sábado, 31 de agosto de 2024

O Grau Zero

Confunde-se muita vezes conhecimento e sabedoria. Quem pretende, erroneamente, fazer da filosofia um modo de busca de conhecimento, encontrará nela, certamente, uma panóplia de nomenclaturas criadas a pretexto da sua sistematização. Viciados nesta sistematização, confunde-se toda a filosofia com os conceitos, de que ela apenas subsistiria ou então, com a própria ciência (doxa) como forma de sobrevivência sob ocultação por detrás dela.
Pergunto, onde e quando se filosófa ? Sim, é certo que a filosofia se exerce pela razão mas, também, pela práxis. Já se esqueceram os filósofos de como ela nasceu ? O que dizer da filosofia do Jardim ou da antiquíssima Skolê que não tem nada a ver com os atuais programas de ensino e a escola actual ?
O verdadeiro exercício do saber filosófico resume-se essencialmente ao questionar e ao progredir nesse questionamento, incessantemente, como forma de aprender e aperfeiçoar a arte de pensar com vista ao viver, ao saber viver e à sabedoria como cúmulo do saber viver melhor ou de modo mais sábio e inteligente, na posse e uso máximo das nossas faculdades da razão e a sua proficiente aplicação à práxis.
Dir-se-á que, a crença exacerbada na Razão, sob a forma de uma prepotência intelectual arrogante e fanática causou a quase catástrofe ecológica atual. Faço uma leitura diferente. Não houve nunca um abuso do uso da Razão, pela humanidade, pelo contrário, a coberto de um pretexto uso da Razão nunca se agiu tanto contrariamente a ela e, nunca se agiu tanto e tão sistematicamente de modo irracional. O mal não adveio da Razão mas do seu pretenso, mas falso, bom uso. A ilusão do bom uso da razão não se pode substituir ao verdadeiro uso de uma Razão que não se reconhece a si mesma como hegemónica, nem soliloquial, e que, antes pelo contrário se descobre ínfima no seio de um mundo polissémico e desordenado. Ordenar para compreender não significa subjugar o concreto a uma ordem racional, nem utilizar a ordem como teckné manipuladora do concreto com vista à sua modificação exploratória sem avaliação das suas consequências e subsequentes rectificações racionalmente justificáveis.
O conhecimento é um construto humano. O conhecimento não é tudo. O amor "filo" à sabedoria "sofia"  revela e exige um cuidar pelo "ethos" do saber, um velar por ele num mundo, o que constituiria o pleno uso da Razão. Ora, o que se tem visto proliferar não é isso. O uso desenfreado de uma razão amputada de um ethos, isso sim, é o que se tem verificado. Temos vivido guiados por uma razão manca que não se reavalia e que apenas avalia. Não podemos passar sem a Razão mas, será que sabemos viver com ela ?
Ao falar dos programas de filosofia no ensino, exprimia este questionamento. Será que estamos realmente a ensinar a filosofar ou a pensar e pensar bem nas nossas escolas (recuso-me a escrever com letra inicial maiúscula) ?

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