sexta-feira, 11 de outubro de 2013

CONTRA A CARTILHA DA «LUZ»

Os relacionamentos não são de forma alguma uma «mecânica». Nada funciona entre pessoas como uma máquina. No entanto, muitas indústrias de salvação e agências de marketing vendem hoje as suas novas vulgatas no formato de «ABC da felicidade». A psicologia aliada às corporações e aplicada às populações preconiza metodologias de todo o tipo supostamente conducentes a um certo tipo de felicidade.
É óbvio que gozar-se de alguma boa saúde, física ou mental é fundamental para a vida, assim como o é para a produção, para o consumo e para os impostos. Mas, isso não invalida que quem não possa gozar de boa saúde física ou mental não seja útil, necessário e que mantenha a sua dignidade e validade enquanto pessoa.
Vendem-se, então, receitas de todos os tipos que passam pelas dietas, pelo desporto, pelos tratamentos estéticos, clínicos, etc. O que por aí não falta são escolas, manuais e pregadores da boa saúde, do bem-estar e da felicidade. A propaganda tende ou parece tender a ser toda orientada pela «positiva». Mas de facto, esse «positivo», ou seja, uma versão dos factos que parece estar sempre do lado do benéfico, do bem e do bom, à boa forma platónica, esconde por detrás outros malefícios, que convém não ignorar.
Uma das récitas dessas escolas preconiza frequentemente que para que os relacionamentos sejam bem-sucedidos, e entenda-se que até aqui funciona a lógica do sucesso, é necessário que alguém adquira e permaneça num estado anódino e de equilíbrio.
Uma plêiade de vendedores de papel higiénico das coisas mentais parece quase fazer crer que a existência humana se rege apenas pelas regras de um mercado orientado em exclusivo para os seus produtos mágicos.
Não está em discussão o que é óbvio. A saúde, assim como a higiene são importantes para o bem-estar das pessoas, mas, atrevemo-nos aqui a dizê-lo, não o serão tanto para a sua felicidade.
O reverso do individualismo alardeado parece ter o seu apostema nos problemas de autoestima. É, pois, compreensível pensar, que os relacionamentos humanos beneficiarão certamente de quem possa estar bem consigo próprio. No entanto, a vida é conduzida e vivida na sua grande parte em situações de desequilíbrio e sempre, mas isso quase certo em estado de incompletude e de inacabamento permanente.
Por vezes, mesmo sem equilíbrio, angustiados, deprimidos, em fase negativa, ou em situações extremas ou não de miséria, de dor e sofrimento, o ser humano é ainda capaz de prestar o melhor auxílio ao Outro e dos gestos mais generosos, abnegados e dedicados. Isso ocorre a todo o instante.
Conhecem-se sobejamente os exemplos de quem quase nada possuindo ainda assim reparte com os seus pares. Sucede igualmente em outro tipo de relacionamentos, como nos que existem entre pais e filhos, embora nem sempre.
O facto é que, pensando desse modo, i.e., que vale a pena esperar por «esse ínclito estado» de equilíbrio ainda não atingido, poderá ser mais uma outra forma de fugir aos relacionamentos, de adiar opções e factos que temos que enfrentar, ou até de ocultar subtis formas de egoísmo.
[noético-11/10/2013]

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