«A frase que mais me impressionou
em toda a minha vida – quero morrer – escutei-a sempre da boca de pessoas que
me eram muito queridas. Todas elas, no momento em que o proferiram sofriam
intensamente. Aflige-nos, quase sempre, o sofrimento dos outros. Estas situações,
confrontam-nos com uma espécie de moral ou de cultura ‘terrorista’ que pretende
dividir tudo e todos, em ‘corajosos’ ou ‘covardes’, ‘lutadores’ ou ‘vencidos’. Diz-se que o suicídio é pecado, porque é um atentado contra a vida. Querer morrer é quase
como desejar o pecado ou o mal, segundo diversas confissões religiosas e tradições filosóficas. Parece, até, que estas doutrinas do caminho único apenas aceitam que só
se pode desejar lutar pela vida, evitar o sofrimento e nunca desejar morrer.
Creio que este tipo de raciocínio moral é uma afronta à dignidade dos que
sofrem e dos que desejam morrer. Por que não há-de alguém poder sofrer ou desejar morrer
? Será uma desistência ou a percepção de um caminho, que se escolhido, não
perde, antes, ganha dignidade, por ser livremente escolhido? Que direito existe de condenar quem vive o sofrimento ou decide sobre uma vida que só é vivida
por si ? Ser, lutador contra uma doença grave, pode ajudar muito, mas, e quando
se perde a batalha ? Será que o que não batalhou, terá menor dignidade ? Não
será, como inicialmente teci, quase ‘terrorista’ abordar quem sofre com esta
tremenda moral condenatória ? Não chegará a ser infame condenar quem ‘quer
morrer’ ? Será que existe alguma ‘salvação’ ou, igualmente, alguma ‘perdição’?
Salvar a vida a todo o custo por que
razão ? Por que está inscrito no nosso instinto ? Por que a moral vigente e a
religião não o permitem ? Será que, os que condenam quem não o segue, apenas
esperam que, também, os confortem com um exemplo de ‘coragem’ ? Mas, afinal
quem é mais corajoso, o que decide morrer ou deixar-se sofrer ou aqueles que
definham ao assistir ao sofrimento dos outros ? Será coragem ou egoísmo covarde
?» [noético-14/03/2014]

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