domingo, 9 de março de 2025

SOBRE O LIVRE ARBÍTRIO



Aquele que se emociona, que sente, que pensa, que age e interage, que se responsabiliza, tudo num só, quem é ? Será que estamos no controlo de isso tudo ou somos completamente comandados por forças interiores e exteriores que nos ultrapassam ? Ou tomamos essas forças que não controlamos e as dirigimos e/ou orientamos num sentido que nos permite pensar que somos uma entidade única, a principal, ainda que não singular,  responsável da nossa biografia ?  E, se tudo isso não passar de uma ilusão e até esse sentimento de controlo for também fruto da energia que nos percorre ? Será que a natureza está pré programada para produzir uma sinfonia de Mozart ? Será que a natureza está programada para nos conduzir até à lua ou até marte ? Será que a natureza está determinada a produzir deuses ou quaisquer outros seres espirituais ? Será que é a natureza que produz todas as filosofias ? Para Espinosa, sim. A natureza é tudo. Tudo é manifestação da natureza e não há separação entre corpo e alma porque tudo brota da mesma fonte, estilo Lavoisier, na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. A essa ideia, opõem-se os dualistas platónicos, que defendem que corpo e alma são duas substâncias distintas. Uma física e a outra metafísica (para além da física), como uma ideia que é algo que não se consegue agarrar, podendo ser gravada na memória ou em qualquer outro suporte enquanto escrita mas que não é possível capturar. É possível transmiti-la mas não tocar nela. Sem corpo material será que a ideia subsistiria ou até se produziria ? Ainda hoje se discute esta questão. Uma coisa parece certa, a cultura é fruto de todas as flutuações da matéria humana mas, não parece haver uma única e universal biologia totalmente comum e pré programada. Mesmo com as enormes repetições históricas dos vícios e virtudes humanas não é possível prever a História do futuro. Ou a ciência ainda falha neste capítulo ou então haverá sempre escolha humana. Também a interação de cada ser com os outros seres, ao longo da sua biografia, interfere de modo não pré programado na resposta individual de cada ser e na futura cadeia de interações desse ser com o coletivo dos outros seres. Também aqui é difícil identificar as causas e deduzir as consequências. Mais uma vez a ciência falha e, quanto mais tenta explicar mais parece haver por explicar e para prever. O que pretendo dizer com isto é que talvez a ciência não consiga demonstrar que temos ou não temos livre arbítrio. O certo é que o determinismo radical, chega a ser quase não científico ao propor que tudo está pré determinado excluindo qualquer hipótese de progresso do conhecimento científico ou reduzindo toda a vida humana a causas e efeitos numa perspectiva muito behaviorista e reducionista, estilo estímulo-resposta do ser humano. Somos muito mais que o fruto de causas e efeitos e, mesmo sem opções divergentes podemos sempre escolher decidindo não escolher ou, talvez, sejamos simplesmente determinados à escolha o que não significa determinados a determinar a escolha.


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