«Sou
feliz e não tenho nada. Não seria suposto faltar-me alguma coisa? Não,
não me falta nada. Mas ainda assim, deveria esboroar essa felicidade
sendo ambicioso, desejando mais ou temendo perder esse minúsculo nada,
por que é assim que se tem de ser? Não, obrigado. Estou bem, assim.
Enveredar por outro caminho, caminhar só por caminhar só por não se
saber deter as asas fugidias da esperança está errado.
Profundamente errado. Aqui e agora, sem céus nem esperanças reconheço a
minha tranquilidade. E, não. Não estou morto nem espero a morte pois
ela chegará certamente, posicione-me onde me posicionar. Lutar para quê
então ? Para que bracejar incessantemente se tenho diante o momento
dessa felicidade ? A menos que desista de usufruir o que sinto para o
substituir por outro sentimento não terei nada por que me mover, por que
lutar nem mesmo pela felicidade que sinto presente. Não, não me
deixarei agitar por apelos dementes. Sinto-me feliz apenas por estar.
Não acredito em coisas transcendentes. Se tiver que esperar, esperarei
aqui vivendo e na vida concentrado. Não troco o não ter pelo ter, nem o
ser pelo não ser, só por que a economia tem de correr, os céus me
aguardam ou é moda desejar um punhado de coisas cheias de nada. Ao
contrário do poeta, não sinto qualquer cansaço, apenas uma sereníssima
alegria. Bem sei, que nada dura eternamente, nem deuses, nem riquezas,
nem saúde, nem Zen, nem nirvanas, nem qualquer ser vivente. Por isso,
não seguirei essa caravana de gente angustiada, ansiosa,nervosa,
assustada. Que tanto quer e espera que desespera, que tanto luta que sai
tantas vezes frustrada, mas que não deixa por isso de ser heróica e
plenamente humana. Simplesmente cada um segue o seu caminho se é que em
primeiro lugar o sentiu como sendo o seu.»
[noético-17/10/2013]
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
CONTRA A CARTILHA DA «LUZ»
Os
relacionamentos não são de forma alguma uma «mecânica». Nada funciona
entre pessoas como uma máquina. No entanto, muitas indústrias de
salvação e agências de marketing vendem hoje as suas novas vulgatas no
formato de «ABC da felicidade». A psicologia aliada às corporações e
aplicada às populações preconiza metodologias de todo o tipo
supostamente conducentes a um certo tipo de felicidade.É óbvio que gozar-se de alguma boa saúde, física ou mental é fundamental para a vida, assim como o é para a produção, para o consumo e para os impostos. Mas, isso não invalida que quem não possa gozar de boa saúde física ou mental não seja útil, necessário e que mantenha a sua dignidade e validade enquanto pessoa.
Vendem-se, então, receitas de todos os tipos que passam pelas dietas, pelo desporto, pelos tratamentos estéticos, clínicos, etc. O que por aí não falta são escolas, manuais e pregadores da boa saúde, do bem-estar e da felicidade. A propaganda tende ou parece tender a ser toda orientada pela «positiva». Mas de facto, esse «positivo», ou seja, uma versão dos factos que parece estar sempre do lado do benéfico, do bem e do bom, à boa forma platónica, esconde por detrás outros malefícios, que convém não ignorar.
Uma das récitas dessas escolas preconiza frequentemente que para que os relacionamentos sejam bem-sucedidos, e entenda-se que até aqui funciona a lógica do sucesso, é necessário que alguém adquira e permaneça num estado anódino e de equilíbrio.
Uma plêiade de vendedores de papel higiénico das coisas mentais parece quase fazer crer que a existência humana se rege apenas pelas regras de um mercado orientado em exclusivo para os seus produtos mágicos.
Não está em discussão o que é óbvio. A saúde, assim como a higiene são importantes para o bem-estar das pessoas, mas, atrevemo-nos aqui a dizê-lo, não o serão tanto para a sua felicidade.
O reverso do individualismo alardeado parece ter o seu apostema nos problemas de autoestima. É, pois, compreensível pensar, que os relacionamentos humanos beneficiarão certamente de quem possa estar bem consigo próprio. No entanto, a vida é conduzida e vivida na sua grande parte em situações de desequilíbrio e sempre, mas isso quase certo em estado de incompletude e de inacabamento permanente.
Por vezes, mesmo sem equilíbrio, angustiados, deprimidos, em fase negativa, ou em situações extremas ou não de miséria, de dor e sofrimento, o ser humano é ainda capaz de prestar o melhor auxílio ao Outro e dos gestos mais generosos, abnegados e dedicados. Isso ocorre a todo o instante.
Conhecem-se sobejamente os exemplos de quem quase nada possuindo ainda assim reparte com os seus pares. Sucede igualmente em outro tipo de relacionamentos, como nos que existem entre pais e filhos, embora nem sempre.
O facto é que, pensando desse modo, i.e., que vale a pena esperar por «esse ínclito estado» de equilíbrio ainda não atingido, poderá ser mais uma outra forma de fugir aos relacionamentos, de adiar opções e factos que temos que enfrentar, ou até de ocultar subtis formas de egoísmo.
A PERFEIÇÃO
«A
perfeição existe, e é única, mas não se trata de nada divino ou de algo
que não pertença ao próprio momento pela sua volátil singularidade
eternizada.»
[noético-10/10/2013]
[noético-10/10/2013]
SEM SILÊNCIO
UM FOGO NUNCA EXTINTO
«Foi tão vivo e profundo o nosso amor que hoje
ainda dele se libertam fagulhas de um fogo há muito extinto.
Maravilhosos momentos que apenas a morte poderá levar da lembrança. Hoje
estou de luto...E a alegria invade-me deixando os raios de Sol penetrar
através dos poros deste tronco ôco. Um dia também a noite se encontrará
com o dia»
[noético-10/10/2013]
terça-feira, 8 de outubro de 2013
WALKING THROUGH LIFE II
«I'm learning to walk sure that at
each step I will find both mixed up the known and the unknown. Therefore, I do
not need in advance to have all certainties or all my future egos completed and at
my disposal or that I will reach fullfilness or just one single form of happiness
or way to move on. If I would reach at some point completeness I would not have
any other chance to give another step. Therefore, some uncertainty as well as emptiness
makes part of the journey. Therefore I will stop my need of getting all at the same
time, as Descartes told to stop wishing beyond understanding and demand
everything right now and for today. Heaven and hell can wait. Meanwhile I will
learn how to build my own consistence with the meaningful small parts that I
cross with in my pathways till I reach the end of the lines of life.»
[noético-08/10/2013]
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
WALKING THROUGH LIFE
«There
are always shadows on our minds but clearness seems to gain over it.
Nothing more dubious. We may be blinded by the light and still see in
the darkness. The power of light is indeed strong and it attracts us
like bugs to it. Therefore, we may be walking to blindness instead to
enlightment pursuing just the light. Sometimes we need darkness in our
lives and also some dimness. It is not all black or white, colorful or
colorless. The gradients of life mixed with our expectations shape our
emotions and feelings and also direct our thoughts towards new
directions earlier unthinkable. Our will is helpless against these
confluent waves of energy. We are not the owners of ourselves though we
keep stubbornly wasting our strength pursuing the control of things. It
is a waste of time. In that attempt we build up marvelous things, like
love, friendships, literature, music, painting, sculpture, architecture,
engineering, science and even create
gods and religions filling the all firmament in the attempt to escape to
void and loneliness in this far planet lost in the vastness of the
universe. We can feel emptiness despite of being filled and we also can
feel filled being almost empty. However, in the process we also create
hate, grief, pain, trash, violence, wars. No education, magic
counseling, excess of any kind whatsoever can provide us with the
meaning of our own lives. We cannot only live with just one side/part of
life. It is not being selfish or violent, superficial, or joyful
sometimes that is the big problem. We need both what you call our good
and bad feelings to survive and live. Perhaps we expect too much of
ourselves and a big lot of the others towards the size of the task we
propose to achieve. So being humble toward our neighbors and stop
putting our ideals, goals, will and objectives in front of our human and
non human beings, learning how to forgive lapses, disabilities,
mistakes and failures either in us or in our fellows seems to be the
hardest way to go but maybe also the only available if in fact we seek
the path of greater peacefulness which is not limited to a simple
passivity or to a mere pacifism. We also must stop the fury that lead us
into unrestrained action to get, to control, to achieve power over
everything moved almost exclusively by our deepest fears. I think that
this is enough for now to me today.»
sábado, 5 de outubro de 2013
A POESIA NÃO É PARA SER CONTRADITADA
«A poesia é também ideologia. O que é bom não
pode ser ela a definir ou a designar. Nada aponta para que o que é bom
resida apenas exclusiva e necessariamente num regresso mas a poesia não
é criada para ser contraditada. Tem a sua única e exclusiva lógica não
abarcando a riqueza da diversidade possível de sentidos. No entanto
arrisco-me aqui no entanto a contrariá-la.»
[noético-05/10/2013]
O AMOR E A GUERRA
«O
amor e a guerra são acções exclusivamente humanas que pertencem ao
reino do sapiens e não extensíveis aos outros animais não humanos. Isto
não exclui no entanto os animais não humanos de possuirem a
possibilidade de exibirem ainda que de forma limitada expressões de
afecto e de algum raciocínio. Já encontraram qualquer outro animal que não
seja o homem a escrever um romance ou a dedicar uma poesia de amor ? Eu, não! E também
nunca vi qualquer outro animal desenvolver tamanha tecnologia para
fazer a guerra aos da sua própria espécie.»
[noético-05/10/2013]
[noético-05/10/2013]
A FUGA DA PRESENÇA
«Lembras-te
quando me disseste que o amor não era sentir uma falta ? Pois considero
que tinhas razão. Mesmo o desejar a presença dos entes mais queridos
sejam eles pessoas, animais, personagens de um livro, do teatro ou de um
filme não é ainda o amor, mas a carência que o desejo provoca. Isso é
como quando dizemos que "temos alguém" e ficcionamos a sua presença de
diversos modos. Podemos ter alguém ou algo presente nas nossas vidas e
faltar-nos a sua presença física. O inverso também é verdade. Podemos
ter e sentir a falta de algo ou alguém na sua real presença física. Pois
é...Também nada disso é amor. Refiro-me ao ter presente...Ter-te ou não
presente na minha consciência não tem nada a ver pelo menos
necessariamente com amor e tu sabes bem como te amo, amor.»[noético-05/10/2013]
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
O FUTURO TEM PASSADO
![]() |
| Guimarães - npa@2013 |
«Por
que te anuncias minha espera? Por que te demoras sem chegares? Por que
te suspendes sem pousares? Por que te alongas no meu tempo diluindo-o em
aguarelas? Imagino-te a partir do nada, como se escrevesse numa folha
em branco, colorindo-te em cada palavra…Quedar-me-ia nesse livro se a
tua inefável tinta adquirisse a mais ínfima substância… Frescos e
tranquilos permanecem os campos em que as tuas raízes permanecem. A
ternura cobre-se de castanho e de ouro reluzente como um desejo cadente
cruzando a Via Láctea que almeja o regresso à terra mãe. Eu, não sei um
poema para te segredar… Eu, não sei poetar. Não sou poeta. Mas a alma da
poesia passa por mim quando te leio os gestos lânguidos e tranquilos
buscando o consolo ameno de um entardecer outonal. Levas-me contigo a
festejar para junto de uma nascente em que tudo verdeja e floresce perto
do brilhar transparente de águas cintilantes. Acordas-me e adormeço.
Caio em sono profundo. Adormeço cativo da penumbra e das sombras de um
bosque e inspiro o perfume amoroso dos campos humedecidos pelas chuvas
recentes. Guardarei sempre na memória esses caminhos em que preparei um
lugar para te acolher…É por isso que o futuro tem já hoje, uma
história.»
[noético-04/10/2013]
[noético-04/10/2013]
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
SABOROSA NOSTALGIA
«Nostalgia...Sim,
nostalgia. Nostalgia de pessoas, de odores, de lugares. Nostalgia de
experiências partilhadas. É o que sinto e gozo. Sim, gozo, pois, não se
trata de chôro ou revivalismo que me impeça de viver o presente e ficar
atolado no passado. Mas, sim...É nostalgia. E divirto-me com o seu
picante adoçicado, delicioso, saboroso, gostosíssimo!...Hum...Que bom!
Que bom que é viver a vida com tudo o que ela tem, sem deixar de fora
nada...Até mesmo a lembrança não pode ser menosprezada.»
[noético-03/10/2013]
[noético-03/10/2013]
A FALHA
«Se
nada houver será que poderá existir tudo? Não consigo
adormecer com este dilema...Queria ainda aspirar a ser feliz...Ainda quero...Mas estou tão
saturado de querer...E queria de facto saber se algum dia o for, se o saberei ? É que todos os dias vou-me encontrando outro pelos caminhos, e
desejando sempre, o que ainda não sou...Sabes?...Quem me dera...Quem me
dera saber viver ainda e só apenas o que sou...Mas prefiro antes pensar que
falhei a minha busca da felicidade a admitir que estou tomado pela vertigem de buscar em vão esse outro ouro que em lugar algum existe. É
que isso seria mesmo cão! Será que estou a aprender a ladrar ?»
[noético- 03/10/2013]
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
AMENA EXISTÊNCIA
![]() |
| Artista: João Beja - Fernando Pessoa |
«Eu
tenho essa vantagem de ser indiferente. Tão indiferente que ligo a toda
a gente. E é isso mesmo que me torna assim. Nunca se é para toda a
gente, embora se seja sempre para alguém, alguma coisa, algo a que
muitos chamam pessoa. E é por isso que os pedaços que sou e que outros
recolhem, são fragmentos, estigmas do fogo da existência, cuja
temperatura lhes garante a ilusão, da amenidade da vida.»
[noético-02/10/2013]
[noético-02/10/2013]
A DOR SEM ANTRO
![]() |
| Egon Schiele - Merveille |
Dor, por favor , não te enamores de mim
Não me desejes , nem me esperes
Que eu não tenho destino marcado
Nas horas que iludo ao ser…
Dor, por favor, não me sigas
Não te esforces tanto
Por me acorrentar ao tempo.
Por me prender a ti.
Que eu, de mim ausente
Te iludo o lugar em que tu não cabes,
Cá dentro… [Só é deserto].
E o espectro de te ver aproximar
Apenas me traz alento.
Mas é terreno incerto
Rochedo em pó
Lamento.
Dor, tu não queiras saber…
Tu não queiras entrar
Pela linha que não se abre
E que sem horizonte morre curvada
Sobre o seu próprio ventre.
Não, dor…Por favor…
Não te concedas vidas para mim!
[noético-02/10/2013]
Não me desejes , nem me esperes
Que eu não tenho destino marcado
Nas horas que iludo ao ser…
Dor, por favor, não me sigas
Não te esforces tanto
Por me acorrentar ao tempo.
Por me prender a ti.
Que eu, de mim ausente
Te iludo o lugar em que tu não cabes,
Cá dentro… [Só é deserto].
E o espectro de te ver aproximar
Apenas me traz alento.
Mas é terreno incerto
Rochedo em pó
Lamento.
Dor, tu não queiras saber…
Tu não queiras entrar
Pela linha que não se abre
E que sem horizonte morre curvada
Sobre o seu próprio ventre.
Não, dor…Por favor…
Não te concedas vidas para mim!
[noético-02/10/2013]
AMASSAR O PÃO
![]() |
| Alex & Marine |
«Há um mito de que o pensamento nos leva a
algum lado. De que uma ideia é uma espécie de autocarro turístico em que
se viaja até terras exóticas desde que se adquira um bilhete de
ingresso. Há um mito. Mas não está só. Há muitos mais mitos.
Há um mito de que ver é o mesmo que ser. Há um mito da necessidade de
se ser. E fora os mitos, só restam mais mitos e pouco mais. Os mitólogos
encarregam-se de os colorir, de lhes conferir textura, forma, figura,
massa, força, movimento, energia, whatever... Whatever, não parece
bonito... Incomóda ser-se estrangeiro na terra das outras palavras. Mas,
tenho dito.»
[noético-02/10/2013]
[noético-02/10/2013]
sábado, 28 de setembro de 2013
CHOVE O QUÊ ?
«Estão
sempre a dizer que aqui chove. Estão sempre a dizer que se a chuva não
parar será pior ainda do que o Dilúvio. No entanto, olho em volta e aqui
nada mais há senão o deserto. Por que pensas que têm a necesssidade de
mentir tanto?...»
[noético-28/09/2013]
[noético-28/09/2013]
O AMOR NÃO É TRANSACIONÁVEL
«Quando
se gosta de alguém isso não significa que tenha que se ser retribuído.
No entanto, esta ideia parece um pouco contra-intuitiva. Aliás, na vida
gosta-se sempre de muita gente e de muita coisa sem que se espere ou
obtenha compensação proporcional. Mas, mal de nós se assim não fosse,
pois nem aprenderíamos a amar fosse o que fosse. Se sempre esperássemos
retribuição e a obtivéssemos à nossa medida seríamos uns seres
estragados para a vida. Muito provavelmente, mesmo não sendo retribuídos
na mesma proporção, seremos ainda seres estragados para a vida. A ideia
de investir no outro é uma ideia comercial. Quem investe no outro não o
ama nem o respeita, apenas arrisca no outro com o intuito de
beneficiar, de lucrar com ele. Mais uma vez ganhar, nestas
circunstâncias, parece natural . Mas, aprende-se muito desaprendendo. É
preciso desfiar este novelo. Quem espera, exige, impõe fasquias,
constrange ou pretende constranger, aguarda pelo troco. Há muitos amores
destes que se compram e vendem em supermercados onde as prateleiras
estão repletas de emoções em promoção. Só por engano ou ignorância é que
o verdadeiro amor é um bem transacionável.»
[noético-28/09/2013]
[noético-28/09/2013]
Music: 8.5 Souvenirs - My Baby
DÓI-ME O TEU EXCESSO DE NADA
«Não
precisas de apagar as tuas marcas, o tempo fará isso por ti. A
simplicidade derrota-te a cada novo entusiasmo, nova prosápia, nova
estátua que ergues. Sabes bem o vão que tudo isso é. Não é contudo o
tempo que te mata. É o desejo que te consome. Compreenderás um dia que
vives e morres pela mesma razão. Fugir de ti, da tua natureza é inútil,
impossível. És livre? Primeiro terás que encontrar a liberdade e só
depois a poderás desfrutar. Possuir pensamentos não significa o mesmo
que ter ideias. A maior parte do tempo, tu não fazes a menor ideia do
que se passa e do que se te passa. Só quereres não chega. Mais do que
querer não há. Pena? Nenhuma. Condoer-me-ei por ti se persistires assim.
Não me dói o que não tens. Doí-me antes o teu excesso. E tu queres e
queres-te demais. És uma discípula da vontade. Acreditas piamente que
partiste e que um dia irás chegar. Nem sabes aonde, mas crês. Crês que
viajas, crês em tudo e mais alguma coisa. De malas e
bagagens imaginas-te a viajar. As ninharias acompanham-te por toda a
parte, fazem parte da tua mochila, da tua casa, da tua psicologia, da
tua ambição. Não enxergas?... Partes tal e qual como és, e tu, não és
assim tão diferente do caracol... As tuas duas pernas não chegam para
enfrentar a existência. Mexer não é o mesmo que esbracejar e isso nem se
compara com o abraçar. Mas, desengana-te. Abraçar não é o mesmo que
estender os braços para segurar alguém. Isso é apenas suplicar. E tu
suplicas muito, muito, muito. Vives a suplicar o céu e o inferno
conforme te debates com esse vazio monstruoso que habita as tuas
entranhas. Esgaravatas, escarafunchas, picas e arranhas. Imaginas que
unhas são garras que te prenderão. Que dedos são pinças que te susterão.
Que um dia a beleza cobrirá como um manto toda a Terra...Sonha,
continua a sonhar...Nunca é demais sonhar mesmo que isso signifique que
muito sangue se verteu em nome do que dele cresceu. Mas, se me permites,
enquanto tu sonhas, eu prefiro evaporar-me.»
[noético-28/09/2013]
[noético-28/09/2013]
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