sexta-feira, 7 de abril de 2023

O Mito de Posídon

 

Poseidon


Súmula:

As origens do nome do deus Posídon ou Poseidão são pouco claras. Há quem o associe com Deméter a mãe da Terra, partindo do [grego πόσις (posis), senhor ou esposo + δᾶ (da), terra]. Outros interpretam Poseidão a partir do grego como Posei-dawōn ou senhor das águas. Existem no entanto outras interpretações.

Posídon ou Neptuno, como na mitologia Romana era conhecido, era filho de Cronos (deus do tempo) e de Reia (deusa mãe). Tinha três irmãs, Deméter, Héstia e Hera e dois irmãos, Zeus e Hades com os quais destronou o seu pai. Deste modo, Posídon ficou com o mar, Zeus com os céus e Hades com o reino das trevas.

A sua vida solitária no reino das profundezas era enorme, pelo que começou a cortejar Tétis (deusa do mar). No entanto, como uma profecia afirmava que qualquer filho de Tétis tornar- se-ia mais importante que o pai, rapidamente desistiu da ideia. Tentou também seduzir Anfitrite (o mar). De início sem sucesso. Enviou-lhe então diversos mensageiros. Um deles, cujo nome era Delfino, conseguiu-a persuadir a casar-se com ele. Como agradecimento, Posídon colocou entre as estrelas a imagem de Delfino, em forma de constelação, com o nome Delfim. Dessa união resultaram três filhos chamados Tritão (ser meio humano e meio peixe que simboliza a lua nova), Rodes (a lua cheia das colheitas) e Bentésicime (a perigosa lua minguante ou velha) e muitas outras ninfas marinhas. Posídon tinha imensas aventuras amorosas com deusas, ninfas e até mortais, o que enchia de ciúmes Anfitrite. A relação de Posídon com Cila («a que rasga» ou «cachorra») enfureceu-a de tal modo, que Anfitrite resolveu deitar-lhe ervas mágicas no tanque onde esta habitualmente se banhava. Deste modo, transformou-a num monstro de seis cabeças e doze patas que passava o tempo a uivar. Posídon tinha um desejo ávido por reinos terrestres e, um dia, declarou-se rei da Ática, espetando o seu tridente na Acrópole sob os protestos da deusa Atena, que considerava a cidade sua. Os deuses fizeram uma reunião no Olimpo e decretaram então que a cidade seria daquele que oferecesse o presente mais útil aos mortais. Posídon criou então com o seu tridente, a partir de uma pedra, o cavalo. Atena, apresentou a oliveira. Avaliando as ofertas, os deuses concederem a Atena a cidade. Irritado, Posídon fez soltarem-se enormes vagas que inundaram toda a planície onde ficava a cidade. Para apaziguar a ira de Posídon as mulheres de Atenas foram privadas do direito de voto e aos homens foi-lhes interdito usarem o nome das mães. Sequioso de mais terras passava a vida em conflito com os outros Deuses que acabaram por o proibir de causar mais inundações. Tendo perdido uma disputa com Hera sobre a posse da Argólida e sem poder recorrer a inundações, resolveu secar todos os cursos de água dos que haviam sido seus juízes. Porém, por amor a Amimone, uma das Danaides, fez com que o rio de Lerna, na Argólida, voltasse a correr permanentemente. Posídon envolveu-se ainda com a sua irmã, Deméter. Esta, para fugir ao seu assédio transformou-se em égua. Mas, Posídon metamorfoseou-se em garanhão e cobriu-a. Deméter enfureceu-se de tal modo que passou a ser conhecida como a «Deméter em Fúria». Dessa ultrajante relação nasceu a ninfa Despoína e o cavalo selvagem Aríon.


Comentário:

Os mitos têm um carácter polissémico, i.e., possuem diversos sentidos. Falam de Deuses e Deusas, com poderes especiais, mas também, com sentimentos e comportamentos verdadeiramente humanos. Este, em particular, começa por relatar a traição dos filhos em relação ao próprio pai, Cronos, tudo por causa da herança do universo, neste caso, tripartido em três regiões, o mundo da luz, o céu, sendo Zeus o deus do raio (tal como na mitologia nórdica, Thor era o deus do trovão), o mundo das trevas do obscuro e infernal e o mar que com a sua energia, fluidez e agitação se assemelha muito à vida. O que Posídon fez ao ajudar a destronar seu pai, não o quis para si, desistindo da sua atração por Tétis. Freud, conhecido como o pai da psicanálise, irá mais tarde, falar no complexo de Édipo deste desejo de matar simbolicamente o pai, de o destronar. Pode-se eventualmente aqui vislumbrar uma certa

forma de iniciação da juventude com a passagem à fase adulta e o assumir de todas as responsabilidades inerentes. Mas, também se pode entender como uma nova forma de repartição do poder e de passagem de uma autocracia (poder por si próprio, de um só) para uma oligarquia (governo de poucos). Inevitavelmente, os mitos, enraízam-se também na realidade. Alguns, como este, estão intimamente ligados à vida dos homens, às lutas relativas à estruturação da organização social (passagem do matriarcado ao patriarcado) e a formas de organização do tempo, de carácter astrológico e religioso (passagem dos cultos lunares para os cultos solares). O episódio em que as mulheres de Atenas cedem o seu direito de voto e os homens deixam de usar o nome da mãe, apenas para apaziguar a ira de Posídon, é disso um exemplo que faz-nos também refletir sobre a luta imensa travada pelas mulheres para recuperar de novo o direito a voto (início do século XIX até meados do século XX - em Portugal só a partir de 1931 - ). Igualmente faz-nos repensar nas evoluções e retrocessos que a humanidade ao longo da sua existência atravessou. Posídon era um deus, sequioso de terras. Nesse desejo de obter posses materiais não se diferencia muito dos humanos, basta lembrar como se constituíram Impérios ou como ainda se vive numa sociedade materialista e consumista, numa civilização sempre mais virada para o «Ter», do que para o «Ser». Posídon encarna, tal como quase todos os «doze deuses» do Olimpo (morada dos deuses) , uma espécie de Don Juanismo (libertinagem sexual) ainda tão presente nos comportamentos humanos. Falei nos doze deuses Olímpicos porque de facto os números estão inevitavelmente ligados, desde a antiguidade, a qualquer forma de expressão e organização humana. O tridente de Neptuno é apenas um exemplo. O mesmo número é passível de se encontrar no trisquel celta (símbolo com três espirais, em que duas entram e saem de um círculo - representando os dois movimentos que compõem a dualidade das forças em permanente interação da natureza - e uma terceira que representa o equilíbrio entre as outras duas), bem como, em tantos outros símbolos da antiguidade e da modernidade. Se pensarmos, por exemplo, na figura geométrica que constitui o triângulo, na tríade divina - pai, filho e espírito santo -, no ciclo da vida - nascimento, vida e morte - , na divisão - corpo, mente e espírito- , nas primevas estações do ano - primavera, verão e inverno -, etc., compreenderemos melhor até que ponto os números nos influenciaram e influenciam o pensamento.

Embora houvesse muito mais a considerar, termino, com uma referência à relação incestuosa existente entre Posídon e Deméter. Não se podem interpretar os mitos à letra, mas, também, não é possível fugir completamente à sua letra. É uma realidade que Posídon está intimamente conotado com o mar e com a criação e as corridas de cavalos. Sabe-se bem a importância e utilidade que os cavalos tiveram em toda a História da Antiguidade e, que, se estendeu até meados do século XX. Porém, muita da documentação antiga que nos chegou é prolífica em relatos de situações incestuosas. Não há que esconder, que, ao longo da história da Antiguidade, Idade Média, Renascimento e Modernidade, se praticaram inúmeros casamentos incestuosos, entre membros das mesmas famílias, com o intuito de preservar no seu seio as suas possessões e de aumentar o valor do seu poder. Só com o advento da medicina e da genética se começou a entender melhor os perigos da consanguinidade. Este tema do incesto é aliás comum em muita da literatura universal e nacional. Desta última, e em boa parte da sua obra, é disso, exemplo, o nosso ilustríssimo escritor Eça de Queirós.

 

Bibliografia:

GRAVES, ROBERT,(2005), Os Mitos Gregos,Trad. Fernanda Branco,Lisboa: D. Quixote

Poseidon. Encyclopedia  Mythica. Acedido  em  13/01/2012  da  Encyclopedia Mythica Online,

http://www.pantheon.org/articles/p/poseidon.html

Greek Mythology : Gods & Goddesses: Sea Gods. Acedido em 13/01/2012 da Theoy Greek Mythology.,http://www.theoi.com/

 

Citação da Semana:

«Sábio é todo aquele que se deixa ensinar. Maravilha é todo aquele que, quando ensinado, o reconhece.»1

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