sexta-feira, 7 de abril de 2023

O Mito de Sísifo

 

O mito de Sísifo

Súmula:

Sísifo, filho do rei Éolo, da Tessália, e Enarete, era considerado o mais astuto de todos os mortais. Passava a vida a desafiar os Deuses. Foi o fundador e primeiro rei da cidade de Corinto (antiga Éfira). Casou-se com Mérope, filha de Atlas, sendo pai de Glauco, Ornito e Sínon. Era vizinho de Autólico (mestre da magia e do disfarce, filho de Hermes) e que todas as noites lhe roubava o gado, metamorfoseando-se em animal.1 Como resultado, o seu rebanho diminuía e o de Autólico ia aumentando. Suspeitando de Autólico e sem possuir provas, arquitectou um plano e resolveu marcar os cascos dos seus animais com o símbolo SS ()2. Este método resultou pois, os animais deixaram um rasto que seguia até ao estábulo do seu vizinho. Convocando uma multidão de testemunhas levou-os consigo até à presença de Autólico e, deixando esta a ajustar contas com o larápio afastou-se da confusão para ir seduzir Anticleia (filha de Autólico) que veio a gerar Odisseu (filho bastardo de Sísifo).

Tendo Júpiter raptado a filha de Asopo (deus rio), Egina, este dirigiu-se a Corinto à sua procura. Sísifo sabia perfeitamente o que lhe havia sucedido, mas só com a condição de Asopo fornecer a fonte de Pirene a Corinto se prontificou a revelar-lhe o sucedido, revelando um segredo dos deuses. Pela veleidade foi condenado e, como punição, foi conduzido por Hades (o deus do mundo subterrâneo - inferior - e dos mortos, irmão de Zeus) ao Tártaro (Inferno) onde, colocando as algemas nas mãos de Hades lhe pediu que explicasse como funcionavam. Quando este o fez, rapidamente Sísifo as fechou. Hades foi assim ludibriado por Sísifo que se evadiu do Tártaro e aprisionando Hades na sua casa. Isto tornou impossível que os homens, mesmo que lhes cortassem a cabeça pudessem morrer – semelhança com os zombies – o que enfureceu Plutão que ordenou a Ares o Deus da Guerra para libertar Hades e remetendo Sísifo de novo para o Tártaro. Porém, o astuto Sísifo, antes de descer, deu instruções à mulher para que não o enterrasse e quando lá chegou invocou diante de Perséfone (rainha do mundo dos mortos e filha de Zeus e Deméter – deusa da agricultura) que era uma pessoa insepulta e portanto que não poderia ali permanecer. Prometendo-lhe que voltaria dentro de três dias para resolver o problema, esta acedeu a libertá-lo. Sísifo nunca pensou cumprir e não voltou. Hermes foi chamado a forçar Sísifo a regressar tendo Sísifo sofrido um castigo exemplar. Os juízes dos infernos apresentaram-lhe um enorme bloco de pedra3 e ordenaram-lhe que a fizesse rolar até ao cume de uma montanha e a deixasse cair para o outro lado. Porém, Sísifo nunca conseguiu sequer chegar ao cume, movido pelo cansaço, acabava por deixar a pedra rolar montanha abaixo, tendo no entanto, que voltar a agarrá-la e recomeçar tudo de novo, castigo que lhe foi aplicado enquanto vivesse.

 Comentário:

Contrariamente às leituras correntes deste mito, que colocam ênfase no «absurdo da condição humana» vazia de sentido, porque ligada, inexoravelmente às tarefas repetitivas de sobrevivência diante da morte, ou, como diz Camus, em que «todo o ser se ocupa em não completar nada», apresentamos uma outra leitura, esta, positiva. A repetição é útil, pois sem ela nada aprenderíamos ou sequer teríamos a oportunidade de evoluir no conhecimento corrigindo os erros. Ela é necessária também para a simples manutenção das necessidades básicas da existência. É fundamental para que exista um passado próprio ou comum, reconhecíveis. Não é possível igualmente sobreviver e evoluir fisicamente (veja-se por exemplo o caso dos atletas olímpicos) e intelectualmente (o caso dos nossos estudantes, artistas, cientistas e investigadores) sem esforço (pónos) persistente, sem resiliência, algo que parece arredado um pouco das «vontades humanas» no nosso mundo atual. É-lhe reconhecida a utilidade pela comunhão e partilha que gera no universo humano, uma vez que, ninguém sendo autossuficiente na íntegra depende do trabalho consistente e persistente de outros para sobreviver e evoluir. Por isso, é tão fundamental e valioso, o trabalho de um pescador como o de um cientista, de um canalizador como o de um filósofo, de um estudante como de um professor. O que o mito de Sísifo parece omitir é o trabalho intelectual, pois, foca-se essencialmente no esforço e trabalho físico do herói em empurrar uma pedra apenas por uma vontade cega ou contrariada. Esta visão da condição humana parece-nos obliterada (redutora), conduzindo a essas famosas interpretações de «absurdo» por ausência de sentido na existência. Não partilhamos esta visão pelas razões apontadas. O Homem nasce livre do simples domínio instintivo e possui mais que outros animais, uma outra dimensão, a intelectual. Viver é um processo inacabado por certo, mas que se constrói e desenvolve em parte através das nossas escolhas. Ora isto é liberdade e não ausência de sentido e constitui a maior oportunidade para o Homem, enquanto criador de cultura, ter a possibilidade de vir a ser mestre do seu próprio ser e condutor e produtor do seu próprio mundo. O Homem só se conhece e evolui enquanto se constrói e o mesmo deveria pautar os nossos sistemas políticos, em particular a nossa tão debilitada Democracia.


1 Este episódio de furto lembra a história de Jacob e Labão (Génesis XXIX e XXX)

2 Sinal que representa a Lua-Cheia

3 Crê-se que a pedra representasse um disco solar

Bibliografia:

GRAVES, ROBERT,(2005), Os Mitos Gregos,Trad. Fernanda Branco,Lisboa: D. Quixote

CAMUS,A., (2002),O mito de Sísifo – ensaio sobre o absurdo, Trad. Urbano Tavares Rodrigues, Lisboa: Editora Livros do Brasil

Citação da Semana:

«As necessidades do corpo são a justa medida do que cada um de nós deve possuir. Exemplo: o pé só exige um sapato à sua medida. Se assim considerares as coisas, respeitarás em tudo quanto faças as devidas proporções. Se ultrapassares estas proporções, serás, por tal maneira de agir, necessariamente desregrado como se um precipício te seduzisse. O sapato é exemplo ainda deste estado de coisas: se fores para além do que o teu pé necessita, não tardará muito que anseies por um sapato dourado, por um sapato de púrpura depois, finalmente por um sapato bordado. Uma vez que se menospreze a justa medida, deixa de haver qualquer limite que justos torne os nossos propósitos.»4

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


4 EPITECTO, Manual de Epitecto Máximas, diatribes e aforismos, Trad. Pedro Alvim, Edições Veja, 1992, XXXIX, p. 105

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