terça-feira, 25 de julho de 2023
A mente é que é mortal
Verdade
Na cama do hospital
Coménio e outros
Os Tuga Libres
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| Diogo Ribeiro |
sábado, 8 de julho de 2023
Do outro lado
quarta-feira, 21 de junho de 2023
O singular plural
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| Georgy Kurasov |
segunda-feira, 19 de junho de 2023
Não há perfeição
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| Zlatko Music |
segunda-feira, 29 de maio de 2023
Agir
quarta-feira, 17 de maio de 2023
Um beijo
sábado, 13 de maio de 2023
Política não há
quarta-feira, 10 de maio de 2023
NUFF SAID
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| Quimera |
Não sei de onde surgiu tudo isto ? Tem de haver uma origem, uma causa primeira, uma causa produtora, uma causa geratriz. Tem ? Realmente ? Confundir a tentativa de uma resposta, temporária e provisória, a racionalmente possível com uma resposta absoluta e definitiva é forçado de mais. Então, talvez, não tenha! A questão pode estar mal colocada ou não ser sequer a adequada. A necessidade de uma simples explicação, não garante, nem justifica, qualquer certeza numa resposta.
Como garantir que, o que não sei é Deus ? Deus é explicação racional suficiente ? Não! É insuficiente e nada prova quanto à sua existência. Como ente virtual, modelar, Deus existe, de facto, com o mesmo tipo de realidade de um unicórnio. Isto é, inegável e factual. É como o número 1. Existe como ente virtual e operativo, mas de facto, não existe enquanto ser extenso, substância extensa. Um copo é, este copo, com extensão que posso ver e pegar, mas não é o número que define o copo ou que é o copo, portanto, este um, é apenas uma enumeração operativa e referencial, não uma entidade extensa.
De acordo com o anterior, existem pelo menos dois modos de existência: extensa e virtual, algo muito em linha com a ideia de Espinosa de extensão e pensamento ou de Aristóteles de material e imaterial. Isto é discutível, mas não o irei fazer aqui. A ideia é que Deus não é extenso, no sentido material e portanto, existente, ou presente, apenas e parcialmente, numa das dimensões da realidade/mundo. Eu, pelo menos não creio que caminhe sobre Deus ao deslocar-me através da crosta terrestre ou ao atravessar uma superfície aquosa como um rio ou o mar, etc. Para os que acham que o Universo foi criado, talvez, tal, seja admissível. Não vou aqui discutir questões como imanência ou transcendência de carácter eminementemente teológico. Foquemo-nos no criador e na criação.
Deus é a perfeição. Mas se lhe falta a extensão como pode ser perfeito ? Se não lhe falta, então, sempre caminho sobre Deus e os meus pés estão sempre a pisá-lo. Segundo o pensamento de Espinosa, Deus ou a Natureza, essa seria uma realidade tão factual como o facto de todos nós urinarmos e defecarmos sobre ele ou sermos capazes de corromper a sua extensibilidade, designadamente se matarmos outros seres - o que significaria destruir partes da extensão de Deus -. No primeiro caso, a imperfeição não lhe assenta bem. No segundo caso, a materialidade pode revelar-se nojenta e cruel.
Agora estamos presos a este dilema. Tanto uma versão como a outra nos parecem imperfeitas. Então, poderemos concluir, eventuamente, ou nós, não fazemos a menor ideia do que seja a perfeição ou a concepção de perfeição que temos é completamente imperfeita. Nesse caso, também não poderemos atribuir essa qualidade de "perfeição" a Deus. Talvez estejamos somente a inventar e a inventá-lo.
Agora, sobre a criação. Se fomos criados por Deus, e Deus é perfeito, por que razão nos terá ele criado imperfeitos ? Agumas crenças afirmam que o Criador nos criou à sua imagem e semelhança. Mas é suspeito e duvidoso. Se somos feitos à sua semelhantes somos tão perfeitos ou tão imperfeitos como ele. Não ? Não. Os religiosos trataram de mascarar tudo isto. Nós somos eidolon e não eidos, cópias imperfeitas do(s) arquétipos (das ideias perfeitas). Mas por que razão Deus iria criar algo menor, menos perfeito ? Para não concorrer como ele ? Problema de poder ? Os gregos atribuiam todas as características humanas aos seus Deuses. Aliás sempre, a Humanidade, a meu ver, falou sempre sózinha, fosse com totens ou estrelas, quimeras ou outras monstruosidades, etc. De qualquer das maneiras, não se entende por que as religiões que se apropriaram dos Deuses (criados em meu entender pela imaginação dos homens) condenam os seres a tapar o corpo ou os cabelos, como se fosse algo vergonhoso ? Temos que esconder o sexo e a alma, pregando-se em contrapartida a doutrina da verdade, numa ambivalência obtusa e desconcertante. O corpo, os sentidos, a matéria são imperfeições a esconder, como se de algo vergonhoso se tratasse pois, suscitam ou podem suscitar desejo, incorrendo-se nesse caso em pecado. Admitir isto, significa corroborar que somos uma criação defeituosa de Deus. Fazem então sentido as nossas questões iniciais.
Como diria Umberto Eco
"As redes sociais deram o direito à palavra a legiões de imbecis que, antes, só falavam nos bares, após um copo de vinho e não causavam nenhum mal à coletividade. Diziam-lhes imediatamente para calar a boca, enquanto hoje eles têm o mesmo direito à palavra do que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis."
"O drama da internet (corrigiria para redes sociais) é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade."
sexta-feira, 5 de maio de 2023
Who are you ?
segunda-feira, 24 de abril de 2023
The undoubtable
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| Ericeira |
domingo, 16 de abril de 2023
Bem haja!
Bem haja pela Terra, pela Lua, pelo Sol. Bem haja pelos Oceanos, pelas plantas, pelos animais, pela litosfera. Bem haja, pela música, pela literatura e por todas outras artes, de ofício ou não, sem as quais o quotidiano seria insuportável. Bem haja pela filosofia, pela ciência e até pela religião e pela política. Bem haja pelos homens e mulheres de bem, pelos que lutam corajosamente e honestamente para que nada falte nas suas e nossas vidas. Bem haja pela vida e pela morte, pela saúde e pela doença. Em suma, bem haja!
Porquê, bem haja? Por que esquecemos, banimos, eclipsámos ou enterrámos, o agraciar, o agradecer, o bem dizer, o apreciar, o rejubilar, o abençoar !?
O Homem aflito não tem tempo, alimentado que é pela voracidade do imediato, do tudo pronto, do tudo resolvido, do tudo feito, ou seja, furtando-se ao verdadeiro fruir do aprender ao fazer, atormentado pela totalidade do tudo ou nada. O Homem aflito é também aquele cuja mesura é a desmesura, o incontido, o desenraízado, o perdido e que procurando ou não uma salvação que não existe, esbraceja, ri ou chora des-alma-da-mente, o Homem que se joga na abertura imensa do que não é sua natureza, numa fúria desenfreada de transgredir os seus inultrapassáveis limites. O Homem aflito é também o Homem que se esqueceu de si. Num mundo completamente espelhado onde a sua imagem se multiplica ao infinito, perde-se na perspectiva dos seus reflexos e desencontra-se de si mesmo.
Bem haja é não só dar graças mas bem agir! No acto de gratidão reconhecemos e encontramos o Outro, sejam os seres, sejam as coisas, ou seja, abri-mo-nos para o que está e é além de nós, quebramos a solidão, a cadeia narcísica do nosso ente, transcende-mo-nos, emula-mo-nos.
Bem haja, que haja vida e o seu ciclo natural a morte, a doença e a saúde, para que tudo se regenere.
sexta-feira, 14 de abril de 2023
O quê?
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| Barca de S. Vicente (Palácio dos Coruchéus) |
Sim, o quê? Quando julgamos estar nas últimas, sermos quase os protagonistas dos reis da tragédia eis que, a realidade nos ultrapassa vários furos (termo usado nos primórdios da computação moderna quando se usavam cartões perfurados) acima.
Pior, se houvesse um Deus, ou algum ser que realmente zelasse pela nossa humilde precaridade heróica, talvez se evitassem estas terríveis tragédias.
Claro que a necessidade aguça o engenho e que de uma forma ou outra este bichinho pestilento tem de se virar/adaptar. Não há outro caminho. Ou em frente, ou nada! Contudo, é preciso ponderar o "em frente". Não se trata de justificar todo o tipo de atropelamentos, atrocidades e iniquidades só por que só se pode caminhar encarando as circunstâncias. Pelo contrário, sabendo que o caminho é finito é preciso ponderar muito bem cada passo, cada palavra, cada acto.
De pouco interessam as memórias dos que nos sobrevivem. A urgência, raramente existe. A pressa é inimiga da perfeição. E, nada é irresolúvel excepto a morte. O que interessa é a ponderação e a organização disciplinada das directrizes que tomamos para a nossa vida, independentemente de termos tempo e oportunidade para o concluir até ao equilibrium. E pode haver diversos equilíbrios, muitas paragens, muitas encruzilhadas, muitos pontos de fuga, etc. No fim, só a nós caberá sopesar se houver essa oportunidade e tudo parecerá quase insignificante e auto-resolúvel mesmo que as soluções em nada dependam de nós.
Gostei muito de vos conhecer e de ter desfrutado a vida na vossa companhia e de algumas pequenas realizações minhas e é tudo!
A morte é soberana na sua garantia de que a ela ninguém escapa. Portanto, seja o que for, suceda o que tiver de suceder. Fomos ou somos livres ? Sim, fomos e somos, até mesmo ao último e derradeiro segundo! Dirão, mas o que podes escolher ? Por exemplo, sorrir ou chorar, bendizer ou maldizer, etc. Somos livres sim e mais, muito mais fortes e corajosos do que supomos.
Um abraço, uma vénia e o nosso respeito!
terça-feira, 11 de abril de 2023
Imbecis com 7 cabeças
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| Hércules lutando com a hidra de Lerne |
Duas questões essenciais:o que podemos ou não experimentar ? O que podemos ou não aprender?
Nao podemos experimentar o zero absoluto, por exemplo. (-273,15°C). Mesmo executando a experiência são as máquinas e os aparelhos que experienciam, não nós humanos, que apenas consultamos o resultado nos aparelhos. Se experienciássemos isto morreríamos.
Mas podemos experimentar o amor com pessoas, animais e coisas diferentes (este último nunca retribuído). Isso não significa que amemos tudo do mesmo modo, com a mesma intensidade. Podemos amar avó, mãe, irmã, prima, cunhada mas, certamente serão amores diferentes e de graus e intensidades diferentes e onde o sexo não deverá estar presente. Se estiver, então um psiquiatra será recomendável. O mesmo se passa como avô, pai, irmão, primo, cunhado.
Poderia aqui discutir atração pelo mesmo sexo ou até a bissexualidade. Acredito, que se possa amar uma pessoa do mesmo sexo e até mais do que uma pessoa, do mesmo ou de diferentes sexos contendo atração sexual. Contudo, essas relações com mais de um parceiro nunca serão muito pacíficas e, muito menos, simples e totalmente satisfatórias. Se formos a ver, nem sequer as relações heterossexuais são sempre simples e satisfatórias. Porém é diferente gerir conflitos entre dois do que em maior número, em geral. A racionalidade o aponta.
No entanto, há medida que os relacionamentos se destipificam diversificando e embora não esteja em causa a liberdade sexual da pessoa, pode estar em causa a saude mental dessas pessoas. E convém nao reduzir sexo a amor e vice-versa. Muita atitude hoje em dia aceite, não passa de perturbação.
Há casos em que se nascendo de um sexo se sente pertencer a outro. É inegável. Não são a norma! Mas, também não são uma aberração. Há que lidar com estas situações com delicadeza, compreensão e muito apoio quer de amor, quer técnico-cientifico e simplesmente aceitar sem preconceito algum. Porém, não podemos nem adoptar uma atitude de aceitar tudo isto com a ligeireza e os modismos culturais que muitos nos tentam impor, sem uma reflexão séria nem numa atitude laxista de que tudo é aceitável, permissível e normal.
Normal vem de norma que significa o que é lei, mais universal e não podemos tratar por ignorância, por desleixo ou por modismos culturais, o que não é o normal tomando-o como tal, sob o risco de nos tornarmos imbecis!
Podemos sim, sentir amor por outros animais (cavalos, cobras, ratos, vacas, cabras, porcos, tarântulas, cães, gatos, iguanas, erc.). Embora alguns idiotas defendam que os animais também os amam, não nos podemos deixar enganar. Pode haver troca de afectos entre animais e humanos mas nunca será uma relação equitativa sobretudo do lado do animal não humano. Isto, mesmo que o animal salve o dono. Aliás usei esta expressão por que era a mesma que se usava com os escravos mas, não é por isso que um outro animal pode amar qualquer ser humano de forma igual. A razão é simples: algum bichinho sem ser humano ora a Deus? Pinta por iniciativa própria? Cria naves espaciais para ir ao espaço? Cria instrumentos para salvar a vida de outros ? Não! Claro que os bichinhos podem sentir afectos pelos humanos (dentro de uma ordem social e segundo um grau) mas sempre dentro de um grau super limitado e nada mais. Chamar a isso Amor é uma imbecilidade ou, pelo menos um comportamento a roçar o delírio que talvez merecesse tratamento.
Portanto, há sempre que saber caso a caso, cada situação, avaliar a sua complexidade e só depois haver pronunciamento. Até lá devemos aprender a conviver com as diferenças o que não significa aceitá-las sequer (imagine-se se aceitaria alguém que o quisesse matar) e evitar quer generalizações pseudo-modernistas de que vale tudo ou enraizadas numa tradição em que nada de novo vale alguma coisa.
segunda-feira, 10 de abril de 2023
Párias de um país das maravilhas.
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| Só gente incompetente! |
Sem vergonha é um país governado por políticos para quem as estatísticas valem mais do que os seus compatriotas.
Ao governo apesar dos escândalos por que as estatísticas apontam para que um certo partido conotado com a direita seja o segundo mais votado e o maior partido da oposição não tenha maioria, dirigido por um mavioso corrupto e que tem tanto de inteligência como falta de sorrisos cínicos e imbecis.
Para mim isto é uma vergonha, uma falta de coragem e uma conivência com um status quo de mediocridade que cada vez mais impera nas nossas estruturas de poder.
Mediocridade e falta de vergonha! Marcelo é tão mediocre como o governo que sustenta ao nada fazer para terminar com "as faltas, falcatruas, incompetências" e pelo contrário, depois de ter gritado "ó da guarda" se remeter ao silêncio, dizendo "não foi nada".
Marcelo trata os portugueses como imbecis, arvorando-se uma maturidade democrática e uma sapiência política incomum de que não é proprietário.
sábado, 8 de abril de 2023
Respeito é muito trabalho
Se pretende respeito, principie por se respeitar a si mesmo, não há outro caminho.
Mas respeito o que é ?
Tratar-se adequadamente de modo a que nada de básico e fundamental lhe falte. Mas falta-nos tanta coisa? Pois sim, mas, trata-se apenas de tomar como fiel da balança o evitar excessos e carências. Dominar-se e controlar-se a não querer ou desejar mais do que for o estritamente necessário para uma vida saudável, activa e satisfatória e auto disciplinar-se exercitando-se nesse controlo.
Alguns dirão mas, a satisfação de cada um é tão diferente de pessoa para pessoa? Sim, é!
Mas, todos deveriam saber estabelecer pelo menos o mínimo básico do que os satisfaria, sem querer o céu e a terra, sem exageros e, relativamente a coisas que, como dizia Epicuro, dependam essencialmente de cada um de nós e nada de outros.
Ora, como vivemos com outros, nem sempre as vontades e realizações humanas, convergem, coexistem, cooperam e antes pelo contrário se atropelam e colidem numa competição desenfreada. É natural e normal.
Solução? Aprender a viver com as diferenças, escolher aliados convergentes para o não essencial (para consigo próprio) e ignorar tudo o resto.
A nossa vida está cheia de limites mas, não é por isso que, não somos livres de julgar/escolher/decidir. Se perdemos a liberdade é por que nos afastámos de nós e nos acabámos por perder, algures no caminho.
Também não é preciso derramar lágrimas ou lamentar. Quem nunca se perdeu, certamente nunca se encontrou. Por que perder-mo-nos faz parte do que somos. Nem. Sempre temos a bússola afinada, há campos magnéticos e mil outras interferências.
Pratiquem este exercício, marquem os vossos trilhos todos interiormente. Sempre que se perderem voltem ao marco anterior. Assim saberão que nunca andarão perdidos, embora, nem todos consigam caminhar até ao fim do Labirinto onde habita a flôr e, certamente muitos avanços e recuos qualquer percurso terá.
sexta-feira, 7 de abril de 2023
Ecce Homo
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| Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci |
O Pomo da Discórdia
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| Peter Paul Rubens: O julgamento de Páris; 1638; Museo Nacional del Prado. |
O grande banquete, na imensa corte do Olimpo, estava no fim. Os deuses, no aspecto físico, são diferentes dos mortais somente pela estatura, a força, a beleza e o dom de uma eterna mocidade, mas dos homens, possuem todas as paixões: o amor e o ódio, a ira e a inveja; são, por vezes, cruéis e, por vezes, generosos. Eles transcorrem os dias alegremente, mas todos estão sujeitos a um poder superior: as Moiras, o Destino, filhas da Noite, às quais nem mesmo Zeus pode opôr-se.
Subitamente, no amplo salão, baixou o silêncio. Todos os olhares convergiram para uma estranha figura, que surgira no limiar da porta: Eris, a única deusa não convidada. É briguenta - disseram os anfitriões - e seria capaz de estragar a festa, com suas maledicências. E agora, ei- la ali, no silêncio embaraçoso dos convivas. Chegara junto ao triclínio, onde estavam sentados os deuses maiores, a maléfica criatura tirou da túnica uma maçã de ouro e lançou-a sobre uma das mesas, exclamando:
- Eis o meu presente! É para a mais bela das deusas!
Dito isto, a deusa da discórdia desapareceu.
Depois de alguns segundos de espanto, cada uma das três deusas que estavam
à mesa, Atena, Hera e Afrodite, estendeu a mão para o reluzente pomo, mas logo
se contiveram, surpresas, e entreolharam-se. Zeus, o senhor dos deuses, que
observava a cena em silêncio, sorriu e interveio:
- O único meio para saber-se qual de vós é a mais bela e estabelecer,
portanto, a quem pertence o Pomo da Discórdia, é recorrer a uma arbitragem.
Escolhei, entre os mortais, um árbitro de vosso agrado e acatai sua decisão.
Como sempre, Zeus sentenciara sabiamente. Após ponderada reflexão, as três
rivais concordaram em confiar sua sorte ao mais belo entre os mortais, ao jovem
príncipe Páris de Alexandre. Este moço vivia, desde seu nascimento, ignaro de
sua real ascendência, entre os pastores do monte Ida. Um oráculo predissera que
ele seria a ruína da cidade de Tróia, e sua mãe, desobedecendo às ordens do
marido, que depois da profecia resolvera matá-lo, ocultara-o na montanha.
Assim, uma bela manhã, o belíssimo rapaz viu aparecerem diante de si,
enquanto vigiava seu rebanho, em uma concha relvosa e solitária, três
maravilhosas raparigas. Deram-lhe o pomo, explicaram-lhe o que desejavam dele,
e cada uma delas, em seu íntimo, fez-lhe uma promessa. Atena prometeu- lhe
sabedoria. Hera, o poder; Afrodite, a pequena deusa nascida da espuma do mar,
prometeu-lhe a mais linda mulher do mundo. A seguir, as três beldades
perfilaram-se diante de Páris. Este hesitou um átimo, depois entregou o pomo a
Afrodite, que o agarrou feliz, enquanto as outras duas se afastavam, fulas de
raiva.
Instruído por Afrodite, Páris rumou para os vales, pela encosta do monte Ida, até Esparta. Reinava em Esparta, pequena cidade da Grécia, o jovem príncipe Menelau e sua esposa Helena, a mais bela mulher do mundo.
Comentário:
O Mito de Sísifo
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| O mito de Sísifo |
Súmula:
Sísifo,
filho do rei Éolo,
da Tessália, e Enarete, era considerado o
mais astuto de todos os mortais. Passava a vida a desafiar os Deuses. Foi o
fundador e primeiro rei da cidade de Corinto
(antiga Éfira). Casou-se com Mérope,
filha de Atlas, sendo pai de Glauco, Ornito e Sínon. Era vizinho de Autólico (mestre da magia
e do disfarce, filho de Hermes) e que todas as noites lhe roubava o gado,
metamorfoseando-se em animal.1 Como
resultado, o seu rebanho diminuía e o de Autólico ia aumentando. Suspeitando de
Autólico e sem possuir provas, arquitectou um plano e resolveu marcar os cascos
dos seus animais com o símbolo SS (ᴄᴐ)2. Este método resultou pois, os animais
deixaram um rasto que seguia até ao estábulo do seu vizinho. Convocando uma
multidão de testemunhas levou-os consigo até à presença de Autólico e, deixando
esta a ajustar contas com o larápio
afastou-se da confusão para ir seduzir Anticleia (filha de Autólico) que veio a
gerar Odisseu (filho bastardo de Sísifo).
Tendo Júpiter
raptado a filha de Asopo
(deus rio), Egina, este dirigiu-se a Corinto à sua procura. Sísifo sabia perfeitamente o que
lhe havia sucedido, mas só com a condição de Asopo fornecer a fonte de Pirene a
Corinto se prontificou a revelar-lhe o sucedido, revelando um segredo dos
deuses. Pela veleidade foi condenado e, como punição, foi conduzido por Hades
(o deus do mundo subterrâneo - inferior - e dos mortos, irmão de Zeus) ao
Tártaro (Inferno) onde, colocando as algemas nas mãos de Hades lhe pediu que
explicasse como funcionavam. Quando
este o fez, rapidamente Sísifo as fechou. Hades foi assim ludibriado por Sísifo
que se evadiu do Tártaro e aprisionando Hades na sua casa. Isto tornou
impossível que os homens, mesmo que lhes cortassem a cabeça pudessem morrer –
semelhança com os zombies – o que enfureceu Plutão que ordenou a Ares o Deus da
Guerra para libertar Hades e remetendo Sísifo de novo para o Tártaro. Porém, o
astuto Sísifo, antes de descer, deu instruções à mulher para que não o
enterrasse e quando lá chegou invocou diante de Perséfone (rainha do mundo dos mortos e filha de Zeus e Deméter – deusa da
agricultura) que era uma pessoa insepulta e portanto que não poderia ali
permanecer. Prometendo-lhe que voltaria dentro de três dias para resolver o
problema, esta acedeu a libertá-lo. Sísifo nunca pensou cumprir e não voltou.
Hermes foi chamado a forçar Sísifo a regressar tendo Sísifo sofrido um castigo
exemplar. Os juízes dos infernos apresentaram-lhe um enorme bloco de pedra3
e ordenaram-lhe que a fizesse rolar até ao cume de uma montanha e a deixasse
cair para o outro lado. Porém, Sísifo nunca conseguiu sequer chegar ao cume,
movido pelo cansaço, acabava por deixar a pedra rolar montanha abaixo, tendo no
entanto, que voltar a agarrá-la e recomeçar tudo de novo, castigo que lhe foi
aplicado enquanto vivesse.
Contrariamente
às leituras correntes deste mito, que colocam ênfase no «absurdo
da condição humana» vazia de sentido, porque ligada, inexoravelmente às
tarefas repetitivas de sobrevivência diante da morte, ou, como diz Camus, em
que «todo o ser se
ocupa em não completar nada», apresentamos uma outra
leitura, esta, positiva. A repetição
é útil, pois sem ela nada
aprenderíamos ou sequer teríamos a oportunidade de evoluir no conhecimento
corrigindo os erros. Ela é necessária também para a simples manutenção das
necessidades básicas da existência. É fundamental para que exista um passado
próprio ou comum, reconhecíveis. Não é possível igualmente sobreviver e evoluir
fisicamente (veja-se por exemplo o
caso dos atletas olímpicos) e intelectualmente (o caso dos nossos estudantes,
artistas, cientistas e investigadores) sem esforço (pónos) persistente, sem
resiliência, algo que
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1 Este episódio de furto lembra a história de Jacob e Labão (Génesis XXIX e XXX)
2 Sinal que representa a Lua-Cheia
3 Crê-se que a pedra representasse um disco solar
Bibliografia:
GRAVES, ROBERT,(2005), Os Mitos Gregos,Trad. Fernanda
Branco,Lisboa: D. Quixote
CAMUS,A., (2002),O mito de
Sísifo – ensaio sobre o absurdo, Trad. Urbano Tavares Rodrigues, Lisboa: Editora Livros do Brasil
Citação da Semana:
«As necessidades do corpo são a justa medida do que cada um de nós deve possuir. Exemplo: o pé só exige um sapato à sua medida. Se
assim considerares as coisas, respeitarás em tudo quanto faças as devidas
proporções. Se ultrapassares estas proporções, serás, por tal maneira de agir,
necessariamente desregrado como se um precipício te seduzisse. O sapato é
exemplo ainda deste estado de coisas: se fores para além do que o teu pé
necessita, não tardará muito que anseies por um sapato dourado, por um sapato
de púrpura depois, finalmente por um sapato bordado. Uma vez que se menospreze
a justa medida, deixa de haver qualquer limite que justos torne os nossos
propósitos.»4
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4 EPITECTO, Manual de Epitecto
– Máximas, diatribes e aforismos, Trad.
Pedro Alvim, Edições
Veja, 1992, XXXIX,
p. 105






















