sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Emparedados



1/4 para as  7. Esqueci-me de tirar os agrafes do forno. O cheiro a clips esturricados invadiu-me as narinas...Um ano novo começa...Onde está a novidade ? Dava tudo para que não me vissem nem me falassem mas para permanecer no meio dessa massa anónima de cujo cheiro quimérico a transpiração sinto os passos... Eu sou o maior filho da mãe que há por estas bandas. Seria ridículo até nisso julgar-me herói. Há sempre um caso mais desesperado e mais estranho que o meu. O que somos ? O que pretendemos ser ? Aonde queremos chegar ? Uma coisa parece certa, somos pouco amigos do animal que sentimos em nós. Somos...Uma súmula indiferenciada de identidades, uma rábula de quimeras, um efervescer simbólico com pretensões à eternidade. Chegar à vida não é simples, é-nos dado, por quem nos procriou. Chegar à morte não é simples, para ela somos guiados, como robôs naturais. O sonho é ser deus, a fraude é o sonho intangível, o facto o resto visível de toda esta loucura, normalíssima e sereníssima, que nada tem de estranheza ao fim de uns breves anos da nossa permanência. Bebamos o elixir das almas belas, o vinho daqueles que não se refinam nas sarjetas. Não basta ser, é preciso Ser, Grande, Virtuoso, Belo, Sucedido ou, uma outra coisa qualquer que brilhe e que afugente a poeira que cobre finalmente o bronze dos anos. Quebrar um silêncio é apenas uma outra subtil forma de emparedar as palavras. Um filtro de fixação de CO2 que se evade pela nossa boca, como um peixe debatendo-se retirado de um anzol. Tudo o que vejo, relembro, rememoro como vivência, faz-me sentir o maior filho da desgraça à face do Planeta. Foi assim que eu fui ? Quem me ensinou a ser assim ? Porque me tornei neste ser assim e não numa maçã pendurada numa macieira ? Responderia...Fui andando com os amigos. Fui sendo por aposta em sortes. Não tinha nervo para toda aquela paródia da disciplina macaca, a mesma que,  transforma estátuas em corolários de bênçãos pré-alinhavadas.  Desgraça...Não nasci para a costura...Mas, nasce-se para alguma coisa, como se o futuro já tivesse traçado ? Será que o Destino consegue invadir os terrenos da História, como um rio que corre sobre a terra ? Seremos mero aluvião do tempo ? Bolhas!...Façamos bolhas... Guardemos a "interrogação" como a única chave do nosso mundo. As bolhas ?...Produto que a si se produz ? Quiçá?
[noético - 16/12/2011]

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Emile Cioran – O Livro dos Logros - O Estado Musical


Eu sinto que perco matéria, que as minhas resistências físicas decaem e que me dissolvo na harmonia e na ascensão de melodias interiores. Uma sensação difusa, um sentimento inefável reduzem-me a uma soma indeterminada de vibrações, de ressonâncias íntimas e de sonoridades cativantes. Tudo o que acreditei singular em mim, isolado na solidão material, fixada numa consistência física e determinada por uma estrutura rígida, parece ter-se resolvido num ritmo de sedutora fascinação e de uma esquiva fluidez. Como posso eu descrever com palavras o modo como as melodias se implantam nesse que é o meu corpo a vibrar integrado na vibração universal, evoluindo em sinuosidades fascinantes cuja irrealidade aérea me transporta? Nos momentos de musicalidade interior, perco o gosto pelos materiais pesados, perco a minha substância mineral, essa petrificação que me liga a uma fatalidade cósmica, e corro para o espaço, repleto de miragens, esquecido da sua ilusão, e de sonhos, indiferente à sua irrealidade. Ninguém compreenderá o sortilégio irresistível das melodias interiores, ninguém sentirá a exaltação e beatitude se não está satisfeito com esta irrealidade e não amar mais o sonho que a evidência. O estado musical não é uma ilusão porque nenhuma ilusão pode dar uma garantia de tal magnitude, nenhuma sensação orgânica absoluta de vida incomparável significativa por si mesma e expressiva na sua essência. Nestes momentos, quando nós ressoamos no espaço e em que o espaço ressoa em nós, nestes momentos de torrente sonora, de possessão integral do mundo, não posso deixar de me perguntar porque não sou o universo. Ninguém terá provado com uma louca e incomparável intensidade o sentimento musical da existência, se não for tomado pelo desejo desta exclusividade absoluta, se não fizer prova de um imperialismo metafísico irremediável desejando abolir as fronteiras  que separam o mundo do eu. O estado musical associa no indivíduo o egoísmo absoluto com a absoluta generosidade. Apenas se quer ser a si, não por orgulho mesquinho mas por vontade suprema de unidade, por um desejo de romper as barreiras da individualidade; não para fazer desaparecer o indivíduo mas as condições exigentes impostas pela existência do mundo. Quem já não sentiu o desaparecimento do mundo, como realidade limitativa, objectiva e distinta, quem já não teve a sensação de absorver o mundo nos seus impulsos musicais, nas suas trepidações e nas suas vibrações, esse jamais compreenderá a significação desta experiência onde tudo se reduz a uma universalidade sonora, continua, ascensional, tendendo para as alturas num caos aprazível. E o que é o estado musical senão um doce caos onde as vertigens são beatitudes e as ondulações êxtases ?

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A Morte (Homenagem a Edgar Morin)

Hoje a Morte falou com sonâmbula loucura
Desse êco em que gravou nosso ser sem figura.
Olhou-se num espelho nefasto e embebedou-se num delírio de crente
Fitou esse olhar anónimo de um feto moribundo gerado em águas do seu próprio mundo...
E silenciou-se no escuro tumular, no elo simbiótico de uma esposa infiel com medo nevrótico do extâse lunar...Esse anjo imortal tornou-se tabú, um sonho amoral, um Eu e um Tu.
O mito perdura na dor que vincula o devir inseguro à inscrição tumular!

Ao Passar por ti

Vi-te passar
Como uma estátua de ébano
E o teu espectro
Prendeu-me a alma
Depois...
Cativo, do teu ingénuo encanto
Fui-te seguindo,
Até que o vulto meu precedente,
Desapareceu no céu deserto...
O futuro é a gravidez dum sonho por nascer.
O presente, um presépio de adulação ao mito da realidade
O passado repousa em descanso num cemitério de liberdade.

O Sal da Vida

Gosto de me perder no tempo, de me ver imaginar por dentro. De descobrir um ritual violento. Gosto de amargar a vida, de saudá-la com rasgada ira, de deitar muito sal sobre essa ferida. Faço o tempo para habitar o espaço, sonho mãos para vergarem aço e caminho, por onde já passo. Faço o sono com que adormeço pois, cada noite tem o seu preço, e espero a luz que foi começo...

A Gente

A gente cresce saudável e contente
Procura enfim, ser consciente
Abrir os braços, olhar em volta
Ser alguém no meio da gente...
A gente quere-se amar
Enfim procura-se encontrar
E nesse rumo que segue em frente
A gente segue a caminhar
Em busca de algo que alimente
Esse motor que nos faz andar.
A gente cresce a confiar
A gente julga vir a saber pensar
A gente sonha poder amar
Mas, afinal de tudo
Mal a gente desfaz o engano
Torna-se de novo a enganar.
Não há razão para ser assim
Tudo é impossível de alcançar
Por isso, não pode ser assim, tão ruim
Que não tenhamos podido adivinhar.

O Grito

Grito.
Completando as palavras
que já nada dizem
da parte inacessível de mim.

Grito.
Fala assim
A minha parte concluída
E toda a outra
Que se sente  incompleta.

Grito.
Não é revolta nem desespero
Mas a solidão da voz
Que irrompe através da interior fala.

Se grito
É porque as palavras já não se articulam
Para expressar o sentido que escapa à língua
Interioridade comunicativa que explode como fogo vulcânico

Grito.
Já não é resistência
Mas sim, invalidez,
Precariedade,
Incapacidade,
Debilidade...

Amostra desta sensibilidade
Que se vai petrificando
No silêncio ficando calada.
A capacidade que se sente esgotada
Inalterável, inampliada
Excepto pelo Grito, pelo Grunhido
Que é a minha fala no Mundo!

Hoje, Ser

Sejamos nós os Surdos.
Sejamos nós os Loucos.
Sejamos nós os Suicidas.
Sejamos nós os Humanos.
Sejamos nós apenas
Aquilo em que Acreditamos!
Sejamos nós, cada um de Nós, esse Maravilhoso Acto
Da Criação que é Ser!
Autênticos!
Plenos!
Serenos!

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A Razão e os Ratios

Alguém nos procura por termos cometido um crime afim de nos condenar à morte. Procuramos asilo junto de um amigo. Este concede-nos abrigo. Os nossos perseguidores batem à porta do nosso hospedeiro e interrogam-no se sabe onde nos encontramos. Duas questões se colocam inicialmente, ou o nosso amigo acolheu-nos sabendo que tinhamos praticado um crime ou então fê-lo por simples amizade e em absoluta ignorância dos factos. Neste último caso, não termos sido honestos para com ele. Em qualquer dos casos o que significa ser honesto (verdadeiro) para a o nosso amigo hospedeiro quando instado a responder aos nossos perseguidores ? Se o hospedeiro nos deu abrigo com conhecimento dos factos deverá ele mentir aos nossos perseguidores mantendo a sua honestidade para connosco ? Se, pelo contrário nos abrigou, sentindo-se traído na confiança que depositava em nós, por lhe termos ocultado os factos, deverá denunciar-nos ?  No primeiro caso ele poderá mentir aos nossos perseguidores sendo verdadeiro quanto à amizade e confiança que depositou em nós e mantendo a sua palavra para connosco. Mas, no caso contrário, em que ele nos abrigou sem que lhe tenhamos contado os factos ? Factores a ponderar; ele é nosso amigo;não fomos honestos com ele; não confiamos o suficiente nele para lhe contar. Poderá ele não querer ser conivente com um crime por nós praticado, denunciando-nos ? Pesará para ele mais a obediência cega à Lei ou a fraternidade da sua Amizade por nós apesar de esta não ser perfeita ? Pesará para ele mais o crime que nós cometemos ou o crime que irá ser cometido pelos nossos perseguidores em nome da Lei ? Primeiro caso. Não nos denuncia. Afinal, uma Lei que condena um crime praticando outro, nem merece esse desígnio. Em segundo lugar, não existe nenhuma Lei que mereça a amizade de ninguém, pois a amizade é algo que se estabelece entre pessoas, que demora o seu tempo a cimentar-se e que, apesar de possuir muitas falhas é quase inestimável. Por outro lado, a amizade não se estabelece entre pessoas e Leis abstractas. Mas vejamos o caso inverso. O nosso amigo hospedeiro, denuncia-nos. Cumpriu o seu dever perante a Lei e perante si disse a verdade. Traiu contudo os amigos. Terá sido honesto (verdadeiro) para com eles ? Não pactuou com o crime pelos seus amigos cometido, mas pactuou com o crime que irá ser cometido pelos agentes da Lei (pena de morte). Terá aqui ele sido honesto, verdadeiro ? Duvidamos! Não é nenhuma Lei que nos humaniza mas apenas a humanidade que pode humanizar a Lei. Eis o que vos deixo para reflectirem.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A Palavra o Pensamento e o Tempo

Somos incrivelmente simples. Uma palavra, uma partitura e um só reger. O que nos torna humanos é a espuma dos dias.Alguns dirão que há que diferenciar o todo das partes. Eu direi, não conheço o todo para o diferenciar das partes. Só conheço partes e, cada uma delas é um todo. Uma mónada de realidade completa. Não se bebe toda a água. Não se come todo o pão. Não se polui todo o Universo. Em suma, vivemos como um fragmento. Dizemos que a obra é a vida mas, também dizemos que, a vida é a obra. Contudo, a vida não é nada disso. A experiência não é uma obra, nem sequer é um fruto de unificação, nem um cumulativo ou fusão de desperdícios, aqui e acolá, utilizados. A experiência é algo bem mais complexo do que pensava Kant. Ela, nem se resume a um sujeito e até chega a ser significativa sem qualquer entendimento. O Pensamento é uma espécie de bomba de «neurónios» que atravessa tudo, deixando tudo intacto, com a excepção, de quando se transpõe para um fazer. Aí mata tudo o que é, matando-se a si próprio na realização. Pensar que o pensamento é apenas uma instrumento útil é redutor, pretensioso e abusivo. Diria, que o pensamento é o maior produtor de inutilidades que existe no Universo e, talvez, a sua maior inutilidade seja produzir-se a si próprio. Ou seja, o Pensamento é simultaneamente o seu criador e o seu criado.  (É a Eternidade).Talvez alguns ingénuos ainda acreditem em Deus, por desconhecimento, por desentendimento, pois é esta desmesura do pensamento que os leva a hipostasiar e a entrar em alucinação real e virtual. A origem da cosmética e do folclore. O pensamento, apesar de ser apenas uma minúscula partícula do universo é, contudo, tudo quanto nos mantém ocupados e, sobretudo, preocupados. Esta preocupação é uma atenção obsessiva. Fora do pensamento só com o pensamento pensamos a efemeridade do tempo. A Palavra é um tempo. Uma frase é uma composição de tempos. O Pensamento é a Eternidade. O relógio está instaurado. O tempo não tem por isso, qualquer significado. O mesmo se poderá dizer do Espaço que é o que medeia entre duas palavras ou se quiserem entre duas letras ou sons (no sentido do mensurável) . Espaço é tempo de intermeio numa pauta musical.

domingo, 10 de abril de 2011

Poema das Rosas

A quem direi de meu pesar
Se o a vós não for dizer *
Jurei amor sem nunca o ter
Que mais terei eu a perder

Amor mui grande quis achar 
Nessa  demanda do meu ser 
Quis eu por ti bem querer

Rosas são rosas que mais podem ser
Trovas são obras de muito merecer
Ai de mim que não cuidei

Não senti e não escutei


Rosas são obras de mais merecer
Que muitas glosas não fazem esquecer
[Rosas sem espinhos não fazem crescer]
Eis o fim de semear
Noutro ver  e  acreditar


Vi-te nascer no meu olhar
Prezai senhora meu dizer
Desde esse dia em que nasci
Flor tão bela eu  jamais vi

E desejar sem bem querer
Se alguém ousar e não se ater
Seu mal trará

Rosas são rosas que mais podem ser

Trovas são obras de muito merecer

Ai de mim que não cuidei 
Não senti e não escutei

Rosas são obras de mais merecer
Que muitas glosas não fazem esquecer
[Rosas sem espinhos não fazem crescer]
Eis o fim de semear
Noutro ver  e  acreditar

Mais eu não posso   enganar
Meu coração, que me enganou
Por quanto me fez desejar
A quem nunca me desejou **

O coração tem razões que a própria razão desconhece

A frase de título foi proferida por Pascal, mas já Camões também assim o entendia na sua Lírica. Junto-me a estes homens neste seu pensamento. De facto, parece-me uma chamada de atenção para o desprezo a que um mundo tão voltado para a tecnologia e para um saber racional vota essa parte de nós próprios.
Os sentimentos não têm uma gramática tão bem articulada como um pensamento que se socorre da língua e da sua organização. Parece-me que adjectivar os sentimentos como desprovidos de qualquer forma de conhecimento é redutor e, sobretudo, uma forma quase primitiva de negar a hipótese de a própria razão se transcender. Quero com isto dizer que, uma razão que diante das dificuldades se desmobiliza, só pode ser uma razão fraca e que em nada ajuda a dignificar o «humano». A ideia de que apenas a ciência, o conhecimento são formas dignas de saber, parece-me uma ideia mesquinha, ou que enferma da mesma mesquinhez que ela própria  condena autodesignando-se como «única». A soberba nunca conduziu a boas respostas na vida. Por isso, a humildade, não deve ser apenas aflorada superficialmente através do reconhecimento das limitações próprias. A humildade tem de ser praticada, sentida, vivida, experimentada e, com ela, os nossos horizontes abrir-se-ão para uma visão mais ampla, mais vasta, mais larga, mais transcendental. Por que isto, de haver apenas fórmulas exclusivas e seguras de conhecer e convém aqui referir a ânsia cartesiana a que por vezes a nossa vontade de conhecer nos conduz, ultrapassando o nosso entendimento, tem as suas consequências. Não, porém, para nos resignarmos ao desconhecimento. Não, também, para nos deixar-mos conduzir pela imaginação desenfreada sem limites. Como referia um antigo sábio, nascido em Estagira (Aristóteles), no termo-médio é que mora a virtude. E o equilíbrio é sempre das coisas mais difíceis de obter. No entanto, também não nos podemos apenas pautar pela procura de equilíbrios e pela segurança e conforto que isso acarreta. Ousar é preciso. Transcender é preciso. Errar não é erro, é o mais humano que se possa considerar. Se não, vejamos... Se a ideia de perfeição como refere Descartes, nos tivesse sido implantada à nascença por um Ser Divino, então, todos deveríamos ter a mesma ideia de perfeição e ninguém a poderia aperfeiçoar. Mas mesmo que tivessemos diferentes ideias de perfeição, cada um seguiria apenas a sua perfeição e, em conjunto, apenas procurariamos aliados que se nos tornassem favoráveis à prossecução do nosso próprio aperfeiçoamento. Esse rumo teria pelo menos um aspecto muito nefasto, o de nos levar a ignorar tudo o que não contribuisse para a nossa perfeição.Ou seja, apenas contribuiria para nos tornar «vesgos» ou «cegos de uma vista». Afinal, entender a perfeição segundo um só paradigma seria apenas o aperfeiçoamento de mais uma imperfeição, no meu modesto entender. Mas voltemos ao sentimento. O que nos é doado não é por nós criado. Ora, se não o podemos criar, tal tarefa está-nos vedada. Existem três consequências que podemos resumir sucintamente quanto a isto. Primeiro, existem limites ao que podemos criar, porque algo é criado sem ser por nós. Segundo, e decorrente da primeira, se algo é criado sem ser por nós, então, temos algo que nos é dado para ser partilhado também por nós e que deve ser preservado, respeitado e porque não melhorado? Terceiro, compreendemos que o acto de criar não é um acto desligado, avulso, solitário, mas antes, e até talvez, solidário, pois o que se cria, tal como uma obra de arte passa a fazer parte do nosso mundo, que é de todos, humanos e não-humanos. Por tudo isto, entendemos  que o acto de criar não deve ser nunca governado pela irresponsabilidade e pela falsa inocência que substima e até nem considera qualquer consequência. No entanto, saber que não está tudo criado confere-nos esperança, abre-nos rumos possíveis, liberta-nos mas, expôe-nos igualmente, responsabiliza-nos tranformando-nos em sujeitos da obra e a ela para sempre biograficamente ligados. Mas que tem tudo isto a ver com o sentimento ? O sentimento é uma área pouco explorada, pouco conhecida, sobretudo das ciências. Parafraseando Kant ao dizer que intuir sem conceitos seria uma cegueira e que entender sem intuir seria vazio, diremos que, uma razão que não seja sentida ou que nem sequer se debruce sobre o sentir é vazia e que o sentimento sem se confrontar com a razão será puramente cego. Ao focar estes dois extremos apercebemo-nos que o equilíbrio é coisa frágil, dinâmica e inacabada, como tudo o que diz respeito ao «humano». Porém, no aprofundar os nossos sentimentos, coisa que só uma razão conduzida com humildade executa, a razão pode descobrir «caminhos» para se transcender no sentido da sua própria razoabilidade. Afinal de tudo, conhece-se também o mundo sentindo e não apenas reflectindo, pois muitas vezes, aquilo sobre o qual se reflecte é fruto de um sentimento. Veja-se o caso dos efeitos nefastos de uma guerra entre irmãos. Só concebemos, reflectimos sobre essas consequências porque nos provocam um sentimento de desgraça, de catástrofe produzida - bem diferente da provocada por um tsunami -, de ignorância por não termos tido medida, etc. Mas também sentimos a priori o que pensamos e o que deduzimos e o que induzimos. Sem sentir, não teriamos esperança, caminho para caminhar, liberdade e um desconhecido enorme por todos os lados que nos abre um horizonte amplo de possibilidades e de problemas. Sem dor, certamente não andaríamos despertos. Não teríamos certamente nem sequer consciência, essa entidade quase esquizofrénica que nos é conatural. Senti, pensai, vivei!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Isto de se ter de demonstar que se está vivo doi!

Quem são esses democratas, que nos querem possuir, segundo as suas normas ? Afinal querem-nos bem ? Ou apenas que os deixamos de passagem, como a uma emigração de gnús ? A Filosofia é excelente, bonita, esplendidamente humana, nada divina. Uma coisa que nunca poderá ser é ser parente adoptiva de espíritos menores, pois esses, nem a ela recorrem. O resultado da anterior indagação é simples...Os homens preferem crer, acreditam mais no crer do que no conhecer, o que acaba sendo uma  verdade...Uma factualidade desesperante...E contra factos não existem argumentos! Um País inteiro adormece, vira securitário, acredita no menino Jesus chamado Cavaco ou Sócrates. Mas, outros que os substituirão serão diferentes ? Infelizmente  não! Onde andará a diferença filosófica após Aristóteles ? Esquecida certamente. O mundo certamente não parou no que Aristóteles disse. Simplesmente, esta gente, esta malta, adora, prefere suicidar-se, derrotar-se , tal como se  fosse algum expoente de vanguardismo ou alguma forma suprema de se ser ? O que parece acima de tudo contar é a estupidez geral, essa, infelizmente é clara e distinta... Subscreveria Descartes ?

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Leve

Leve, leve...Calmamente ponderando a insustentável leveza do ser e do estar...O que nos preenche realmente parece não ser portável para além daqui, resumindo-se ao tempo da nossa viagem...
Tanto ferro retorcido na mente, tanto acidente, tanta fúria para com objectivos que nem sequer por nós são determinados...Tanto desperdício...Tanta miséria....Tanto frio...Tanto Homem!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A Al Berto

aqui faço os relatos simples
dessas embarcações perdidas no eco do tempo
cujos nomes e proveito de mercadorias
ainda hoje transitam de solidão em solidão

queria ser marinheiro correr mundo
com as mãos abertas ao rumo das aves costeiras
a boca magoando-se na visão das viagens
levaria na bagagem a sonolenta canção dos ventos
e a infindável espera do país assustado pelas águas

(Al Berto - Salsugem in O Medo, 1982)

Os meus versos preferidos de um poeta amigo

antes dos nomes há a infância
o solícito gesto de respirar
em prados
só ardor e pedra descalça
a obsoleta terra anterior
cor de feno cor de ulmeiro

o acto de escrever

rios atravessados por lajes
rostos cedidos ao lento encantamento
de uma promessa
como se fosse
a fêmea fome

a cerce lira experimentada em
água benta despenhada
apoplética
corda de nomes hínica
em ilhas

os nomes animais despenhados
em olhos
e o laço do rosto
vertical face ao florescimento dos dias
o sangue cor de basalto

Luís Felício (o som a casa) - [1º prémio literário Artefacto - poesia 2010]

E assim nos tornámos seres racionais...

 Primeiro, preparámos a Terra...

Depois, engolimo-la!
                                                                                                                                  


domingo, 16 de janeiro de 2011

Poesia sobre o Pensar

Ninguém pensa só por si.
Todos pensam por si e muito mais.
Mas pensar por quem não pensa
Tem certamente mais do que se pensa
Que se pode conclusivamente pensar.
Tem o que se pensa e também o impensado.
O impensado que só agora se pensa
E o impensado por todo aquele que não o pensa.

Pensar é frágil
E é pelas palavras que se pensa
Até sobre a forma de se pensar, ou não será ?
Pensar parece fácil
Mas é engano pensar que se pensa
Só através das palavras…
Elas servem apenas para designar
Coisas que existem e que não existem.
Quanto às primeiras
Elas não dependem das palavras para as nomear
Quanto às outras sucede o contrário
Dir-se-ia que elas são as mestras da existência
E têm a sua utilidade…
Não fossem elas e não haveria um Quixote
Nem sequer uma simples raiz quadrada.

Mas será que seria possível pensar sem as palavras?
Há quem sustente que sim,
Observando um animal numa caçada.
Formas menores de pensamento dirão alguns.
Simples formas de pensamento dirão outros.
Não é por isso preciso decidir sempre
Basta apenas pensar.

A António Ramos Rosa

«Vivo de uma palavra que se multiplica e atravessa os espelhos e os muros mas que retorna sempre à sede de que nasce ganhando o que perdeu, o silêncio de um começo».

Ilude a Sombra e o Pecado

Quem quer ser
Aquele outro
Que mora na casa
Do seu ser emprestado ?
Quem é ?
Ao que veio ?
Aquele que de pé
Permanece ensombrado ?
Quem és
Ser teu alheio ?
Que luz te ilude
Que te faz estar desse lado ?

A Fogueira da Cultura

A Cultura está intacta! Vive de uma miriade de pequenos cultos que se acendem como fogueiras flamejantes de vaidade.

É Polémico o que Aqui Digo

Sim. Nós vivemos da ilusão e eventualmente sufocaremos com ela. Desde a ilusão da identidade, até à ilusão da palavra, somos como a fogueira ardendo, soltando faíscas reluzentes na noite, lenhos ruborescendo lentamente na entropia da vida, como centelhas incendiadas por um rastilho imparável que nos fará esfriar como cinza das estrelas no pó inerte. Somos ilusão, produzimos ilusão, morreremos ilusão. Se ouvires alguém denegrir a ilusão que é a tua, pensa que se trata penas de uma reificação da ilusão do teu pretenso oponente.Muitos, acreditam que reificar ilusões lhes confere assertividade, convicção, consistência, direito, razão. É por isso mesmo que se trata de uma reificação. Alguns chegam mesmo a reificar-se na genuinidade, na autenticidade, na plenitude. Conceda-se-lhes essa ilusão. Não possuimos nem as melhores nem  as piores ilusões. Temos apenas, ilusões.

O Ser que Somos

Quem és ? Eu sou aquele que «sou». Mas, que é isto do que somos ? Nenhuma divindade certamente. O ser é um sou que vai sendo. Um movimento ou uma sucessiva instanciação do ser. O problemático reside na evocação e na antecipação. O que se era já não se é. E, no entanto, o que se foi, parece transmutar-se em cada nova instância do ser, como se, de um património, de uma sedimentação, se tratasse. Aquele que é, revê-se no presente como fruto de um passado, que já não é presente mas, no entanto, presentificado pela evocação. É o «eu autobiográfico», de que fala Damásio. Mas, o sou, é também o agora e o futuro - o que ainda não se é -. É-se sempre o indefinido, «o apeiron», o ser em aberto e não definido, a que se confere (sentido, unidade,consistência), permanência.  «Mudando permanece» - diria Heraclito. Coloquei parentesis porque o sou não é sentido - antes do sentido preexiste a deriva da sua procura -. O sou não é também unidade, pois a unidade ainda não está constituída mas em processo de constituição. E o sou é tudo menos consistência, pois não se pode consistir no que já não consiste ou em tudo o que ainda não consiste.