se acabe de vez e preferes que temam antes a tua fúria honesta do que a tua raiva dissimulada. Tu sabes bem os danos que esta última atitude provoca nas relações com o tempo. Corrói-as. Para ti já basta de palavras. Tu passaste aos actos. Vives inteira e por inteiro e é tudo.»
[noético-21/09/2013]

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