«Não se procura, deixa-se simplesmente acontecer. Ser em si, ser por si,
ser em relação, ser em não-ser como uma flor a desabrochar. E ainda,
não é Primavera, mas já se escutam os cânticos de Outono a chegar. Ninguém virá em
socorro da aflição, que o invade, sem se anunciar. Não se expondo,
esplana-se, declinando como as palavras sem rumo, flutuando como as nuvens
sobre a escuridão da noite que se perdeu do amor. Seria feliz se as ondas
reunissem cada seu destroço a salvo numa enseada protegida
de todos os ventos. O ser, sem terra, caminha sobre ela como se tivesse
descoberto no seu corpo uma lua grávida de poéticos amanheceres desenfreados. O ser é ditame e corrente, oculto estar,
sempre presente. O ser que não mexe, ilude cada movimento. Caído
combatente nos braços de cada momento. Ajoelhado como se reptasse,
sonhando as virgens que se esquivam dos seus braços e se evadem como
pétalas ao sabor dos tempos. O ser não sabe de onde vem nem para onde
vai. Mas cairá morto, como cadáver, um dia, preenchendo o vazio da sua própria sombra.»[noético-13/09/2014]

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