sexta-feira, 14 de março de 2014

UMA ESPÉCIE DE TERRORISMO MORAL



«A frase que mais me impressionou em toda a minha vida – quero morrer – escutei-a sempre da boca de pessoas que me eram muito queridas. Todas elas, no momento em que o proferiram sofriam intensamente. Aflige-nos, quase sempre, o sofrimento dos outros. Estas situações, confrontam-nos com uma espécie de moral ou de cultura ‘terrorista’ que pretende dividir tudo e todos, em ‘corajosos’ ou ‘covardes’, ‘lutadores’ ou ‘vencidos’. Diz-se que o suicídio é pecado, porque é um atentado contra a vida. Querer morrer é quase como desejar o pecado ou o mal, segundo diversas confissões religiosas e tradições filosóficas. Parece, até, que estas doutrinas do caminho único apenas aceitam que só se pode desejar lutar pela vida, evitar o sofrimento e nunca desejar morrer. Creio que este tipo de raciocínio moral é uma afronta à dignidade dos que sofrem e dos que desejam morrer. Por que não há-de alguém poder sofrer ou desejar morrer ? Será uma desistência ou a percepção de um caminho, que se escolhido, não perde, antes, ganha dignidade, por ser livremente escolhido? Que direito existe de condenar quem vive o sofrimento ou decide sobre uma vida que só é vivida por si ? Ser, lutador contra uma doença grave, pode ajudar muito, mas, e quando se perde a batalha ? Será que o que não batalhou, terá menor dignidade ? Não será, como inicialmente teci, quase ‘terrorista’ abordar quem sofre com esta tremenda moral condenatória ? Não chegará a ser infame condenar quem ‘quer morrer’ ? Será que existe alguma ‘salvação’ ou, igualmente, alguma ‘perdição’? Salvar a vida  a todo o custo por que razão ? Por que está inscrito no nosso instinto ? Por que a moral vigente e a religião não o permitem ? Será que, os que condenam quem não o segue, apenas esperam que, também, os confortem com um exemplo de ‘coragem’ ? Mas, afinal quem é mais corajoso, o que decide morrer ou deixar-se sofrer ou aqueles que definham ao assistir ao sofrimento dos outros ? Será coragem ou egoísmo covarde ?» [noético-14/03/2014]

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