quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Sem livre arbítrio não há ciência

Eu, fui aquilo que pude ser, enquanto fui alguma coisa. Claro, que não fui fantasma. Até, depois de morto, alguém se lembra de me ter visto, de me ter falado, de me ter aturado, de me ter amado. Faço da testemunha de outros, a prova de que existi, mesmo que, essa prova, se apague, pois, a memória, não é eterna, aliás, como tudo o que sabemos. Dirão os deterministas que estava tudo determinado, ainda que, mudando as múltiplas disposições, determinantes a cada instante, e que, portanto, apenas cumpri a minha natureza. Falso, nem sei qual a minha natureza foi, ou era. Não sei, mas, se assim estava determinado, deveria em vida ter chegado a saber. Nunca soube. Era ela que me controlava ? Claro que não. Uma coisa é estar com fome, outra, decidir fazer jejum. Claro, esta decisão não se pode perpetuar sob risco de vida mas, podemos, sempre, dentro das possibilidades que conhecemos ou, que consideramos disponíveis, escolher. Podemos perfeitamente jejuar uma refeição. O limite, foi a natureza determinística que impôs. A decisão foi o momentum do livre arbítrio. Se isto é traduzível em ondas cerebrais prévias, por favor, identifiquem os triliões de sinapses que dão origem a estas ações?... Ah, e até estava acompanhado com alguém com fome que se alimentou. Duas configurações, dois mundos, o mais razoável seria comer e, no entanto, eu preferi, apesar do sacrifício, não o fazer. Motivos ? Testar o meu autocontrolo. Belas ondas cerebrais. Agora, imaginemos o mesmo no cérebro de um muçulmano durante o ramadão. Pensemos que, o que lhe vai na alma é o cumprimento, devido à sua crença num voto de jejum. Devem ser outras ondas cerebrais com um desfecho semelhante. Tudo, determinado. Eu, por que decidi, ou alguma determinação desconhecida decidiu por mim, testar a minha própria natureza e, o muçulmano por que as suas crenças, também, todas determinadas, o conduziram à obediência ao código do jejum próprio da sua religião. Chega a ser ridícula, a opinião dos deterministas. Mais, ainda, dos deterministas ateus. Parece que defendem uma posição próxima da pescadinha com rabo na boca. Se não são livres, de escolher, conscientemente, então, são tão predestinados como qualquer crente quando acredita sobre o que diz a sua religião. Sucede, que, até nem mesmo a maioria dos crentes religiosos acreditam nesse modo ou disposição do universo, pré determinado. Por isso, ainda mais ridículo parece, haver cientista a defender estas posições. Escudam-se, claro, em Espinosa. Deus ou a Natureza. E, então, tudo passa a ser Deus. A Natureza é Deus e, a ela ninguém escapa, quais passarinhos, numa gaiola, criada por um vocabulário inventado por padres. E volta-se ao mesmo. Ninguém sabe de nada. Mas, Deus porquê ? Certo, o livre arbítrio parece uma arrogância. E é! É a única forma de subsistirmos, de nos rebelarmos contra a natureza, sendo Natureza. É uma rebelião que cria caos e ordem. Dela resulta a cultura, coisa criada pelos homens e pela razão ou inteligência humana para subsistir e até, atingir os píncaros de viver, acima do sobreviver. Um luxo da natureza ou que a natureza concedeu a si mesma, talvez, a maior falha ou rutura detectável no universo, a consciência e a liberdade (condicionada às disponibilidades) de escolher, mas, ainda assim, uma escolha, ainda que ela invoque energias determinadas para a sua execução. Pegar num curso de um rio e desviá-lo. Não estava escrito em nenhum lado, nem em nenhum Destino, embora possa sempre figurar no livro do mundo dos contabilistas probabilistas ou, diria, dialéticos ?  

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