segunda-feira, 5 de agosto de 2013

ABETARDAS E ANJOS




«É muito natural que existam pessoas que nos queiram conhecer. O que já não me parece tão natural é que a curiosidade que os move se foque apenas em reunir aliados ou em obter ascendente sobre os outros. Parece-me que gostam de exibir as suas barrigas inchadas de currículos manifestando a sua prosápia por detrás de discursos humanitários ostensivamente elaborados. Por vezes tornam-se cansativamente repetitivos parecendo daqueles políticos que estão sempre em campanha ou até aquele tipo de homens religiosos chatos que a propósito do espírito de missão não param de nos bater à porta todos os dias com a sua emérita salvítica mensagem. Digo e repito, estou farto desses chatos. Usam a sua cultura e sabedoria como arsenal de crueldade enquanto pregam mensagens poéticas, proféticas e pacificadoras. Parecem verdadeiras rosas que por detrás das suas belíssimas e delicadas pétalas apenas escondem adagas e espinhos prontos a ser cravados. Conheço bem esses rios lamacentos, essas sendas que parecem pronunciar longos caminhos mas que desembocam sempre em becos. No final, dizem que nos conhecem tal e qual somos. Que pena. Nem sequer imaginam que não somos quem vêem, nem quem deles se projetam. Enfim, a cegueira tem muitos trilhos. São todos eles grandes lutadores, esperneiam muito, talvez até demasiado. Devem passar a vida a agitar-se julgando que desse modo transformam o mundo. Batem tanto as asas essas abetardas e anjos. Fazem um vistão. Milagre. E eu que odeio milagreiros e viciados em poções mágicas. São como idiotas que confundem algazarra com progresso. Crentes cegos da mudança. Até quase disso fazem uma festa a que tantas vezes chamam «luta», mas daquela sangrenta, transpirada, atribulada, sofrida. Sim, muito sofrida, pois sem sofrimento parecem não possuir nenhuma dignidade, perdendo até a possibilidade de passarem a ser conhecidos por ser gente. Pelo menos assim imaginam e vivem, fabricando sonhos que adorariam impingir e impor a toda a gente. Aliás nem sabem fazer outro chinfrim. Adoram arruadas mais do que arruamentos os tais por onde desfilam frequentemente. A cultura serve-lhes para usarem louros na cabeça e talharem a razão à régua ao esquadro e ao compasso, como se nada mais houvesse. Ou perdidos ou achados. Ou vencedores ou frustrados. Ou sim ou sopas. Quando é que estes arautos da transformação se transformarão eles próprios nos seus próprios latidos? Juro que me cansam e aborrecem por que são exaustivos, repetitivos e loucos. Pensam que resistir é tudo, que debater-se é tudo, que mexer-se é tudo. Infelizes discípulos da religião da velocidade. Pobres coitados, irão permanecer o resto da sua vida acelerados e aprisionados ao movimento como se nele tivessem encontrado algum Deus. E no fim nem sequer nos conhecerão ou amarão como somos, mas sim como eles próprios não são, nem nunca serão. E essa é que é a pedra de toque de todo este desmoronar, ao contrário do que muitos dizem, pleníssimo de sentido, pois tudo por eles foi edificado para ruir. Precisam mesmo do pó das estrelas para poderem brincar ao que são.»
[noético-05/08/2013]

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Amar vs Amar



«As crianças amam sem cuidado. Sem pudor, sem reservas, sem terror. Elas amam alegremente, sem esperar, sem ilusões, sem barreiras. Elas, não amam por qualquer razão. Amam, apenas, por que lhes vai no coração.
O amor adulto, pelo contrário, é uma profanação. Baseia-se no cálculo, na predição, na estratégia, no que aparenta ser seguro. Parece quase uma paralisia do coração fabricada por uma qualquer metodologia científica. O amor pretensamente adulto é tudo menos inocência. Devassa segredos porque aspira ao transparente. Produz engodos e encantamentos como estratégia. Toma precauções para o futuro e higiénico resguarda-se usando fralda ou babete para não se sujar. Gosta de corresponder a perfis. Diz-se com personalidade. Tem a mania. O amor adulto é vil e mal-educado. Aborrecido, previsível, insalubre e mastigado até à exaustão. Tem a mania que faz as malas e vai de férias com o ferro de engomar corações e a prancha de pisar sentimentos. Usa uma espécie de gel para alisar diálogos e de simplex para não dar preocupações. Todo ele é forjado entre a beatice de uma sacristia e as cobranças de uma repartição de finanças. O amor adulto é uma fina flôr para burgessos. Embrulha-se em romantismos, empacota-se em conceitos e é servido em cardápios à mesa de cadáveres adiados. Prescindindo dos afectos, torna-se afectado. Acha-se filantrópico, anda sempre sério e preocupado e até faz voluntariado. Adora fechaduras, dobradiças, correntes e cadeados. Faz de conta que é maroto, atrevido e engraçado. Adocica-se a si próprio como se fosse um rebuçado. Gosta de ser proprietário do outro. Adora poder, até mais do que copular, para não dizer a palavra que começa por f. No fundo, corresponde à profanação do sentido do próprio sentimento e, a uma forma de devassa da vida do outro, que não é o próximo, mas sim, o mais longínquo.»
[noético - 11/07/2013]


Amar é simples.



«Amar é simples, muito simples, mas nós preferimos quase sempre complicar. É quase como se pretendêssemos embelezar o que por si já é belo. E, como complicamos, muitas vezes acabamos por perder de vista o essencial, que é a felicidade que só amar proporciona. Quando amamos outro ser que consideramos poder vir a ser nosso par, questionamo-nos também, quase sempre, se somos correspondidos nesse amor? Escutando os nossos desejos, emoções e sentimentos agimos no entanto permeáveis a toda a interferência a esse amor que vivemos na primeira pessoa. Seria fácil seguir cânones nestas matérias, mas o amor não escolhe pessoas, tempos, lugares. No entanto, os cânones revelam-se fruto de experiências anteriores partilhadas, e deles emerge com solidez, o saber dos tempos. Por vezes o que se vive e sente não condiz com esses cânones pura e simplesmente. É nesses momentos que a razão claudica indecisa quanto a matérias sobre as quais não se encontra habilitada a pronunciar-se. E como resultado sentimo-nos perdidos e desorientados sujeitos a forças poderosas alheias à nossa vontade e que não controlamos de todo. Tentar ver na nossa decisão/reação a esse dilema causado por forças opostas e cegas (a cegueira da razão que não consegue penetrar em domínios para os quais não está habilitada e a cegueira da paixão/desejo que exige o objeto amado contra todas as adversidades) a resposta verdadeira é pura leviandade e denota uma profunda crueldade fruto de incompreensão para com quem sente. Nesses momentos aconselha-se o uso na relação dialogante da honestidade, a definição clara dos seus termos, etc. Porém, todos sabemos que por mais definições ou contratos que possamos estabelecer, as palavras escritas ou pronunciadas quase nunca acompanham o normal desenrolar da vida e acabam por se tornar anacronismos com facilidade. Diz o ditado popular «palavras leva-as o vento» e assim parece verdade. Mas, apagar ou apaziguar sentimentos e emoções é coisa que não se faz por mera dedução ou qualquer noção de verdade lógica. Não basta, dizer basta, quando se trata de assuntos amorosos. Também parece não chegar o agir com precaução, aliás tal comportamento até pode ser entendido como um retraimento quando na realidade se suporia que a pessoa investisse mais. A outra opção a seguir parece ser a mais fácil e consiste em nada refrear e deixar que tudo aconteça como sucederia sem a nossa intervenção. Mas, também esta opção é falaciosa. Na realidade, quando deixamos as coisas correrem estamos na mesma a interferir, tendo decidido precisamente que não interferiríamos, ou seja, não interferir é uma forma de intervir e por isso mesmo de interferir. Não existe qualquer neutralidade quando estamos diretamente envolvidos em algo que nos diz respeito. Ausência de ego? Também não parece solução. Parece natural amar de forma gratuita e incondicional quem realmente se ama, mas tal não é natural, nem corresponde à verdade. Mesmo o amor de uma mãe por seu filho recém-nascido não é incondicional pois, ainda assim, ela retira algum prazer da relação que se estabelece. No fundo, todos também gostamos de ser amados pelos outros e medimos tudo isso de formas subtis, umas vezes com maior rapidez outras vezes de formas mais lentas, mas todos sabemos ler esses sinais. O que se salva então de tudo isto? Tudo e nada. O mais certo e natural é que por mais experiências de amor que se tenham vivido se volte na mesma a gozar e sofrer como se de cada vez se regressasse a um estádio de infância e em que apenas existe como verdade a possibilidade de voltar a aprender. Sim…De tudo, o melhor que todo o amor nos pode dar é o renascer da possibilidade de aprender com o outro e de partilhando com ele crescer de novo.»
[noético-02/07/2013]

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Não existe perfeição

Não existe perfeição e quem fala nela induz em erro os outros. Pensemos...Existindo diferentes objectos no mundo a perfeição certamente se aplicaria a cada caso diferentemente. Não seria igual para todos os exemplares. Mas, em certo sentido, poder-se-ia dizer que o conceito objectivo-universal de perfeição se aplica a todos os exemplares. Aprofundemos...Até este nosso ponto do nosso raciocínio, a perfeição, entendida deste modo não inclui a igualdade mas apenas a diferença, pelo que, parece não ser perfeita, na medida em que inclui certos atributos e exclui outros. Subentendemos, como ficará explícito de seguida, que, a perfeição tem que ser algo completo. Mas, imaginemos como será a perfeição de um dia em termos de Física. Existirá perfeição para tal ? Penso que não. E esforcemo-nos por imaginar como será a perfeição no amor ? Será que existe perfeição em qualquer espécie de amor, admitindo que existem espécies no amor ? Penso igualmente que não. Assim, poderei concluir que, mais uma vez, a perfeição exclui certas qualidades e atributos, pelo que, não é completa. Ou seja, não existe essa tão desejada perfeição, como muitos querem fazer crer. Não existindo perfeição ficamos porém com uma mão-cheia de dúvidas quanto a muitas outras coisas o que muito pode intimidar e sobressaltar quem apenas procura o mais fácil e se deixa conduzir apenas pela imitação, pelo hábito e pela crença não esclarecida.
[noético-01/07/2013]

segunda-feira, 30 de julho de 2012

IMITADORES - Giovanni Papini



           Rapsódia

«Os homens não descendem dos macacos, mas desenvolvem todos os esforços para o fazer crer...Toda a vida é um mosaico de plágios. (...) A maioria imita por preguiça, para se poupar o trabalho de procurar de inventar, ou por prudência, que aconselha os caminhos percorridos e as experiências coroadas de êxito...Se viver é distinguir-se, o orgulhoso deveria providenciar para não se parecer com ninguém. Mas, a inveja, sob a sonante designação da emulação, trai-os:...o génio, conquanto não possa deixar, por vezes, de imitar como todos, tem esse nome enquanto extrai da substância nativa o que pretende: é aquele que tem coragem de rejeitar os mestres, proceder ao contrário do que a maioria diz e  faz, de matar em si a natureza ovina e traçar-se, em novas regiões, caminhos que ninguém percorreu antes dele. (...) Neste renegar de si e querer ser cópia de outrem reside porventura o sentido  de uma vergonha obscura...[A] imitação... pressupõe sempre a superioridade do modelo...O mal reside em que todos, até os maiores, dão mais exemplos tristes que óptimos, e os próprios imitadores, sendo também homens e dos menos vigorosos, estão mais sujeitos a imitar o mal que o bem.(...) Afirmar o contrário de outra pessoa equivale a segui-la - quanto mais não seja, na radicalidade do estilo.(...) Quando dois homens conversam, o mais fraco é sempre levado a imitar o outro, mesmo no tom de voz e nas atitudes, acabando por exprimir pensamentos opostos aos seus ou aos que manifestaria se falasse com outro. Qualquer de nós, se não é forte e vigilante, tem tantas maneiras de ser e de falar quantas as pessoas com as quais se encontra. A personalidade absoluta é tão rara, que se costuma desprezar como loucura ou venerar como génio. E a mania de imitar não se verifica apenas nos indivíduos singulares - na realidade, domina ainda mais facilmente os homens reunidos. A adição de muitas inteligências produz, na maioria dos casos, uma babuinada. Toda a casta experimenta prazer em macaquear os costumes da outra (...) A vaidade dos povos não os salva de se copiarem mutuamente - basta que uma nação seja, ou pareça, mais rica e preponderante, para que todas as outras adoptem as suas modas, o seu sistema de vida e até a sua língua e hábitos mais ridículos e repugnantes. Houve uma época em que todo o Ocidente se coloria à grega, no Renascimento à italiana e mais tarde à francesa e à inglesa. Hoje, somos todos imitadores da América.(...) [A] vida tornou-se cada vez mais uma imensa litania de repetição...Somos uma raça de copiadores - de nós mesmos, dos vivos e dos mortos. A pobreza de imaginação e o medo do novo tornam-nos praticantes do já visto e já feito. Se a moda ajuda - e impera em tudo - , vemos de súbito uma multidão trajada toda com o mesmo tecido cosido da mesma maneira, que se precipita atrás dos mesmos ídolos ou prazeres e grita em coro as mesmas palavras. Para ser em tudo e para tudo como os outros, recorre-se à violência, contra o nosso próprio ser, diz-se aquilo que não se pensa, finge-se sentir o que não se sente, pratica-se o mal ainda que a sua própria natureza se repugne ou haja risco de vida. Tudo se copia: da maneira de pensar à de andar; o estilo do amor como o do penteado. Quem não papagueia as imbecilidades correntes é inimigo da pátria ou, pelo menos, excêntrico ou bárbaro...Julgamos falar com duas pessoas diferentes e reparamos de repente que nos dirigimos à mesma alma, se é permitido o termo, dividida por dois corpos quase iguais.(...) São muito raros aqueles que morrem tendo possuído verdadeiramente a sua alma.(...) [Q]uase ninguém se atreve a ser o que é e todos querem ser outros...[U]m desenho tosco efectuado numa parede vale sempre mais do que uma cópia da Sibila de Miguel Ângelo.(...) Mas o homem não pode deixar de copiar e não faz senão copiar: é um fabricante de duplicados. Porque quer ter uma réplica do mundo, reduzida às proporções humanas e aos seus gostos. (...) Toda a arte é, pelo menos para metade, cópia: cada um que desenha ou pinta imita alguma parte do mundo...As casas são cópias aperfeiçoadas das grutas; as colunas cópias lisonjeiras das árvores; a própria música inspira-se nos sons da Natureza e nos rumores da vida.(...) Metade da magia provém da imitação, e a ciência, para explorar as forças naturais, tem de imitar a Natureza: criar lagos e cascatas para aproveitar a energia existente na água; escavar canais que são cópias de rios; reproduzir as asas das aves para as suas máquinas voadoras. Se o Demónio é simia Dei, nós somos Simiae mundi.»

Uma imagem vale mais que 1000 palavras

O título não é original mas sobre originalidade remeto para o texto «Imitadores» in Relatório sobre os Homens de Giovanni Papini, pp. 98-102.

A cidade eterna
Observo esta imagem. Quantas ordens existem nela que sejam possíveis de encontrar ? Não temos mente para tanto detalhe mas pelo menos podemos ter a grande alegria de ter uma. A polissemia da imagem é o que leva os lógicos e os espíritos mais abstractos a preferirem não trabalhar com este elemento tão maleável e viscoso. Na realidade, hoje aprendi mais uma coisa: as imagens mascaram mais do que revelam. Deve ser também por isso que pressinto em quem usa e abusa delas uma forma de resposta catártica a sentimentos de vivência opressiva. De facto, as imagens podem ser tão avassaladoras (overwhelming), que nem é preciso ultrapassar a unidade para o compreender e sentir. Também é óbvio que as infinitas formas e a velocidade com que são produzidas, ou criadas, ou simplesmente divulgadas, não deixam tempo para meditar nelas. Os tempos actuais, não são para isso. Meditar é algo primevo, esquisito,  abstruso, bárbaro, anormal, louco. Meditar para quê ? Poderia responder-se facilmente: para começar a aprender a ver.  Para descobrir-lhes as inúmeras ordens significativas que elas possuem. Para compreender melhor como se pode ser manipulado por elas - tanto influenciado a pensar como a sentir - et coetera. Mas é óbvio que isso não interessa. Nunca interessará. Aposta-se no comércio, nos mercados, no produzir para vender e comprar para consumir. Por isso, quanto mais alucinantes e psicadélicas se tornarem as montras e mostruários, os catálogos e os portefólios, tudo repleto de cores, formas, luzinhas de néon cintilantes como estrelas do firmamento vizinhas, menos se pensa e mais se reage irracionalmente aos estímulos, chegando por vezes a parecer que se vive apenas das colheitas (harvest)  - sem sequer se semear - numa alegria orgíaca de permanente festividade. Existem por isso, para os homens,  muito mais do que os desertos para lhes provocar miragens.
Aceitem o repto e leiam o texto de Papini.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Em diálogo com o mundo

Passavam alguns minutos das três horas da manhã. Um grupo de pessoas, de que não interessa designar as idades, percorria as ruas da vila onde habito, gritando como se uivasse à Lua. Perguntou-me a minha companheira, em que estás a pensar ? Respondi-lhe que em muitas coisas. Revela-me, solicitou. Estava a pensar em manter o silêncio. Porquê, insistiu ela, para que lhe explicasse. Deus já os ouviu, parece-me uma censura minha. Seria diferente se pensasse que Deus os escuta sempre, pois essa é a verdade de que provavelmente andam arredados, por esquecimento. Mas, também, isto que penso é desnecessário. Estas manifestações ruidosas, dispensam os meus comentários. E no entanto, não deixamos de reagir e de pensar sobre tudo o que nos rodeia. O mais absurdo é, no entanto, ter tido estes pensamentos, sendo ateu, como tu sabes. Sim, compreendo. Também a mim me ocorreram pensamentos, mas não de censura. Pensava na alegria que os move. Tens a certeza de que era alegria ? Não. Não posso ter. Mas prefiro sempre olhar positivamente para as coisas. Talvez, a tua atitude seja mais razoável do que a minha, ao pensares desse modo. No entanto, nem sempre somos nós que escolhemos os nossos pensamentos. Sim, entendo-te. Poderias mudar de atitude se quisesses. Também quanto a isso, sou céptico. Não creio poder ver-me livre tão facilmente de atitudes mentais que fui construindo ao longo de tantos anos. Força do hábito, necessidade, objectivos, quiçá ?... Não é fácil alterar disposições com raízes tão longínquas e profundas. Sim, mas nunca é tarde para recomeçar e as mudanças, não surgem de um dia para o outro. Dizes bem, dizes bem. teria que ter tido outra vida ou passar a ter outra, mas não me parece que venha a ter tempo para tal. Concentro-me nas disposições de que sou portador e tento apenas limar-lhes as arestas, ou, se preferires, puxar-lhes de vez em quando as orelhas. Findas estas palavras, a minha companheira sorriu-se e permanecemos os dois juntos, abraçados em silêncio a admirar com perplexidade as estrelas que cintilavam sobre as nossas vidas.

Pontos de Vista

- Poeta é aquele que a alma quer e não aquele que quer ter alma.
- Estamos mais próximos da História do que ela está para nós.
- Tudo passa, até o murmúrio invisível das entranhas se nos escapa, enquanto música.
- As nossas palavras são o fio invisível que nos une, separa e confunde.
- Se apenas nos víssemos, sentíssemos e não falássemos, ainda
assim, seríamos comunicáveis.

domingo, 13 de maio de 2012

Informados ?

«Estar-se informado» é uma das expressões mais repetidas nos dias de hoje, mas é simultaneamente uma das afirmações mais vagas e vazias que o uso social e cultural da linguagem têm produzido. Em primeiro lugar poderíamos começar por questionar em que consiste «a informação» ? Em segundo lugar colocaríamos a questão de saber em que consiste «estar-se informado» ?
Desde já, apresento aqui a minha tese sobre esta matéria, que é a seguinte: «ninguém está de facto informado». O uso e o raciocínio que levam a este tipo de asserções do estilo «estou informado», «estar-se informado» são quase sempre vagas e falaciosas.
O condutor que memorizou o código da estrada e passou no exame parece estar informado sobre as leis que regem a sua conduta enquanto circula com o seu veículo ou a pé pelas vias apropriadas. Será ? Memorizar é possuir informação ? Sinceramente, questiono. Não basta a memória, é preciso algo mais, compreender o significado do que nos é transmitido e saber aplicá-lo a certos usos, como neste caso específico. Memória sem significado é algo completamente despropositado.
Podemos ter acesso a todo o tipo de informação disponível. Tal situação não nos torna sequer nem mais nem menos informados. O acesso não define o que constitui informação. estar de posse de dados ou seja de fragmentos ou elementos básicos comunicacionais não constitui sequer informação. A posse também não define «informação». Até aqui, todo este discurso parece óbvio, trivial e maçador. Todos diríamos que tudo isto é claro e distinto. Lamentavelmente, a urgência de concluir, como se de um silogismo se tratasse, trai-nos muitas vezes, precipita-nos...
Se alguém está informado, está informado sobre o quê ? Mesmo aquele que domina  muitos significados não se encontra de posse de todas as possibilidades que a eles dizem respeito (os significados). É sempre um portador da sua própria interpretação, um veículo das suas limitações. Aliás, quando significa intencionalmente ou reinsere significados na sua estrutura de sentido, já está a elaborar (tratar informação) de acordo com a sua autobiografia que não se reduz ao seu subjectivismo, mas que nele se prolonga e encontra ressonância. Por outro lado,  os significados emergem muitas vezes de novas circunstâncias contextuais, não se encontrando disponíveis por isso no imediato, ao alcance de qualquer vontade do sujeito. Mesmo quando tratamos qualquer informação já estamos a utilizar o nosso próprio contexto que se insere num contexto mais amplo de significações. O objectivismo é igualmente um subjectivismo histórico e autobiográfico. Seguem-se, normas, quadros, modelos, regras valores e o sentido da própria pesquisa ou tenta-se reintegrar as descobertas, os acasos, as circunstâncias, os acidentes nesse contexto que alguns dizem que constituem «o entendimento» - juízo, história, sentido. Se a interpretação não é unânime o que significará «estar-se informado», «esclarecido» ? Fala-se de conhecimento, mas essa é outra vertente que não iremos aqui aprofundar. Possuir informação parece ser um estado em que possuindo dados subjectivo/objectivos, o sujeito lhes confere um sentido próprio ou próprio tendente ao universal a que aspira, inserindo-os num quadro que define esses domínios.
Deste modo se compreendem sempre as limitações subjacentes ao que significa «estar-se informado». Ou se está informado de modo particular - e o particular também não se configura como totalidade perfeitamente diferenciada do universal - ou se tende para algo que tende para a objectividade universal - também ela fruto de certas formas de expressão cultural entendidas como «visões do mundo» colectivas. O estabelecido, não é necessariamente toda a informação nem sequer a posse de todos os dados. O carácter infinito da «informação» não depende apenas dos «dados» as unidades básicas num sistema informacional, mas também das leituras e interpretações literais, criativas e derivantes ao nível individual e colectivo, que os estabelecem e relacionam acrescentando novos sentidos ou reafirmando os prévios, como tautologias históricas.
(texto a continuar...)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Balada dos Peixes


Peixe livre pode ir à rede mas sempre escapa.
O apanhado, debate-se, mas tem os dias calculados.
Todo o outro peixe é confecionado ou congelado.
Ou então, simplesmente abandonado e apodrece.
De todos os homens imaginemos alguns pescadores,
Lançando redes ao Mar. E de outros, apenas peixes,
Nadando sem se apoquentar.
Podíamos considerá-los a todos peixes,
Devorando-se vivos uns aos outros…
Mas, para construir uma rede,
Não bastaria possuir apenas escamas ou barbatanas…
Tal como para construir um barco, não bastaria apenas
Ter boa madeira e muita força de braço.
Será por isso que homem é homem
E peixe é peixe ?
A vida tece-se por si,  enredando-nos nas suas próprias malhas.
E nós aprendemos a fiar e a tecer imitando-a
Nos seus motivos e entrelaçados
Como se fossemos aprendizes de pescadores.

[noético- 03/01/2012]

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Emparedados



1/4 para as  7. Esqueci-me de tirar os agrafes do forno. O cheiro a clips esturricados invadiu-me as narinas...Um ano novo começa...Onde está a novidade ? Dava tudo para que não me vissem nem me falassem mas para permanecer no meio dessa massa anónima de cujo cheiro quimérico a transpiração sinto os passos... Eu sou o maior filho da mãe que há por estas bandas. Seria ridículo até nisso julgar-me herói. Há sempre um caso mais desesperado e mais estranho que o meu. O que somos ? O que pretendemos ser ? Aonde queremos chegar ? Uma coisa parece certa, somos pouco amigos do animal que sentimos em nós. Somos...Uma súmula indiferenciada de identidades, uma rábula de quimeras, um efervescer simbólico com pretensões à eternidade. Chegar à vida não é simples, é-nos dado, por quem nos procriou. Chegar à morte não é simples, para ela somos guiados, como robôs naturais. O sonho é ser deus, a fraude é o sonho intangível, o facto o resto visível de toda esta loucura, normalíssima e sereníssima, que nada tem de estranheza ao fim de uns breves anos da nossa permanência. Bebamos o elixir das almas belas, o vinho daqueles que não se refinam nas sarjetas. Não basta ser, é preciso Ser, Grande, Virtuoso, Belo, Sucedido ou, uma outra coisa qualquer que brilhe e que afugente a poeira que cobre finalmente o bronze dos anos. Quebrar um silêncio é apenas uma outra subtil forma de emparedar as palavras. Um filtro de fixação de CO2 que se evade pela nossa boca, como um peixe debatendo-se retirado de um anzol. Tudo o que vejo, relembro, rememoro como vivência, faz-me sentir o maior filho da desgraça à face do Planeta. Foi assim que eu fui ? Quem me ensinou a ser assim ? Porque me tornei neste ser assim e não numa maçã pendurada numa macieira ? Responderia...Fui andando com os amigos. Fui sendo por aposta em sortes. Não tinha nervo para toda aquela paródia da disciplina macaca, a mesma que,  transforma estátuas em corolários de bênçãos pré-alinhavadas.  Desgraça...Não nasci para a costura...Mas, nasce-se para alguma coisa, como se o futuro já tivesse traçado ? Será que o Destino consegue invadir os terrenos da História, como um rio que corre sobre a terra ? Seremos mero aluvião do tempo ? Bolhas!...Façamos bolhas... Guardemos a "interrogação" como a única chave do nosso mundo. As bolhas ?...Produto que a si se produz ? Quiçá?
[noético - 16/12/2011]