sexta-feira, 7 de abril de 2023

O Mito de Sísifo

 

O mito de Sísifo

Súmula:

Sísifo, filho do rei Éolo, da Tessália, e Enarete, era considerado o mais astuto de todos os mortais. Passava a vida a desafiar os Deuses. Foi o fundador e primeiro rei da cidade de Corinto (antiga Éfira). Casou-se com Mérope, filha de Atlas, sendo pai de Glauco, Ornito e Sínon. Era vizinho de Autólico (mestre da magia e do disfarce, filho de Hermes) e que todas as noites lhe roubava o gado, metamorfoseando-se em animal.1 Como resultado, o seu rebanho diminuía e o de Autólico ia aumentando. Suspeitando de Autólico e sem possuir provas, arquitectou um plano e resolveu marcar os cascos dos seus animais com o símbolo SS ()2. Este método resultou pois, os animais deixaram um rasto que seguia até ao estábulo do seu vizinho. Convocando uma multidão de testemunhas levou-os consigo até à presença de Autólico e, deixando esta a ajustar contas com o larápio afastou-se da confusão para ir seduzir Anticleia (filha de Autólico) que veio a gerar Odisseu (filho bastardo de Sísifo).

Tendo Júpiter raptado a filha de Asopo (deus rio), Egina, este dirigiu-se a Corinto à sua procura. Sísifo sabia perfeitamente o que lhe havia sucedido, mas só com a condição de Asopo fornecer a fonte de Pirene a Corinto se prontificou a revelar-lhe o sucedido, revelando um segredo dos deuses. Pela veleidade foi condenado e, como punição, foi conduzido por Hades (o deus do mundo subterrâneo - inferior - e dos mortos, irmão de Zeus) ao Tártaro (Inferno) onde, colocando as algemas nas mãos de Hades lhe pediu que explicasse como funcionavam. Quando este o fez, rapidamente Sísifo as fechou. Hades foi assim ludibriado por Sísifo que se evadiu do Tártaro e aprisionando Hades na sua casa. Isto tornou impossível que os homens, mesmo que lhes cortassem a cabeça pudessem morrer – semelhança com os zombies – o que enfureceu Plutão que ordenou a Ares o Deus da Guerra para libertar Hades e remetendo Sísifo de novo para o Tártaro. Porém, o astuto Sísifo, antes de descer, deu instruções à mulher para que não o enterrasse e quando lá chegou invocou diante de Perséfone (rainha do mundo dos mortos e filha de Zeus e Deméter – deusa da agricultura) que era uma pessoa insepulta e portanto que não poderia ali permanecer. Prometendo-lhe que voltaria dentro de três dias para resolver o problema, esta acedeu a libertá-lo. Sísifo nunca pensou cumprir e não voltou. Hermes foi chamado a forçar Sísifo a regressar tendo Sísifo sofrido um castigo exemplar. Os juízes dos infernos apresentaram-lhe um enorme bloco de pedra3 e ordenaram-lhe que a fizesse rolar até ao cume de uma montanha e a deixasse cair para o outro lado. Porém, Sísifo nunca conseguiu sequer chegar ao cume, movido pelo cansaço, acabava por deixar a pedra rolar montanha abaixo, tendo no entanto, que voltar a agarrá-la e recomeçar tudo de novo, castigo que lhe foi aplicado enquanto vivesse.

 Comentário:

Contrariamente às leituras correntes deste mito, que colocam ênfase no «absurdo da condição humana» vazia de sentido, porque ligada, inexoravelmente às tarefas repetitivas de sobrevivência diante da morte, ou, como diz Camus, em que «todo o ser se ocupa em não completar nada», apresentamos uma outra leitura, esta, positiva. A repetição é útil, pois sem ela nada aprenderíamos ou sequer teríamos a oportunidade de evoluir no conhecimento corrigindo os erros. Ela é necessária também para a simples manutenção das necessidades básicas da existência. É fundamental para que exista um passado próprio ou comum, reconhecíveis. Não é possível igualmente sobreviver e evoluir fisicamente (veja-se por exemplo o caso dos atletas olímpicos) e intelectualmente (o caso dos nossos estudantes, artistas, cientistas e investigadores) sem esforço (pónos) persistente, sem resiliência, algo que parece arredado um pouco das «vontades humanas» no nosso mundo atual. É-lhe reconhecida a utilidade pela comunhão e partilha que gera no universo humano, uma vez que, ninguém sendo autossuficiente na íntegra depende do trabalho consistente e persistente de outros para sobreviver e evoluir. Por isso, é tão fundamental e valioso, o trabalho de um pescador como o de um cientista, de um canalizador como o de um filósofo, de um estudante como de um professor. O que o mito de Sísifo parece omitir é o trabalho intelectual, pois, foca-se essencialmente no esforço e trabalho físico do herói em empurrar uma pedra apenas por uma vontade cega ou contrariada. Esta visão da condição humana parece-nos obliterada (redutora), conduzindo a essas famosas interpretações de «absurdo» por ausência de sentido na existência. Não partilhamos esta visão pelas razões apontadas. O Homem nasce livre do simples domínio instintivo e possui mais que outros animais, uma outra dimensão, a intelectual. Viver é um processo inacabado por certo, mas que se constrói e desenvolve em parte através das nossas escolhas. Ora isto é liberdade e não ausência de sentido e constitui a maior oportunidade para o Homem, enquanto criador de cultura, ter a possibilidade de vir a ser mestre do seu próprio ser e condutor e produtor do seu próprio mundo. O Homem só se conhece e evolui enquanto se constrói e o mesmo deveria pautar os nossos sistemas políticos, em particular a nossa tão debilitada Democracia.


1 Este episódio de furto lembra a história de Jacob e Labão (Génesis XXIX e XXX)

2 Sinal que representa a Lua-Cheia

3 Crê-se que a pedra representasse um disco solar

Bibliografia:

GRAVES, ROBERT,(2005), Os Mitos Gregos,Trad. Fernanda Branco,Lisboa: D. Quixote

CAMUS,A., (2002),O mito de Sísifo – ensaio sobre o absurdo, Trad. Urbano Tavares Rodrigues, Lisboa: Editora Livros do Brasil

Citação da Semana:

«As necessidades do corpo são a justa medida do que cada um de nós deve possuir. Exemplo: o pé só exige um sapato à sua medida. Se assim considerares as coisas, respeitarás em tudo quanto faças as devidas proporções. Se ultrapassares estas proporções, serás, por tal maneira de agir, necessariamente desregrado como se um precipício te seduzisse. O sapato é exemplo ainda deste estado de coisas: se fores para além do que o teu pé necessita, não tardará muito que anseies por um sapato dourado, por um sapato de púrpura depois, finalmente por um sapato bordado. Uma vez que se menospreze a justa medida, deixa de haver qualquer limite que justos torne os nossos propósitos.»4

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


4 EPITECTO, Manual de Epitecto Máximas, diatribes e aforismos, Trad. Pedro Alvim, Edições Veja, 1992, XXXIX, p. 105

O Mito de Prometeu

 

Prometeu agrilhoado

O mito agora apresentado em resumo refere-se decisivamente à cisão que há que reconhecer como esforço dos pensadores gregos para separar as questões divinas (da fé) das humanas (da razão). Prometeu, é considerado o herói fundador da humanidade.

 

Súmula:

Prometeu (o previdente), era primo de Zeus, filho do Titã1 Jápeto e da Ninfa2 Clímene e tinha por irmãos Atlas, Menécio e Epimeteu. Num combate que os humanos fizeram contra Crono3, Prometeu aliou-se a Zeus, obtendo a sua simpatia. Atena (deusa da guerra, da civilização, da sabedoria, da arte, da justiça e da habilidade) saída da cabeça de Zeus e de que Prometeu presenciou o nascimento, veio a ensinar-lhe, arquitectura, astronomia, matemática, navegação, medicina, metalurgia e outras artes e ofícios que Prometeu comunicou à humanidade. Zeus não gostou muito que os poderes e habilidades de Prometeu evoluíssem de forma tão ameaçadora. Um dia, tendo estalado um conflito em Sícion4 quanto ao sacrifício de um boi a ser ofertado a Zeus, Prometeu foi chamado a arbitrar a querela. Prometeu, agarrou num boi, dividiu-o em duas partes. Com a pele fez dois sacos com uma abertura. Num meteu toda a carne mas dissimulou-a debaixo das vísceras para parecer menos aprazível. No outro, colocou todos os ossos cobertos de gordura. Zeus, atraído pelo saco que continha a banha, escolheu-o. Quando se apercebe da fraude, explode de raiva, e rancor, e a cólera subiu-lhe à cabeça. Resolve então castigar os homens, negando-lhes a força do fogo (o fogo representa simbolicamente a inteligência do homem). «Que comam a carne deles crua!», terá gritado. No entanto, Prometeu recorreu rapidamente a Atena para que esta o deixasse entrar secretamente no Olimpo (morada dos deuses, uma espécie de céu cristão, a que se contrapõe o Hades semelhante ao inferno). E assim sucedeu. Prometeu acendeu o seu archote no carro de fogo do Sol e dele separou uma brasa incandescente que enfiou no caule oco de um funcho gigante. Depois, extinguiu o seu archote, e restituiu o fogo Olímpico aos homens. Como castigo, Zeus montou-lhe uma armadilha: ordenou ao deus coxo e ferreiro Hefesto (deus do fogo, dos metais e da metalurgia), que criasse uma mulher ideal, fascinante, ao qual os deuses presentearam com alguns atributos de forma a torná-la irresistível. Esta mulher, a primeira mulher, foi baptizada por Hermes como Pandora (a que tudo dá, a que possui tudo). Pandora foi enviada como presente a Epimeteu (o imprevidente), que não lhe resistiu, apesar das advertências do irmão, Prometeu. A vingança planeada por Zeus estava contida numa jarra, que foi levada como presente de núpcias para Epimeteu e Pandora. Quando esta, por curiosidade, abriu a jarra e rapidamente a fechou, escaparam-se todas as desgraças e calamidades da humanidade. Apenas a enganadora esperança restou na jarra o que evitou que toda a humanidade se suicidasse. Prometeu, por sua vez foi castigado ao ser preso nu a uma coluna por correntes inquebráveis que Hefesto fabricou. Enviada por Zeus um abutre castigava-o debicando-lhe o fígado durante o dia. De noite, o fígado voltava a regenerar-se. Tudo teria permanecido assim se, Herácles (Hércules) não tivesse obtido autorização de seu pai, Zeus, para abater o animal.


Comentário:

À parte das peripécias e dos jogos de desonestidade que tanto Deuses e Homens revelam e, é preciso não esquecer que os Deuses gregos tinham características muito humanas, revelando inteligência, sentimentos e emoções, quatro elementos parecem essencialmente ressaltar deste mito: a criação, a inteligência, o sofrimento e a esperança.

Relativamente à criação apercebemo-nos de que a mesma tem origem divina, segundo o mito. Senão refira-se o ensino que Atena ministra a Prometeu e que este transmite à raça humana, dando origem a todo o tipo de profissões e de ofícios que o Homem necessita para ser senhor do seu destino e do qual se tornará criador pela Cultura. Refira-se também aqui, a criação da primeira mulher, Pandora, com atributos de bela, sedutora, má, preguiçosa, uma espécie de Eva que seduz Adão com a maçã. Os grupos feministas certamente que já estarão ao corrente desta visão pouco favorável e que parece transversal a muitas culturas anciãs e contemporâneas, de Norte a Sul e de Oriente a Ocidente.

Relativamente à inteligência, se é certo que é Atena a inteligência saída da cabeça de Zeus (ou o Verbo, na tradição judaico-cristã, futuro Lógos da filosofia grega), que providencia por mediação de Prometeu aos homens a capacidade de se emanciparem por via do espírito e da arte de pensar e produzir - da mera «carne crua» dos instintos e da corporalidade - também é certo, que é a disputa entre Zeus e Prometeu pelo fogo, que parece constituir a acendalha potenciadora do despertar de todas essas capacidades humanas, através das suas múltiplas manifestações e criações culturais.

Não menos relevante, é a questão que emerge da fuga de todos os males da jarra (e não caixa) de Pandora e que inevitavelmente causam toda a espécie de sofrimento à humanidade. E o significado do sofrimento de Prometeu, enfraquecido pelas vísceras, as tais que ele próprio adulterou no sacrifício oferecido a Zeus, mas de que foi por fim liberto. Há portanto que batalhar, resistir ao sofrimento, criar, produzir, usar a inteligência e ter esperança, porque a Humanidade não está concluída, nem é desprovida de capacidades ou da esperança de poder evoluir e melhorar.

 1 - Titãs classe de divindades muito antigas incluídas na mitologia grega e que quase sempre entraram em combate com Zeus .

 2 - Ninfas - deriva do grego nimphe, que significa "noiva", "velado", "botão de rosa", tendo muitos outros significados. As ninfas são espíritos, habitantes dos lagos e riachos, bosques, florestas, prados e montanhas.

3 - Crono O mais jovem dos titãs, nascido de Úrano, o Céu e de Gaia ou Geia, a Terra. [distinguir de Cronos (Khronos) deus doTempo]

4 - Sicion ou Sicião - cidade grega situada no Peloponeso

Bibliografia:

GRAVES, ROBERT,(2005), Os Mitos Gregos,Trad. Fernanda Branco,Lisboa: D. Quixote

HESÍODO,(2005), Teogonia – Trabalhos e Dias, Trad. Ana Elias Pinheiro e José Ribeiro Ferreira,Lisboa:INCM, 14-105, pp. 93-96 Referências retiradas da “Encyclopedia Mythica “ na world wide web em 18/11/2011: [http://www.pantheon.org/]

18/11/2011

 Comentário da semana:

«Se se arranca um cabelo a um homem que tem muitos, não é por isso que ele é calvo; tão- pouco se lhe arranca um segundo e um terceiro, etc. No entanto, chegará um momento em que aparecerá calvo, mas a partir de que número de cabelos arrancados poderemos dizer que nos encontramos perante um calvo?»5


Nota: Este paradoxo filosófico exige também que se reflicta sobre a forma como se adjectivam as pessoas, quando se observam determinadas formas de actuação (Ex.: estúpido, mentiroso, ladrão, invejoso, ambicioso, etc.).

O Mito de Posídon

 

Poseidon


Súmula:

As origens do nome do deus Posídon ou Poseidão são pouco claras. Há quem o associe com Deméter a mãe da Terra, partindo do [grego πόσις (posis), senhor ou esposo + δᾶ (da), terra]. Outros interpretam Poseidão a partir do grego como Posei-dawōn ou senhor das águas. Existem no entanto outras interpretações.

Posídon ou Neptuno, como na mitologia Romana era conhecido, era filho de Cronos (deus do tempo) e de Reia (deusa mãe). Tinha três irmãs, Deméter, Héstia e Hera e dois irmãos, Zeus e Hades com os quais destronou o seu pai. Deste modo, Posídon ficou com o mar, Zeus com os céus e Hades com o reino das trevas.

A sua vida solitária no reino das profundezas era enorme, pelo que começou a cortejar Tétis (deusa do mar). No entanto, como uma profecia afirmava que qualquer filho de Tétis tornar- se-ia mais importante que o pai, rapidamente desistiu da ideia. Tentou também seduzir Anfitrite (o mar). De início sem sucesso. Enviou-lhe então diversos mensageiros. Um deles, cujo nome era Delfino, conseguiu-a persuadir a casar-se com ele. Como agradecimento, Posídon colocou entre as estrelas a imagem de Delfino, em forma de constelação, com o nome Delfim. Dessa união resultaram três filhos chamados Tritão (ser meio humano e meio peixe que simboliza a lua nova), Rodes (a lua cheia das colheitas) e Bentésicime (a perigosa lua minguante ou velha) e muitas outras ninfas marinhas. Posídon tinha imensas aventuras amorosas com deusas, ninfas e até mortais, o que enchia de ciúmes Anfitrite. A relação de Posídon com Cila («a que rasga» ou «cachorra») enfureceu-a de tal modo, que Anfitrite resolveu deitar-lhe ervas mágicas no tanque onde esta habitualmente se banhava. Deste modo, transformou-a num monstro de seis cabeças e doze patas que passava o tempo a uivar. Posídon tinha um desejo ávido por reinos terrestres e, um dia, declarou-se rei da Ática, espetando o seu tridente na Acrópole sob os protestos da deusa Atena, que considerava a cidade sua. Os deuses fizeram uma reunião no Olimpo e decretaram então que a cidade seria daquele que oferecesse o presente mais útil aos mortais. Posídon criou então com o seu tridente, a partir de uma pedra, o cavalo. Atena, apresentou a oliveira. Avaliando as ofertas, os deuses concederem a Atena a cidade. Irritado, Posídon fez soltarem-se enormes vagas que inundaram toda a planície onde ficava a cidade. Para apaziguar a ira de Posídon as mulheres de Atenas foram privadas do direito de voto e aos homens foi-lhes interdito usarem o nome das mães. Sequioso de mais terras passava a vida em conflito com os outros Deuses que acabaram por o proibir de causar mais inundações. Tendo perdido uma disputa com Hera sobre a posse da Argólida e sem poder recorrer a inundações, resolveu secar todos os cursos de água dos que haviam sido seus juízes. Porém, por amor a Amimone, uma das Danaides, fez com que o rio de Lerna, na Argólida, voltasse a correr permanentemente. Posídon envolveu-se ainda com a sua irmã, Deméter. Esta, para fugir ao seu assédio transformou-se em égua. Mas, Posídon metamorfoseou-se em garanhão e cobriu-a. Deméter enfureceu-se de tal modo que passou a ser conhecida como a «Deméter em Fúria». Dessa ultrajante relação nasceu a ninfa Despoína e o cavalo selvagem Aríon.


Comentário:

Os mitos têm um carácter polissémico, i.e., possuem diversos sentidos. Falam de Deuses e Deusas, com poderes especiais, mas também, com sentimentos e comportamentos verdadeiramente humanos. Este, em particular, começa por relatar a traição dos filhos em relação ao próprio pai, Cronos, tudo por causa da herança do universo, neste caso, tripartido em três regiões, o mundo da luz, o céu, sendo Zeus o deus do raio (tal como na mitologia nórdica, Thor era o deus do trovão), o mundo das trevas do obscuro e infernal e o mar que com a sua energia, fluidez e agitação se assemelha muito à vida. O que Posídon fez ao ajudar a destronar seu pai, não o quis para si, desistindo da sua atração por Tétis. Freud, conhecido como o pai da psicanálise, irá mais tarde, falar no complexo de Édipo deste desejo de matar simbolicamente o pai, de o destronar. Pode-se eventualmente aqui vislumbrar uma certa

forma de iniciação da juventude com a passagem à fase adulta e o assumir de todas as responsabilidades inerentes. Mas, também se pode entender como uma nova forma de repartição do poder e de passagem de uma autocracia (poder por si próprio, de um só) para uma oligarquia (governo de poucos). Inevitavelmente, os mitos, enraízam-se também na realidade. Alguns, como este, estão intimamente ligados à vida dos homens, às lutas relativas à estruturação da organização social (passagem do matriarcado ao patriarcado) e a formas de organização do tempo, de carácter astrológico e religioso (passagem dos cultos lunares para os cultos solares). O episódio em que as mulheres de Atenas cedem o seu direito de voto e os homens deixam de usar o nome da mãe, apenas para apaziguar a ira de Posídon, é disso um exemplo que faz-nos também refletir sobre a luta imensa travada pelas mulheres para recuperar de novo o direito a voto (início do século XIX até meados do século XX - em Portugal só a partir de 1931 - ). Igualmente faz-nos repensar nas evoluções e retrocessos que a humanidade ao longo da sua existência atravessou. Posídon era um deus, sequioso de terras. Nesse desejo de obter posses materiais não se diferencia muito dos humanos, basta lembrar como se constituíram Impérios ou como ainda se vive numa sociedade materialista e consumista, numa civilização sempre mais virada para o «Ter», do que para o «Ser». Posídon encarna, tal como quase todos os «doze deuses» do Olimpo (morada dos deuses) , uma espécie de Don Juanismo (libertinagem sexual) ainda tão presente nos comportamentos humanos. Falei nos doze deuses Olímpicos porque de facto os números estão inevitavelmente ligados, desde a antiguidade, a qualquer forma de expressão e organização humana. O tridente de Neptuno é apenas um exemplo. O mesmo número é passível de se encontrar no trisquel celta (símbolo com três espirais, em que duas entram e saem de um círculo - representando os dois movimentos que compõem a dualidade das forças em permanente interação da natureza - e uma terceira que representa o equilíbrio entre as outras duas), bem como, em tantos outros símbolos da antiguidade e da modernidade. Se pensarmos, por exemplo, na figura geométrica que constitui o triângulo, na tríade divina - pai, filho e espírito santo -, no ciclo da vida - nascimento, vida e morte - , na divisão - corpo, mente e espírito- , nas primevas estações do ano - primavera, verão e inverno -, etc., compreenderemos melhor até que ponto os números nos influenciaram e influenciam o pensamento.

Embora houvesse muito mais a considerar, termino, com uma referência à relação incestuosa existente entre Posídon e Deméter. Não se podem interpretar os mitos à letra, mas, também, não é possível fugir completamente à sua letra. É uma realidade que Posídon está intimamente conotado com o mar e com a criação e as corridas de cavalos. Sabe-se bem a importância e utilidade que os cavalos tiveram em toda a História da Antiguidade e, que, se estendeu até meados do século XX. Porém, muita da documentação antiga que nos chegou é prolífica em relatos de situações incestuosas. Não há que esconder, que, ao longo da história da Antiguidade, Idade Média, Renascimento e Modernidade, se praticaram inúmeros casamentos incestuosos, entre membros das mesmas famílias, com o intuito de preservar no seu seio as suas possessões e de aumentar o valor do seu poder. Só com o advento da medicina e da genética se começou a entender melhor os perigos da consanguinidade. Este tema do incesto é aliás comum em muita da literatura universal e nacional. Desta última, e em boa parte da sua obra, é disso, exemplo, o nosso ilustríssimo escritor Eça de Queirós.

 

Bibliografia:

GRAVES, ROBERT,(2005), Os Mitos Gregos,Trad. Fernanda Branco,Lisboa: D. Quixote

Poseidon. Encyclopedia  Mythica. Acedido  em  13/01/2012  da  Encyclopedia Mythica Online,

http://www.pantheon.org/articles/p/poseidon.html

Greek Mythology : Gods & Goddesses: Sea Gods. Acedido em 13/01/2012 da Theoy Greek Mythology.,http://www.theoi.com/

 

Citação da Semana:

«Sábio é todo aquele que se deixa ensinar. Maravilha é todo aquele que, quando ensinado, o reconhece.»1

A Tragédia de Édipo Rei


A tragédia Édipo Rei é uma das mais famosas peças teatrais que Sófocles (496 a.C. a 405 a.C.) escreveu durante a sua vida, e apresenta um dos episódios da vida de Édipo, que veio a influenciar mais tarde Sigismund Schlomo Freud (1835-1930) na elaboração da teoria do complexo de Édipo.

 

Súmula:

Édipo era filho de Laio (o pai) e de Jocasta (a mãe) reis de Tebas. O oráculo anunciou aos pais que Édipo mataria o pai e casaria com a mãe. Por este motivo, os pais abandonaram Édipo num deserto. Um pastor encontrou-o e entregou-o à guarda de Políbio rei de Corinto e que o adoptou até à idade adulta. Já adulto, Édipo consultou o oráculo e não querendo matar aquele que julgava ser seu pai, Políbio, abandonou Corinto. Na viagem matou com um cajado o seu verdadeiro pai biológico, sem o saber. Depois, caminhou para Tebas passando pelo monte Citero onde se deparou com a esfinge (monstro com rosto de mulher e corpo de leão alado) e que colocava o seguinte enigma aos viajantes: «qual é o animal que tem quatro pés de manhã, dois de tarde e três à noite?» Quem não respondesse correcto a esfinge devorava-o. Mas, Édipo decifrou o enigma, dizendo que se tratava do Homem. A Esfinge que tanto atormentava a cidade de Tebas matou-se. Édipo foi aclamado pelos Tebanos que lhe deram o trono e para ficar mais ligado à sua nova pátria desposou Jocasta, desconhecendo que era sua mãe biológica e de quem veio a ter diversos filhos. Um dia, Édipo veio a descobrir a verdade relativamente à sua origem. Tomando Jocasta conhecimento de que desposara o seu filho, fechou-se no seu quarto e enforcou-se. Édipo, retirando-a da corda, tirou-lhe o alfinete de ouro que prendia o vestido de Jocasta e cegou-se a si próprio, de vergonha, tendo-se exilado de seguida.


Comentário:

Não enveredando pela leitura tradicional, de carácter psicologista, que tem a ver com relações incestuosas e questões de culpa, sugiro-vos uma outra leitura, a que o leitor não tem de se ver constrangido a aceitar acriticamente. Em meu entender, o suicídio de Jocasta não se deve apenas à vergonha e à culpa, mas antes, por se tornar insuportável tolerar uma verdade extremamente desagradável revelada pelos factos. O gesto de Édipo segue o mesmo sentido, revelando ao cegar-se que não mais deseja ver a verdade dos factos e exilando-se cobardemente ao fugir-lhe. Ou seja, quando a verdade é dolorosa, nós humanos, temos muitas vezes a tendência para fugir e rejeitar os factos.

Bibliografia

SILVA,AGOSTINHO,(1999),Sófocles ÉDIPO REI, ed.,Mem Martins: Editorial Inquérito

 Citação da semana

 «Não consigo ver nada de errado num entusiástico patriotismo, no amor ao país e à raça. Mas o patriotismo não é desculpa para nenhum grupo de homens assaltar os seus vizinhos ou impor os seus pontos de vista sobre os outros através do fogo e da espada.»1

 


1 EINSTEIN,ALBERT,(2009),EINSTEIN- On Cosmic Religion and other Opinions & Aphorisms,Mineola:NewYork, Dover Publications, p. 68 - «I can see no wrong in enlightened patriotism, in love of country and of race. But patriotism is no excuse for any group of men to assail its neighbors or to impress its point of view upon others by fire and sword»


quinta-feira, 6 de abril de 2023

A QUEDA METAFÍSICA

Poço iniciático da Quinta da Regaleira

Percebi um dia que a vida é uma espécie de queda metafísica. Viver é estar permanentemente em queda, como se tivéssemos caído num poço. E porquê esta comparação? Não é verdade que estamos sempre em busca de elementos fiáveis, de algum tipo de salvação, de nos mantermos saudáveis para evitar a morte, etc ? Essa queda gera aflição. Podemos cair ainda mais, podemos padecer, podemos perecer.Por isso lutamos aflitos para nos agarrarmos às paredes do poço. O materialismo é fruto dessa queda metafísica. Há quem lhe chame ferida mas, que se saiba ninguém vive a sangrar.Agora, a queda é real e, ainda contém mais elementos de admiração. Não se conhece o fundo do poço nem quando o encontraremos. Por isso esbracejamos aflitos, estressados, alguns aterrorizados até e queremos segurar tudo, higienizar tudo, controlar tudo para seguir ao leme, como timoneiros. Desgraça! Ninguém consegue mas, ainda assim não desiste de tentar. Ou nos seguramos ou caímos. Caindo a velocidades relativas equiparadas, sentimo-nos acompanhados, mais distraídos na queda. De ilusão em ilusão vamos sentindo essa gravidade da queda, nessa enormíssima queda metafísica, pois é só de metafísica que se trata. [noético-06/04/2023]





domingo, 2 de abril de 2023

Tudo começa e termina por nós enquanto vivos.

O bichinho ruim, (a nossa besta,a nossa livre animalidade) não existe, a toda a hora, nem a todo o momento. O nosso santinho, infalível, nos seus bons actos, também não. Que nos entendemos não é verdade, também. Que apenas nos desentendemos, também, não é verdade. Há de facto, cacofonias, em que escutamos, harmonias e até sinfonias no seio delas, e que de facto existem. Haverá sempre ordem no caos e caos em qualquer ordem. Mas, então, por que tanto problema em nos entendermos? O que cada um de nós pode fazer a seu modo para que tal não se volte a repetir?
A pergunta, aliás as perguntas, na sua grande maioria, tal como as respostas, passam apenas por nós!

sábado, 1 de abril de 2023

Cegos, Surdos, Mudos - Blind, Deaf, Dumb

Cegos e, cada vez mais cegos por causa da obsessão da luz, do que brilha, do que reluz, numa vaidade insã, em que tudo gira em torno do visível, de de um só centro e em que a invisibilidade corresponde à não-existência, ao não ser.
Surdos e cada vez mais surdos pelo mau uso das palavras, pela sua vagueza, pela sua banalização, pelo esvaziamento e adulteração do seu sentido, pela sua prolixidade e ruído que quase parecem uivos de lobos para roubar a atenção à Lua.
Mudos e cada vez mais mudos, pois no meio deste histerismo ruidoso e de néon, no meio desta cacofonia de gritos de agonia, clamando por salvação, nesta brutal orquestração de máquinas barulhentas, quer sejam musicais, faladoras, ou não,  já quase nem há silêncio, nem se consegue distinguir o chilrear de um rouxinol.
Solução? Muitas, basta identificar as fontes do problema e agir.



sexta-feira, 31 de março de 2023

Embaraço (poesia publicada)

Virgem de Willendorf  and  Sheela-na-Gigs

 

Diz-me 

O que ninguém

Tem para me dizer

Traz-me

O que ninguém

Tem para me trazer

ou,

Deixa-me antes,

Procurar

Nas tua palavras,

Nos teus gestos de afeição,

Nos teus sentimentos...

Deixa-me apenas

Ter tempo

Para preparar

A tua chegada

[II Antologia de Poesia Brasileira Contemporânea "Além da Terra, Além do ceú", sob o pseudónimo Mônica Azevedo (Noético - o autor original)]




quarta-feira, 29 de março de 2023

Pinóquio ou as regras de sobrevivência e civilidade que decidimos apagar

Pinóquio por Enrico Mazzanti - Florença - 1883

A vantagem de nada ler é termos um futuro promissor, por certo!...
Gepeto e Pinóquio podem ensinar os pais e os filhos a lidarem uns com os outros e muitas regras de poupança, sobriedade, humildade e civilidade. No entanto, tirando o boneco de pau muito giro, a História de Collodi como é velha, segue para o lixo pois parece haver videojogos muito melhores em termos de pedagogia. [Mesmo que pinóquio tenha muita  coisa a ver a teoria da Iluminação de St. Agostinho].Mas já agora, também O tal Santo, no seu diálogo sobre a felicidade também tratava as mulheres com escárnio apesar daquela pseudo-sensação-de abertura de que os clérigos quase sempre dão mostra. Tratar mal as mulheres e pior à propria mãe, que afinal se revelou ser uma das pessoas mais sensatas desse diálogo.
Hoje, em dia, assistimos com frequência à afrmação: "Somos contra os fósseis". Porém os requerentes não parecem deixar de usar roupas derivadas dessas matérias fósseis, usar o carro do papá para ir para a faculdade, em suma, queremos afirmar que somos emancipados. Tudo certo, só falta a  emancipação do cérebro/mente mas sempre ccom uma consciência de um corpo que nos faz habitar por entre outros corpos e mentes.
Nos dias de hoje, nada temos a aprender na relação entre liliputianos, medrosos e gigantes com cérebros ôcos como em Gulliver de Jonathan Swift. Há muito mais essa hsitória do que isso.  Isso são tudo livros subversivos, que devem ser esquecidos, censurados, desvirtuados, reescritos com os dogmas oficiais ou, até,  eliminados.
Mas o que é isso de literatura? Guinevere negra, Napoleão gay, Alexandre Magno queer e porteiro de discoteca e os livros de Agatha Mary Clarissa Christie a ser-lhes alterado o vocabulário (para não ofender ninguém e tornar mais real a real história falsificada). Época de falsificadores
Bem melhor mesmo é queimar a Metafísica de Aristóteles pois o filósofo teve a infelicidade de defender a escravatura. Portanto, preto sim, negro não, apesar dos africanos de pele negra terem sido traficados em grandes navios chamados "negreiros". Racismo ou desvirtuar a História?
Robinson Crusoé deveria ser queimado e já agora mudava-se a sexta-feira para não ofender esta geração de gelatina.
Pinóquio, Pinóquio e muitos mais universais textos tudo revertido pela maré da imbecilidade!
Reescreve-los? Oponho-me. Parece que estou a reviver Farnheit 451. 
Talvez esta gentinha imbecil se quisesse cultivar mas, ao que parece, nem sabe o que isso é! Pois, não  é?!




quarta-feira, 15 de março de 2023

Não direi mais...O que mais ?...

Não direi mais, muitas vezes, olá, bom dia, boa noite. Não direi mais, muitas vezes, a-deus. Não direi mais, muitas vezes, não direi mais, porque as horas estão-se a acabar e não sobra muito mais tempo.
O que há para pensar e dizer antes de morrer ? Sentimos medo? Sim. Deixar algumas palavras para animar os entes queridos, mesmo que tenha sido verdadeiro ter-mo-los amado? Sim, mesmo que nada adiante, por que não? Amo-vos!
Morrer não é triste é derradeiro. Se não for instantâneo, alastra e diminui o ser. Pesa, aumenta a gravidade, subtrai-nos a leveza e o movimento, suga-nos a alma, faz-nos sofrer. É tremendo. Nem adianta chorar e ainda assim choramos, afinal, somos humanos. E não há nem ressurreição, nem transmigração, nem Deus, nem sete virgens, nem piedade, nem pai, nem mãe, nem nenhum consolo, nem Salvação, nem poder que se oponha à Natureza que nos encerra a forma viva e nos relembra da nossa infinita e sublime impotência.

segunda-feira, 13 de março de 2023

Chorar


Elmer Borlongan - Tree Huggers

Como é bom chorar. Sim, chorar, não apenas por sofrer, não apenas por comoção. Chorar como um acto de plena sanidade e integridade, como uma forma de sentir a nossa plena humanidade. 





quarta-feira, 8 de março de 2023

Mãe, Ho-mem!

Woman, Life, Freedom
                
Qualquer ser humano teve uma mãe pois, sem ela, nem teria nascido ou nem sequer teria tido a possibilidade de nascer.
Por que razão, então, em pleno século XXI as mulheres ainda são tratadas de forma tão desigual em relação ao homem?
Má vontade ? Impotência ? Desinteresse ? Tudo isso e muito mais.
Não vás tu, no entanto, largar o teu nome Maria, confundindo o corpo com as palavras e estas com a vida.




Abjecto e absurdo

 Serhii Nuzhnenko/Reuters
                  

Biliões para construir armas e desperdiçar vidas mas, a mente, embora compreenda pela negativa, não entende e, não só admite como permite.
Biliões não são tostões ou cêntimos que  em vez de serem gastos para salvar vidas da fome e/ou da guerra ou até mesmo de catástrofes naturais inevitáveis apenas servem para assassinar. 
Desgraça, absurdo, abjecto mas, consentido e praticado.
O Homem é um ser doente, só pode. Como mencionava um aviso num guichet, a estupidez não é uma doença e muito menos incurável, então, porquê tanta insistência e teimosia, senão persistência nesta idiossincrasia?
Diria que é nestas ocasiões que mais me interrogo sobre para que serve afinal o livre arbítrio? Por que nos orgulhamos tanto de seremos seres racionais, livres e dotados de inteligência? 
Infelizmente a insanidade gera cada vez mais insanidade. Um louco decide fazer a guerra e a única resposta à insanidade é tornar-mo-nos insanos e entregar-mo-nos à loucura da auto-defesa. Mas, não haverão outros caminhos ? Decerto que os haverá, só que, não os trilhamos. Então, como se detém um louco, violento e armado ? Infelizmente, este tipo de loucos são geralmente pessoas cobardes, tanto é que temem muitíssimo pela sua própria vida "sem anima" e protegem-se por todos os meios que os seus poderes lhes permitem porque, na verdade, sabem bem do seu absurdo intelecto e do abjecto dos seus sentimentos mas, escondem-no na profundeza do seu ser, sem perceberem que na total escuridão, não existe qualquer centelha de luz. Tal é a dimensão da cegueira que os empareda vivos. 
No excesso de imagem do espelho dilui-se a paisagem, apenas resta o deserto da ausência do Outro. Narciso, um dos mais antigos mitos da humanidade vive e morre obcecado pela sua própria imagem. Vanitas, vanitas! Abjecto, absurdo, insano!