sábado, 21 de dezembro de 2013

ODEIO O MEU ANIVERSÁRIO



«Odeio o meu aniversário. Não por que tenha receio de envelhecer. É claro que qualquer psiquiatra de olho apurado diria, de imediato, se o diz, é por que é importante para si, tanto que o menciona. Mas, deixemos esses especialistas pensarem o que quiserem e atribuírem a importância que os manuais pelos quais aprenderam assim lhes ensinaram. Claro que não tem mal, nem bem, um aniversário. Sou ateu, penso que sobre o bem e o mal não tenho que me pronunciar. Muitos dirão, que grande disparate. Apenas lhes responderei para pensarem o que quiserem. A sua verdade não é a minha, nem tem de ser. Sinto que este é o dia ideal para o passar inebriado, alheio a elogios e gente que se lembra de nós. Os amigos, pretendem, cheios de boas intenções, homenagear-nos. Os indiferentes acham piada por que se lembram da data em que são eles os protagonistas. Odeio, portanto, protagonismos. Odeio simplesmente o disparate de celebrar esta data. Só se nasce uma vez, num dia, o tal, que já foi. Não se nasce em mais nenhum. Acabamos por ter que celebrar o que os outros celebram, diz-se, por respeito, por amor, por amizade, mas, tudo, não passa de um embuste. Mas nós queremos festa, pensarão. E se o aniversariante não o quiser? E ainda chamam eles a isto amor, amizade e outras quejandas coisas, ditas, bonitas. Enfim! Se não celebramos com eles, ou antes, se não lhes damos uma oportunidade de fuga às suas tristes vidas, vendo na nossa uma oportunidade de quebrar a rotina e se entregarem ao deboche amoroso ou amistoso, sentem-se ofendidos e acham-nos as pessoas mais tristes à face do planeta. Pobres coitados. Como foi possível chegarem tão baixo na escala do pensamento e serem tão adestrados nos seus sentimentos? Prefiro quem me chame filho da puta. Estou ciente que a minha mãe nunca o foi, mas penso que só uma pessoa com mente de chulo consegue acusar quem realmente o é. Afinal a vida, não é vida nenhuma. Trata-se de uma representação pautada pelos valores, tradições e fantasias de que nos tornamos escravos. Somos escravos dos nossos pensamentos quando nos entregamos a eles. Não. Não temo dizer isto e muito mais, se necessário. Choque ou não choque. Agrade ou não agrade. É-me absolutamente indiferente. O social é um conceito que deveria ser melhor analisado. Todos o tomam como uma verdade pré-construída, prontinha a ser usada ou então, talvez, como uma confluência de tradições e rituais momentâneos, autênticos produtos do supermercado das vaidades, que se engalanam para fazer festa. Alguns, até, tem medo que a História se desvaneça por que não se seguem as tradições, os rituais. Perdem-se, sem as pistas pelas quais parece sempre mais fácil caminhar. Perdemo-nos, acuso-me! Também eu fui assim ensinado, educado, amestrado, domesticado. Sou um bom rapaz! Ui…Que magnânima satisfação. Que maravilha! Deverei ficar deslumbrado? Não! Maravilha? Quando as encontro, gozo-as como qualquer outro. Quando as encontram por mim, parece que não têm o mesmo gozo. Por que será? Simples. Cada um vive a sua própria vida e só a si deve as derradeiras explicações, se é que as deve alguma vez!? Se notarem bem, toda a tradição cristã subjaz a este texto. O êxtase, o sacrifício, o juízo final, a vida e a morte, etc. A filosofia parece cativa da metafísica e da teologia. Ainda não a largou. É apenas uma jovem à espera de sair da toca. Também não é fácil entrar num mundo que já há muito começou e que se gaba disso mesmo. Que faz jus a uma História, como se realmente existisse algum parentesco com os mortos e uma responsabilidade futura com outros que hão de vir à face do Planeta. Esta lógica da continuidade é aviltante. A moral, sempre o recomendou, sempre dela falou. Os homens seguem-na de mentes fechadas, sem sequer refletirem. Sigamos os trilhos, limitam-se a dizer para consigo próprios. Quando reflectem, fazem-no sempre dentro das suas molduras habituais, costumeiras consumidos pelas teias de aranha do tempo, como se não existissem diferentes tempos, entre os quais, os de cada um, bem mais significativos e bem mais reais que qualquer ciência, metafísica, teologia ou filosofia. Surgem-me espectros de gente viva a toda a hora. Perdoa-se-lhes a outrora inocência, a actual ignorância, mas sobretudo a ausência de coragem de se exporem como são e de se arriscarem a não correr risco nenhum uma vez que é a si que descobrem. E viver com isso, com o que se é, parece tão desconfortável. Não. Não é mesmo nada disso. É muito pior nunca se ter sido do que ter uma filosofia de cartilha prontinha a desbobinar da boca para fora. Mas alguém nunca terá sido ? Têm razão. Existe uma cartilha, um livro, um logos, um centro, uma pauta. E muitos são fieis a ela e assim toleram melhor, dizem, as agruras da vida. Vivem segundo personagens e procurando ser as personagens de um Livro, como se de um ato animista se tratasse. Ah, já agora os psicólogos colocam o animismo no fim da linha, na infância. Caramba! Mas, então, a infância não é sagrada? Parece que se diz dela o que se quer, conforme convém. Ora é boa, ora é cruel, ora é inocente, ora é perversa. As crianças servem para todas estas formas de ambivalência dos pseudo-adultos dos sete costados. Não interessa se a minha razão impera. É apenas uma razão que se rebela contra o império a que chamam da razão. E no entanto, não se consegue fugir ao racional, a parte de nós que ajuiza, analisa, julga, valoriza, critica. Que belo instrumento de cinzelar o sílex da nossa vida. Que maravilha de bisturi simbólico que escarafuncha tudo e tudo remexe como se fosse único, senhor e proprietário. Quem nos terá ensinado esta parvoíce toda? Somos vivos por que usamos instrumentos? Lamento. Estou em profundo desacordo. Também eu sei partir a pedra, contar os números, esse novíssimo modelo da tecnologia mental moderna. Mas sabem uma coisa, essa história parece mal contada. E sabem porquê ? Por que atrás de um número apenas pode existir outro número. Ou seja, a matemática, peca pela circularidade. Ahahah…Não me vou alongar mais. O resto, espero que reste muito a todos. A mim  não resta nada, pois não sou matemático e não costumo usar essa linguagem. Não divido, nem subtraio, não adiciono, nem conto. Divirtam-se, como eu me diverti a escrever este texto de parabéns a ninguém.» [noético-21/12/2013]

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