domingo, 14 de setembro de 2014

SER SEM SER

«Não se procura, deixa-se simplesmente acontecer. Ser em si, ser por si, ser em relação, ser em não-ser como uma flor a desabrochar. E ainda, não é Primavera, mas já se escutam os cânticos de Outono a chegar. Ninguém virá em socorro da aflição, que o invade, sem se anunciar. Não se expondo, esplana-se, declinando como as palavras sem rumo, flutuando como as nuvens sobre a escuridão da noite que se perdeu do amor. Seria feliz se as ondas reunissem cada seu destroço a salvo numa enseada protegida de todos os ventos. O ser, sem terra, caminha sobre ela como se tivesse descoberto no seu corpo uma lua grávida de poéticos amanheceres desenfreados. O ser é ditame e corrente, oculto estar, sempre presente. O ser que não mexe, ilude cada movimento. Caído combatente nos braços de cada momento. Ajoelhado como se reptasse, sonhando as virgens que se esquivam dos seus braços e se evadem como pétalas ao sabor dos tempos. O ser não sabe de onde vem nem para onde vai. Mas cairá morto, como cadáver, um dia, preenchendo o vazio da sua própria sombra.»[noético-13/09/2014]


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