Súmula:
As
origens do nome do deus Posídon ou Poseidão são pouco claras. Há quem o associe
com Deméter a mãe da Terra, partindo do [grego πόσις (posis), senhor ou esposo + δᾶ (da),
terra]. Outros interpretam Poseidão a partir do grego como Posei-dawōn ou senhor das águas. Existem no entanto outras
interpretações.
Posídon
ou Neptuno, como na mitologia Romana era conhecido, era filho de Cronos (deus do tempo) e de Reia (deusa mãe). Tinha três irmãs, Deméter,
Héstia e Hera e dois irmãos, Zeus e Hades com os quais destronou o seu pai.
Deste modo, Posídon ficou com o mar, Zeus com os céus e Hades com o reino das
trevas.
A sua vida
solitária no reino das profundezas era enorme, pelo que começou a cortejar Tétis (deusa do mar). No entanto, como uma
profecia afirmava que qualquer filho de Tétis tornar- se-ia mais importante que o pai, rapidamente desistiu
da ideia. Tentou também seduzir Anfitrite (o mar). De início
sem sucesso. Enviou-lhe então diversos mensageiros. Um deles, cujo nome era Delfino,
conseguiu-a persuadir a casar-se com ele. Como agradecimento,
Posídon colocou entre as estrelas a imagem
de Delfino, em forma de constelação, com o
nome Delfim. Dessa união resultaram três filhos chamados Tritão (ser
meio humano e meio peixe que simboliza a lua nova), Rodes (a lua cheia das colheitas) e Bentésicime (a perigosa
lua minguante ou velha) e muitas outras ninfas marinhas.
Posídon tinha imensas
aventuras amorosas com deusas, ninfas
e até mortais, o que enchia de ciúmes Anfitrite. A relação de Posídon com Cila («a que rasga» ou «cachorra») enfureceu-a de tal modo, que Anfitrite resolveu deitar-lhe ervas mágicas
no tanque onde esta habitualmente se banhava. Deste modo, transformou-a num monstro de seis cabeças e doze patas que
passava o tempo a uivar. Posídon tinha um desejo ávido por reinos terrestres e, um dia, declarou-se rei da Ática, espetando o seu tridente
na Acrópole sob os protestos
da deusa Atena, que considerava a cidade sua. Os deuses fizeram uma reunião no Olimpo e
decretaram então que a cidade seria daquele que oferecesse o presente mais útil aos mortais. Posídon
criou então com o seu tridente, a partir de uma pedra, o
cavalo. Atena, apresentou a
oliveira. Avaliando as ofertas, os deuses concederem a Atena a cidade.
Irritado, Posídon fez soltarem-se enormes
vagas que inundaram toda a
planície onde ficava a cidade. Para apaziguar a ira de Posídon as mulheres de
Atenas foram privadas do direito de voto e aos homens foi-lhes interdito usarem
o nome das mães. Sequioso de mais terras passava a vida em conflito com os outros Deuses que acabaram por o proibir
de causar mais inundações. Tendo perdido uma disputa com Hera
sobre a posse da Argólida e sem poder recorrer a inundações, resolveu secar todos os cursos de água dos que
haviam sido seus juízes. Porém, por amor a Amimone, uma das Danaides, fez com que o rio de
Lerna, na Argólida, voltasse a correr permanentemente. Posídon
envolveu-se ainda com a sua
irmã, Deméter. Esta, para fugir ao seu assédio transformou-se em égua. Mas,
Posídon metamorfoseou-se em garanhão e cobriu-a. Deméter enfureceu-se de tal
modo que passou a ser conhecida como a «Deméter
em Fúria». Dessa ultrajante
relação nasceu a ninfa Despoína e o cavalo selvagem Aríon.
Comentário:
Os
mitos têm um carácter polissémico, i.e., possuem diversos sentidos. Falam de
Deuses e Deusas, com poderes especiais, mas também, com sentimentos e
comportamentos verdadeiramente humanos. Este, em particular, começa por relatar
a traição dos filhos em relação ao próprio pai, Cronos, tudo por causa da
herança do universo, neste caso, tripartido em três regiões, o mundo da luz, o
céu, sendo Zeus o deus do raio (tal como
na mitologia nórdica, Thor era o deus do trovão), o mundo das trevas do
obscuro e infernal e o mar que com a sua energia, fluidez e agitação se
assemelha muito à vida. O que Posídon fez ao ajudar a destronar seu pai, não o
quis para si, desistindo da sua atração por Tétis. Freud, conhecido como o pai
da psicanálise, irá mais tarde, falar no complexo de Édipo deste desejo de
matar simbolicamente o pai, de o destronar. Pode-se
eventualmente aqui vislumbrar uma certa
forma
de iniciação da juventude com a passagem à fase adulta e o assumir de todas as
responsabilidades inerentes. Mas, também se pode entender como uma nova forma
de repartição do poder e de passagem de uma autocracia (poder por si próprio, de um
só) para uma oligarquia (governo de
poucos). Inevitavelmente, os mitos, enraízam-se também na realidade.
Alguns, como este, estão intimamente ligados à vida dos homens, às lutas
relativas à estruturação da
organização social (passagem do matriarcado ao patriarcado) e a formas de
organização do tempo,
de carácter astrológico e religioso
(passagem dos cultos lunares para os cultos solares). O episódio em que as mulheres de Atenas
cedem o seu direito de voto e os homens deixam de usar o nome da mãe, apenas
para apaziguar a ira de Posídon, é disso um exemplo que faz-nos também refletir
sobre a luta imensa travada pelas mulheres para recuperar de novo o direito a
voto (início do século XIX até meados do
século XX - em Portugal só a partir
de 1931 - ). Igualmente faz-nos repensar
nas evoluções e retrocessos que a humanidade ao longo da sua existência
atravessou. Posídon era um deus, sequioso de terras. Nesse desejo de obter
posses materiais não se diferencia muito dos humanos, basta lembrar como se
constituíram Impérios ou como ainda se vive numa sociedade materialista e
consumista, numa civilização sempre mais virada para o «Ter», do que para o
«Ser». Posídon encarna, tal como quase
todos os «doze deuses» do Olimpo (morada dos deuses) , uma espécie de Don Juanismo (libertinagem sexual) ainda tão presente
nos comportamentos humanos. Falei nos doze deuses Olímpicos porque de facto os
números estão inevitavelmente ligados, desde a antiguidade, a qualquer forma de
expressão e organização humana. O tridente
de Neptuno é apenas um exemplo. O mesmo número é passível de se encontrar no
trisquel celta (símbolo com três
espirais, em que duas entram e saem de um círculo - representando os dois
movimentos que compõem a dualidade das forças em permanente interação da
natureza - e uma terceira que
representa o equilíbrio entre as outras duas), bem como, em tantos outros
símbolos da antiguidade e da modernidade. Se
pensarmos, por exemplo, na figura
geométrica que constitui o triângulo, na tríade divina - pai, filho e espírito
santo -, no ciclo da vida - nascimento, vida
e morte - , na divisão - corpo, mente e espírito- , nas primevas estações do ano - primavera, verão e inverno -, etc.,
compreenderemos melhor até que ponto os números nos influenciaram e influenciam
o pensamento.
Embora
houvesse muito mais a considerar, termino, com uma referência à relação
incestuosa existente entre Posídon e Deméter. Não se podem interpretar os mitos
à letra, mas, também, não é possível fugir completamente à sua letra. É uma
realidade que Posídon está intimamente conotado com o mar e com a
criação e as corridas de cavalos. Sabe-se bem a importância e utilidade que os
cavalos tiveram em toda a História da Antiguidade e, que, se estendeu até
meados do século XX. Porém, muita da documentação antiga que nos chegou é
prolífica em relatos de situações incestuosas. Não há que esconder, que, ao
longo da história da Antiguidade, Idade Média, Renascimento e Modernidade, se
praticaram inúmeros casamentos incestuosos, entre membros das mesmas famílias,
com o intuito de preservar no seu seio as suas possessões e de aumentar o valor
do seu poder. Só com o advento da medicina
e da genética se começou a entender melhor os perigos da consanguinidade. Este
tema do incesto é aliás comum em muita da literatura universal e nacional.
Desta última, e em boa parte da sua
obra, é disso, exemplo, o nosso ilustríssimo escritor Eça de Queirós.
Bibliografia:
GRAVES, ROBERT,(2005), Os Mitos Gregos,Trad. Fernanda
Branco,Lisboa: D. Quixote
Poseidon. Encyclopedia Mythica. Acedido em 13/01/2012 da Encyclopedia Mythica Online,
http://www.pantheon.org/articles/p/poseidon.html
Greek Mythology : Gods & Goddesses: Sea Gods. Acedido
em 13/01/2012 da Theoy
Greek Mythology.,http://www.theoi.com/

Sem comentários:
Enviar um comentário