sexta-feira, 7 de abril de 2023

O Pomo da Discórdia

Peter Paul Rubens: O julgamento de Páris; 1638; Museo Nacional del Prado.
Súmula:

O grande banquete, na imensa corte do Olimpo, estava no fim. Os deuses, no aspecto físico, são diferentes dos mortais somente pela estatura, a força, a beleza e o dom de uma eterna mocidade, mas dos homens, possuem todas as paixões: o amor e o ódio, a ira e a inveja; são, por vezes, cruéis e, por vezes, generosos. Eles transcorrem os dias alegremente, mas todos estão sujeitos a um poder superior: as Moiras, o Destino, filhas da Noite, às quais nem mesmo Zeus pode opôr-se.

Subitamente, no amplo salão, baixou o silêncio. Todos os olhares convergiram para uma estranha figura, que surgira no limiar da porta: Eris, a única deusa não convidada. É briguenta - disseram os anfitriões - e seria capaz de estragar a festa, com suas maledicências. E agora, ei- la ali, no silêncio embaraçoso dos convivas. Chegara junto ao triclínio, onde estavam sentados os deuses maiores, a maléfica criatura tirou da túnica uma maçã de ouro e lançou-a sobre uma das mesas, exclamando:

- Eis o meu presente! É para a mais bela das deusas!

Dito isto, a deusa da discórdia desapareceu.

Depois de alguns segundos de espanto, cada uma das três deusas que estavam à mesa, Atena, Hera e Afrodite, estendeu a mão para o reluzente pomo, mas logo se contiveram, surpresas, e entreolharam-se. Zeus, o senhor dos deuses, que observava a cena em silêncio, sorriu e interveio:

- O único meio para saber-se qual de vós é a mais bela e estabelecer, portanto, a quem pertence o Pomo da Discórdia, é recorrer a uma arbitragem. Escolhei, entre os mortais, um árbitro de vosso agrado e acatai sua decisão.

Como sempre, Zeus sentenciara sabiamente. Após ponderada reflexão, as três rivais concordaram em confiar sua sorte ao mais belo entre os mortais, ao jovem príncipe Páris de Alexandre. Este moço vivia, desde seu nascimento, ignaro de sua real ascendência, entre os pastores do monte Ida. Um oráculo predissera que ele seria a ruína da cidade de Tróia, e sua mãe, desobedecendo às ordens do marido, que depois da profecia resolvera matá-lo, ocultara-o na montanha.

Assim, uma bela manhã, o belíssimo rapaz viu aparecerem diante de si, enquanto vigiava seu rebanho, em uma concha relvosa e solitária, três maravilhosas raparigas. Deram-lhe o pomo, explicaram-lhe o que desejavam dele, e cada uma delas, em seu íntimo, fez-lhe uma promessa. Atena prometeu- lhe sabedoria. Hera, o poder; Afrodite, a pequena deusa nascida da espuma do mar, prometeu-lhe a mais linda mulher do mundo. A seguir, as três beldades perfilaram-se diante de Páris. Este hesitou um átimo, depois entregou o pomo a Afrodite, que o agarrou feliz, enquanto as outras duas se afastavam, fulas de raiva.

Instruído por Afrodite, Páris rumou para os vales, pela encosta do monte Ida, até Esparta. Reinava em Esparta, pequena cidade da Grécia, o jovem príncipe Menelau e sua esposa Helena, a mais bela mulher do mundo. 

Comentário:

Este texto é apresentado incompleto pois, o leitor conhecerá  ou já terá ouvido falar na Guerra de Tróia (no rapto de Helena e na artimanha do cavalo de Tróia que precipitou a queda da cidade). Esta parte mítica da história apresenta-se aparentemente de modo muito simples e entendível. No entanto, se Helena foi o alvo da disputa (de amor/posse) que causou a queda de Tróia, neste caso, temos uma deusa que causa a discórdia entre as outras três deusas femininas. O pretexto é uma maçâ de ouro (o pomo) que provoca o narcisismo imediato e próprio daquelas três deusas preocupadas em serem as mais belas. Certamente que o leitor já se relembrou da história de Walt Disney - Branca de Neve e os 7 anões - e da  célebre madrasta que também utilizou uma maçã envenenada e reluzente para tentar matar a Branca de Neve. Uma forma muito comum na antiguidade de se eliminar a concorrência ou quem fosse inconveniente. Na actualidade encontramos formas muito similares de práticas persecutórias de oponentes ou dissidentes, em certos países bem conhecidos. Neste ponto, a analogia entre estas duas histórias é quase flagrante mas, o que é relevante não é essa similitude.  Todos nós, na vida, nos deixamos atrair pelo que nos seduz. Por vezes, como as deusas contemo-nos mas, preparamo-nos para disputar com os nossos(as) irmãos(âs) os alvos do nosso desejo. Esta parte, não faz parte de nenhuma humilia cristâ mas poderia perfeitamente sê-lo, bastaria, para tal, folhear alguns capítulos bíblicos. Trata-se de considerar a(s) forma(s) como nos deixamos conduzir pelas nossas paixões, apetites e desejos e que, muitas vezes, conduz-nos à fraternal e persistente discórdia nas relações humanas (para além da própria infelicidade).
Vozes populares, bem mais avisadas e sábias, poderiam ripostar com o velho «Nem tudo o que reluz é ouro», isto é, as aparências (tal como o reluzir da maçâ) iludem, a beleza não é duradoura nem eterna, etc. De facto, se nos deixarmos conduzir pelas aparências, chegará um ponto, em que nem nós próprios saberemos no que acreditar de autêntico nela, iludindo problemas que posteriormente retornarão porque nunca foram resolvidos, concluídos e, terminaremos ainda mais envolvidos em trabalhos redobrados, disputas vãs (muita vezes para manter as nossas mentiras ou garantir que nós é que temos razão e de que estamos certos) causando-nos cada vez mais sacrifício, sofrimento e tristeza.
Um detalhe interessantíssimo refere-se à escolha do príncipe Páris. Entre a «sabedoria», «o poder» e uma «mulher linda», ele, escolheu esta última opção. Poderíamos invocar aqui Platão para justificar a má opção feita pelo príncipe. Afinal, somos humanos e, a «mulher linda» personifica a Beleza, seja ela qual for para cada um. Porém, também poderíamos invocar Epicuro e contestar também esta escolha, pois não se pode possuir a Beleza, pode-se amá-la, mas nem sequer conservá-la, pois é algo que não nos pertence. No entanto, a Beleza também é útil para alegrar o nosso quotidiano. Na boa tradição do deus Janus, tudo depende para que lado da moeda se olha, Janus tinha duas faces. 
Podemos pois, aqui, descortinar uma certa crítica velada  a um certo tipo de materialismo e consumismo até no campo das artes, pautado pela posse, pelo (TER) e pelo parecer e a-parecer ( Exibir, falsear,  simular, iludir, deturpar  em quase tudo o que se mostra) e  não tanto pelo (SER). Parece que nos esquecemos de um dos maiores bens da humanidade e que nos trouxe até aqui, a «sabedoria». Nunca existiria a World Wide Web ou quaisquer redes sociais inventadas por energúmenos ou gente imbecis. 
A sabedoria é a pedra de toque imaterial sobre a qual assenta o SER do Homem. O seu cultivo e muita gente, hoje em dia, esqueceu completamente o que isso significa, (confunde-se por exemplo amputar e deturpar com criatividade e imaginação) conduz à prudência, ao equilíbrio, à justiça (não entendida pela maioria dos idiotas como algo que apenas tem a ver com a Lei, mas antes ao que é justo ou se adequa), virtudes que parecem cada vez mais começar a escassear nas ditas sociedades democráticas. Tudo é fugaz e tudo é efémero, portanto vive-se ao segundo e tudo tem de viajar e ser realizado a velocidades hipersónicas. Que pressa, que pressa...Quo Vadis ?
Atente-se também por isso ao uso cada vez mais frequente, por parte dos "nossos" políticos de, discursos profundamente polidos (reluzentes) e prometedores ao estilo «maçã de ouro» cujas larvas gulosas e atrevidas muitas vezes já assomam através da fina casca encerada das mesmas.
Outras leituras ficam por conta ao leitor. É para isso que serve ler e reflectir. Como diria Platão, «uma vida não examinada não merece a pena ser vivida».

Citação da semana:
«Não defendo este partido, nem o outro; se ambos diferem à superfície e podem arrastar opiniões, aprofundemos nós um pouco mais e olhemos o substracto sobre que repousa a variedade [...] O que vejo de comum? O rebanho dos homens, ignorantes e lentos no pensar, que se deixam arrastar pelas palavras e com elas se embriagam.» Agostinho da Silva, 'Diário de Alcestes', 1945.

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