domingo, 10 de abril de 2011

Poema das Rosas

A quem direi de meu pesar
Se o a vós não for dizer *
Jurei amor sem nunca o ter
Que mais terei eu a perder

Amor mui grande quis achar 
Nessa  demanda do meu ser 
Quis eu por ti bem querer

Rosas são rosas que mais podem ser
Trovas são obras de muito merecer
Ai de mim que não cuidei

Não senti e não escutei


Rosas são obras de mais merecer
Que muitas glosas não fazem esquecer
[Rosas sem espinhos não fazem crescer]
Eis o fim de semear
Noutro ver  e  acreditar


Vi-te nascer no meu olhar
Prezai senhora meu dizer
Desde esse dia em que nasci
Flor tão bela eu  jamais vi

E desejar sem bem querer
Se alguém ousar e não se ater
Seu mal trará

Rosas são rosas que mais podem ser

Trovas são obras de muito merecer

Ai de mim que não cuidei 
Não senti e não escutei

Rosas são obras de mais merecer
Que muitas glosas não fazem esquecer
[Rosas sem espinhos não fazem crescer]
Eis o fim de semear
Noutro ver  e  acreditar

Mais eu não posso   enganar
Meu coração, que me enganou
Por quanto me fez desejar
A quem nunca me desejou **

O coração tem razões que a própria razão desconhece

A frase de título foi proferida por Pascal, mas já Camões também assim o entendia na sua Lírica. Junto-me a estes homens neste seu pensamento. De facto, parece-me uma chamada de atenção para o desprezo a que um mundo tão voltado para a tecnologia e para um saber racional vota essa parte de nós próprios.
Os sentimentos não têm uma gramática tão bem articulada como um pensamento que se socorre da língua e da sua organização. Parece-me que adjectivar os sentimentos como desprovidos de qualquer forma de conhecimento é redutor e, sobretudo, uma forma quase primitiva de negar a hipótese de a própria razão se transcender. Quero com isto dizer que, uma razão que diante das dificuldades se desmobiliza, só pode ser uma razão fraca e que em nada ajuda a dignificar o «humano». A ideia de que apenas a ciência, o conhecimento são formas dignas de saber, parece-me uma ideia mesquinha, ou que enferma da mesma mesquinhez que ela própria  condena autodesignando-se como «única». A soberba nunca conduziu a boas respostas na vida. Por isso, a humildade, não deve ser apenas aflorada superficialmente através do reconhecimento das limitações próprias. A humildade tem de ser praticada, sentida, vivida, experimentada e, com ela, os nossos horizontes abrir-se-ão para uma visão mais ampla, mais vasta, mais larga, mais transcendental. Por que isto, de haver apenas fórmulas exclusivas e seguras de conhecer e convém aqui referir a ânsia cartesiana a que por vezes a nossa vontade de conhecer nos conduz, ultrapassando o nosso entendimento, tem as suas consequências. Não, porém, para nos resignarmos ao desconhecimento. Não, também, para nos deixar-mos conduzir pela imaginação desenfreada sem limites. Como referia um antigo sábio, nascido em Estagira (Aristóteles), no termo-médio é que mora a virtude. E o equilíbrio é sempre das coisas mais difíceis de obter. No entanto, também não nos podemos apenas pautar pela procura de equilíbrios e pela segurança e conforto que isso acarreta. Ousar é preciso. Transcender é preciso. Errar não é erro, é o mais humano que se possa considerar. Se não, vejamos... Se a ideia de perfeição como refere Descartes, nos tivesse sido implantada à nascença por um Ser Divino, então, todos deveríamos ter a mesma ideia de perfeição e ninguém a poderia aperfeiçoar. Mas mesmo que tivessemos diferentes ideias de perfeição, cada um seguiria apenas a sua perfeição e, em conjunto, apenas procurariamos aliados que se nos tornassem favoráveis à prossecução do nosso próprio aperfeiçoamento. Esse rumo teria pelo menos um aspecto muito nefasto, o de nos levar a ignorar tudo o que não contribuisse para a nossa perfeição.Ou seja, apenas contribuiria para nos tornar «vesgos» ou «cegos de uma vista». Afinal, entender a perfeição segundo um só paradigma seria apenas o aperfeiçoamento de mais uma imperfeição, no meu modesto entender. Mas voltemos ao sentimento. O que nos é doado não é por nós criado. Ora, se não o podemos criar, tal tarefa está-nos vedada. Existem três consequências que podemos resumir sucintamente quanto a isto. Primeiro, existem limites ao que podemos criar, porque algo é criado sem ser por nós. Segundo, e decorrente da primeira, se algo é criado sem ser por nós, então, temos algo que nos é dado para ser partilhado também por nós e que deve ser preservado, respeitado e porque não melhorado? Terceiro, compreendemos que o acto de criar não é um acto desligado, avulso, solitário, mas antes, e até talvez, solidário, pois o que se cria, tal como uma obra de arte passa a fazer parte do nosso mundo, que é de todos, humanos e não-humanos. Por tudo isto, entendemos  que o acto de criar não deve ser nunca governado pela irresponsabilidade e pela falsa inocência que substima e até nem considera qualquer consequência. No entanto, saber que não está tudo criado confere-nos esperança, abre-nos rumos possíveis, liberta-nos mas, expôe-nos igualmente, responsabiliza-nos tranformando-nos em sujeitos da obra e a ela para sempre biograficamente ligados. Mas que tem tudo isto a ver com o sentimento ? O sentimento é uma área pouco explorada, pouco conhecida, sobretudo das ciências. Parafraseando Kant ao dizer que intuir sem conceitos seria uma cegueira e que entender sem intuir seria vazio, diremos que, uma razão que não seja sentida ou que nem sequer se debruce sobre o sentir é vazia e que o sentimento sem se confrontar com a razão será puramente cego. Ao focar estes dois extremos apercebemo-nos que o equilíbrio é coisa frágil, dinâmica e inacabada, como tudo o que diz respeito ao «humano». Porém, no aprofundar os nossos sentimentos, coisa que só uma razão conduzida com humildade executa, a razão pode descobrir «caminhos» para se transcender no sentido da sua própria razoabilidade. Afinal de tudo, conhece-se também o mundo sentindo e não apenas reflectindo, pois muitas vezes, aquilo sobre o qual se reflecte é fruto de um sentimento. Veja-se o caso dos efeitos nefastos de uma guerra entre irmãos. Só concebemos, reflectimos sobre essas consequências porque nos provocam um sentimento de desgraça, de catástrofe produzida - bem diferente da provocada por um tsunami -, de ignorância por não termos tido medida, etc. Mas também sentimos a priori o que pensamos e o que deduzimos e o que induzimos. Sem sentir, não teriamos esperança, caminho para caminhar, liberdade e um desconhecido enorme por todos os lados que nos abre um horizonte amplo de possibilidades e de problemas. Sem dor, certamente não andaríamos despertos. Não teríamos certamente nem sequer consciência, essa entidade quase esquizofrénica que nos é conatural. Senti, pensai, vivei!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Isto de se ter de demonstar que se está vivo doi!

Quem são esses democratas, que nos querem possuir, segundo as suas normas ? Afinal querem-nos bem ? Ou apenas que os deixamos de passagem, como a uma emigração de gnús ? A Filosofia é excelente, bonita, esplendidamente humana, nada divina. Uma coisa que nunca poderá ser é ser parente adoptiva de espíritos menores, pois esses, nem a ela recorrem. O resultado da anterior indagação é simples...Os homens preferem crer, acreditam mais no crer do que no conhecer, o que acaba sendo uma  verdade...Uma factualidade desesperante...E contra factos não existem argumentos! Um País inteiro adormece, vira securitário, acredita no menino Jesus chamado Cavaco ou Sócrates. Mas, outros que os substituirão serão diferentes ? Infelizmente  não! Onde andará a diferença filosófica após Aristóteles ? Esquecida certamente. O mundo certamente não parou no que Aristóteles disse. Simplesmente, esta gente, esta malta, adora, prefere suicidar-se, derrotar-se , tal como se  fosse algum expoente de vanguardismo ou alguma forma suprema de se ser ? O que parece acima de tudo contar é a estupidez geral, essa, infelizmente é clara e distinta... Subscreveria Descartes ?

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Leve

Leve, leve...Calmamente ponderando a insustentável leveza do ser e do estar...O que nos preenche realmente parece não ser portável para além daqui, resumindo-se ao tempo da nossa viagem...
Tanto ferro retorcido na mente, tanto acidente, tanta fúria para com objectivos que nem sequer por nós são determinados...Tanto desperdício...Tanta miséria....Tanto frio...Tanto Homem!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A Al Berto

aqui faço os relatos simples
dessas embarcações perdidas no eco do tempo
cujos nomes e proveito de mercadorias
ainda hoje transitam de solidão em solidão

queria ser marinheiro correr mundo
com as mãos abertas ao rumo das aves costeiras
a boca magoando-se na visão das viagens
levaria na bagagem a sonolenta canção dos ventos
e a infindável espera do país assustado pelas águas

(Al Berto - Salsugem in O Medo, 1982)

Os meus versos preferidos de um poeta amigo

antes dos nomes há a infância
o solícito gesto de respirar
em prados
só ardor e pedra descalça
a obsoleta terra anterior
cor de feno cor de ulmeiro

o acto de escrever

rios atravessados por lajes
rostos cedidos ao lento encantamento
de uma promessa
como se fosse
a fêmea fome

a cerce lira experimentada em
água benta despenhada
apoplética
corda de nomes hínica
em ilhas

os nomes animais despenhados
em olhos
e o laço do rosto
vertical face ao florescimento dos dias
o sangue cor de basalto

Luís Felício (o som a casa) - [1º prémio literário Artefacto - poesia 2010]

E assim nos tornámos seres racionais...

 Primeiro, preparámos a Terra...

Depois, engolimo-la!
                                                                                                                                  


domingo, 16 de janeiro de 2011

Poesia sobre o Pensar

Ninguém pensa só por si.
Todos pensam por si e muito mais.
Mas pensar por quem não pensa
Tem certamente mais do que se pensa
Que se pode conclusivamente pensar.
Tem o que se pensa e também o impensado.
O impensado que só agora se pensa
E o impensado por todo aquele que não o pensa.

Pensar é frágil
E é pelas palavras que se pensa
Até sobre a forma de se pensar, ou não será ?
Pensar parece fácil
Mas é engano pensar que se pensa
Só através das palavras…
Elas servem apenas para designar
Coisas que existem e que não existem.
Quanto às primeiras
Elas não dependem das palavras para as nomear
Quanto às outras sucede o contrário
Dir-se-ia que elas são as mestras da existência
E têm a sua utilidade…
Não fossem elas e não haveria um Quixote
Nem sequer uma simples raiz quadrada.

Mas será que seria possível pensar sem as palavras?
Há quem sustente que sim,
Observando um animal numa caçada.
Formas menores de pensamento dirão alguns.
Simples formas de pensamento dirão outros.
Não é por isso preciso decidir sempre
Basta apenas pensar.

A António Ramos Rosa

«Vivo de uma palavra que se multiplica e atravessa os espelhos e os muros mas que retorna sempre à sede de que nasce ganhando o que perdeu, o silêncio de um começo».

Ilude a Sombra e o Pecado

Quem quer ser
Aquele outro
Que mora na casa
Do seu ser emprestado ?
Quem é ?
Ao que veio ?
Aquele que de pé
Permanece ensombrado ?
Quem és
Ser teu alheio ?
Que luz te ilude
Que te faz estar desse lado ?

A Fogueira da Cultura

A Cultura está intacta! Vive de uma miriade de pequenos cultos que se acendem como fogueiras flamejantes de vaidade.

É Polémico o que Aqui Digo

Sim. Nós vivemos da ilusão e eventualmente sufocaremos com ela. Desde a ilusão da identidade, até à ilusão da palavra, somos como a fogueira ardendo, soltando faíscas reluzentes na noite, lenhos ruborescendo lentamente na entropia da vida, como centelhas incendiadas por um rastilho imparável que nos fará esfriar como cinza das estrelas no pó inerte. Somos ilusão, produzimos ilusão, morreremos ilusão. Se ouvires alguém denegrir a ilusão que é a tua, pensa que se trata penas de uma reificação da ilusão do teu pretenso oponente.Muitos, acreditam que reificar ilusões lhes confere assertividade, convicção, consistência, direito, razão. É por isso mesmo que se trata de uma reificação. Alguns chegam mesmo a reificar-se na genuinidade, na autenticidade, na plenitude. Conceda-se-lhes essa ilusão. Não possuimos nem as melhores nem  as piores ilusões. Temos apenas, ilusões.

O Ser que Somos

Quem és ? Eu sou aquele que «sou». Mas, que é isto do que somos ? Nenhuma divindade certamente. O ser é um sou que vai sendo. Um movimento ou uma sucessiva instanciação do ser. O problemático reside na evocação e na antecipação. O que se era já não se é. E, no entanto, o que se foi, parece transmutar-se em cada nova instância do ser, como se, de um património, de uma sedimentação, se tratasse. Aquele que é, revê-se no presente como fruto de um passado, que já não é presente mas, no entanto, presentificado pela evocação. É o «eu autobiográfico», de que fala Damásio. Mas, o sou, é também o agora e o futuro - o que ainda não se é -. É-se sempre o indefinido, «o apeiron», o ser em aberto e não definido, a que se confere (sentido, unidade,consistência), permanência.  «Mudando permanece» - diria Heraclito. Coloquei parentesis porque o sou não é sentido - antes do sentido preexiste a deriva da sua procura -. O sou não é também unidade, pois a unidade ainda não está constituída mas em processo de constituição. E o sou é tudo menos consistência, pois não se pode consistir no que já não consiste ou em tudo o que ainda não consiste.